Wallace Andrioli Guedes*

O último mês de maio marcou o cinquentenário do lançamento de Terra em Transe nos cinemas brasileiros. Primeiro filme de Glauber Rocha realizado após o golpe de Estado que derrubou João Goulart da presidência, essa obra-prima se encontra totalmente impregnada pelos acontecimentos políticos de então, formando com O Desafio (1965), de Paulo César Saraceni, e O Bravo Guerreiro (1968), de Gustavo Dahl, uma espécie de trilogia amarga da ressaca das esquerdas com a tomada do poder pelos militares. Todos esses filmes são protagonizados por personagens de classe média, intelectuais progressistas engajados em alianças com as classes populares visando romper com estruturas arcaicas do país – o latifúndio, o coronelismo, o autoritarismo das direitas etc. E os três protagonistas vivem a frustração da derrota política, do fracasso dessas alianças, da manutenção de velhos poderes.

Apesar de sua narrativa transcorrer no fictício país de El Dorado, Terra em Transe é incompreensível se deslocado do contexto político (profundamente brasileiro) no qual foi produzido. Glauber busca implodir, no interior de seu filme, a concepção nacional-popular que dominara não só a política como a arte de esquerda entre as décadas de 1950 e 1960. Marcelo Ridenti define tal concepção a partir de uma matriz romântica e revolucionária, que vê o homem do povo – no caso brasileiro, o sertanejo e o favelado – ao mesmo tempo como detentor da força transformadora/ construtora da nova sociedade brasileira (modernizada e socialista, distante do fetiche consumista) e carente de consciência política, necessitando, assim, da atuação de uma vanguarda (intelectual, de classe média) que o desperte. O insucesso dessa parceria diante da avassaladora derrota das esquerdas em 1964 explica Terra em Transe politicamente. O filme narra a trajetória do poeta e jornalista Paulo (Jardel Filho), que rompe com seu antigo protetor, o caudilho conservador Porfírio Diaz (Paulo Autran), para se engajar no que vê como caminho para a revolução popular: a eleição do líder populista Vieira (José Lewgoy), apoiado pela dita burguesia nacional (encarnada no personagem de Paulo Gracindo). Mas essa última e o povo abandonam Vieira, que, fraco como Jango, é derrotado por um golpe de Estado comandado por Diaz.

É interessante observar duas recentes apropriações de Terra em Transe, por atores políticos distintos, mas, ambas, objetivando comentar o Brasil contemporâneo. A primeira diz respeito à coluna de Arnaldo Jabor no jornal O Tempo, em agosto de 2014, por conta do aniversário de morte de Glauber. Jabor, também cineasta, que fez parte do Cinema Novo, se dedica a analisar a cena mais célebre do filme, a do lançamento da candidatura de Vieira à presidência. Nela, síntese audiovisual da crítica feita por Glauber ao nacional-popular, diferentes setores da sociedade de El Dorado celebram, em êxtase carnavalesco, o líder político. Até que Jerônimo, um sindicalista, é instado a falar, já que considerado pelos presentes a encarnação do povo: “Eu sou um homem pobre, um operário, sou presidente do sindicato, estou na luta das classe, acho que tá tudo errado e eu não sei mesmo o que fazer. O país tá numa grande crise e o melhor é aguardar a ordem do presidente…” Jerônimo tem a boca bruscamente tapada por Paulo: “Estão vendo o que é o povo? Um imbecil! Um analfabeto! Um despolitizado! Já pensaram Jerônimo no poder?”

Para Jabor, ferrenho crítico do Partido dos Trabalhadores, Glauber acabou antecipando o governo Lula nessa cena: “No filme Terra em Transe […], ele realizou a primeira análise profunda e profética para o pensamento da esquerda oficial. Trata-se da cena em que (para quem viu o filme) uma escolinha de samba dança em volta de um demagogo populista (o genial Modesto de Souza) e o herói revolucionário do filme (Jardel Filho) agarra um sindicalista burro que falava sobre o Brasil, dizendo bobagens, tapa-lhe a boca e olhando para a plateia diz: ‘Este é o líder sindical Jerônimo; já imaginaram Jerônimo no poder?’ Não deu outra. Estamos vendo o resultado.” É claro que Jabor, como espectador, tem direito de projetar sentidos na arte que consome, mas, principalmente por se tratar de alguém que conviveu com Glauber, artística e pessoalmente (e que faz uso dessa convivência para legitimar argumentos de seu texto), tal interpretação soa desonesta, já que completamente descontextualizada. O cineasta e analista político parece juntar, toscamente, o populismo criticado em Terra em Transe ao lulismo/petismo, como se fossem manifestações de um mesmo fenômeno. Desconsidera, por conseguinte, que Lula e o Partidos dos Trabalhadores nascem politicamente se contrapondo, na esquerda, justamente ao trabalhismo janguista: o PT significa na política brasileira algo bastante distinto do pensamento nacional-popular, por se constituir como agremiação formada pelos próprios operários, em torno das demandas deles e liderada por alguém de tal classe. A vanguarda intelectual deixa de ser, portanto, a locomotiva que carrega e conscientiza o povo.

Essa é, aliás, uma dimensão que Jabor, bem como Nelson Rodrigues, seu constante interlocutor – em texto publicado à época, no jornal Correio da Manhã, no qual diz que “de repente, o filme esfrega na cara da plateia esta verdade mansa, translúcida, eterna: o povo é débil mental. Eu e o filme dizemos isso sem nenhuma crueldade. Foi sempre assim e será assim eternamente. O povo pare os gênios, e só. Depois de os parir volta a babar na gravata” –, ignoram em suas análises de Terra em Transe: a crítica principal de Glauber na referida cena não é ao povo “imbecil”, “analfabeto” e “despolitizado”, mas ao gesto autoritário de Paulo, o intelectual que cala a boca do operário, por se considerar o verdadeiro portador da verdade desse último. Não à toa, logo em seguida outro popular entra em cena, retira a mão do protagonista da boca de Jerônimo e toma a palavra: “Um momento! Um momento, minha gente! Um momento! Eu vou falar agora. Eu vou falar. Com a licença dos doutores, Seu Jerônimo faz a política da gente, mas Seu Jerônimo não é o povo. O povo sou eu. Que tenho sete filhos e não tenho onde morar!” Ele logo é interrompido por gritos de “extremista” e passa a ser brutalmente agredido por capangas de Vieira.

Outra apropriação recente de Terra em Transe se deu por setores da esquerda, no contexto do impeachment da presidenta Dilma Rousseff. A ascensão de Michel Temer ao poder foi repetidamente comparada, nas redes sociais, ao clímax do filme de Glauber, no qual Diaz concretiza seu golpe contra a democracia e é coroado, enquanto discursa alucinado: “Aprenderão! Aprenderão! Dominarei esta terra! Botarei essas histéricas tradições em ordem! Pela força, pelo amor da força! Pela harmonia universal dos infernos! Chegaremos a uma civilização!”. Trata-se aqui de uma apropriação mais livre, que, apesar de também desconsiderar as diferenças históricas dos dois momentos, não tem a pretensão de ser uma espécie de interpretação oficial de Terra em Transe ou de seu controverso diretor. E, no fim das contas, a comparação entre Diaz e Temer não deixa de fazer sentido: são duas lideranças políticas arcaicas, portadoras de discursos conservadores, que, apoiadas pelas elites empresariais, sobem ao poder após a derrocada de um governo de esquerda. Glauber escancarou em Terra em Transe sua interpretação da atuação das forças que levaram o Brasil aos acontecimentos de 1964, mas deu destaque mínimo aos militares, protagonistas do golpe sobre Jango. Diaz, nesse sentido, e considerando o desenrolar da história brasileira, parece mesmo um prenúncio do futuro, passível, portanto, de ser comparado de forma descompromissada a Temer.

De qualquer maneira, conclui-se dessa breve análise a permanência de Terra em Transe como um filme politicamente potente, cinquenta anos após seu lançamento nos cinemas. Um filme ainda em disputa, complexo, permissivo a interpretações múltiplas que dialogam com o Brasil contemporâneo – e provavelmente dialogarão com Brasis futuros. Nelson Rodrigues, em outro trecho da crítica no Correio da Manhã, aponta justamente para essa força de Terra em Transe: “Terra em Transe era o Brasil. Aqueles sujeitos retorcidos em danações hediondas somos nós. Queríamos ver uma mesa bem posta, com tudo nos seus lugares, pratos, talheres e uma impressão de Manchete. Pois Glauber nos deu um vômito triunfal. […] E qualquer obra de arte para ter sentido no Brasil precisa ser essa golfada hedionda”.

* Wallace Andrioli Guedes é Doutor em História na Universidade Federal Fluminense, além de colaborador da Escuta.

** Crédito da imagem: imagem disponível em <http://www.ims.com.br/ims/visite/programacao/terra-em-transe-uma-fome-de-50-anos&gt;. Acesso em: 07 jul. 2017.

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