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Política

A seleção e o Brasil

Jorge Chaloub*

“Na torcida são milhões de treinadores, cada um já escalou a Seleção, o verde e o amarelo são as cores, que a gente pinta no coração”.

Ainda consigo cantar inteira a música da Globo para a Copa de 1994. Também lembro de cada um dos gols, do pênalti batido pelo esquecido Raí, na estreia contra a Rússia, até as cobranças na disputa de pênaltis da final contra a Itália. Eu tinha então dez anos e, apesar do futebol nem sempre brilhante, a Seleção era tão fascinante quanto o Botafogo, o que não é pouco, ao menos para mim. Talvez a ela ainda tenha algo de mágico para as crianças de dez anos de hoje, mas é difícil não pensar que muito mudou.

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Meias-verdades incômodas

Diogo Tourino de Sousa*

Há um aspecto da personalidade do xerife Bell, interpretado por Tommy Lee Jones no longa Onde os fracos não têm vez dos irmãos Coen, que sempre me intrigou: o modo como ele aparentemente se preserva. Mesmo diante das evidências da maldade em estado bruto, avançada na trama pelo assassino de aluguel Anton Chigurh, uma espécie de psicótico desprovido de senso humor e piedade, que ganhou vida nas telas no rosto incomodamente constante e quase inexpressivo de Javier Bardem, Bell parece insistir em olhar apenas até onde é capaz de suportar.

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As urnas e as armas

Jorge Chaloub*

A decisão da cúpula militar sobre o caso Pazuello é uma importante inflexão no já trágico cenário atual. Ela aponta não apenas para a atual conjuntura, mas aumenta as possibilidades de que venhamos a enfrentar uma violenta eleição em 2022, marcada pelo risco cada vez maior de um golpe. No próximo ano, o olhar se voltará não só para as urnas, mas também para as armas, em enredo que por si só já expõe a dimensão do autoritarismo no Brasil contemporâneo.

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O monolito

Alexandre Mendes*

Numa das mais icônicas cenas do cinema contemporâneo, Stanley Kubrick tematiza a descoberta da transcendência (ou o acaso de sua invenção) pelo encontro de uma horda de ancestrais dos humanos com um misterioso monolito, perfeitamente geométrico, solidamente unitário, visivelmente incolor e totalmente distinto, em sua composição, da árida planície em que o grupo de primatas lutava por sua sobrevivência.

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Bolsonaro: o presidente sem nenhuma virtù

Maria Abreu*

A casa

Era uma casa muito engraçada
Não tinha teto, não tinha nada
Ninguém podia entra nela não
Porque na casa não tinha chão

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Super-homem, superflit, super liga europeia, super bacana

João Dulci*

No excelente “À procura de Eric”, filme de Ken Loach (2009), dentre as muitas desventuras do personagem principal em seus diálogos imaginários com o craque Eric Cantona, há um coadjuvante que constantemente reclama de não mais poder entrar no Old Trafford, icônico estádio do Manchester United FC. Seu clube de devoção, ao aumentar os preços dos ingressos, lhe expulsou das arquibancadas. Por isso, adotou como novo time do coração o também encarnado FC United of Manchester. A inversão nas palavras não era mero acaso. O clube havia sido fundado por torcedores insatisfeitos com o futebol moderno, que bem ou mal deriva do famoso Relatório Taylor e das medidas de elitização do futebol patrocinadas por Margaret Thatcher e amigos.

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Druk – Mais uma rodada, de vida

Matheus Targueta*

Em 2014 a Profile Books, editora britânica independente, publicou o livro Politics do historiador e professor da famosa Universidade de Cambridge (Reino Unido), David Runciman. Atualmente o renome do autor ganha projeção internacional graças à consistência de sua vasta produção acadêmica, além do sucesso dos podcasts que apresenta e conduz, Talking Politics e History of Ideas, nos quais alia comentários políticos da atualidade global à prática historiográfica da Escola de Cambridge, grupo dedicado à análise histórica das ideias políticas. Em Politics, um livro escrito sob medida para integrar a ementa básica daqueles cursos de “Introdução à Ciência Política”, Runciman sustenta o argumento (talvez generalista demais, mas que serve ao propósito iniciático da obra) de que “Politics matters”, ou na tradução portuguesa de Paulo Ramos: “A política importa” – frase que abre o livro.

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O centrão

Jorge Chaloub*

Se este fosse um fio no Twitter, talvez fosse o caso de começá-lo, como modo de ganhar alguns corações, com o irritante chavão “precisamos falar sobre o centrão”. A questão não passa, todavia, pela quantidade de textos e menções ao termo. Fala-se muito sobre o centrão, que se tornou, aliás, um dos termos mais utilizados para a análise da política brasileira contemporânea. Frequentemente se atribuem a ele características ambíguas e uma capacidade explicativa quase irrestrita, que em alguns casos se confunde com o próprio sistema político brasileiro: o centrão seria a forma “típica” da política brasileira. A partir  das narrativas mais corriqueiras, vê-se a imagem de um personagem ao mesmo tempo coeso, sendo capaz de pautar a política nacional, e facilmente cooptado por pequenos interesses individuais de parlamentares, marca de um “fisiologismo” que supostamente implicaria na ausência de identidade ideológica ou contrariaria certa narrativa da “responsabilidade fiscal”. Sigamos alguns desses argumentos.

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Os números que se foram

João Dulci*

Pernalonga, quase sempre no início dos seus desenhos, saía de um buraco na terra e dizia: sabia que tínhamos que ter virado à esquerda em Albuquerque. A partir daí, dava uma merda federal. Em nosso país, escolhemos virar à direita em Albuquerque, por uma série de razões que esta revista já expôs às centenas. A depender do autor do texto, o peso recai mais ou menos sobre este ou aquele critério, mas em geral sabemos o que aconteceu. Se as causas já foram mapeadas, estamos agora analisando as consequências. Creio que a mais visível delas sejam as centenas de milhares de mortos no país.

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