João Dulci*

Num dia, é ódio e preconiza o genocídio. No outro, arrepende-se, diz-se temente a Deus, às armas, ao povo brasileiro. Num dia, o passado de atleta, a ejaculada carreira militar e a fé protegem-lhe de quaisquer mazelas que uma enfermidade menor venha a lhe acometer. No outro, defende a vida, presente e futura, a responsabilidade e assume a incapacidade débil de lidar com um problema maior que sua sapiência. Num dia odeia a todos: as instituições, o Supremo, o Congresso, ecoando os desejos de uma parcela de evocar passagens das mais sombrias e violentas da história brasileira. No outro, cala um lunático, dizendo que o Supremo e o Congresso têm que estar abertos e, numa livre interpretação que aqui me lanço, diz-se defensor da Constituição de 88, ou do que restou dela (eu acrescento).

O comandante faz-se em dois, em movimentos e contra movimentos que ele mesmo cria. Num dia odeia, repudia, promove linchamento coletivo contra seu mais renomado ministro (seja lá o que isso signifique). No outro ama, sofre, ressente. Embarga, porque ignorado pelo seu herói. Transforma ódio em paixão. Humaniza-se. É piedoso. Sente-se traído. Move todas as suas armas na defesa da honra de sua família. Nada disso é aprendizado, já que no dia seguinte retoma a escalada de ataques, uma vez que a guerra ainda está em curso. Em um mesmo discurso, coloca-se acima de qualquer fiscalização republicana sobre os custos de seu cartão corporativo, para logo em seguida (ou antes, isso já pouco importa) dizer-se econômico, módico, quase frugal, porque se banha nas águas gélidas de uma piscina localizada no serrado brasileiro, expiando-se, por vontade própria, pelo bem do país.

Faz tudo isso ao mesmo tempo, porque é um só. Não há aprendizado, porque o que erra, ataca, odeia é o mesmo que ama, que sente, que protege seus herdeiros e se sente traído pelos seus subordinados.

Em 1952, o grande autor italiano Ítalo Calvino lançou o brilhante “O visconde partido ao meio”. Medardo, o visconde de Terralba, sai à guerra contra os turcos. Por inépcia e inexperiência, avança de frente sobre um canhão, levando um balaço e sendo partido exatamente ao meio. Por um milagre digno das melhores fábulas que Calvino conhecia muito bem, os médicos da guerra conseguem salvar-lhe a vida, costurando e remontando uma metade de Medardo, uma vez que a outra parece ter se tornado irrecuperável.

Ao voltar para suas terras, Medardo não quer contato emotivo com ninguém. Não vai ao enterro do pai. Faz desgraças com os animais. Condena os acusados de leves delitos ao enforcamento. Humilha e agride os leprosos. Sua ama de leite percebe rapidamente o que aconteceu: “Só voltou a metade malvada de Medardo. Quem sabe o que acontecerá durante o processo?”[1].

 Que se pudesse partir ao meio toda coisa inteira (…), que todos pudessem sair de sua obtusa e ignorante inteireza

Com ódio e ressentimento, a metade do visconde sai pelo seu reino a partir em dois tudo que vê. Uma metade é preservada; a outra destruída. Metade dos polvos, metade dos peixes, metade das colheitas. Toca fogo em metade das casas. Ataca os leprosos, porque não sentem dor, tampouco o calor das chamas. A princípio, o Mesquinho, como o chamam, apenas o faz para que todos entendam a sua situação de metade. Ao se sobrinho, explica:

 Se você virar a metade de você mesmo, e lhe desejo isso, jovem, há de entender coisas além da inteligência dos cérebros inteiros. Terá perdido a metade de você e do mundo, mas a metade que resta será mil vezes mais profunda e preciosa. E você há de querer que tudo seja partido ao meio e talhado segundo uma imagem, pois a beleza, sapiência e justiça existem só no que é composto de pedaços

 Todos se encontravam sob o signo do homem partido ao meio, era ele o patrão a quem servíamos e do qual não conseguíamos nos livrar

A maldade de Medardo reorganiza a rotina de Terralba. A guilhotina precisa ser aperfeiçoada, porque nunca matou tantos ao mesmo tempo. O cemitério, antes sem grande movimento, precisa ser expandido, porque o visconde resolveu, tendo por finalidade experimentos post-mortem, assassinar um crescente número de súditos. Tudo é passível de pena de morte. São condenados os acusados, as vítimas e os denunciantes. A rotina começa a ser pautada pelo medo, porque regida pelo Mesquinho.

Explique-me o senhor, doutor: tenho a sensação de que a perna que não possuo está cansada de tanto caminhar. O que isso pode significar?

Terralba, que parecia destinada o terror, recebe, depois de um tempo, a visita da outra metade. Igualmente salva por milagre, a parte esquerda de Medardo é a antítese perfeita de Mesquinho. Ao invés de um cavalo, monta uma mula velha que seria sacrificada. Ajuda na colheita sem que os plantadores saibam. Pede ao inventor que transforme a guilhotina num moinho, criando vidas, ao invés de antecipar as mortes. Doa seus bens. Tolera a religião alheia. Impede, inclusive, a morte de sua outra metade. O sobrinho de Medardo, correndo para contar à ama de leite Sebastiana o que se passa, diz:

 Está com a mão esquerda assim de inchada – disse.

Ah, menino… – riu a ama. – A esquerda… E onde é que mestre Medardo tem a esquerda? Deixou toda a metade esquerda do corpo lá na Boêmia com aqueles turcos, que o diabo os carregue…

– Tem razão – respondi -, contudo… ele estava daquele lado, eu aqui, a mão virada assim… Como pode ser?

– Já não distingue mais a direita da esquerda? – disse a ama. – E olhe que aprendeu quando tinha cinco anos…

Numa adaptação da obra de Calvino para o teatro feita por Cacá Brandão, o Grupo Galpão montou o espetáculo “Partido”. Sob a direção de Cacá Carvalho, o cenário de Márcio Medina reproduzia o próprio livro. O tempo se marcava pelo passar de páginas ao fundo do palco. Ao contrário do original, no entanto, os atores todos eram dois personagens, apresentando-se sempre de lado, cada metade com a representação de um. Medardo era um só. O brilhantismo da montagem sintetiza a questão. As metades compunham um personagem só, que vagueava como dois. Mas era um.

 Com meia cabeça condena a si mesmo à pena capital e com a outra metade entra no nó corrediço e exala o último suspiro. Gostaria que as duas se confundissem

No nosso espetáculo cotidiano, o ator crê ser possível sustentar-se em dois. O assassino que ameaça mandar os leprosos para a ponta da praia; o amante apaixonado que tudo perdoa: tráfico de drogas da avó da esposa, falsidade ideológica da sogra, gastos exorbitantes das plásticas da consorte e dos dentes de aliados. Aperfeiçoada a guilhotina, dá de ombros para centenas de mortes por dia. Acorrenta-se à defesa dos possíveis crimes dos filhos, se permitindo iniciar investigações paralelas sobre os casos amorosos do mais novo. Vê com a exata benevolência que dívidas sejam pagas por um espertalhão num cheque pesado por juros e depositado por sua fiel escudeira. Num dia baba de raiva, no outro se diz ético e honesto.

O problema é que nosso Medardo, como diria ama Sebastiana, é formado por duas metades direitas. Por duas metades ruins. O Mesquinho ataca, o Mesquinho se defende, torcendo e distorcendo argumentos como se válidos em sua defesa. Por quarenta minutos é capaz de admitir inúmeros delitos ao vivo, crendo-se Bom. Se o maniqueísmo já não fosse bizarro, nas figuras do Messias, do salvador, do patriota, ele não serve para governar. A metade do “Bom”, no nosso visconde de Terralba, é aquele que recua, que desfaz, o que a outra metade ameaçou fazer na véspera.

 Mas não se tocavam. Em cada investida de fundo, a ponta da espada parecia dirigir-se rumo ao manto esvoaçante do adversário, cada um parecia obstinado em atacar o outro na parte em que não havia nada, isto é, na parte onde ele próprio deveria estar

Na adaptação de Brandão, o personagem de Medardo, num gesto cênico de grande carga emocional, explodia dizendo não saber mais quem é, fugindo então das duas personas, admitindo-se apenas como o ator que interpretou aquelas duas partes antagônicas na dureza de um espetáculo teatral. No livro de Calvino, ao fim do duelo de espadas, o sangue das duas metades acaba por unir o Bom e o Mesquinho, transformando-o numa pessoa comum, com suas idiossincrasias forjadas na sua inteireza.

O problema do nosso visconde é que ele não pode fugir mais da persona que assumiu, que são duas, mas também uma só. Ao atacar, é contido pelas forças fiscalizadoras da República. Ao defender-se, agride sua minguante base de apoio. Ele quer exterminar, mas não pode. Ele quer fazer-se de passional, de familiar, de cordato, de comedor de leite condensado, mas isso não é ele. Não lhe é natural. Quer banhar-se na piscina fria, mas isso não o conforta. Ao viajar, toma metrô e esconde a lagosta da foto, porque se quer popular e porque não se pode sofisticado. E o pior: não pode fugir, porque essa seria a pá de cal da pecha de covarde que lhe cabe tão bem.

Nunca foi alto oficial, nunca foi relevante na luta do exército contra seus moinhos comunistas de vento. Nunca teve destaque no parlamento. Quando chamado a agir da mesma forma como discursa – virulento, vingador -, fugiu, ficando sem uma moto e sem sua arma. Está partido ao meio, porque representa, aos dois extremos, a verdade que lhe corrói, e a mentira que lhe sustenta. Mas o presidente é um só. Em sua fraqueza, nem poderá ser o Medardo do livro, muito menos seguir o destino de Medardo do espetáculo teatral. É apenas um medíocre visconde. Isso mesmo que está aí. Por sua inépcia, por sua inexperiência, por sua incompetência, atacou um canhão de frente, levando um balaço que apenas parece ter-lhe partido ao meio. Mas é um só, saído de uma adaptação muito ruim, sabe-se lá de que obra.

João Dulci é Doutor em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e e Políticos (IESP-UERJ) e Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Colabora com a Escuta.

Imagem disponível em http://www.grupogalpao.com.br/partido/ Fotografia de Guto Muniz e Casa da Foto

Notas

[1] Esta e todas as outras citações (inclusive aquelas em itálico) são de: CALVINO, Ítalo. O visconde partido ao meio. Rio de Janeiro, Ed. Companhia das Letras, 2002 – paginação irregular [e-book].