André Rodrigues*

O documentário “Arquitetura da Destruição” (Peter Cohen, 1989) detalha o modo pelo qual o nazismo se estruturou sobre uma sofisticada máquina de propaganda. Diversas análises demonstram como uma racionalidade radical, absoluta, consistia no aspecto central desse regime. Os campos de concentração seriam a expressão máxima dessa racionalidade brutal onde a vida era reduzida a mera quantidade no cálculo genocida. O que vemos em Bolsonaro é um totalitarismo de outra natureza.

As polêmicas sobre a classificação do bolsonarismo como fascismo, em geral, ou preconizam o rigor histórico (muitas vezes, frívolo), ou tentam qualificar sua posição no espectro dos autoritarismos como algo não tão extremo e ainda controlável do ponto de vista das instituições da república ou da democracia. O que defendo aqui é que o bolsonarismo é um aprofundamento do fascismo. Não chega a ser uma forma de governo: é uma pulsão de morte, de destruição. Categorias como fascismo, biopoder, necropolítica não chegam a descrever com exatidão o fenômeno, por uma questão de intensidade.

Em uma participação recente no podcast Viracasacas[1], Leandro Demori, editor executivo do The Intercept Brasil, leu um pequeno exercício de imaginação que elaborou, o qual seria um discurso hipotético de Bolsonaro caso o mesmo quisesse se beneficiar politicamente da crise do coronavírus. O texto elaborado por Demori seria o discurso de um fascista strictu sensu ou de qualquer líder político, com pretensões autoritárias, em posição de comando em uma situação de crise. O convidado do programa e os apresentadores seguiram a conversa demostrando perplexidade e revolta pelo fato de que Bolsonaro minimiza a crise, demonstrando um apego maior pelo desejo de destruição do que por consolidar as bases de seu projeto autoritário. Como é amplamente conhecido, os fascismos têm o discurso de crise, de emergência, de exceção como um elemento central de sua retórica. Uma das lições mais antigas da teoria política é que a paixão fundamental das tiranias é o medo. Uma população amedrontada por uma pandemia é um prato cheio para a legitimação de regimes tirânicos. Não faltam exemplos, na crise atual, de governantes com posturas políticas autoritárias que buscaram ampliar seus poderes com o anúncio de medidas de exceção para a contenção da pandemia. Como são os casos de Wilson Witzel, no Rio de Janeiro, e João Dória, em São Paulo, que saíram na frente e procuraram se posicionar em contraponto a Bolsonaro, com medidas de isolamento social. Na América Latina, o destaque fica para Nayib Bukele, presidente de El Salvador, que já ameaçou fechar o parlamento com uso das forças armadas e que, com um pronunciamento no qual anunciou medidas de contenção da pandemia, conquistou a simpatia até de lideranças da esquerda no Brasil.

Entre o desejo de morte, de fazer morrer, e a consolidação de uma carreira política de linha autoritária, Bolsonaro optou pela primeira opção. Em pronunciamento em cadeia nacional de televisão, na noite do dia 24 de março de 2020, depois de sucessivas declarações que apontaram para uma minimização da pandemia, Bolsonaro insistiu que o isolamento social deve ser suspenso, que as pessoas devem retornar às suas atividades, que as escolas voltem a funcionar porque as crianças não são as principais vítimas da doença, além de repetir que o coronavírus não passa de uma “gripezinha” ou um “resfriadinho” que a ele não provocaria nenhuma consequência mais grave por seu “histórico de atleta” (que, aliás, pode ser verificado em vídeos registrados em diversas ocasiões nas quais ele fez flexões em público). Não vale a pena discutir, ponto a ponto, o disparate desse pronunciamento, tendo em vista que isso vem sendo feito amplamente por diversos veículos de comunicação. O discurso de Bolsonaro está, obviamente, em descompasso com qualquer recomendação da área médica e com as experiências de outros países que têm lidado com a pandemia. Se a cartilha de Bolsonaro for aplicada, a consequência é direta: morte, o que ele deseja e luta para efetivar em seu exercício de poder.

Qualquer governante em busca de ampliação de suas bases de poder, teria uma tarefa bastante bem definida na posição de chefe do Executivo Federal: controle das entradas e saídas de pessoas do país, investimentos no Sistema Único de Saúde, no sentido de ampliar leitos de tratamento intensivo e de assegurar testagem em massa da população para a doença, além de formular um pacote de medidas econômicas para amortizar os impactos da crise. Tudo isso sendo possível pela autorização dada pelo Congresso de suspensão das metas fiscais. Uma fórmula relativamente simples para a consolidação da liderança política diante da crise. Bolsonaro faz outro jogo, por compromisso atávico com os fundamentos de sua forma de poder. Maximizar a destruição da vida pública, da existência coletiva e das vidas dos mais vulneráveis: eis o jogo do bolsonarismo.

A sede de morte e de corrosão não é um impulso incompetente, cego ou irado. É um desejo sádico e cínico. Como bem analisou a comentarista da CNN, Gabriela Prioli, ele tenta se esquivar da responsabilidade sobre os impactos econômicos da crise e, ao mesmo tempo, se o isolamento social efetivamente contiver a pandemia (como ocorrerá, tendo em vista que os governadores, em sua maioria, resolveram romper com a postura do presidente), ele reafirmará que não havia motivo para medidas de isolamento social. O resultado será o desejado: o maior número de mortes e destruição possível, seja pelo vírus, seja pela economia, uma vez que o bolsonarismo guia o leme para uma batida em retirada nos dois campos. Ao minimizar a pandemia, Bolsonaro constrange o Ministério da Saúde, que não avançou no campo da testagem em massa da população para o mapeamento da doença. O bolsonarismo controla, dessa forma, a base de dados sobre o alcance do coronavírus no Brasil. Os dados aos quais teremos acesso seguirão a fórmula da falta de confiabilidade e da subnotificação. Como ocorreu com a divulgação de que os exames de Bolsonaro deram negativos para coronavírus, sob a recusa de se apresentar os exames ao público e em um contexto em que mais de vinte pessoas de sua equipe testaram positivo tendo tido convívio próximo a ele.

As reações diante do pronunciamento da noite do dia 24 de março de 2020 são duas possíveis: a revolta e a perplexidade por parte de quem ainda possui o mínimo de compromisso com o mundo dos vivos, ou a euforia do reconhecimento por parte dos que já dobraram a curva do desejo de morte como ferramenta do tempo. Alguns podem pensar que Bolsonaro empreende uma política suicida, seguindo na contramão de qualquer consenso minimamente refletido no sentido de encontrar soluções coletivas para uma crise. Parte de seus eleitores pode ter, efetivamente, abandonado o barco, mas triplicar a aposta significa consolidar laços cada vez mais profundos com a parcela da população que compartilha de suas ideias. Aqueles que ainda tenham qualquer possibilidade de mudar de ideia, que pulem fora, porque ele não vai se dobrar e não dará qualquer passo atrás na busca por uma forma de poder que produza o máximo de destruição possível com os recursos e as circunstâncias à disposição.

É importante considerar que o discurso de Bolsonaro possui um fortíssimo apelo ao senso comum. Não ao senso comum que é fruto da deliberação e do debate coletivos (lembremos de sua postura eleitoral de não participar dos debates televisivos), mas ao senso comum narcísico, do apego às percepções ao alcance da mão. É possível supor, sendo assim, que seja um discurso que se vincule de modo muito eficaz às percepções de parcela considerável da população. “Que morram os outros antes de você!”. Este é o chamado bolsonarista: contra qualquer possibilidade de construção coletiva da vida ou de solidariedade. É um chamado ao medo, mas a um medo muito profundo, um medo que cancela horizontes para além de si.

Essa retórica também pode reverberar positivamente para uma parcela daqueles que se encontram em condições mais precárias de vida, em trabalhos informais e que não podem sobreviver um dia sequer sem vender sua força de trabalho a varejo, por cada entrega de encomendas ou bico realizado. Na ausência de políticas econômicas de proteção, alguns dos que não possuem a opção do isolamento social e que serão os primeiros atingidos economicamente pelas medidas de contenção do coronavírus podem encontrar alento nas palavras de Bolsonaro.

Hannah Arendt escreveu que o pensamento precisa ser uma espécie de arco reflexivo que parte do senso comum e a ele retorna. O bolsonarismo propõe um não-pensamento, um hiper-realismo naturalista, uma bestialização da existência humana, ele extrapola as premissas imediatas do senso comum contra qualquer possibilidade de reflexão. Ele cava um abismo sob nossos pés com nossas próprias crenças.

O resultado desse jogo pode vir a ser o afastamento de Bolsonaro, e isso parece se tornar cada vez mais necessário e urgente. Há leituras de que ele possa estar agindo como uma peça no jogo dos militares, no colo de quem cairia o poder com sua queda. Mas é difícil imaginar que esse seja o jogo de Bolsonaro, até porque ele não divide o poder com ninguém além de seus filhos. Os militares podem estar de olho nessas possibilidades e provavelmente ganharão a próxima rodada, tendo em vista que à esquerda ou ao centro não se consolidam quaisquer alternativas de poder. Não importa quanto tempo dure o poder, o bolsonarismo não quer construir nada, ele deseja destruir ao máximo enquanto puder: responsabilidade e governabilidade estão fora do imaginário de seu terraplanismo necrófilo. No rebuliço de garras, facas e armas, as palavras só chegam para emular uma ou duas frases de Donald Trump ou de Olavo de Carvalho.

O corpo de técnicos e ministros é um teatro da demolição da coisa pública, do esforço coletivo que mal havia começado a se consolidar. Nesse jogo, o lava-jatismo, o culto a Sergio Moro como liderança, não passa de bolsonarismo para as elites. Assim como a gramática da austeridade econômica financista de Paulo Guedes. Todas são faces do bolsonarismo. Talvez a própria aliança dos militares não passe de bolsonarismo para as viúvas da ditadura. Todos estão em uma posição de poder que não possui nenhuma base para além do bolsonarismo, ainda que os veículos de comunicação da grande mídia tentem lavar a sujeira bolsonarista das roupas de Moro, dos lava-jatistas, dos Chicago Boys e dos militares. Esforço inútil. Os donos do poder são bolsonaristas. La Boètie ensinou que os mais próximos do tirano são os primeiros a serem comidos. Os governadores sabem disso. O bolsonarismo e seu exercício de poder do mal banal procura salgar todo o solo político para fora do bolsonarismo: amputa, deixa sangrar, deixa morrer e cauteriza. É pasto para o gado e morte para o povo. E Deus acima de todos. Um Deus que grita: “Que morram os outros antes de você!”

Foi Hannah Arendt também que formulou a categoria política que se ajusta melhor a uma descrição do bolsonarismo: a banalidade do mal. O horror dos campos de concentração não era obra de bestas infernais. A mão que operava a máquina da morte era a do homem comum, daquele que se parece comigo ou com seu vizinho. Com o bolsonarismo estamos diante de uma forma do poder do mal banal ainda mais profunda. Sem o campo de concentração, sem guerra declarada, de cara limpa, a cara do homem comum. É a banalidade do mal em sua expressão mais extrema. O campo de concentração é o mundo, a vida é vivida integralmente sob a experiência concentracionária, o estado de exceção é vida cotidiana, é a norma (como descreveu Agamben). A máquina militar é a roda dentada da ativação do senso comum pelo hiper-realismo, pela tautologia cognitiva. A guerra é de todos contra todos (“Que morra o outro antes de você!”).

Bolsonaro precisa cair para que seja possível remover o sal que tem tornado infértil o terreno da vida política. É preciso que ele seja removido do poder para que seja possível imaginarmos novamente horizontes políticos. Assim como Hannah Arendt se perguntou como era possível seguir pensando depois do fascismo, devemos levar a sério a pergunta: como seguir vivendo apesar e para além do bolsonarismo?

*André Rodrigues é Cientista político e professor do Departamento de Geografia e Políticas Públicas do IEAR/UFF. Colabora com a Escuta.

Fotografia de Luiz Felipe Barbiéri / G1. Disponível em https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/03/18/com-mascaras-bolsonaro-e-ministros-fazem-pronunciamento-sobre-coronavirus-no-planalto.ghtml

[1] Ver https://viracasacas.com/