Naiara Damas*

Quase cem anos desde seu lançamento, o livro O Outono da Idade Média (1919) de Johan Huizinga (1872-1945) continua a ser relido com grande interesse. Nas últimas décadas, sobretudo, quando houve uma espécie de Huizinga-revival, inúmeros foram os historiadores que se dedicaram a refletir sobre as razões que fizeram dessa obra um clássico da historiografia, ao mesmo tempo em que propunham um debate sobre a “atualidade” de Huizinga para os estudos históricos. Em campos tão diversos como a História da Arte, a Teoria da História e a “Nova” História Cultural, prestar contas com os “erros” e “acertos” da opção de Huizinga por criar a imagem de uma Idade Média “outonal” com um estilo imaginativo e uma prosa com acento poético significava também a oportunidade para uma espécie de autoanálise da profissão historiadora: entre o passado e o futuro de uma ciência fundada sobre alicerces vacilantes, O Outono da Idade Média aponta para algumas das tensões permanentes associadas ao desejo simultâneo de compreender e narrar o passado.

Desde sua publicação, O Outono foi recebido com reticências pela comunidade acadêmica. Celebrado pelo grande público por seus méritos “literários”, Huizinga foi, ao mesmo tempo, acusado por seus colegas historiadores de ter produzido “um belo livro, mas não História”. Para muitos críticos, o “método” e o estilo narrativo adotado por Huizinga teriam dado à sua obra um ar estranhamente “antiquado”. Da perspectiva da historiografia medieval que estava sendo produzida na Holanda no começo do século XX – que privilegiava documentos oficiais para tratar de questões econômicas e institucionais –, O Outono aparecia como um livro que havia nascido “velho”, uma relíquia dos tempos em que a Idade Média era um assunto para o romantismo literário, marcando assim o seu pertencimento ambíguo ao campo da História acadêmica. Mesmo que com o passar do tempo a opção de Huizinga por uma História da Cultura voltada para o estudo das sensibilidades, dos sonhos e das representações culturais tenha se mostrado como um campo importante para os estudos históricos contemporâneos, sobretudo a partir dos anos 1980 com o advento da História Cultural, o incômodo em relação à “cientificidade” desse livro não se dissipou totalmente. Quando Jacques Le Goff, no prefácio da edição francesa de L’Automne (1975), afirmava que, a despeito de ter aberto “as portas para uma história por fazer”, Huizinga fora um “mestre do erro” por seu “esteticismo” e “diletantismo” que se refletiam nas “suas práticas mais literárias do que científicas”, o velho e persistente tema das fronteiras entre História e Literatura – que pode ser integrado à tensão mais abrangente entre arte e ciência, objetividade e subjetividade – parecia ainda regular e orientar a recepção de O Outono.

Sob essa etiqueta ambígua que oscila entre a inovação e o atraso, entre a sedução da bela prosa e a suspeita de suas concessões ao domínio do ornamento retórico, a obra de Huizinga sobre a Idade Média tardia ocupa uma posição peculiar no cânone historiográfico contemporâneo. Mas o que atrai tanto nesse livro que de tempos em tempos se revigora com novas edições? Talvez essa pergunta deva ser respondida por cada nova geração que se dispõe a se colocar sob o seu poder encantatório. O importante na notícia da reimpressão de O Outono da Idade Média, publicado originalmente em 2010 pela Editora Cosac & Naify, é sugerir que uma nova geração de leitores brasileiros ainda está disposta a estabelecer um diálogo com uma obra cuja atualidade parece residir no empenho em pensar a História como um território de fronteira para o qual convergem uma erudição criativa e uma imaginação erudita na reencenação de vidas pretéritas.

No prefácio de O Outono da Idade Média, Huizinga afirmava que o ponto de partida dessa obra “foi a necessidade de entender melhor a arte dos Van Eyck e de seus sucessores, compreendê-los em seu relacionamento com toda a vida da época”. A pergunta sobre a relação da arte flamenga “primitiva” com a “vida” de seu tempo situava o seu empreendimento historiográfico no centro de um debate que havia ganhado novo fôlego na virada do século XIX para XX: “o problema do Renascimento”. Na direção contrária à tendência de ver estes pintores como “iniciadores” de um “Renascimento Nórdico”, projetando sobre eles o brilho ofuscante do Quattrocento “solar” retratado por J. Burckhardt em A Cultura do Renascimento na Itália (1860), Huizinga insistia em ver a tardo Idade Média não como um “advento da Renascença”, “mas como último sopro da civilização medieval”. “O fervilhar de formas de pensamento antigas e coercitivas em lugar do germe vivo do período histórico seguinte, o fenecimento e o enrijecimento de uma civilização rica – esse é o conteúdo principal dessas páginas” – anunciava o prefácio de O Outono. Esse olhar para a cultura medieval tardia como um período de “decadência” permitiria redimensionar a passagem da Idade Média para o Renascimento que já não mais figuraria em termos de ruptura abrupta, nem de continuidade absoluta, mas como um processo complexo feito de retomadas e fraturas internas em que inúmeros pontos de contato indicavam a simultaneidade entre o “outono” medieval e a “primavera” renascentista. “Na busca pela nova vida que surgia, era fácil esquecer que no passado, assim como na natureza, a morte e a vida andam sempre lado a lado. Antigas formas de civilização morrem enquanto ao mesmo solo, o novo encontra alimento para florescer”. Nessa composição em que morte e vida, novo e antigo, se entrecruzam e se fecundam – fecundação esta que empresta o sentido da metáfora “outonal” do título do livro –, Huizinga esperava superar o contraste entre Idade Média-Renascimento ao dissolver a imagem “solar” da cultura renascentista em um chiaroscuro no qual os tons noturnos do outono medieval se assemelhavam aos tons alvorais da primavera renascentista a ponto de se confundirem.

Diante do objetivo de inserir a obra dos irmãos Van Eyck na vida de seu tempo, o projeto inicialmente fundado sobre uma interrogação em torno da história da arte se transforma em uma pesquisa histórico-cultural sobre o “modo de vida borguinhão” dos séculos XIV e XV através de suas formas de vida e de pensamento, como indicado pelo subtítulo de O Outono. Para acessar essas formas que compunham o “estilo de vida” abrangente da cultura medieval tardia, Huizinga fazia uma opção por um corpus documental que permitisse um engajamento com essa cultura outonal nos seus próprios sentidos, expectativas e rituais: as fontes narrativas, sobretudo na forma dos cronistas como Froissart, Chastellain e La Marche. Havia um gesto conscientemente polêmico nessa eleição. Na contramão de uma crítica histórica moderna que, investida em revelar uma história institucional e econômica através de documentos oficiais, havia se dedicado a cancelar a identificação “romântica” entre Idade Média e cavalaria, mostrando-a como um “teatro esplêndido e insincero”, O Outono acenava para a importância de se levar a sério a relevância atribuída pelos contemporâneos à ficção da cavalaria como pilar de seu próprio mundo. Se esses historiadores julgavam que o olhar ingênuo do “romantismo cavaleiresco” distorcia os “verdadeiros fatos da vida medieval tardia”, para o historiador da cultura era precisamente a incongruência entre a realidade e o sonho cavaleiresco que precisava ser investigada. “Para o conhecimento da vida cultural” – afirmava Huizinga – “a própria ilusão em que viviam os contemporâneos tem seu valor de verdade. Por mais que as formas de viver da nobreza não passassem de um verniz aplicado sobre a vida, ainda assim seria necessário que o historiador soubesse enxergar a vida no brilho desse verniz”.

O olhar para a cultura medieval através das “lentes coloridas” dos cronistas descortinava um universo marcado por um “profundo pessimismo” em relação às coisas terrenas e uma “amarga melancolia” diante de um presente incerto. Diante do cenário de um “mundo mal” em que “a chama do ódio e da vingança arde vigorosamente”, o “homem tardo medieval”, sobretudo nos círculos aristocráticos da Corte, teria encontrado refúgio na criação do “sonho de uma vida mais bela”. “Quando a realidade terrena é tão perdidamente trágica e a renúncia ao mundo tão difícil, não nos resta nada além de colorir a vida com o brilho claro, vivê-la no país dos sonhos, temperar a realidade com o êxtase do ideal”. Sob o impacto dessa “mentalidade” que aspira reconduzir a realidade mundana a uma dimensão de beleza e harmonia, recria-se “as formas de vida em formas artísticas”, levando-se a experimentar a realidade como uma espécie de “jogo social” em que o anseio por uma vida sublime era encenado por meio da “estetização da vida” e da criação de formas solenes. Nessa ritualização da vida aristocrática como um “nobre jogo” estaria, para Huizinga, a perspectiva segundo a qual a cultura medieval tardia deveria ser vista: à luz artificial e ofuscante do romantismo cavaleiresco, onde a tensão entre as formas de vida e a realidade seria incrivelmente forte.

O tema da tensão entre a realidade e sonho de vida bela, que era o ponto de partida de Huizinga, persiste e organiza todo o livro, funcionando como um elemento que provê movimento à sua imagem “decadentista” – e, em certo sentido, estática – da cultura medieval tardia. O ideal da cavalaria que sustentava as formas de vida aristocráticas estaria baseado numa espécie de “exagero do belo” – na sua dramatização cotidiana por meio de mil formalidades e ritos – e por trás dele seria possível entrever a falsidade do exagero, o artifício oneroso de manter a ilusão do sonho de heroísmo e virtude. Do desejo de evadir-se de uma realidade “dura e cruel” surgia a necessidade de conformar a vida segundo um ideal, vivendo-a como um “jogo precioso”, porém, o crescimento descontrolado desses “jogos” acabaria por petrificá-la. No final da Idade Média, era como se as formas de vida e de pensamento superdimensionadas por um formalismo rígido tivessem perdido o contato com o processo criativo que os havia gerado em primeiro lugar, sendo obrigadas a existir em uma dimensão suspensa entre o real e o sonho, na esfera de uma “ilusão” que servia como “máscara” para dissimular o desmoronamento dessa cultura. “Trata-se de uma época que amadureceu demais e feneceu”.

Era do ponto de vista desse movimento de criação e de desenvolvimento das formas culturais que a mudança histórica, a passagem da Idade Média para o Renascimento, vinha abordada em O Outono. À ideia de uma “revelação” súbita que havia aberto as portas da “harmonia dourada” da Antiguidade para “os espíritos mortalmente cansados do estilo flamboyant”, Huizinga contrapunha a imagem de um processo gradual que havia se dado “em meio ao jardim exuberante do pensamento medieval, entre o crescimento das sementes antigas”. Quando a vitalidade das “formas de vida e de pensamento” da cultura medieval começar a dar sinais de desgaste e, junto com elas, o ideal cavaleiresco for se tornando um fardo para uma “aristocracia cansada”, que consegue suportá-lo apenas com ironia e deboche, o descompasso gerado pelo ideal de “vida bela” e a realidade se tornaria o terreno de onde surgiria uma nova “fertilização”. Nesse sentido, esse descompasso gerado pela luz artificial do “sonho de vida bela” servia como tema e contra-tema de O Outono: ele era a um só tempo o sintoma de declínio de uma cultura que havia se enredado em “formas antigas e coercitivas” e o espaço em que se podia vislumbrar o “advento da nova forma”, a “virada da maré” que traria o Renascimento.

Nesse quadro “crepuscular” do final da Idade Média, a intenção de Huizinga de recriar a ficção social e estética que embalava o sonho de vida bela correspondia à necessidade de criar uma narrativa na qual o leitor fosse capaz de perceber, e em alguns casos até sentir, o que significava viver em uma época dominada pela forte tensão entre sonho e realidade. Com um estilo evocativo, por vezes atravessados de sugestões sinestésicas, a prosa huizinguiana sugere um empenho em engajar o leitor na atividade de evocar imagens e, desse modo, “experimentar” o passado. Se a vida medieval era descrita como uma minuciosa performance da “grande arte de viver” apresentada sob o pano de fundo de um “mundo mau”, Huizinga conduz o leitor a colocar-se na posição de espectador desse “exuberante espetáculo”. Assim, muito mais do que uma questão de “bela forma”, o investimento em uma narrativa visualmente orientada em O Outono desempenhava uma papel epistemológico central para a reconstituição da “sensibilidade” da época medieval, oferecendo-a na forma de uma experiência estética de leitura fundada sobre a combinação entre imaginação e análise, comparação e analogia, imagem e conceito, em um processo caracterizado por Huizinga como um “pensar através de representações visuais”.

Em certa ocasião, Huizinga descreveu O Outono da Idade Média como um “álbum de imagens”, um “mosaico”. Essas metáforas são sugestivas na medida em que lançam luz sobre o que ele considerava ser a tarefa e o “método” da História da Cultura. Se o seu objetivo era apreender como “as variadas formas e funções da cultura (…) se condensam em figuras, motivos, temas, símbolos, ideais, estilos, sentimentos”, o resultado dessa empresa historiográfica deveria ser a composição de tableaux vivants nos quais essas formas vinham “coloridas com uma descrição vívida” e iluminadas “com sugestão visionária”. Em O Outono essa combinação entre uma pesquisa morfológica que se dirige para síntese dos fenômenos particulares em uma “gramática cultural” e a orientação para ver e fazer ver o passado com os olhos da imaginação serviu para criar uma obra prima que oferece uma abertura singular para alguns dos problemas centrais, e persistentes, do conhecimento histórico.

Nesse sentido, a obra de Johan Huizinga sobre o “outono” da Idade Média pode ser lida como o testemunho de um esforço em produzir uma história em que a potência cognitiva das imagens se coloca como lugar de resistência contra a aridez dos esquemas gerais que correm o risco de reduzir as experiências do passado aos jogos engenhosos da abstração. Operando com maestria no entre-lugar que constitui a história como “um belo amálgama, um elétron com o dourado da arte e a prata da ciência” – projeto que regula toda a sua obra como historiador da cultura –, Huizinga propõe que a tarefa do historiador deveria ser aquela de tornar o passado inteligível ao oferecê-lo como um “drama” atravessado de indeterminação, sonho e beleza. E essa “dramaturgia” que mais uma vez se coloca diante dos leitores oferece, a cada nova geração, a possibilidade de renovar os seus sentidos no horizonte sempre expansivo do gesto de ler, e reler, aquelas obras que a memória disciplinar incorpora entre os seus “clássicos” como “tesouros de coisas magníficas”.

* Naiara Damas é Professora do Departamento de História da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e colabora com a Revista Escuta.

** Crédito da imagem: <http://www.popmatters.com/post/127853-johan-huizingas-homo-ludens/> Acesso em: 25 mai. 2016.

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