Adrianna Setemy*

Em uma roda, mulheres seminuas sentadas entre homens cabeludos e barbados, aparentemente transtornados pelo uso de entorpecentes, compõem a imagem que ilustra um editorial da revista Manchete de março de 1970, onde se lê o seguinte:

“Quando os historiadores do futuro debruçarem-se sobre os anos de 1950 a 1970 certamente concluirão que uma das tendências predominantes nesse período foi a promoção e o culto do erotismo, numa escalada que se acentuou, dramaticamente, a partir do final da década de 60. O cinema tem sido um dos meios mais ousados e mais vanguardeiros nessa escalada (…), mas nenhuma arte e nenhum meio de comunicação de massa escapam à tendência geral”.[1]

Entretanto, ao explorar a historiografia produzida acerca da década de 1960 no Brasil, evidencia-se a dificuldade de se pensar os períodos de ditadura para além das análises centradas em aspectos políticos e culturais, como por exemplo, movimentos estudantis, passeatas, comícios e vanguardas artísticas, deixando em segundo plano a análise das transformações operadas na esfera comportamental, bem como seus impactos (HOLLANDA, 1992, p. 62). O objetivo deste artigo é refletir a respeito do papel que as revistas de grande circulação, publicadas pelo mercado editorial brasileiro, desempenharam na construção cultural dos anos 1960, marco de revoluções comportamentais e da rebeldia que mobilizou uma geração contra formas de poder instituídos.

  1. Contracultura, cultura de massa e a indústria editorial no Brasil

Na segunda metade do século XX, alguns papeis sociais tradicionalmente determinados passaram a ser questionados no sentido de um maior abrandamento dos formalismos vigentes na organização da vida pública e privada. Guardadas as diferenças de ritmo e intensidade com que este processo atingiu os diversos setores da sociedade em diferentes partes do mundo ocidental, pode-se dizer que se caminhava rumo a uma sociedade mais “descontraída” (PROST et VINCENT, 1992, p. 136).

A partir dos anos 1960, comportamentos até então considerados ousados ou mesmo proibidos, passaram a ser amplamente discutidos, tais como a igualdade entre os sexos, a liberação feminina, a homossexualidade, a virgindade, o uso de pílula anticoncepcional, a exploração do corpo e da mente através das drogas e da psicanálise, o aborto, a religiosidade, o divórcio e a loucura. A este respeito, o historiador Eric Hobsbawm fez a seguinte afirmação em sua “breve história” do século XX, “essas tendências, claro, não afetaram igualmente todas as partes do mundo. (…). O que era e é muito mais interessante é que, grandes ou pequenas, as mesmas transformações puderam ser identificadas por todo o globo ‘modernizante’”. (HOBSBAWM, 2000, p. 317)

No caso do Brasil, mesmo estando sob a ditadura militar instaurada a partir do golpe de abril de 1964, com traços marcadamente conservadores, experimentaram-se as novas tendências vindas do exterior, sobretudo das capitais da contracultura (Londres, Nova Iorque) destacando-se os novos padrões de comportamento da juventude, o clima de relaxamento sexual, a experimentação sensorial do corpo, a “revolta lírica” dos hippies, o cinema de Godard, a música dos Beatles, as canções de Bob Dylan e James Joplin e a crise na relação entre os gêneros e as gerações (HOLLANDA, 1992, p. 61-90). Falar, cantar, ousar na maneira de se vestir e de se comportar tornaram-se armas no combate à ordem estabelecida ao mesmo tempo em que viraram moda entre diferentes setores da sociedade, especialmente entre os jovens que, ao aderirem àquelas “bossas”, não estavam necessariamente interessados em contestar a ordem social ou política vigente, mas simplesmente em estar in com as tendências e o espírito do seu tempo.

Foi neste cenário mais amplo que por volta de 1967 eclodiu no Brasil o movimento Tropicalista como expressão de um processo de transição cultural que estava em marcha desde o início da década de 1960, e que tinha como uma de suas propostas a ruptura com os padrões tradicionais de comportamento e de organização da sociedade (Napolitano et Villaça, 1998). Emergindo como uma nova linguagem crítica, catalisadora das inquietações e impasses resultantes da derrota do projeto revolucionário das forças progressistas pelo golpe de 1964, o Tropicalismo veio sugerir uma maior preocupação com o “aqui e o agora” em detrimento das promessas de um futuro redentor, e estimular o rompimento com a severidade e a inflexibilidade da ordem vigente, através de uma produção cultural mais criativa, da subversão do corpo, da fusão de elementos da cultura de massa estadunidense com a cultura popular brasileira, de novas formas de organização social,e da transgressão dos valores e do comportamento pré-estabelecidos (HOLLANDA, 1992, p. 62).

No período pré-64, a produção artística e intelectual de protesto era largamente controlada pela esquerda e marcada pela utilização de uma linguagem que visava atingir as massas através de um tom didático e conscientizador, cabendo ao artista e ao intelectual o papel de informar o povo e, assim, forjar a revolução. O Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE) foi um dos principais expoentes deste movimento que, durante a década de 1960, buscou desenvolver um teatro social e politicamente engajado através do qual pretendia conscientizar as camadas populares. Oduvaldo Vianna Filho, que integrou o Teatro Arena em São Paulo, deixou o grupo em 1961 e fundou, no mesmo ano, o CPC no Rio de Janeiro. O movimento conduzido por Vianna Filho, juntamente com outros intelectuais, artistas e estudantes, visava o fortalecimento da identidade nacional do povo e a transformação social através da arte. Norteados pela valorização da cultura popular, o engajamento era direcionado para a conscientização e mobilização do povo através da arte. Com o golpe militar de 1964, a repressão aos opositores do novo regime acarretou o fechamento do CPC, a prisão e o exílio de artistas e intelectuais. Nesse cenário foi concebida, ainda no final do ano de 1964, a ideia do musical Opinião, escrito por Oduvaldo Vianna Filho, Armando Costa e Paulo Pontes. Considerado um marco na dramaturgia nacional, o Grupo Opinião foi formado após o golpe militar de 1964 com o intuito de criar um foco de resistência artística à situação política e cultural do país, através de um modelo inovador em que cantores intercalavam canções com falas, contando histórias e opinando sobre questões sociais e políticas, ainda que de maneira velada. O formato do espetáculo, encenado em uma arena sem cenários, com apenas um tablado que servia de palco a três cantores-atores, criava um clima de aproximação entre artistas e plateia, sugerindo um espaço de debate público. O espetáculo alcançou sucesso de público em todas as sessões, especialmente entre estudantes, que vivenciavam o show como uma forma de protesto. A formação do Grupo Opinião logo após o golpe militar é representativo do principal efeito que se abateu sobre a dinâmica da produção cultural pós-64. Em um primeiro instante, o governo militar não impediu a circulação dessas produções intelectuais e artísticas de esquerda, que, paradoxalmente, se tornavam hegemônicas no mercado cultural daquele momento (GONÇALVES et HOLLANDA, 1999, p. 20-21), mas buscou limitar e condicionar o seu conteúdo, ou mesmo incorporá-las ao processo de desenvolvimento da indústria cultural. Portanto, assim como se deu com as formas de ação política, as atividades culturais e intelectuais revolucionárias também precisaram ser reformuladas, no intuito de definir novas táticas de atuação, que não o discurso nacionalista e populista característico do período anterior e perseguido pelo poder instituído (HOLLANDA, 1992, p. 29).

Foi assim que a cultura engajada, para sobreviver ao novo quadro conjuntural marcado pela emergência e consolidação de uma ditadura que visava controlar as diversas esferas da vida social, ao invés de mobilizar grupos populares, passou a fazer contato com setores da classe média, através da crescente participação no mercado cultural organizado para o consumo, especialmente de estudantes e intelectuais, que, ao aderirem a essa linguagem militante e entusiasmada, passaram a compor um foco de resistência à implantação dos padrões conservadores adotados pelos setores vitoriosos em 1964.

Enquanto movimento de renovação da cultura popular, o Tropicalismo, propunha uma revisão do nacionalismo e da idealização populista da “pureza popular”, características do projeto revolucionário pré-64, em favor de uma cultura brasileira “moderna”, capaz de absorver e elaborar criticamente influências culturais de origem internacional, como por exemplo os elementos da contracultura (GONÇALVES et HOLLANDA, 1999, p. 52). Embora a porta de entrada do Tropicalismo tenha sido a música popular brasileira, o movimento estendeu suas possibilidades criativas aos diversos campos da produção artística, incluindo o cinema, o teatro e a fotografia, além de novos processos estéticos, como as performances, os happenings, as ambientações e as instalações.

Ao longo da década de 1960, na medida em que se intensificava a influência da contracultura no Brasil, os elementos de crítica sugeridos pelo Tropicalismo se aprofundaram e se estenderam de forma a abranger diferentes setores sociais, especialmente através da indústria cultural, que tinha como principais veículos de difusão a televisão, o cinema, o rádio e as revistas periódicas (HOLLANDA, 1992, p. 62-63).

Até os anos 1950 a indústria cultural brasileira era incipiente e restrita a um número reduzido de pessoas. A partir dos anos 1960, contudo, passou a ser cada vez mais diversificada e a atender a um número crescente de consumidores. Durante esse período, a indústria editorial pôde se beneficiar e se modernizar com a política de incentivo do governo para importação de novos maquinários, o que resultou na ampliação de sua produção, evolução técnica, melhoria na qualidade do material impresso, profissionalização e racionalização, com vistas a um mercado consumidor que ia se diversificando (ORTIZ, 1994, p. 122).

Nesse cenário de crescente racionalização da produção cultural e de avanço da sociedade de consumo, a imprensa passava a ser concebida como um investimento comercial, que deveria satisfazer aos interesses do leitor e, assim, alcançar altos índices de circulação e de vendas. O jornalismo feito à francesa, combativo, crítico, doutrinário e de opinião, que desde os seus primórdios reservava grande espaço para a crônica, para o embate político, para o fait divers e para a publicação de folhetins, a partir da década de 1950 cedeu lugar para um jornalismo influenciado pelo modelo estadunidense, que privilegiava a informação, a notícia objetiva e o estímulo à homogeneização dos valores de consumo entre o maior número de leitores que conseguisse atingir. Neste novo modelo de jornalismo, o lucro tornava-se mais importante que qualquer ideologia ou convicção político-partidária (ABREU, 2002, p. 12). O caso do mercado editorial de revistas brasileiro é representativo das transformações vivenciadas na dinâmica da indústria cultural.

Durante os anos 1930, 40 e 50, o grande destaque do mercado de revistas brasileiro era a revista O Cruzeiro, publicação dos Diários Associados de Assis Chateaubriand, que ficou consagrada como a “revista da família brasileira”, pois trazia um pouco de tudo para todos, homens, mulheres, jovens ou adultos, sem se preocupar em atender às preferências, interesses ou estilo de um tipo específico de leitor. Segundo  pesquisa realizada em 1950, a respeito da “família leitora” de O Cruzeiro, cada exemplar da revista encontrava mais de 4 leitores dentro da mesma casa, dentre os quais homens, mulheres, crianças menores e maiores de dez anos e empregados domésticos (MIRA, 2001). Inspirada no modelo da revista ilustrada francesa Paris Match, que por sua vez seguia o padrão Life de revistas de interesse geral, O Cruzeiro foi a pioneira da grande reportagem no Brasil, além de ter introduzido no país o fotojornalismo, em que as imagens, outrora meras ilustrações, passaram a ser valorizadas jornalisticamente pelo seu conteúdo informativo (GAVA, 2003). Entretanto, já no final dos anos 1950 O Cruzeiro foi se tornando ultrapassada, incapaz de se renovar para acompanhar as transformações que começaram a se processar na indústria cultural e disputar a preferência dos leitores com as novas publicações mais especializadas que iam despontando no mercado editorial (ABREU, 2002, p. 84).

Se Assis Chateaubriand marcou sua época pelo espírito empreendedor e aventureiro com que conduziu seus Diários Associados, nos anos 1960 e 1970 Roberto Marinho, Victor Civita e Adolfo Bloch foram os grandes investidores do setor de comunicações, destacando-se pelos vultosos investimentos em equipamentos e introdução de novas técnicas em busca de maior produtividade, além da crescente profissionalização de seus quadros, racionalidade na gestão administrativa e exatidão no cálculo do lucro de suas empresas jornalísticas. [2]

Dentre os novos títulos que figuraram no mercado de revistas brasileiro da década de 1960, três periódicos revelam-se como importantes fontes históricas para que se possa conhecer, a partir de suas representações, as discussões e transformações que caracterizaram a efervescência cultural daqueles anos: as revistas Manchete, Realidade e Ele Ela. O que une essas publicações, é o fato de terem se dedicado, entre outros, à abordagem de temas comportamentais, que de acordo com documentos oficiais da época, deveriam ser proibidos porque “estimulavam a licenciosidade e ofendiam a moral pública”.[3] Todavia, as três publicações guardavam diferenças e especificidades quanto aos caminhos que tomaram para tratar de tais questões.

A revista Manchete foi lançada pela Editora Bloch em abril de 1952. Inicialmente disputando leitores com O Cruzeiro,a revista Manchete, logo se destacou pelo cuidado que conferia ao aspecto gráfico e pela preocupação com a produção e diagramação das imagens. Adotando uma fórmula jornalística que consistia em 20% de texto, 30% de títulos e espaços em branco e 50% de fotografia, além dos crescentes investimentos em equipamentos gráficos, o projeto editorial de Manchete oferecia ao grande público urbano uma linguagem mais acessível, com ênfase nos recursos fotográficos e na abordagem a temas mais modernos e variados (FARO, 1999; ANDRADE et CARDOSO, 2001; SETEMY, 2008, p. 91-94). Sem se restringir a seções permanentes de política, economia ou cultura, a cada número Manchete levava às bancas temas da atualidade, oferecendo ao leitor uma visão panorâmica e superficial do que se passava no Brasil e no mundo. Outra característica marcante da revista era o sensacionalismo empregado na abordagem de temas relacionados a comportamentos e costumes, expresso através de títulos intensos, flagrantes fotográficos (especialmente envolvendo astros do cinema hollywoodiano) e imagens chocantes, ou ainda na discussão de tais temas a partir de casos que envolviam o nome de celebridades, ou da apresentação do enredo de peças e filmes que traziam à tona, às vezes de maneira caricata, questões referentes à “nova moral” que se delineava. De acordo com Maria Celeste Mira (MIRA, 2001, p. 32), as revistas nas quais figuravam os artistas de Hollywood, foram responsáveis pela “cinematografização do cotidiano”, pois criavam um elo entre o cinema e o público ao trazerem estampadas em suas capas e páginas o cotidiano de artistas que viravam figuras-modelo e cujos estilos de vida deram origem a um universo de consumo voltado para beleza, moda, saúde, decoração, conforto e bem estar. Se, por um lado, Manchete era uma revista que satisfazia a um grande público de classe média urbana, as já mencionadas transformações que começaram a se processar na sociedade fizeram despontar no cenário brasileiro um novo público de classe média alta urbana, mais escolarizado, interessado em compreender de maneira mais aprofundada as mudanças no país e no mundo e, para o qual, era necessário preparar uma nova fórmula de periódico que lhes oferecesse um jornalismo intelectualmente mais refinado e com maior profundidade textual (FARO, 1999).

No intuito de explorar as necessidades deste novo público leitor a Editora Abril lançou em abril de 1966 a revista Realidade, uma publicação mensal que foi sucesso em todo o Brasil por abordar temas da atualidade com maior profundidade e com uma linguagem textual e gráfica mais sofisticada que as demais revistas em circulação (FARO, 1999, p. 50-51). Inovadora, tanto na escolha dos temas a serem tratados como na forma e estilo jornalístico de seus artigos, que ultrapassava os limites da objetividade jornalística então dominantes, Realidade tinha como proposta o rompimento com a narrativa convencional e o emprego de recursos literários na narração de eventos jornalísticos ou, simplesmente, não-ficcionais. Além disso, pretendia oferecer qualidade editorial em uma revista de assuntos gerais que situasse seus leitores no âmbito dos problemas de seu tempo de forma aprofundada e instigante (MORAES, 2001, p. 33-49; FARO, 1999). Na apresentação do primeiro número de Realidade, seu editor e diretor Victor Civita escreveu que aquela seria “a revista dos homens e das mulheres inteligentes que querem saber mais a respeito de tudo”.[4]

De acordo com o relato de Audálio Dantas, repórter e editor da revista Realidade, a publicação

“refletiu um momento da vida do país, em que, mesmo sob uma ditadura, havia reflexos do que foi um grande momento de cultura e afirmação nacional. Desde os anos 50 até o começo de 60, música, cinema, [viveram] momentos de grande criatividade que foram assassinados em 64. A revista surgiu porque havia uma criatividade inibida. O momento dela era aquele. Hoje não existe espaço para uma revista como aquela. Ela foi inovadora, desfez tabus na sociedade brasileira, trouxe grandes assuntos, botou dedo em feridas. Do ponto de vista jornalístico, Realidade reuniu o que de melhor se produziu como texto jornalístico naquela fase até o início dos anos 70, principalmente como revista de reportagem (FARO, 1999, p. 245)”.

Ainda que rompesse com os parâmetros e paradigmas da produção jornalística brasileira, Realidade não escapava dos limites a que esse campo de produção estava circunscrito. Por mais inovadora ou transgressora que uma publicação possa parecer, ela estará sempre restrita às possibilidades de produção de sua época, e neste sentido, pode-se dizer que a excepcionalidade de Realidade era algo que cabia no conjunto da imprensa brasileira e no mercado de revistas do Brasil. O que a distinguiu dos demais periódicos com os quais concorria era o fato de ter conseguido adequar os elementos disponíveis de maneira a produzir algo que parecesse totalmente inovador (SETEMY, 2008).

Em uma fórmula simples e bem humorada, o jornalista Mylton Severiano, explicou a razão do sucesso da revista entre os anos de 1966 e 1968: “Passarinho canta, gato mia, escritor escreve e jornalista dá conta de seu tempo” (SETEMY, 2008, p. 105). Ele afirma ainda que a equipe de Realidade conseguiu perceber que naqueles seus três primeiros anos de vida havia as condições necessárias para fazer um jornalismo mais ousado, tanto no que se referia à temática das reportagens como à estrutura do texto e técnica narrativa, levando aos leitores a discussão contundente de temas “perigosos” ou polêmicos através de textos fluidos, densos, atraentes e que tocavam a sua sensibilidade. Após dois episódios de enfrentamento com a censura, em agosto de 1966 e janeiro de 1967, a revista sofreu limitações que a descaracterizaram em relação ao seu projeto inicial, especialmente no que se referia à abordagem de temas comportamentais e à manutenção da linha investigativa (SETEMY, 2008, p. 219-233). Embora tenha circulado até março de 1976, já nos últimos anos da década de 1960, o estilo inovador introduzido por Realidade começava a dar sinais que não funcionava tão bem.

Valendo-se dos recursos técnicos tornados disponíveis pelos avanços da indústria editorial, na edição de abril de 1969, a revista Manchete trouxe em página dupla a foto de uma cama de casal, serrada ao meio, com uma mulher de um lado e um homem do outro, ambos de braços cruzados, cada qual com seu semblante marcado pelo tédio e a insatisfação. Ao lado, destacavam-se os seguintes dizeres:

“Os problemas de uma vida a dois podem acabar assim. Mas você poderá evitá-los. Basta conhecer exemplos e situações idênticos nos seus mais íntimos detalhes. Ele Ela discutirá com você todas as regras do jogo do amor. Trata-se de uma revista diferente de todas as outras. Textos de alta qualidade ilustrados com fotografias espetaculares e exclusivas. Dia 2 de maio em todo o Brasil, Ele Ela: uma revista para ler a dois.”

A Editora Bloch, na disputa pelos consumidores de revistas especializadas em função do gênero do leitor, lançou uma revista que se apresentava de forma “astuciosa” como sendo de interesse de ambos os sexos. Embora tenha se preocupado em dar à Ele Ela um toque de “brasilidade”, a revista seguia o modelo editorial da alemã Jasmim, da qual a Editora Bloch possuía o franchising, com o direito de usar todo o material, as capas, os principais artigos e até o slogan, “uma revista para ler a dois”, que a partir de maio de 1970 deixou de aparecer na capa de Ele Ela por determinação da censura federal, que o considerou demasiadamente malicioso (SETEMY, 2008, p. 113-118).

  1. A revolução dos costumes e a revolta da juventude como construção cultural do mercado editorial

A partir da seleção de artigos publicados nos três periódicos entre 1966 e 1970,[5] relativos a questões como emancipação feminina, sexualidade e comportamento jovem, é possível apreender de que maneira o mercado editorial de revistas no Brasil deu forma aos eventos e debates que caracterizaram a efervescência político-cultural e as transformações comportamentais da década de 1960. Dentre as principais questões abordadas, destacam-se dois temas centrais: a mudança na relação entre os gêneros e a emancipação feminina; e a revolta da juventude contra o status quo e as diferentes formas de autoridade instituída (pais, professores e representantes políticos).

Sobre a importância da linguagem “de época” para análise histórica, o historiador Julio Arostegui diz que a forma mais essencial de manifestação do humano e, por conseguinte, do histórico, é sempre a linguagem, seja ela verbal ou não verbal, direta ou simbólica (SÁNCHEZ, 2004). Considerando que o presente é uma construção cultural, a linguagem pode ser definida como a manifestação mais profunda das estruturas culturais de uma época. Neste sentido, a linguagem (em suas múltiplas formas) empregada nas revistas Manchete, Realidade e Ele Ela, consiste em um campo significativo de captação histórica dos anos 1960, revelando pautas e abordagens que só podem ser entendidas como específicas de uma cultura de época e resultado de uma construção cultural de seu próprio tempo. Sendo a linguagem a manifestação mais profunda de estruturas culturais dos anos 1960, tanto as experiências históricas relacionadas à transformação dos costumes e à rebeldia, como o conhecimento histórico dessas experiências estão estreitamente relacionados à linguagem verbal e simbólica que as representam nas revistas, tomadas aqui como documento de época. Pensar a imprensa de época enquanto fonte, significa ampliar o campo de investigação histórica e oferecer novos vestígios e possibilidades de interpretação àqueles que buscam compreender as razões que fizeram dos anos 1960 um marco histórico e quais os desdobramentos atuais dos eventos que ficaram documentados, como registro de sua época, nas páginas da imprensa.

2.1 – A mulher e o mundo moderno

Uma das mudanças que caracterizou o século XX foi a entrada da mulher de classe média no mercado de trabalho. Segundo o jornalista Roberto Muggiati, em reportagem para a revista Manchete de junho de 1967, a mulher, aqui no Brasil como em outros países, estava mudando de maneira irreversível.[6] Se antes, a mulher trabalhar fora era considerado sinal de pobreza ou de desprestígio, a partir de meados do século XX a dedicação exclusiva da mulher ao trabalho doméstico passou a ser denunciado como uma alienação, sujeição ao homem, ao passo que ter o seu próprio trabalho se tornava um sinal de emancipação (PROST et VINCENT, 1992, p. 40).

A respeito da inversão de sentidos atribuídos ao trabalho da mulher fora do ambiente doméstico, a jornalista e psicóloga Carmem da Silva,[7] participando de um debate publicado na edição de março de 1968 da revista Manchete afirmou que a questão não deveria ser tratada em termos de “mulher brasileira”, mas pensada dentro das diferenças que separavam mulheres de classe alta, média e baixa. Sendo a emancipação econômica o pressuposto fundamental para que a mulher conquistasse sua liberdade perante o marido, a jornalista concluía que o problema da emancipação feminina era uma questão que dizia respeito essencialmente à mulher de classe média, já que para as mulheres que pertenciam a grupos mais pobres, o ingresso no universo de trabalho não era novidade, além de justificar-se primordialmente pela necessidade econômica e não pela necessidade de afirmação em relação ao sexo oposto.[8] Portanto, no que se referia à realidade da mulher de classe média no Brasil, tanto Carmem da Silva como as demais participantes do debate concluíam que a busca de uma consciência crítica e de atitudes emancipadas em relação ao homem eram uma aspiração das mulheres daquele período, sem que isso significasse que já estivessem de fato muito mais emancipadas em relação às mulheres da geração anterior.[9]

Nas entrevistas e matérias publicadas pelas revistas Realidade, Manchete e Ele Ela, entre os anos de 1966 e 1970, a ideia de emancipação feminina sempre esteve atrelada ao ato de a mulher sair de casa para trabalhar. Em uma entrevista à revista Manchete de agosto de 1967, a atriz Tereza Raquel definiu a mulher moderna como uma mulher integrada ao esquema produtivo da sociedade, que dava ao mundo, além de filhos, algum produto do seu trabalho, que acompanhava a marcha dos acontecimentos da sua época, lutando para que pudesse ter um lugar no mundo, ombro a ombro com o homem.[10] No mesmo sentido, uma matéria da revista Ele Ela de outubro de 1969, enfatizava que para conquistar sua liberdade, a mulher deveria percorrer um caminho “áspero”, em muitos sentidos igual ao do homem e que, antes de tudo, teria de se emancipar economicamente, além de capacitar-se e qualificar-se a fim de prover suas necessidades sem a ajuda de um homem, fosse ele seu pai, seu marido ou seu amante.[11]

Em janeiro de 1967, a revista Realidade lançou uma edição cujo editorial de abertura anunciava aos leitores: “Eis, pela primeira vez no país, um panorama completo da situação atual da mulher brasileira”. Nessa edição a revista iria falar da “revolução tranquila e necessária – mas nem por isso menos dramática – que a mulher brasileira estava realizando”[12], a partir de doze reportagens que falavam a respeito de questões relativas aos valores femininos (vida sentimental, trabalho, moda, beleza, saúde, dentre outros) e que contavam histórias de vida de mulheres de diversas partes do Brasil, dentre as quais a de Dona Berta, uma mulher de mais de quarenta anos, bem sucedida profissionalmente, dona de uma fábrica de calças femininas, casada e mãe. O repórter Carlos Azevedo, autor da reportagem, dizia que mais do que a resistência de mercado, em um país onde as mulheres pouco usavam calças, dona Berta teve de enfrentar também os “moralistas que sempre encontraram motivos para se escandalizar”.[13] Segundo a reportagem, não obstante a colaboração feminina à atividade econômica no Brasil ainda fosse reduzida e não se estendesse a alguns ramos de atividade, essa participação vinha crescendo a cada ano e já se fazia sentir mais amplamente no mercado de trabalho nacional, notadamente em áreas como o ensino público e particular, instituições culturais e na assistência médico-hospitalar, embora também já estivessem ocupando cargos nas profissões liberais e na administração pública.[14] Em janeiro de 1968, a revista Manchete publicou uma lista contendo os nomes das mulheres homenageadas pelo Conselho Nacional de Mulheres do Brasil, por haverem colaborado, através de suas atividades profissionais, para a integração feminina e para o crescimento do país. Segundo a revista, o prêmio consistia, ao mesmo tempo, em um reconhecimento e um incentivo “à participação do sexo frágil na vida do país.”[15] Já a revista Ele Ela, na edição de outubro de 1969, dizia que um “mundo novo”, exigia uma mulher nova: uma mulher que desde a infância deveria aprender que o lar, a maternidade, o sexo, a beleza, o amor e todos os demais valores, eram apenas decorrência de um valor primeiro, a vida, dentro da qual haveria milhares de outras vidas, sendo a de esposa, mãe, amante, funcionária, apenas uma das variadas modalidades que poderia assumir. A mulher moderna, segundo a revista, não poderia mais ser o “sexo frágil”, pois deveria ser lúcida e responsável a ponto de conseguir se realizar tanto no plano pessoal como no plano profissional, “amando de verdade e não por interesse em manter apenas um status social”, tendo filhos se realmente os quisesse, “e não por imposição de um descuido ou de uma aventura”. Dessa forma, dizia a revista, as “mulheres modernas” conseguiriam experimentar um gosto que até então lhes era estranho, o da liberdade.[16]

A edição especial de Realidade sobre as mulheres trazia ainda o resultado de uma pesquisa intitulada “A mulher brasileira, hoje”, cujo objetivo era oferecer, “pela primeira vez no país, um panorama completo da situação atual da mulher brasileira”. Os resultados da pesquisa, apresentados ao leitor na forma de quadros estatísticos resumidos, eram “animadores”, segundo a revista, pois ainda que algumas respostas fossem “carregadas de preconceitos”, percebia-se “com clareza” que a mentalidade da mulher estava mais aberta, o que levava a concluir que quanto mais equilibradas, liberais e realistas elas fossem, maiores seriam as oportunidades de serem felizes. [17]

A emancipação da mulher de classe média urbana, com sua entrada no mercado de trabalho e elevação do seu nível de instrução, implicou numa redefinição do seu papel dentro do lar e da vida conjugal, em mudanças no exercício do poder dentro do ambiente familiar e nas funções e papéis desempenhados por cada um, dentro e fora da família. Se, por um lado, a imagem do homem “chefe de família”, que ocupava uma posição privilegiada em relação à mulher enquanto “embaixador do mundo externo”,[18] começava a ser questionada e contestada, a mulher, por sua vez, mesmo dedicando-se a novas ocupações fora do ambiente doméstico, não deixaria de exercer um poder decisivo nessa esfera, sem perder o título de “patroa” e “rainha do lar”, mesmo que trabalhando fora de casa (PROST et VINCENT, 1992, p.: 76 e 78). Ainda que as revistas brasileiras tenham discutido as mudanças no papel da mulher na sociedade, o arquétipo da mulher moderna que veiculavam era o de uma mulher emancipada, mas cujas funções de “dona de casa” e “amante” não deveriam ser atenuadas por sua realização profissional.

2.2 – A juventude rebelde dos anos 1960

Com as mudanças no papel da mulher na sociedade moderna que estavam em marcha na década de 1960, as relações familiares e o papel social tradicionalmente associado a cada um dos gêneros na esfera familiar também foram transformadas, dando inicio a um longo processo de ruptura no sistema familiar patriarcal (THERBORN, 2006, p. 22 e 114).

À medida que as mulheres foram deixando o ambiente doméstico para trabalhar fora de casa, uma parte das tarefas antes confiadas à família e, mais precisamente, deixadas aos cuidados da figura materna, como por exemplo, a educação e socialização dos filhos, foram gradativamente sendo assumidas por instâncias coletivas, como as escolas, às quais as crianças passaram a ser levadas cada vez mais cedo (PROST et VINCENT, 1992, p. 61), e as universidades, cujo acesso, tanto de rapazes quanto de moças, aumentou substancialmente a partir da década de 1950, como resultado do crescimento explosivo da economia mundial, que possibilitou a um maior número de famílias investirem na educação superior dos filhos, para que tivessem a oportunidade de conquistar melhores empregos, além de um status social mais elevado (PROST et VINCENT, 1992, p. 71 e 72). Com o alargamento do período de educação e formação profissional em espaços coletivos de ensino, criava-se uma população de rapazes e moças que passavam boa parte do seu tempo juntos nas escolas e universidades, como um grupo etário, que embora experimentasse condições de vida bem mais prósperas e promissoras que a que seus pais haviam conhecido na juventude, não deixou de desenvolver uma consciência crítica a respeito dos problemas do seu tempo (HOBSBAWM, 2000, p. 289-296).

Os jovens crescidos no pós-Segunda Guerra, à sombra da iminência de batalhas nucleares entre EUA e URSS (HOBSBAWM, 2000, p. 224), ao mesmo tempo em que tinham seus sentidos estimulados por uma variedade de informações produzidas pelas inovações científico-tecnológicas,[19] tornavam-se cada vez mais impacientes com a prudência dos mais velhos – tanto seus pais quanto seus professores – em conservar antigas convenções e em manter o status-quo. Estes, por sua vez, acostumados aos tempos em que as oportunidades eram mais restritas, mostravam-se satisfeitos com as novas possibilidades de acesso a produtos e serviços e não conseguiam compreender a razão da insatisfação de uma parcela daqueles jovens que, em alguns casos, optavam pelo radicalismo político e comportamental (HOBSBAWM, 2000, p. 289-296). A diferença de mentalidades provocou uma série de contradições que levaram a um choque entre essas duas gerações.[20]

A preocupação em conhecer o que os jovens brasileiros estavam pensando, fazendo e planejando levou a revista Realidade a anunciar para setembro de 1967 a publicação de uma edição especial sobre a “juventude brasileira” e justificava essa iniciativa dizendo que num país onde a metade da população era constituída de menores de 21 anos, tornava-se premente traçar um perfil dessa juventude. Por isso, fazia um apelo para que aqueles que tivessem mais de 15 anos e menos de 25, lessem, estudassem e respondessem ao questionário de 19 perguntas publicado naquela edição e que, independente da idade, os leitores enviassem cartas com sugestões para a edição especial que preparavam.[21]

Em setembro, chegou às bancas a edição especial de Realidade sobre a juventude brasileira, na qual a jornalista Carmen da Silva publicou uma crônica falando do conflito de gerações e de como essa briga, já antiga, vinha se repetindo, “ao longo dos séculos e milênios”, nas sociedades de todo o mundo. Ela afirmava que a “rebeldia dos jovens” como reação ao “conservadorismo dos mais velhos” não era uma exclusividade da juventude da década de 1960, mas algo já “tradicional” na relação entre os mais moços e os mais antigos. Entretanto, ela se fazia o seguinte questionamento: se toda aquela crise entre duas gerações era “mera repetição do passado”, como se explicaria “tanta preocupação com a mocidade atual”, “tanta pesquisa”, “tanta manchete”, “tanta onda”? Em resposta à sua indagação afirmou que o que havia de “novo” era o contexto cultural da década de 1960 e que isso não era, “de nenhum modo”, um dado secundário, já que, do seu ponto de vista, era preciso levar em conta a realidade do mundo para que se pudesse ter uma visão mais objetiva da rebeldia juvenil, tal como ela se apresentava naquele momento.[22]

Em maio de 1968 a revista Manchete trazia a notícia: “As explosivas manifestações de estudantes se sucedem em todo o mundo. Depois de Berlim, Varsóvia, Roma, Rio, Madri, a luta eclode na França”.[23] Era o “Maio de 68” que irrompia em Paris, um acontecimento que ficou marcado, na memória e na historiografia, como o principal marco da rebelião estudantil na década de 1960.

A partir de matérias e fotos obtidas nas agências internacionais de notícias ou através dos seus próprios repórteres e correspondentes no exterior, ao longo do ano de 1968 a revista Manchete noticiou os atos de rebeldia da juventude de diferentes partes do mundo, em manchetes como: “A rebelião universal dos jovens”, “Porque se rebelam os estudantes”, “Colúmbia: a Universidade sitiada”, “Londres: os jovens no poder”, “Paris: a rebelião está nas ruas”, “O que aconteceu na França?”, “Os guerrilheiros da Sorbonne”, “A raiva do mundo”, “O diálogo da violência”, “Sob o comando dos estudantes, a opinião pública”, as quais traziam informações e imagens a respeito de um mundo que, a cada dia, explodia em rebeliões lideradas por jovens que desejavam demonstrar sua insatisfação e romper com a ordem estabelecida. Com manchetes alarmantes e ameaçadoras, as revistas brasileiras veicularam narrativas de um mundo em transformação e em ebulição, com uma linguagem que enfatizava o clima de rebeldia, contestação e violência, tanto por parte dos contestadores, como dos que se diziam “defensores da ordem”.

Considerações finais

A pesquisa às revistas brasileiras dos anos 1960 demonstrou que a imprensa desempenhou um papel fundamental na construção cotidiana dos debates e polêmicas acerca dos eventos que, ainda hoje, são rememorados e apontados como parte de um dos períodos mais conturbados da história contemporânea.

Trabalhos como os de Zuenir Ventura, Caetano Veloso e Nelson Mota, respectivamente, “1968: o ano que não terminou”, “Verdade Tropical” e “Noites Tropicais”; a biografia de personagens que marcaram aqueles anos, como a da atriz Leila Diniz, transformada em símbolo da geração dos anos 1960 por defender na prática o amor livre e a independência feminina; musicais da Broadway, como o norte-americano Hair, que conta a história de uma tribo de hippies de Nova Iorque em sua luta contra a Guerra do Vietnã; o documentário “Woodstock, three days of peace and music”, produzido durante esse festival a partir de entrevistas com os organizadores, autoridades locais e participantes, além da trilha sonora do evento, relançada em dois Cd’s duplos em 1994, como parte das comemorações de 25 anos do festival; filmes como Cannabis, protagonizado por Serge Gainsbourg, e o nacional Todas as mulheres do mundo, de Domingos de Oliveira, estrelado com toda a graça de Leila Diniz, ou ainda, mais recentemente, a mini-série de Gilberto Braga, Anos Rebeldes, produzida pela Rede Globo e exibida em 1992. Desde os anos 1960, são inúmeras as produções artísticas e intelectuais que procuram registrar, a partir de uma narrativa nostálgica, emocionada e embriagante, os eventos que marcaram a chamada “revolução dos costumes” que agitou aquela década, bem como a memória e a identidade de uma geração que ficou marcada pelo espírito voluntarista e pela disposição à experimentação de jovens rebeldes da classe média intelectualizada.

Entretanto, o estudo de algumas matérias publicadas nas revistas Manchete, Realidade e Ele Ela da década de 1960, relativas à mudança de costumes e liberalização sexual, mostram que, embora os ventos da modernidade tornassem algumas barreiras sociais menos rígidas, estruturas de longa duração continuariam presentes na organização da sociedade brasileira e na linguagem empregada pelos periódicos para tratar de tais temas. Assim, ainda que se mostrassem receptivos às conquistas femininas em termos financeiros e sexuais e aos novos valores e aspirações de uma parcela da juventude que desejava romper as malhas apertadas das estruturas sociais, continuavam propagando uma linguagem eufemística e neutra para falar de sexo e sexualidade e valorizando ideais de amor romântico, pureza, integridade e fidelidade da mulher. Quanto ao papel do homem diante dessa sociedade que começava a se tornar um pouco mais flexível, ainda que esses periódicos problematizassem a hegemonia, a identidade e a virilidade masculina diante das mudanças nos costumes e hábitos cotidianos, a homossexualidade e o Gay Power, que explodia nos Estados Unidos e na Europa, ao lado do Women Power e do Black Power, eram tratados num tom de estranheza e de sarcasmo, invariavelmente, como “doença” ou “desvio de comportamento”.

O fato de abordarem temas que ainda eram tabus dentro da sociedade brasileira, não significa, portanto, que esses periódicos concordassem com todas as “novidades”, especialmente no que se referia à questão da sexualidade. Em geral a leitura das matérias publicadas demonstra que o discurso conservador falava mais alto nas discussões a respeito desses novos valores e novas dinâmicas sociais, o que permite definir essas revistas como um espaço onde emergiram as contradições vivenciadas pela sociedade civil da época. Esta ambivalência que caracterizou o mercado editorial brasileiro dos anos 1960 pode ser entendida pelo fato de estar sujeito aos interesses dos grandes empresários da indústria cultural, que por sua vez, estavam associados aos interesses do regime militar que era, em última instância, quem autorizava, através do Serviço de Censura,[24] a circulação de periódicos pelo país.  Ao permitir a circulação e discussão de temas relativos às transformações comportamentais e a publicidade de produtos e símbolos da cultura de protesto pelos meios de comunicação de massa, o regime militar buscou afirmar e preservar sua imagem de defensor das liberdades e valores democráticos no espaço amplo e contraditório da sociedade civil, sem que isso colocasse em risco sua permanência no poder, tanto porque mantinha esses meios sob sua estrita vigilância, através do seu aparato repressivo (Fico, 2001), como porque se empenhava em desenvolver políticas culturais que reforçavam, através de variados meios de divulgação, a ideia de um Brasil grande, unido e próspero (Fico, 1997). Para os empresários da indústria cultural, a veiculação de produtos que contivessem elementos relacionados à crítica social e comportamental surgia como um negócio economicamente rentável, sem que representasse um ponto de atrito com o Estado, já que negociavam com ele os limites de conteúdo e de forma desses produtos, conforme seus interesses políticos, ideológicos e econômicos, ao mesmo tempo em que atendiam tanto à demanda dos grupos rebeldes e revolucionários, insatisfeitos com a ordem social vigente ou com a derrota política dos projetos de esquerda, como àqueles que queriam apenas consumir as novas cores, ritmos e estilos do Tropicalismo e da contracultura, que fizeram moda nos anos 1960, sem que isso significasse qualquer forma de oposição ou resistência à ordem instituída.

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Notas:

[1]A escalada do erotismo. Manchete, Rio de Janeiro: Editora Bloch, n. 936, 28 Mar. 1970, p. 29.

[2] Para uma discussão mais aprofundada a respeito das transformações da imprensa ao longo das décadas de 1950, 60 e 70 ver ABREU, 1996; ABREU, 2002; e ORTIZ, 1994.

[3] Informação Sigilosa, enviada do SNI ao SI/GAB e à DCDP, Referência: Doc. de Info. 054/40/AC/73, versando sobre infiltração comunista no Jornal do Brasil. Data: 18/05/1973. Arquivo Nacional-Sede em Brasília. Seção: Administração Geral. Série: Correspondência Oficial. Subsérie: Informações Sigilosas.

[4] Carta do Editor. Realidade, São Paulo: Editora Abril, n.1, p. 01, Abr. 1966.

[5] O recorte temporal foi definido considerando que no intervalo entre 1966 e 1970 as 3 revistas estiveram, simultaneamente, em circulação no país.

[6] MUGGIATI, Roberto. Que pensam as mulheres do homem brasileiro. Manchete, Rio de Janeiro: Editora Bloch, n. 791, p. 22-25, 17 Jun. 1967, p. 22.

[7] A jornalista Carmen da Silva considerada a “dama da imprensa feminina no Brasil”, teve grande influência, escrevendo ininterruptamente, de 1963 a 1984, a coluna “A arte de ser mulher” para a revista Cláudia, na qual oferecia às suas leitoras discussões à respeito de questões relativas ao universo feminino no mundo moderno. Ver Borges, 2006.

[8] CASTRO, Ruy. A mulher em questão. Manchete, Rio de Janeiro: Editora Bloch, n. 828, p. 116-117, 02 Mar. 1968.

[9] Ibidem.

[10] Tereza Raquel: esta mulher vai ser assassinada. Manchete, Rio de Janeiro: Editora Bloch, n. 803, p. 152-153, 09 Ago. 1967, p. 153.

[11] Reeducação sentimental: a emancipação sexual da mulher vale a pena? Ele Ela, Rio de Janeiro: Editora Bloch, n. 6, p. 58-61, Out. 1969.

[12] CIVITA, Roberto. O trabalho que elas deram. Realidade, São Paulo: Editora Abril, n. 10, p. 1, Jan. 1967.

[13] AZEVEDO, Carlos. Dona Berta, o diretor. Realidade, São Paulo: Editora Abril, n. 10, p. 110-115, Jan. 1967.

[14] Ibidem.

[15] CABRAL, Edson. As mais importantes de 1967. Manchete, Rio de Janeiro: Editora Bloch, n. 820, p. 85, 06 Jan. 1968.

[16] Reeducação sentimental: a emancipação sexual da mulher vale a pena? Ele Ela, Rio de Janeiro: Editora Bloch, n. 6, p. 58-61, Out. 1969.

[17] A mulher brasileira, hoje. Realidade, São Paulo: Editora Abril, n. 10, p. 20-28, Jan. 1967.

[18] MUGGIATI, Roberto. Que pensam as mulheres do homem brasileiro? Manchete, Rio de Janeiro: Editora Bloch, n. 791, p. 22-25, 17 Jun. 1967.

[19] Entrevista com Ofélia Boisson. Manchete, Rio de Janeiro: Editora Bloch, n. 652, p. 100-102, 17 Out. 1964.

[20] Inquérito Manchete-Ibope. Porque se rebelam os estudantes? Manchete, Rio de Janeiro: Editora Bloch, n. 835, p. 144-147, 20 Abr. 1968.

[21] Convite ao leitor. Realidade, São Paulo: Editora Abril, n.16, Jul. 1967.

[22] SILVA, Carmen da. O conflito de gerações. Realidade, São Paulo: Editora Abril, n. 18, p. 44-52, Set. 1967.

[23] Paris: a hora da violência. Manchete, Rio de Janeiro: Editora Bloch, n. 840, p. 30-37, 25 maio 1968.

[24] Sobre a prática da censura durante a ditadura militar, estudos feitos a partir da abertura dos arquivos da repressão que vieram a público a partir dos anos 1990, demonstram que tais atividades eram bastante reguladas e sistematizadas tanto por meio de documentos sigilosos, como também por meio de instituições e documentos ostensivos, quando dizia respeito ao controle de temas relacionados à moral e aos bons costumes. Ver Setemy, 2008; Kushnir, 2004; Fico, 2001;  Marcelino, 2011; Napolitano et Villaça, 2004; e Garcia, 2008.

* Adrianna Setemy é Doutora História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Professora da Universidade de Brasília (UNB). Colabora com a Escuta.

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