Fernando Perlatto*

Já não era sem tempo. Eis que finalmente foi publicado no Brasil, no mês passado pela editora Rocco, um livro reunindo todos os contos de Clarice Lispector. Trata-se da obra Clarice Lispector. Todos os Contos, que vem à luz depois de uma trajetória pouco convencional, tendo sido publicada originalmente nos Estados Unidos, em 2015 – quando foi selecionada pelo The New York Times como um dos melhores livros do ano passado – para finalmente chegar agora às mãos do leitor brasileiro. É verdade que muitos dos contos já eram conhecidos pelo grande público, sobretudo aqueles divulgados em livros de maior repercussão como Laços de Família, Legião Estrangeira e Felicidade Clandestina – que contêm pérolas como “A galinha”, “A menor mulher do mundo” e “Felicidade clandestina” –, porém, parte significativa das histórias aqui reunidas ainda permanecia desconhecida para a grande maioria, exceto para aqueles aficionados por Clarice.

A obra Clarice Lispector. Todos os Contos é organizada pelo norte-americano Benjamin Moser, autor da bela biografia Clarice, publicada em 2009 pela editora Cosac Naify. Nesta biografia minuciosamente construída, Moser recupera os percursos de Clarice – desde o seu nascimento na Ucrânia em 1920, sua vinda ainda nova para o Brasil, sua passagem por Maceió e Recife, o casamento com o diplomata Maury Gurgel Valente e sua longeva vida no exterior, seu divórcio, o retorno para o Rio de Janeiro, seu trabalho como escritora, suas relações familiares, especialmente com os dois filhos, seu círculo de amizades, sua morte e sua posterior transformação em uma espécie de mito da literatura brasileira –, entremeando com reflexões sobre os livros escritos pela autora, como Perto de Coração Selvagem – romance lançado em 1943 que a projetou nacionalmente –, A Paixão segundo G.H. e A Hora da Estrela. As alegrias, sofrimentos, dores e angústias de Clarice são contadas de forma cuidadosa por Moser, cuja obra tem como diferencial ancorar as raízes da autora no misticismo judaico, destacando o impulso espiritual e o caráter sagrado que impulsionou e atravessou a sua obra.

Clarice Lispector. Todos os Contos é composto por oitenta e cinco textos, publicados desde 1929, quando a autora tinha 19 anos, até a sua morte, em 1977. A organização dos contos em forma cronológica permite ao leitor acompanhar os escritos de Clarice durante toda a sua vida adulta, abrindo possibilidades para associar seus escritos a fases específicas de sua trajetória. Milhares de personagens desfilam nas páginas desta obra: poucos homens; a grande maioria, mulheres. Cristina, Luísa, Flora, Idalina, Gertrudes, Catarina, Sofia, Margarida, Ofélia, Frozina, Sra. Jorge B. Xavier, Ruth, Carmen, Beatriz, Aurélia, Cândida… Mulheres novas, de meia idade, idosas; mulheres de diferentes tipos, trejeitos, profissões, sonhos, desejos, inquietações, questionamentos. Nas várias mulheres narradas nos diferentes contos que compõem a obra, Clarice, é claro, se faz presente. Na maior parte das vezes de forma implícita; em outras, de forma explícita, sobretudo em seus últimos contos, nos quais sua personalidade aparece mais destacada, especialmente quando a dimensão reflexiva – e também melancólica – passa a ganhar um espaço importante no direcionamento de sua escrita.

Como sugere o próprio Moser na introdução à obra, o registro da condição de mulher de Clarice não deve ser tomado como mero detalhe sem importância. Os escritos de Clarice, em sua maioria, abordam temas que foram tradicionalmente associados ao universo feminino, e é uma escrita feminina situada social e historicamente: uma mulher, artista, de classe média, mãe, casada e posteriormente divorciada, em uma época na qual o divórcio era visto como heresia. Porém, e isto que importa perceber, esta inscrição no mundo feminino, esta escrita de uma mulher sobre mulheres, não a circunscreve a qualquer nicho específico e não reduz em absolutamente nada a universalidade das experiências ali narradas. A literatura de Clarice é uma literatura universal e o reconhecimento tardio que o mundo anglo-saxão lhe devota se deve mais à sua condição de escritora de um país periférico, que tem como idioma o português, muito mais restrito em termos de circulação no mundo editorial quando comparado, por exemplo, com o espanhol, do que propriamente com algo associado à qualidade da sua obra.

Não se lê Clarice; se sorve Clarice. Suas palavras parecem escolhidas a dedo, com precisão, esmero, requinte. Em alguns contos, ela adquire uma verve mais seca, refreada, contida; em outros, a leveza, a delicadeza e a suavidade se impõem. A prosa elegante faz com que o leitor flutue na leitura, embora se veja, constantemente, surpreendido, não apenas com a trama desenvolvida, mas, especialmente, com os recursos formais mobilizados pela autora. Dessa perspectiva, flutua-se sim na leitura de Clarice, mas se flutua com cuidado, com apuro, com parcimônia, como se se andasse em uma loja de cristais, permanecendo atento a cada passo dado. Por estar repleta de obstáculos – que não impossibilitam o percurso, mas o tornam mais complexo –, a escrita de Clarice atrai e afasta, seduz e repele, em um jogo intrigante, que desafia o tempo todo o leitor atento que busca saborear em cada sentença o gosto da frase bem escrita.

O fato de Clarice ter se tornado postumamente pop, sugada pelo mundo da indústria cultural, com frases autorais que lhe são atribuídas, citadas fora do contexto nas redes sociais, pode dar a impressão de que Clarice é uma escritora fácil, cuja leitura se dá sem maiores esforços. É um engano. Estamos a falar de uma autora complexa, densa, em certo sentido, difícil. Seria, então, Clarice necessariamente uma escritora hermética? Em sua última entrevista, em 1977, concedida à TV Cultura, Clarice responde negativamente à acusação de hermetismo. Admite, porém, que certos contos são, inclusive para ela mesma, ainda incompreensíveis, a exemplo do perturbador “O ovo e a galinha”. Não ser hermético, contudo, não é sinônimo de ser fácil. Para ser bem sorvida, como merece ser, sua leitura demanda atenção, concentração. Lê-la de forma acelerada é um erro que pode levar à perda de detalhes primorosos de sua escrita. A pressa, a rapidez e a agitação do mundo moderno não se coadunam com a prosa moderna de Clarice; esta exige calma, respiro, silêncio.

A literatura de Clarice pode ser associada àquilo que Leyla Perrone-Moisés, em ótimo ensaio sobre autores brasileiros contemporâneos como Nuno Ramos, André Queiroz e Julian Fuks, publicado em 2012 na “Ilustríssima”, da Folha de São Paulo, chamou de “literatura exigente”, o que a colocaria, caso se aceite esta classificação, ao lado de nomes como Joyce, Kafka, Borges e Beckett. No caso de Clarisse, esta literatura exigente se mostra de forma clara em seu experimentalismo formal, ancorado em uma orientação vanguardista, que também está presente em outros autores de sua geração, como Guimarães Rosa, especialmente em Grande Sertão: Veredas. Não à toa, há aqueles que apontam para as linguagens de Clarice e Guimarães – assim como para aquela desenvolvida por artistas visuais a exemplo de Lygia Clark – como aprofundamentos tardios do modernismo dos anos 1920, embora suas literaturas inovem para outros caminhos, apostando em novas perspectivas.

Esse experimentalismo já estava presente em alguns contos de sua juventude, a exemplo de “Mais dois bêbados”, contido em Primeiras Histórias, que se encerra de forma abrupta e repentina: “De repente, ele tirou o palito da boca, os olhos piscando, os lábios trêmulos como se fosse chorar, disse:”. Contudo, ele se exacerba em contos posteriores, indo às suas últimas consequências, como no já mencionado “O ovo e a galinha”, “Discurso para a inauguração”, de Fundos de Gaveta, de Legião Estrangeira, “Perdoando Deus”, “Tempestade das almas” e “Vida ao natural”, de Felicidade Clandestina, e, especialmente, em “O relatório e a coisa”, contido no livro Onde estivestes de Noite. Como destacado por Moser no “Apêndice”, este texto foi originalmente publicado com o título “Objeto: anticonto”. Na ocasião de sua publicação, Clarice, que o chamou de “anticonto geométrico”, incluiu o seguinte prefácio: “Acho que queria fazer um anticonto, uma antiliteratura. Como se assim eu desmistificasse a ficção. Foi uma experiência valiosa para mim. Não importa que eu tenha falhado. Chama-se OBJETO” (p.652-3). Alguns contos de Clarice, a exemplo de “Perfil de seres eleitos” e “Seco estudos de cavalo”, causam espanto e inquietação: precisam ser decifrados, desemaranhados. O leitor deve se comportar como um caçador, deslocando as vírgulas, empurrando as palavras, adentrando pelo interior do papel para buscar, em meio àquela suposta estranheza, a riqueza que se extrai de variadas passagens.

Sergio Buarque de Holanda, no artigo “Tema e Técnica”, publicado originalmente no Diário Carioca, em 1950, já chamava a atenção para o fato de Clarice, ao lado de Oswald de Andrade, ter sido uma das escritoras brasileiras que mais levaram a fundo a dimensão poética e a problematização das questões formais em suas escritas, deixando em segundo plano a preocupação temática. Na introdução de Clarice Lispector. Todos os Contos, Moser avança em uma hipótese interessante para explicar esta ousadia formal e a “estranha gramática” da autora, destacando para além da influência do misticismo judaico herdado do pai, a ausência, em uma perspectiva mais ampla, de uma tradição na qual pudesse se ancorar, o que lhe assegurava um grau maior de liberdade para apostar no novo, sem que isso significasse uma inovação pela simples inovação. Clarice, segundo Moser, “vinha de uma tradição de fracasso, de uma tradição, como escritora brasileira, como escritora, como mulher, mas talvez principalmente em consequência de suas origens” (p.17). Clarice, em certo sentido, inventa uma tradição, a partir de “uma incessante busca linguística, uma mutabilidade gramatical” (p.21).

Essas reflexões sobre as inovações formais de Clarice e sobre sua “literatura exigente” não devem, contudo, afastar o leitor de Clarice Lispector. Todos os Contos. Pelo contrário. Deve-se ler e sorver Clarice, pois uma vez que se adentra em seu universo mergulha-se em uma torrente viciante de sofisticação. Não que todos os contos sejam primorosos. Clarice tropeça, se apressa em algumas histórias, simplifica enredos ou se estende demasiadamente em algumas narrativas. Seus últimos contos, especialmente aqueles publicados em A Via Crucis do Corpo, não alcançam a mesma potência de outros trabalhos, e não apenas pelo fato de abordarem o erótico no contexto conservador da ditadura que então vigia no país, como parece sugerir a introdução de Moser, mas pela razão mais prosaica de que eles não têm a mesma elegância e precisão dos livros anteriores. Mas, de modo geral, o que impera é uma capacidade imensa e assombrosa de construir uma literatura repleta de requintes, paradoxalmente contida e visceral. Seus personagens, na maior parte das vezes, expõem subjetividades atordoadas, marcadas por aquilo que podemos chamar de um equilíbrio frágil, como se algo estivesse permanentemente na iminência de se romper. É uma literatura do limiar, da beira, do limite, da expectativa.

Espera-se que Clarice Lispector. Todos os Contos possa contribuir para uma maior difusão de Clarice Lispector, tão citada, mas ainda tão pouco efetivamente lida no Brasil. Em um país que gosta de seguir os modismos que nos chegam de fora, resta torcer para que a consagradora recepção deste livro no mundo anglo-saxão influencie os daqui a conhecerem melhor uma autora que, sem qualquer arrombo nacionalista ou patriotesco, está no panteão daquilo que a literatura universal produziu de mais sofisticado.

* Fernando Perlatto é um dos Editores da Revista Escuta.

** Crédito da imagem: Fraco e Moura. Disponível em:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Clarice_Lispector>. Acesso em: 14 jun. 2016.

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