Iani Panait*

Em entrevista para o Canal do Youtube “Na lata com Antônia Fontenelle”, no dia 6 de fevereiro de 2017, Eurico Miranda, presidente do Clube de Regatas Vasco da Gama, deu mais uma declaração polêmica que passou batida em meio ao momento efusivo pelo qual o clube em que comanda está passando, com a expectativa da chegada de Luis Fabiano, assim como em virtude do bom momento vivido pelas equipes cariocas.

Na referida entrevista, que poderia ser matéria prima para diversos tópicos interessantes, tais quais a laicidade do Estado, o racismo e a situação desportiva nacional – sobretudo com a concessão do Maracanã para a Odebrecht – foi notória uma contradição do mandatário Vascaíno, que enaltece a luta do Vasco pela inserção do negro no futebol brasileiro e o pioneirismo da instituição quanto a criação do departamento de futebol feminino, ao passo que trata com segregacionismo a entrada do homossexual no esporte.

A entrevistadora questionou Eurico sobre uma frase que teria dito no passado, onde afirmou que “futebol é coisa para homem”. Após o questionamento, Eurico Miranda sustentou que não teria nada contra gay e apenas seria contra na hipótese da partida ser apitada por um árbitro gay, quando teorizou que pela orientação sexual do árbitro, ele favoreceria o time adversário tendo em vista que ele sempre priorizaria defender o seu namorado, afirmando ainda que todo gay tem namorado.

Nessa infeliz entrevista, Eurico retomou antigos jogos de palavras homofóbicos, falando que não tem problema com gays, mas sim com a “bicha extrovertida” que favoreceria não o rival, mas “o namorado dela”. Eurico Miranda é conhecido por ser um dirigente de futebol que não tem filtros, falando o que pensa na hora que bem entende, o que faz de si uma imensa caricatura, figura retrógrada na sociedade, mas que ainda parece se apresentar como hegemônica no futebol brasileiro.

Em outra entrevista ao jornalista Jorge Kajuru, em 2011, pelo canal pago Esporte Interativo, o mandatário cruzmaltino, à época presidente do Conselho de Beneméritos durante a gestão de Roberto Dinamite, já havia dado uma resposta aparentemente homofóbica, ao comentar sobre o também jornalista esportivo Renato Maurício Prado, na época do SporTV, onde o vascaíno disse que este teria “problemas com Freud”.

Como o próprio Eurico sustenta em suas falas, é difícil ver um dirigente negro no futebol. Mais difícil ainda é ver uma mulher em cargo de direção, sendo as que trabalham na parte administrativa das instituições relegadas a posições secundárias. No entanto, no esporte, o maior tabu dentre as opressões é para com o homossexual. Uma questão esquecida e que, quando ganha a superfície, é sumariamente apagada ou ridicularizada.

A fala de Eurico Miranda é um grande exemplo da ausência de um debate sério sobre a homossexualidade no futebol brasileiro, da falta de empatia e da inércia pessoal de toda uma classe de dirigentes em tornar a acessibilidade do atleta viável. Um grande caso trágico no cenário futebolístico mundial foi o suicídio do jogador inglês Justin Fashanu que, em sua carta quando do ocorrido, escreveu: “Me dei conta de que havia sido condenado. Não quero mais ser uma vergonha para meus amigos e minha família […]”. No contexto brasileiro, um dos casos mais famosos recentes foi a carreira do jogador Richarlyson, então no São Paulo, que foi “sumariamente acusado”, como se crime fosse, de ser homossexual.

Novamente no Estado de São Paulo, dois associados foram excluídos do quadro de sócios do Paulistano, recusando a associação de um casal de rapazes pelo simples fato de serem gays, denotando uma certa repulsa que o ambiente desportivo sente pelo homossexual que decide enfrentar o status quo machista, homofóbico e racista. No Brasil, o único debate de maior impacto recente sobre o tema foi durante a Copa do Mundo de 2014, quando a torcida brasileira, no Itaquerão, começou a gritar “ôô bicha” durante o tiro de meta do goleiro adversário, postura duramente criticada por jornalistas e atletas.Kadj Oman, no texto “enterrem meu coração na curva do tobogã”, que viralizou na internet e foi divulgado pelo jornalista Juca Kfouri, declara:

“Pra piorar, reflexo da mudança no perfil de quem frequenta a arquibancada, a cada tiro de meta vinha aquilo que quase me fez ir embora ainda no primeiro tempo:– Ôôôô… bicha!

A torcida do Corinthians nunca fez isso. Não a torcida na qual eu cresci. Havia homofobia, claro, há em todo o futebol e em toda a sociedade. Não é culpa da classe média branca, parcela da população à qual pertenço, inclusive. Mas nunca houve essa necessidade coletiva de expressar ódio a cada tiro de meta. De institucionalizar a prática para sempre. Qual é o próximo passo? Agredir quem estiver de rosa? Em um jogo contra o Figueirense, foi embora a desculpa esfarrapada do “é provocação com o São Paulo, é só brincadeira”. Se eu gritasse “ôôôô… macaco!” seria provavelmente agredido na arquibancada. E quase fiz isso, só pra ver a reação. Mas preferi não me passar por racista e comecei a entoar, sozinho, e conquistando algum apoio e alguns risos ao redor: (sic)”

 

Mas o que poderia fazer não apenas o Vasco, que neste mês foi o responsável pelo assunto, mas também os outros clubes, que também não estão imunes a estas situações? É possível tornar o espaço do clube – e não somente o futebol – mais diverso e inclusivo?

Um dos grandes entraves dos clubes brasileiros tramita no âmbito do Direito Civil: os antigos, censitários e hierarquizados estatutos, que editados sob a luz de ideias conservadoras e retrógradas mantém o clube e os torcedores reféns de uma elite esportiva local. E é esse estrato hierarquizado e conservador, sobretudo através dos imutáveis conselhos de beneméritos, que os mantém a mercê de propostas retardatárias, colocando clubes pioneiros e progressistas, como o Vasco da Gama, em posição de retrocesso. A irresponsabilidade pela fala de dirigentes que estimulam segregação social, preconceito e, até como no caso inglês, mortes, num momento onde a sociedade brasileira está tensionada acerca do debate sobre homofobia, é mais um dos motivos para o descrédito que vem passando o esporte brasileiro, mantendo-se como uma instituição que não acompanhou seu tempo, apesar de ser um dos grandes subprodutos da cultura brasileira, como bem destaca Wisnik, em “Veneno Remédio”.

Urge um debate no interior das instituições sobre a edição de resoluções internas que venham a ensejar práticas contrárias a homofobia ou incentivos para que atletas e torcedores, que são gays, se assumam e tenham o suporte dos clubes. Se está na identidade do Vasco a adoção de valores progressistas e de inclusão, não pode o Gigante da Colina ficar refém desta elite esportiva, devendo o clube colocar que o atleta ou torcedor – ou profissional, no caso dos árbitros – são tão associados e sujeitos de direitos quanto os outros. O argumento de Eurico Miranda se faz tão totalizante e infantilizado que não é nem digno de que seja rebatido, merecendo apenas o destaque para demonstrar ao público o quanto rotineiro e hegemônico é esse tipo de discurso em nossa sociedade. Sobre o tema, o advogado Robert Melo, gay e torcedor do Corinthians, coloca:

“Eu acho que o futebol brasileiro é bastante excludente quanto as comunidades LGBTS. Não acredito que seja algo impossível de mudar por que acho mesmo que a grande mudança está nos próprios clubes. Seria importante que a conscientização viesse dos clubes de futebol, sobretudo, por que acho que são parte fundamental do próprio esporte. Por isso, se houvesse um ou dois clubes capazes de ‘sair do armário’ em defesa da diversidade e de seus torcedores excluídos, talvez o cenário mudasse mais rapidamente”

Deste modo, é fundamental destacar que na mudança e inserção do homossexual no esporte as equipes devem ter papel fundamental, editando normas, criando mecanismos de participação e entendendo que há, de fato, uma cultura de homofobia, tanto na arquibancada, quanto no interior das instituições, que incentivam a prática já reiterada na sociedade. Ainda que a correlação de força no interior dos clubes seja desfavorável, não é possível mudar sem a sua direta participação.

*Iani Panait é mestrando em Ciências Sociais na PUC-RIO, além de colaborador da Escuta.

Imagem disponível em https://metaforafc.wordpress.com/tag/eurico-miranda/ Acesso em 28/02/2017

 

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