Maria Abreu*

Por acaso, assisti ao filme The Invisible Woman (o título em português é Nosso Segredo), de 2013, sobre a relação de Charles Dickens, o mais conhecido escritor da Inglaterra vitoriana, com Ellen Lawless Ternan, amante com quem manteve relacionamento nos últimos 13 anos de sua vida. O filme é dirigido por Ralph Fiennes, que também atua como o próprio Dickens e tem Felicity Jones no papel principal, de Nelly. Como obra de arte, não considero que o filme tenha algo de excepcional, a não ser sua direção de arte, mas a cuidadosa narrativa conduzida por Fiennes é extremamente didática para colocar em evidência as profundas desigualdades de gênero existentes na lei e na moral da época e seus efeitos nocivos.

Nelly chega atrasada em um compromisso com George Robinson, seu marido, em um ensaio de uma das peças de Dickens em sua casa, e o conhecimento profundo, em detalhes, de sua obra levanta a questão sobre como aquela senhora tinha aquele conhecimento. A justificativa pública era a de que ela o havia conhecido quando criança e, por isso, havia prestado tanta atenção em suas obras. No entanto, a angústia de Ternan e suas misteriosas caminhadas apontam para algo não mencionado. Buscando trazer à tona o que possibilitou seu contato com Dickens, a narrativa principal é feita em segundo plano, na forma de memórias.

Nelly era filha de atores e iniciava na carreira de atriz, perto dos seus 18 anos, quando conheceu Dickens, que, aos seus 45 anos, já era um escritor bastante conhecido e reconhecido no circuito público. Na condição de jovem que tinha contato com a produção que lhe era contemporânea, conhecia bem vários textos de Dickens e o contato direto com o autor lhe causou encanto. Dickens também ficou impactado no seu encontro com Nelly, em quem viu a possibilidade de uma nova vida, que já não tinha mais com a sua esposa, que por sua vez havia perdido o deslumbre e a energia para acompanhar a vida de celebridade de seu marido.

Nelly e Charles não demoram a se perceberem correspondidos. Diante da evidência da atração mútua, sua mãe, viúva e provedora de três filhas, se preocupa com seu futuro. E daí começam a aparecer os limites dentro dos quais homens e mulheres podem circular. Nelly e Charles iniciam um relacionamento que rende barulhentos rumores em uma Londres na qual o escritor era uma das principais atrações, como ator e autor de teatro, leitor público de obras, jornalista e escritor inclusive de novelas seriadas – provavelmente o primeiro a escrever nesse formato, ao menos que tenha alcançado grande reconhecimento do público – nos jornais. A maledicência leva Dickens a separar-se de sua esposa, sem poder, no entanto, assumir publicamente seu relacionamento com Ellen.

Para Charles Dickens, Ellen Ternan representava liberdade, e a moral da época não impediu que vivessem uma parceria intelectual e amorosa. Embora ela tenha tentado preservar sua liberdade e preservar a autonomia de seu destino, suas alternativas não se apresentavam muito viáveis: ela não era boa atriz, carreira na qual a rede de contatos de sua família, ainda que pobre, poderia ajudar, e vinha de uma família pobre, cujo único patrimônio era sua arte. Embora reprovasse o estilo da vida de Charles e, de alguma forma, sonhasse com o casamento, em sua forma pública, a sedução de uma vida ao lado de um homem cuja inteligência e talento ela admirava, e além disso, cujo patrimônio lhe garantiria uma vida sem precariedades materiais, e até mesmo com algum luxo, acabou produzindo seus efeitos. Em sua vida juntos, Nelly era uma das primeiras leitoras da obra de Charles, e o aconselhava a respeito das tramas de suas narrativas. Apesar de terem tido um envolvimento e uma vida conjugal genuína, Nelly, enquanto foi parceira de Dickens, permaneceu nas sombras.

Por sorte, pôde iniciar uma nova e, ao menos materialmente, boa vida. Mas seu passado ficou, ao menos até aquele momento, nas sombras, e assim tinha de ser, pois, mesmo tendo o seu primeiro amante falecido, aquela sua vida pregressa não seria plenamente aceita. Na moral daquela Inglaterra, viúvas e viúvos não podiam ter novos casamentos, deveriam viver de luto. Mulheres que viviam relações extraconjugais estavam para sempre a viver fora dos círculos sociais considerados decentes. A regra legal e moral, obviamente, não era observada nas relações amorosas que, de fato, aconteciam. O resultado era uma população feminina que levava uma vida não aceita pela sociedade. Algumas se prostituíam, outras conviviam irregularmente com seus amantes, sendo julgadas por toda a sociedade. Neste ponto, é preciso destacar: nem mesmo Nelly está tranquila em sua situação. Foi uma escolha cujos efeitos a incomodam tanto moralmente quanto eticamente. A própria Nelly não parece convencida de que tudo aquilo está correto, de seu ponto de vista. Preocupa-se com sua reputação e vive a angústia de parte de sua vida ter de ser levada nas sombras. O casamento, no filme, é relatado pelas mulheres do filme – e também na própria caracterização das relações familiares de Dickens – como uma união de tanta solidão, que Ternan, ao encontrar Dickens e também a vida materialmente tranquila que ele poderia lhe proporcionar, acaba cedendo.

Não somente Nelly permaneceu invisível, mas a própria história de Ellen Ternan ficou comprometida. Na wikipedia, versão de língua inglesa, ela aparece apenas como amante de Charles Dickens[i]. Sua vida se tornou conhecida a partir do livro escrito por Claire Tomalin. Em 2013, o roteiro adaptado foi dirigido por Fiennes, em uma produção da BBC. Charles Dickens não perdeu sua popularidade, já adquirida em vida, e continua sendo o escritor mais representativo da era vitoriana. Seus personagens continuam sendo interpretados, especialmente na Inglaterra. No entanto, Nelly, que Dickens teve como parceira, inclusive intelectual, teve parte de sua história, ainda em vida, relegada à sombra. Por anos, teve um passado que não podia narrar, nem mesmo para os seus mais íntimos. Sua influência começa a ser apontada na obra de Dickens em 1933, quando já não havia mais qualquer pessoa da família Dickens a se incomodar com aquela história, que ganhou um público maior com a publicação do livro de Tomalin, em 1990 e, mais tarde, com a realização do filme, em 2013.

A invisibilidade vivida por Ellen Lawless Ternan não é algo raro na história de mulheres que foram esposas de grandes escritores, artistas e políticos, que abriram mão, muitas vezes, inclusive do desenvolvimento de seus próprios talentos para ser a esposa deles. O que, então, a história de Dickens, tal como filmada, tem de especial? Dickens estava longe de ser o homem mais conservador de sua época, e não seria exagero afirmar que tinha uma perspectiva generosa do mundo, sem, contudo, ser otimista. A partir do que é narrado no filme, pode-se dizer que ele se esforçou para evitar alguns custos que Ellen deveria suportar. Nesse intento, ele mesmo se viu limitado e tendo de adequar seus desejos à moral da época. O machismo, as convenções de gênero e o controle moral da sexualidade fizeram com que mesmo ele, um homem com todas as condições de subverter as regras, não pudesse fazê-lo. Ellen suportou, sem dúvida, os maiores custos da relação que ela e Charles viveram. Ele não deixou de ser Charles Dickens, embora tenha tido parte significativa de sua vida impedida de aparecer em público. Ela perdeu para sempre a possibilidade de narrar livremente a própria história. Provavelmente ambos gostariam de ter vivido, em público, um relacionamento vivido entre iguais, em sua intimidade. O machismo e o sexismo exigiram deles, que não quiseram abrir mão dessa vida de igualdade, que não pudessem vivê-la em público. Neste aspecto, perdeu Ternan, certamente, mas também perderam Dickens, seus filhos e todas as pessoas que conviveram com eles. Machismo e sexismo, quando não matam, produzem meias-vidas. Quanto de humanidade já perdemos?

* Maria Abreu é cientista política, professora do IPPUR/UFRJ e colaboradora da Escuta.

Notas:

[i] https://en.wikipedia.org/wiki/Ellen_Ternan

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