Sonia Lino*

A pandemia alterou nossa percepção do tempo; o isolamento social alterou nosso espaço. Apelidamos este momento de “novo normal.” Mas, sem conseguir mensurar ainda a extensão do “novo”, ocupamos o tempo e o espaço com os prazeres adiados pelo “antigo” normal.

Literatura ficcional e autores que aguardavam há anos para serem lidos, se tornaram personagens de meu “novo” normal. Toni Morrison é uma delas.

Primeira mulher negra a ganhar o premio Nobel de literatura em 1993, o livro inicial foi Amada de 1987[1]. Considerada uma obra-prima da literatura norte-americana do século XX, devo dizer que “obra prima” é um título plenamente justificado. Amada é um livro que preenche todos os critérios do que Ítalo Calvino[2], chamou de um clássico.

Amada trata da violência, especificamente, da gênese da violência nas Américas com a prática da escravidão africana. Nada muito inovador não fosse a forma e a estrutura narrativa construída pela autora para tratar do tema. Em Amada, a violência humana é jogada para fora dos limites da escravidão que relata, torna-se atemporal e o fato da trama transcorrer no Ohio, Estados Unidos no ano de 1873, funciona apenas para humanizar a personagem central, ex-escrava e, portanto, não humana aos olhos do sistema escravocrata.

Se pensarmos nos acontecimentos de final de maio deste ano nos Estados Unidos com o assassinato do cidadão negro, George Floyd, com traços de sadismo e tortura pela polícia e nas reações que se seguiram mundo a fora contra o massacre sofrido por jovens negros em pleno século XXI; ler Toni Morrison se faz necessário se não, urgente. Sobretudo quando ao receber as imagens das manifestações antirracistas, o que vemos para além do alcance global que tiveram, foi também seu caráter multiétnico.

A personagem central de Amada, Sethe, é uma ex-escrava que vive na casa da sogra com a filha, Denver, e os fantasmas do passado que marcaram seu corpo, e principalmente, sua mente. Fantasmas que, eles também personagens do livro, se materializam e interagem com as personagens da casa, ditando e alterando as regras do convívio dos habitantes. Marcada física e mentalmente pela violência da escravidão e pela ira que a tomou no passado, Sethe, embora livre legalmente, não consegue se livrar das amarras e cicatrizes no presente narrado.

Para o leitor, no entanto, Morrison não estabelece nenhum tipo de concessão. Amada é um livro difícil. E a dificuldade está na escolha que a autora faz de narrar a partir do que seria o universo mental de personagens marcados pela violência e pela dificuldade de se inserirem na nova condição de libertos. Personagens carentes de todo tipo de limites representativos ou simbólicos do mundo que deveriam se inserir.

O tempo narrado não é linear, é o tempo da memória dos personagens que, como toda memória, é entrecortado e subjetivo. E no caso, recheado de lembranças físicas e repressões, formando um quebra cabeças que o leitor deve montar. As peças, por outro lado, são feitas de diversos materiais e apresentadas por diferentes personagens e pontos de vista. Entrecortada e sem uma lógica aparente, por vezes nos perguntamos, “é isso mesmo que estou lendo ou não é bem isso que ela quer dizer”? A subjetividade do leitor, também presente em toda leitura, é posta em questão. Não há espaço para julgamentos ou para dar um sentido para além do que os personagens oferecem. Não existe distinção entre causa e efeito, realidade ou fantasia, passado ou presente, só a narrativa polifônica e entrecortada. A autora só se faz presente em reflexões poéticas extraídas do horror sugerido pelo relato. Talvez esta seja de fato a intenção de Morrison, nos jogar no lugar dos personagens. Libertos que só conheciam a experiência da escravidão e das marcas do tratamento recebido até aquele momento. A abolição não apagou o passado nem lhes ofereceu oportunidade para reconstruir seu presente muito menos interpretá-lo para além dos sentidos físicos.

Aos poucos o leitor vai se familiarizando com este outro ritmo, vai compondo a imagem de uma espécie de Medéia negra que sobreviveu a sua própria tragédia e arrasta seus fantasmas até conseguir acalmá-los com a ajuda da única filha que conseguiu criar ao seu lado, Denver. Não é um livro fácil.  Assemelha-se ao aprendizado de uma língua estrangeira. No começo duvidamos do que lemos, da compreensão das palavras, do sentido que imaginamos ter as sentenças. Com a continuidade começamos a dominar os conteúdos e desenvolvemos certa habilidade com os sentidos, mas por mais que nos dediquemos e estudemos ao ponto de considerá-la uma segunda língua, nunca seremos nativos.  O que nos leva à expressão “lugar de fala”.[3]

O lugar de fala que Toni Morrison imagina para uma escrava recém liberta nos Estados Unidos do séc.XIX, é também seu próprio lugar de fala, suas raízes, seus fantasmas de violências ancestrais, que apesar das várias camadas de letramento e de ter conquistado o maior premio literário do ocidente, precisavam ser enfrentados, aceitos, mas não apagados.

Ocupar o lugar de fala é o primeiro passo de um longo caminho na direção de um policentrismo cultural. É necessário que criemos também um “lugar de escuta” onde possamos traduzir as diversas falas e permitir o enfrentamento os fantasmas que insistem em nos sufocar. E aceitar, enfim, que nunca seremos nativos. Cada um com seus fantasmas.

Vale lembrar que Amada foi adaptada para o cinema em 1998, filmado por Jonathan Demme. No Brasil recebeu o título de Bem-Amada e tinha nos papeis principais Oprah Winfrey (Sethe), Danny Glover (Paul D) e Kimberly Elise (Denver).[4]

Notas:

[1] Amada; Ficha Técnica: Título original: BELOVED
Tradução: José Rubens Siqueira
Páginas: 368
Lançamento: 27/08/2007
Selo: Companhia das Letras

[2] CALVINO, Ítalo. Por que ler os clássicos? São Paulo, Cia das Letras.

[3] RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? 2019. São Paulo, Pólen.

[4] https://www.imdb.com/title/tt0120603/

 

* Sonia Lino é Professora aposentada do Departamento de História Universidade Federal de Juiz de Fora e colabora com a Revista Escuta.

** Fonte da imagem: Photograph by Sara Krulwich / NYT / Redux. Acesso em: 16/07/2020.