Wallace Andrioli Guedes*

Alguns críticos norte-americanos vêm comparando Sully: O Herói do Rio Hudson, novo filme de Clint Eastwood, ao cinema de Howard Hawks, diretor da era clássica de Hollywood que, trafegando por gêneros diversos, recorrentemente contou histórias sobre homens persistindo na necessidade da realização do trabalho que lhes cabe. A comparação faz sentido, já que Sully acompanha o célebre episódio, ocorrido em janeiro de 2009, do pouso forçado de um avião no Rio Hudson, em Nova York, pelo experiente piloto Sully Sullenberger (aqui interpretado por Tom Hanks). É a ética hawksiana da obsessão pela tarefa cumprida e da valorização do trabalho em equipe que move o protagonista. Esse último aspecto, aliás, está presente não só no discurso de Sullenberger no filme, que sempre ressalta a importância de seus companheiros de voo, passageiros e tripulantes, para o êxito de uma empreitada quase impossível, mas também no destaque que o próprio Eastwood dá a essas figuras, sobretudo ao copiloto Jeff Skiles (Aaron Eckhart), apresentado como um homem tão admirável quanto o protagonista. Não à toa, é dele a última, e excelente, fala do filme.

Sully dá continuidade aos esforços recentes do cinema de Eastwood por investigar a constituição do heroísmo norte-americano. Forma, nesse sentido, uma espécie de trilogia com J. Edgar (2011) e Sniper Americano (2014), todos centrados em personagens da história contemporânea dos Estados Unidos. E Howard Hawks parece ser mesmo uma chave adequada para compreender como o diretor enxerga essas figuras: J. Edgar Hoover e Chris Kyle também são, em suas respectivas cinebiografias, homens totalmente dedicados ao cumprimento do trabalho que lhes foi demandado. A diferença está na natureza desse trabalho. Como as tarefas executadas por Hoover e Kyle estão ligadas ao poder e à guerra, eles surgem em J. Edgar e Sniper Americano localizados numa zona cinzenta; são heróis dúbios, sombrios, até trágicos.

Esse não é o caso de Sullenberger, trabalhador de classe média que presta um serviço importante para o funcionamento da sociedade e que, no limite, é responsável por salvar vidas (sem causar nenhuma destruição no caminho, como faz Kyle). Daí ele ser um personagem menos nuançado, delineado mais claramente por Eastwood – e que parece feito para, hoje, ser interpretado por Tom Hanks, como seria, na Hollywood clássica, por James Stewart ou Henry Fonda, todos atores muito associados à imagem do norte-americano médio, ordinário, mas portador de valores considerados fundamentais para uma suposta superioridade moral dessa sociedade.

A partir da perspectiva do homem comum como síntese do que há de melhor na América, seria de se imaginar uma representação grandiosa de Sullenberger e de seus feitos. Mas, nas mãos de Eastwood, essa história gera um filme pequeno, discreto, de uma sobriedade que é recorrente na carreira do diretor. Não há em Sully momentos claramente construídos para emocionar – os que existem parecem surgir na tela quase como decorrência natural do tipo de episódio narrado – ou grandes discursos colocados nas bocas de seus personagens. Nesse sentido, vale voltar à fala final do filme, uma piada absolutamente prosaica feita por Skiles, encaixada por Eastwood e pelo roteirista Todd Komarnicki num espaço que realizadores mais óbvios (ou ao menos mais propensos a uma dramaturgia chorosa, como Steven Spielberg) ocupariam com um grande clímax emocional. Como vale citar as referências ao 11 de setembro, inevitáveis, necessárias, mas feitas com absoluta discrição, apenas numa cena (que traz simplesmente pessoas observando com espanto um avião cruzando os céus de Nova York) e num diálogo. Eastwood, portanto, leva para a forma de Sully a maneira como enxerga seu protagonista.

O filme tem problemas, é verdade. Eles se concentram sobretudo na dificuldade de lidar com um episódio que, além de breve, produz consequências dramáticas também limitadas. Isso leva o diretor a repetir esse episódio ao menos três vezes ao longo de pouco mais de uma hora e meia de narrativa – e a derradeira repetição parece realmente desnecessária, considerando que a sequência completa do pouso forçado no Hudson, filmada e montada com a precisão que se espera de Eastwood, é apresentada por volta da metade de Sully e marca o ápice do filme. Mas é difícil reclamar do todo. Mesmo sendo claramente uma parte menor de uma filmografia formada por algumas obras-primas, Sully tem ainda o mérito de se mostrar coerente com essa filmografia, estética e tematicamente, ao mesmo tempo que não deixa de fazer um contraponto a Sniper Americano, no sentido de funcionar como apaziguador de ânimos depois da explosão de controvérsias causada pela cinebiografia de Chris Kyle. A um protagonista extremamente complexo, detestável para muitos, se seguiu, na obra de Eastwood, um que é praticamente impossível não amar.

* Wallace Andrioli Guedes é Doutor em História na Universidade Federal Fluminense, além de colaborador da Escuta.

 

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