Jorge Chaloub*

“Na rua do Tijolo, bloco 5, aquele de esquina,

morou uma enfermeira com a chama vital de Ana Karenina.

Dirá um dodói que Tolstói era chuva demais pra tão pouca planta.

Ô trouxa, heroínas sem par podem brotar na Rússia ou lá em Água Santa” (Lupicínica)

Assim como a enfermeira da música Lupicínica, Aldir Blanc era um herói “sem par” de certo Brasil. Das rodas de samba às novelas da Globo, dos saraus universitários às páginas de jornais, o poeta nos possibilitou um novo olhar sobre nós mesmos. Sua obra traz as marcas não apenas da música, mas do esforço de pensar na periferia, em mais de um sentido, que nos obriga a lidar com um permanente descompasso entre as referências estrangeiras e a experiência cotidiana. Ou para falar em termos mais próximos de Aldir, entre a filosofia e o boteco.

José Miguel Wisnik[1] escreveu sobre a particular mistura entre o popular e o erudito em certa música popular brasileira, capaz de compor saberes diversos em um todo rico e orgânico. Se cabe à sociologia ou à literatura a construção de grandes imagens do Brasil nos primeiros 50 anos do século XX, a partir da década de 1950 a canção popular passa a ocupar um papel de destaque nesse cenário, preocupada em expressar, conhecer e inventar um Brasil. O Prêmio Nobel dado ao grande Bob Dylan por essa mesma virtude, vista como excepcional  no cenário musical internacional, poderia, sem nenhum exagero, ser dado a alguns dos grandes protagonistas da nossa canção popular[2].

Em meio a esse conjunto fantástico, Aldir ocupa um lugar de destaque. Não que valha a pena perdermos tempo em hierarquias sobre o melhor letrista brasileiro, destinadas apenas a quantificar o que não se quantifica. Nada menos pertinente. É inegável, entretanto, que o poeta foi capaz de, como poucos, construir uma vastíssima obra onde a cultura erudita e a popular se misturavam, em movimento onde tanto a os grandes cânones do pensamento ocidental poderiam tomar uma cerveja no Bip-Bip, como os gênios das nossas ruas ganhavam lugar no Louvre. O poeta sabia como ninguém as dores e delícias da escrita nos entrelugares[3].  Deve-se ressaltar que esse movimento de Aldir não se faz com didatismo. Suas letras são intrincadas, muitas vezes difíceis de serem compreendidas à primeira audição. A simplicidade dos elementos, feitos com experiências populares, compõe um mosaico complexo, repleto de sentidos e muito distante do óbvio. Nas palavras do próprio autor: “Aqui é cúmplice o que é simples e absurdo” (Simples e Absurdo).

Tal esforço transcorria nas críticas às nossas misérias e na releitura da nossa história. O ronco de fome da cuíca (Ronco da Cuíca) era a outra face, quase necessária, da consagração do herói João Cândido (Mestre Sala dos Mares). Aldir também se distinguia pelo esforço de retomar personagens anônimos da vida carioca e brasileira, imortalizados com seus próprios nomes – “Oswaldo Tintureiro (…) Pica-Fumo, Ivo e Zorba Devagar, Miúdo, Eli Campos e Jair Cubano, Alcides, no cantinho da fofoca nacional’, em “Botafogo, Chão de estrelas” – ou como personagens dos verdadeiros épicos do compositor. Em “Siri recheado e o cacete”, por exemplo, Anescarzinho do Salgueiro vira o “compadre Anescar”, personagem dessa odisseia blanquiana[4]. Se essas características revelam seu pertencimento a uma tradição Nacional Popular, de busca de um país perdido em meio a um discurso autoritário oficial, elas não deixam de subverter essa  própria linhagem ao destacar a pluralidade onde se via, muitas vezes, unidade.

Como o próprio Aldir sempre apontava, esse olhar para o mundo partia de certo Rio de Janeiro. Em seu belo livro sobre o Rio de Janeiro, “Cidade Porosa”, Bruno Carvalho conta a história da cidade a partir da Cidade Nova, justamente o endereço de parte da juventude de Aldir, ao lado de outras temporadas na próxima Vila Isabel. O lugar seria particularmente marcado por trocas étnicas, circulação de conhecimentos e uma porosidade entre o erudito e o popular, marca de escritores, como Machado de Assis e Lima Barreto, e músicos, como Pixinguinha e Ernesto Nazareth. A porosidade não ofusca, segundo Carvalho, as violências e profundas desigualdades desse mundo, mas ressalta sua potência. Aldir vem desse cenário e faz o mesmo movimento que todos esses grandes personagens. Sua genialidade não decorre da negação das suas experiências sociais, mas justamente do modo pelo qual interpretou e recriou esse mundo.

O mundo onde o eu-lírico das letras se confunde com o autor, e o relato da experiência com a verdade, não é o mundo de Aldir. Ele não expunha o Rio de Janeiro “de verdade”, mas o que ele criou a partir da sua vida e que, ironicamente, passou a se tornar inseparável da imagem da própria cidade. Ou é possível pensar o Rio sem Saudades da Guanabara, Santo Amaro, Valsa do Maracanã, Feminismo no Estácio, Delírio Carioca, Canário da Terra, Tiro de Misercórdia, Encontros Cariocas, Praça Mauá: Que Mal Há?, Só dói quando rio ou tantas outras? Em suas letras, contos e crônicas, todos cheios de humor e ritmo, ele cria uma geografia fantástica e afetiva do Rio – em chave próxima a autores como João do Rio, Machado de Assis e Lima Barreto[5] – que modifica o próprio modo pelo qual percebemos esse mundo. Como em Garcia Marquez e Cortazar, há algo de fantástico em suas letras, não, é claro, no sentido da negação do real, mas da revelação de outras lógicas subjacentes a ele. Mesmo público, esse é um mundo criado por Aldir. O Rio encantado é e não é real: “Todas as lendas são assim: pra relembrar o que não aconteceu” (Lendas brasileiras).  História e memória se confundem na voz do seu narrador, como ele próprio diz em “Paquetá, Dezembro de 1956”:

“Ah, o que eu me lembro pode não ter sido tão fielmente o fato acontecido

Essa é a sina que assassina e salva qualquer narrador (…)

Mas não tem importância, a vida é uma festa

Eu quis apenas cantar seresta

Eu fumei no preto, e bebi uns tragos do escocês

Vocês não precisam acreditar que um dia aconteceu tanto em Paquetá, dezembro de 56”

 

A conjunção entre o erudito e o popular, que o fazia rimar “alicce” com “Nietzsche” (Par ou Impar) ou “Tolstoi” com “dodói” (Lupicínica), não se limita, entretanto, ao puro prazer estético, que ela sem dúvida proporciona. Era o modo de dar conta de um país tão heterogêneo, marcado por tantas influências e dotado de tantos tempos. Sua lírica era também um instrumento para construir uma visão de Brasil desejosa de interpretar conjuntamente o “Brasil” e o Brazil”, ambos inseparáveis de uma experiência de país na qual “O Brazil não conhece o Brasil, O Brasil nunca foi ao Brazil” (Querelas do Brasil).

Em nenhum lugar isso fica tão explícito como nas famosas metáforas, centro do seu lirismo tragicômico e de um tipo muito particular de humor e crítica. A tarde cai como um viaduto ( Bêbado e o Equilibrista), os faróis de um carro viram “luas gêmeas”  (Vida Noturna), as lágrimas que saem dos olhos viram “meteoro e fogo” (Nítido e Obscuro), “a velha mágoa é moça temporã” (Coração do Agreste), a terra “racha pela beira feito cabaço de freira” (Baião de Lacan), as bocas mudam as versões “feito as toalhas de um bar” (Flores de Lapela), Macunaíma anda de pedalinho como um “cisco no olho azul da Lagoa” (Delírio Carioca), o peito vira uma lona de circo armada (Saudades da Guanabara), “a alegria de quem está apaixonado é como a falsa euforia de um gol anulado” (Gol Anulado), dentre tantos outros exemplos possíveis, que poderiam encher algumas páginas. Ele transmuta a lírica de um Orestes Barbosa e a ela adiciona o humor ácido de Noel Rosa e Geraldo Pereira, tudo isso entremeado com escatologia e palavrões, marca das ruas, mas também da sua paixão pela literatura americana de meados do século XX. Na obra de Aldir, os contrários criam imagens de um equilíbrio inconstante e rico, um equilíbrio de antagonismos[6],  hábil para retomar o passado sem um olhar de antiquário, pois se “a tradição é lanterna”, ela também é “moderna” (Cabô, Meu Pai) e o que se quer é “nítido e obscuro” (Nítido e Obscuro), trecho onde o médico psiquiatra revela suas contribuições ao poeta.

Há uma metafísica na obra de Aldir, mas ela é imanente, entrevista em uma lírica das ruas, que revela o absurdo e o sublime no cotidiano. Como em Nelson Rodrigues, o absurdo não decorre do inédito, mas de uma outra forma de ver o cotidiano. Tal como em Becket, o absurdo não é a ausência e sim a pluralidade de sentidos, recurso necessário para compreender a diversidade do país.

O Aldir narrador, não apenas nos contos, mas também nas letras, demonstra bem isso. Seja no narrador do insólito, exemplar em “Siri Recheado e o Cacete”, no que explicita a fala que subjaz a letra, casos de “Amigo é pra essas coisas” e ‘Resposta ao tempo”, ou no que descreve uma história de amor, como em “Santo Amaro”, há sempre um esforço de construir uma cenário mais amplo a partir dos fragmentos do cotidiano. É como se ele buscasse reconstruir um país por ele vivido e imaginado a partir dos pequenos acontecimentos. Mesmo o futebol, tão importante na vida e obra de Aldir, não aparecia a partir da narrativa grandiosa, mas da pelada (Par ou Impar) ou das brigas em torno dos apaixonados anônimos pelos times (Incompatibilidade de Gênios, Gol Anulado).

Os vastos recursos de Aldir não se esgotam nas metáforas ou narrativas. Leitor de Guimarães Rosa, ele cunha neologismos como “Maravimentirosa” (Delírio Carioca). Ficcionista em seus contos e canções, ele constrói personagens como a mulher de Coisa Feita ou Esmeraldo Simpatia é Quase Amor, que saiu das suas páginas para nomear um dos mais tradicionais blocos de Carnaval do Rio de Janeiro. Ele também faz de “personalidades” personagens de suas canções, como Nelson da Capetinga (Par ou Impar) ou o Paul Simon “tentando se proclamar, gerente do Mafuá”, na Limoeiro de “Baião de Lacan”. Cultor de Augusto dos Anjos, de quem parodiou “Vandalismo” em seu “Bandalhismo”, Aldir é também capaz de compor letras que poderiam figurar com galhardia em qualquer página do simbolismo nacional.

“Não o rubrancor da vergonha,

mas os rubros de ataduras,

o rubro das brigas duras

dos galos de fogo puro,

rubro gengivas de ódio

antes das manchas do muro.” (Galos de Briga)

 

Não há como terminar esse texto sem refletir, mesmo brevemente, sobre o sentido da morte desse “herói sem par” em uma conjuntura tão trágica. Uma possível leitura aponta para a morte de um certo Brasil, assolado não apenas pelo fascismo bolsonarista, para quem os “velhos não servem”, mas também por uma lógica da mensuração e quantidade, típica da racionalidade neoliberal, que é simplesmente inconciliável com o tempo de Aldir, capaz de paixões e desmedidas (Resposta ao tempo). Dentre seus pares à esquerda, por sua vez, a capacidade de falar por várias e diferentes vozes, central em uma obra que busca  representar personagens das margens, encontra crescente resistência. O nacional-popular gauche do compositor não transitava tranquilo no mundo atual.

Penso, todavia, que é possível olharmos de outro modo. Um bom caminho é ouvir Aldir sobre a atual conjuntura. Parceiro de indiscutíveis gênios da música brasileira, fundamentais para a grandeza de sua obra – como João Bosco, Guinga, Moacir Luz, Cristovão Bastos e Maurício Tapajos – ele iniciou recentemente parceria com o ótimo sambista Douglas Germano, em demonstração de que não se refugiava nas glórias do passado, mas continuava a olhar com atenção para o país de hoje. Desse encontro, nasceu “Valhacouto”, um preciso diagnóstico do Brasil bolsonarista, com:

“Crianças matando, imitando tiras

Vale da morte, estupidez

Chacais arrancando na marra valor

De gente que nem trabalhou

Escroques, laranjas, fantasmas, vilões”

 

A comparação com certa Alemanha – “Foi na Alemanha que a escumalha Faz armas virarem leis” – poderia parecer exagerada em 2019, mas se revela precisa nos tempos de hoje e talvez sugira um caminho em meio a catástrofe, de várias dimensões, do presente. Talvez a saída, tal como fazia Aldir, seja dar novo sentido e lugar para as experiências que nos constituem. Em tempos onde o fascismo grassa em todos os lugares, é necessário encontrar também na nossa própria história e experiência, com todos os seus problemas, um caminho para inventar outro Brasil.

*Jorge Chaloub é um dos editores da Escuta.

Foto de Luís Alberto/Agência O GLOBO, disponível em https://blogs.oglobo.globo.com/blog-do-acervo/post/fechei-o-consultorio-da-noite-para-o-dia-depois-de-um-show-do-joao-bosco-resgatamos-uma-entrevista-de-1976-com-aldir-blanc.html

Notas

[1] Dentre as várias vezes que ele escreveu nesse sentido, podemos indicar, por exemplo alguns textos de Sem Receita, Publifolha.

[2] Antônio Carlos Miguel fez a mesma sugestão em post no seu facebook.

[3] A referência é o conceito de Silviano Santiago sobre o pensamento latino-americano.

[4] A informação está no perfil biográfico de Aldir, de Luiz Fernando Vianna.

[5] Alberto Mussa reforça essa linhagem em reportagem no Globo.

[6] A referência é ao conceito utilizado por Ricardo Benzaquen para compreender o Gilberto Freyre dos anos 1930.