Fernando Perlatto*

Ontem, dia 31/05, a conjuntura política do país deu uma nova volta. Se em meio ao caos da pandemia, tinha-se a impressão de que as ruas seriam politicamente ocupadas apenas pelos fanáticos bolsonaristas, com seus gritos autoritários e sua retórica de ódio contra as instituições democráticas, ontem assistimos às primeiras mobilizações significativas em defesa da democracia. No mesmo dia em que Bolsonaro participou mais uma vez de uma manifestação em Brasília contra o Supremo Tribunal Federal (STF), integrantes de torcidas organizadas de times rivais em São Paulo e no Rio de Janeiro se mobilizaram pelas redes sociais e ocuparam as ruas com discursos e faixas antifascistas.

As manifestações de ontem representam um movimento importante no tabuleiro da conjuntura atual. As respostas até o presente momento às investidas autoritárias do governo Bolsonaro e dos bolsonaristas radicais estavam vindo sobretudo do Judiciário – em especial do STF – e, em menor medida, do Legislativo. De setores da sociedade, temos assistido à divulgação de abaixo assinados e notas de repúdio. Ainda que documentos como estes tenham a sua importância – sobretudo quando bem articulados a partir de uma frente ampla, a exemplo do recém-lançado “Manifesto Estamos JUNTOS#”, que já conta com milhares de assinaturas, da campanha #Somos70porcento e do compartilhamento de imagens antifascistas –, eles parecem muito pouco para deter a marcha autoritária que segue seu curso. A presença nas ruas de grupos da oposição confere carne e corpo aos movimentos de resistência: têm uma enorme importância simbólica e mostram aos grupos autoritários que milhares de pessoas estão dispostas a ocupar o espaço público e lutar em defesa da democracia.

Ainda não é possível prever o que virá desses acontecimentos. Uma nota preocupante diz respeito à resposta violenta das polícias militares aos atos. É fato mais do que conhecido a forte presença do bolsonarismo entre as forças policiais militares, que são aquelas que lidam diretamente com os manifestantes. A intensa repressão policial às mobilizações – algo já tão frequente no histórico de protestos no Brasil – pode ganhar novas dimensões caso segmentos da polícia, com motivações políticas, ampliem a violência contra os manifestantes. O diálogo entre o deputado bolsonarista Daniel Silveira (PSL-RJ) e um policial militar, captado ontem durante os protestos no Rio de Janeiro, na qual este diz que mandou queimar as faixas pró-democracia é um indício forte desse possível desdobramento.

A resposta violenta dos policiais militares aos atos tende sempre a gerar uma maior agressividade por parte dos manifestantes. A isso se soma a presença de setores mais radicalizados entre aqueles que protestam e a possível infiltração de segmentos de extrema-direita, com o intuito de provocar maiores tumultos, que justifiquem uma repressão mais agressiva. Aos bolsonaristas este cenário interessa bastante, na medida em que retratar as manifestações antifascistas e pró-democracia como violentas pode abrir caminhos para se legitimar o aumento da repressão policial, com a retórica em defesa da lei e da ordem.

De todo modo, o que é importante registrar é que as manifestações de ontem representam um passo essencial no movimento de resistência ao autoritarismo bolsonarista. É fundamental que os movimentos de rua não se esgotem em si mesmos, mas se articulem de forma mais orgânica com as resistências que se constroem no plano institucional, sobretudo no Legislativo, com os partidos de oposição, de modo que à agenda da resistência contra o retrocesso bolsonarista e em defesa da democracia se some uma pauta propositiva para se enfrentar e se superar o caos que se vive hoje no país.

Um dos principais desafios que coloca nesse sentido é como fazer para que manifestações como aquelas que ocorreram ontem ganhem uma amplitude ainda maior, a partir da mobilização de outros setores da sociedade. A necessidade do isolamento social em tempos de pandemia, é claro, coloca dificuldades para esse processo. Mas, talvez, este seja também o momento de as forças democráticas se reinventarem e descobrirem novas práticas de mobilização e novos “repertórios” para suas manifestações.

Se é fato que o avanço do fascismo deve ser brecado com a resistência das instituições e com abaixo-assinados e notas de repúdio, ele não poderá prescindir de uma presença cada vez mais significativa das pessoas nas ruas. O espaço público não pertence aos fascistas e cabe aos setores democráticos, ainda que com os cuidados que o momento forçosamente impõe, também disputá-lo e ocupá-lo.

* Fernando Perlatto é um dos Editores da Revista Escuta.

** Crédito da imagem:  Pam Santos/Fotos Públicas.