Luís Falcão*

Suzane von Richthofen estarreceu a opinião pública brasileira quando fez uma opção: o dinheiro dos pais pela vida deles. Se pudéssemos suspender o juízo moral nessa situação, como tentavam os fundadores do utilitarismo ainda no século XVIII, diríamos apenas que trata-se de uma escolha puramente racional, isso é, dado que ela prefere dinheiro à vida de seus progenitores, é perfeitamente racional cometer o assassinato para ficar com a herança, se, e somente, ela não for presa e, pela legislação brasileira, perder a herança. Se tivesse dado certo a estratégia dela, possivelmente não conheceríamos essa história e ela teria alcançado seu objetivo. Mas há uma série de características que não podemos inferir: o quanto ela tinha apreço pelos pais? Ela era indiferente à vida deles e só queria o dinheiro? Ou, contrariamente, ela, na verdade, gostaria da morte deles ainda que deixassem dívidas ao invés de riquezas? Nesse último caso, o dinheiro que ela ganharia seria apenas um efeito colateral que beneficiaria ela mesma, ou, em economês, uma externalidade positiva (supondo que ela goste de dinheiro). Vamos fazer um esforço de manter a racionalidade estritamente utilitarista e amoral, mas antes um exemplo.

Na Alemanha nazista, as operações básicas de aritmética eram ensinadas nas escolas colocando os problemas em contexto nacional, muitas vezes com números reais. Para o bem do argumento, vamos apenas pensar em números brasileiros aproximados. As últimas estatísticas apontam que cerca de 46 milhões de pessoas no Brasil possuem deficiência de algum tipo ou situação de extrema pobreza. O gasto per capta gira em torno de R$ 850 anualmente e não consegue dar conta do volume. Perguntemos aos alunos do regime nazista: “Quanto o Estado brasileiro gasta para manter vivas essas pessoas?” R$ 39 bilhões, em números arredondados. “Quantas escolas poderiam ser construídas?” Sejamos realistas: “Quantos hamburgueres Madero poderiam ser comprados?” Algo como 1 bilhão e 300 milhões.

O número a ser escrito na prova é julgado por si mesmo, afinal, trata-se de uma pergunta de matemática básica. O que uma singela operação de aritmética tem a ver com as opções políticas de um país? Crianças que cresceram nos anos trinta na Alemanha não tinham alternativas senão acreditar e, pior, introjetar que esse montante de gastos não vai para o lazer, a educação, os aparelhos públicos nem sanduíches Madero. Logo, é racional, como a Suzane, deixá-los morrer (porque a execução em massa também tem um custo financeiro). Se fingirmos que somos capazes de responder indiferentemente à pergunta do gasto público àqueles que mais necessitam, poderíamos entender a Suzane e, de lambuja, diríamos qual seria o número aceitável de mortes para manter a economia “funcionando” (observem as aspas). Certamente, aqueles capazes de dizer um número aceitável de mortes seriam alunos exemplares desse sistema educacional.

Quando o Jornal Nacional enfileira economistas dos últimos governos, desde Sarney, para concordarem entre si e com o editorial da Globo, contrário à insanidade de Bolsonaro, é porque a barreira do absurdo foi rompida há muito, e nem nos demos conta. É claro que uma fala simultânea de Armínio Fraga, José Roberto Mendonça de Barros, Maílson da Nóbrega e outros defendendo que é eminente uma política fiscal expansionista, e sem lastro, pode abrir uma falha no tecido tempo-espaço. Mas isso ensina alguma coisa, que o discurso civilizatório introjeta o óbvio: é preciso salvar vidas. Mas se os mortos forem os pais de Suzane e quem decide quem vai viver ou morrer for a Suzane? Ou então, se o controle sobre os dispositivos que podem mitigar as mortes estiver nas mãos de Suzane? Parece razoável que ela deva se remeter a alguma autoridade superior, talvez, àquelas pessoas que sustentam esses dispositivos e que vão sofrer ou se beneficiar com a inanição dos deficientes e miseráveis. Esse é um dos argumentos racionais para justificar a necessidade do Estado.

A racionalidade do assassinato dos pais encobre o terror, mas não deixa de ser racional. Afinal, se todos os deficientes e miseráveis morrerem, naquele instante, não haverá deficientes nem miseráveis. Logo, pergunte à Suzane o que fazer diante dessa crise de saúde. Não precisa, Junior Dusrski já respondeu. Se tivéssemos sido educados na Alemanha nazista também poderíamos perguntar: “quantos Robertos Justi podem morrer para a economia não parar?” Levando em consideração sua orgulhosa fortuna de aproximadamente R$ 45 milhões, e se a destinarmos ao multiplicando da expressão acima, salvaríamos 53 mil pessoas. É pouco, mas um começo. Se acrescentarmos as fortunas da Havan e Giraffas, o número aumentaria. Aliás, não falta criatividade para escolher quem deve morrer. E se o critério for a quantidade de dinheiro, cantemos a Marseillaise.

Se Suzane tivesse que se submeter a alguma autoridade superior à sua própria vontade e fosse eleita para isso não chamaríamos os Cravinhos de família, mas de governo. Desde Aristóteles sabemos que família e governo são coisas diferentes, porque uma é privada e o outro público, para mencionarmos o mínimo. Decidir entre a vida e a economia é, ao contrário do que muitos estão dizendo por aí, uma decisão política. Um país poderia decidir politicamente em deixar a doença se espalhar, poderia deixar a Amazônia queimar, poderia assassinar pobres, índios e outros impuros, acabar com garantias trabalhistas, com a ciência e a universidade etc. Aliás, todos os problemas humanos acabariam se os humanos acabassem. Seria a solução final nazista extensiva a toda humanidade? A externalidade seria a morte do coronavírus e eu não saberia dizer o que Suzane e Bolsonaro achariam disso. Lembremos que Hitler chorou o sacrifício de seu cão quando a tomada do bunker era iminente. Se o trade off, para ficarmos no economês, entre a vida e o emprego for levado à sério, deve-se saber que ele é falso, pelo simples motivo de que pessoas mortas não trabalham. Ou, voltemos duzentos anos de economia política para afirmar que o crescimento populacional é insustentável em relação ao crescimento dos empregos. Os infectologistas não decidem nada, apenas dizem que se não for feito o que falam, as consequências serão a morte generalizada. Mas aqui há um espaço mínimo, qual seja, é possível seguir os infectologistas e não Bolsonaro, e se todos fizerem isso, quem sabe ele não terá um fracasso em sua defesa da doença?

A conta de desacreditar a ciência está chegando. A ciência não pode dizer o que a humanidade vai fazer, mas pode ajudar a estimar as consequências das decisões políticas, o que fazer é simplesmente uma decisão política. O que não se pode aceitar são as afirmações de que vão morrer mais pessoas por conta da crise econômica do que pela doença, sem qualquer estudo, fonte, projeção. Não se trata de opinião, mas de pura irresponsabilidade (para sermos polidos). As repugnantes afirmações que têm se espalhado sobre a “histeria” da crise não são apenas falsas do ponto de vista científico, mas inescrupulosas do ponto de vista econômico. “As consequências que nós vamos ter economicamente, no futuro, serão muito maiores do que as pessoas que vão morrer agora com o coronavírus”. De onde saiu uma afirmação como essa? Imaginem… “O Brasil não tem condições de ficar parado assim”. Como se o resto do mundo tivesse… Diante dessas afirmativas, é bem compreensível que muitos ex-moderados proponham, quando de fato os recursos se esgotarem, saquear seletivamente as lojas: de batatas a hamburgueres envenenados, do sistema financeiro a lojas de departamento, todas elas muito bem selecionadas por critérios políticos.

Nem toda escolha política é oriunda de um custo de oportunidade. A política, como invenção humana que congrega ação, invenção e deliberação não é, desse ponto de vista, senão o modo civilizado de arregimentar os conflitos, no qual a dimensão deliberativa suspende a ciência como autoridade decisória, mas lhe dá ouvidos a fim de saber quais são os limites de suas capacidades. Poderíamos, a título de exemplo, aprovar uma lei decretando o fim da pandemia, mas, salvo melhor juízo, o coronavírus não vai respeitar e nem se importar com nossa legislação, por isso os especialistas precisam ser ouvidos e respeitados. Reduzir a política a uma escolha entre quantidade de mortos ou entre a morte e o emprego não é apenas a maior das canalhices imagináveis vindas de um ser vivo, mas é, ela mesma, uma opção política. Opção essa que instala o caos, estabelece o estado de natureza, onde não há governo, e o totalitarismo, onde há.[1] Uma das mais contundentes a aplicáveis críticas aos regimes absolutistas medievais era de que o governo é forte e autoritário demais onde ele é capaz de atuar e insipiente e fraco onde não é. Talvez a Idade Média seja a chave central para compreender esse governo, afinal, o próprio chanceler justifica muito do que fazem com alusões explícitas a esse regime do passado europeu.

Sempre podemos aceitar a hipótese de não nos prepararmos para o pior. O que a ciência pode nos dizer é a probabilidade desse pior. Por exemplo, parece fazer sentido que o Brasil hoje gaste todo seu PIB em baterias antiaéreas? Ou que nos protejamos contra uma invasão zumbi? Ou que sigamos as orientações médicas para controlar o coronavírus? A probabilidade de um seguro zumbi ser inútil é alta, mas a do coronavírus não. Não se trata, portanto, de aceitar incautamente os mandos e desmandos de especialistas em saúde coletiva, mas de, com as informações que eles desenvolvem e repassam, tomar decisões. É claro que muitos desses cientistas supõem, com certa medida de razão e uma boa dose de benevolência diante da natureza humana, que a humanidade prefere ficar viva – aliás, sem essa suposição não existiria medicina. Mas podemos questionar a validade de tal assertiva. O que diria a Suzane sobre isso? Rezaria em um templo do Malafaia para se proteger? O Malafaia rezaria em um templo para se proteger?

Os economistas que tiveram consenso no Jornal Nacional lembraram de um detalhe importante das economias nacionais com governo, ainda dentro do modelo keynesiano simplificado: governo não é igual à sua casa. Alguns se contradisseram, mas não vem ao caso. Ora, se o governo é capaz de se endividar para além das determinações contratuais impostas pelos bancos, se é capaz de emitir moeda, de pagar salários e renda básica e as famílias não são, então, governo e família são coisas diferentes. Aliás, não é ninguém menos do que Trump que está distribuindo liquidez abundante por seu país para aumentar o consumo. Comunista? Nem Olavo diria isso. (Até agora, pelo menos, mas sabe-se lá…). Alguém lembrou ontem em algum jornal que Milton Friedman, fazendo graça, respondeu a um jornalista que, em crise, somos todos keynesianos. Comunista?

Suzane chocou o mundo porque cometeu o parricídio por causa de dinheiro, Brutus tem sido elogiado há dois mil anos pelo mesmo ato. A diferença é que César era um tirano. O tiranicídio, principalmente quando o tirano é o pai, sempre foi louvado como um ato de bravura e libertação, mas para isso os filhos precisam ser virtuosos e não a mera reprodução mal acabada de seus pais tiranos. Mas nem Suzane nem Brutus estavam preocupados com a economia de seus países, talvez seja puro altruísmo dos empresários da Madero, Havan e Giraffas (e aquele cara que imita o Trump, não em dar dinheiro aos pobres, mas em se mostrar na TV), já que não precisam se preocupar com vida deles, segundo disseram. Só estão fazendo o discurso que estão, apoiando Bolsonaro e contra a quarentena, porque estão profundamente preocupados com os empregos do povo brasileiro já tão sofrido. Fica a dica: não se preocupem, pelo incrível que possa parecer os pobres brasileiros são muito mais resilientes do que vocês são capazes de supor. Em Brutus, existia um sentimento maior de restauração da liberdade. Se multiplicarmos as Suzanes, certamente, o impacto econômico será reduzido. Se não esperarmos o coronavírus fazer seu trabalho, nos adiantarmos e assassinarmos os grupos de risco em vagões de trem e campos de concentração, não arcaremos com os custos econômicos de mantê-los vivos. Mas isso requer reduzir a política a um trade off. Aliás, se Brutus estivesse entre nós procuraria a solução com um só golpe e teria girado a faca.

Não se trata de despolitizar o combate à doença, pelo contrário, mas de politizá-lo como a última forma de tentar manter alguma sanidade. Porque politizar é responsabilizar aqueles que tomam as decisões e foram eleitos para isso; é poder dizer que seguimos o presidente, vamos voltar à normalidade e morrer; é dizer, sim, que negar as evidências científicas é ser responsável por números maiores do que de genocídios e guerras. Politizar é fazer da cidadania a arma mais poderosa de combate e resistência. Desobedeçam e fiquem em casa. Nunca a desobediência civil encontrou solo tão fértil para desautorizar um mandatário e nunca os instrumentos de luta política foram tão democráticos e eficazes: fiquem em casa.

*Luís Falcão é doutor em Ciência Política (IESP/UERJ), professor da Universidade Federal Fluminense e colaborador da Escuta.

Nota:

[1] Apontei tal discussão aqui em outro momento. Ver: https://revistaescuta.wordpress.com/2018/10/31/estado-de-natureza-e-totalitarismo-as-alternativas-bolsonaristas/

Crédito de imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-03/por-que-coronavirus-preocupa-idosos# Acesso em: 28 mar. 2020