João Dulci*

Em 1948, Vitorio de Sica lançava, num país em reconstrução, um dos maiores clássicos do neorrealismo italiano. Ladri di biciclette, no original, é um primor do cinema. Sua beleza técnica contrasta com o sofrimento da família simples dos arredores de uma Roma ainda esburacada pela Segunda Guerra Mundial.

Numa sinopse tosca, o filme gira em torno de Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani), um faz tudo desempregado, que busca algum tipo de ganha pão para ajudar sua família, bem como de sua relação com Bruno Ricci (Enzo Staiola), seu expressivo filho, a quem a história reserva um momento de dor e decepção extremas. Em uma das muitas filas de emprego, Antonio Ricci consegue um trabalho como afixador de cartazes. O contratante exige de seus contratados que tenham uma bicicleta, embora forneça a escada. Ricci tem uma bicicleta no prego e a resgata com a venda de roupas de cama, conseguindo, assim, o bico.

Em menos de 90 minutos, acompanha-se a felicidade de Ricci com a possibilidade de fornecer algum provento para sua família. Numa cena brilhante, ele almoça com seu filho num restaurante que, mesmo simples, era algo impensável na sua vida pregressa. A alegria de Bruno Ricci, seu filho com excelente presença cênica, toma, ao longo da história, rumos que guiam a película. As coisas pareciam ir bem, até que a bicicleta de Antonio é roubada durante a afixação de cartazes. Incapaz de recuperá-la dos ladrões, ele vaga pelas vielas de Roma procurando o instrumento de seu ganha-pão, sem sucesso. Até que, numa atitude desesperada, na saída de uma partida de futebol, Ricci se aproveita da atenção difusa da multidão e tenta roubar uma bicicleta encostada numa rua sem saída. A multidão percebe. E se dá o maior drama do filme, quando seu filho o vê quase linchado pela multidão, que o humilha. Na ira da turba, cortam a audição apenas os gritos de Bruno Ricci, aos prantos: Papà! Papà! Por um gesto de qualquer humanismo, a multidão deixa que ambos sigam seu caminho. O pai, envergonhado. E o filho.

A tristeza e a crueza das narrativas do neorrealismo italiano são recorrentes. O próprio De Sica retrata a triste história de Umberto D, um idoso já sem qualquer perspectiva, cuja única companhia era seu cachorro. Rossellini em Alemanha Ano Zero mostra o que se tornaram as crianças que conviveram com os horrores da guerra e do nazismo passando pela janela de casa. Em Roma Cidade Aberta, retrata a difícil luta da resistência ao fascismo nos últimos momentos da Itália na disputa. Mesmo Fellini, já nos anos 1950, ainda traz as trapaças que a crueza da vida italiana do pós-Guerra apresenta, com os biscateiros de A trapaça, mesma verve de Mario Monicelli, no fim da década de 1950, em Eternos Desconhecidos, este com um toque de humor que lhe era contumaz[1].

Recordei-me de Ladrões de Bicicleta e de todo o contexto do neorrealismo italiano depois de ler a coluna de Mario Sergio Conti deste sábado bissexto (29/02/2020) na Folha de São Paulo. Conti, apesar de uma pequena ironia aqui e ali, o que não desabona seu texto, traz importantes dados sobre o atual cenário da chamada “uberização”. O articulista chama atenção para a pujança das plataformas, seus números e seus usuários, em contraste com a fragilidade dos seus não-funcionários (motoristas, motociclistas, ciclistas). Ainda faz o gancho com a recusa dos franceses, munidos do que sobreviveu de sua legislação trabalhista, de se sujeitar a um regime desprotegido e sem futuro. Tudo isso, a partir do gancho do filme “Você não estava aqui”, de Ken Loach.

As plataformas são apenas um meio que organiza o subemprego, fenômeno que sempre existiu no Brasil, com muita força, marcado pela desproteção legal e pela informalidade. O emprego “de carteira assinada”, protegido pela moribunda CLT, é evento cuja capilaridade é mais rarefeita do que se almejava. Sobre isso, creio que os estudos do já saudoso Wanderley Guilherme dos Santos e de Adalberto Cardoso sejam muito bons caminhos. Recentemente, Ruy Braga e Ricardo Antunes, dentre outros, têm buscado compreender o que chamam de “precarização” em tempos recentes. Embora não partam das mesmas premissas, os quatro autores contribuem com força para o debate. Há ainda inúmeros bons estudiosos do trabalho no Brasil, que não vou citar sob pena de pecar por omissão.

Parece-me sempre importante recuperar os contextos para que tenhamos conclusões um pouco mais precisas. Obviamente, isso demandaria uma densidade que não é a proposta deste pequeno rascunho. Recordo-me, porém, que uma das críticas ditas “à esquerda” à inclusão de trabalhadores ao mercado de consumo e ao mercado de trabalho ensejada pelos governos petistas residia no fato de os salários serem baixos, porque tratava-se de pessoas com baixa qualificação. Ocupações manuais, muitas vezes de baixo prestígio social, para recuperar ideias de José Alcides dos Santos, como porteiros, ascensoristas, motoristas, serviços gerais, copeiro(a)s, trabalhadores da construção civil são apenas alguns exemplos. As médias salariais, como trabalhos que retratam bem o momento demonstram (poderia citar aqui Laura Cardoso, Marcio Pochman, Pedro Souza, Marcelo Medeiros, e mesmo Jessé Souza e Marcelo Neri) rondavam entre um e dois salários mínimos. Os atrativos, além da própria ocupação, eram os chamados “benefícios”, como plano de saúde, vale refeição, alimentação e transporte, que não são contabilizados como remuneração, mas cobrem muitos dos gastos que a desproteção jogam sobre os ombros dos cidadãos.

Se houve boas críticas ao modelo construído pelos governos Lula e Dilma, há também um certo exagero ao se desconsiderar o cenário anterior e obviamente a ignorância sobre o que viria depois. Naturalmente, não havia como prever o futuro. A defesa garantista dos mínimos da CLT, bandeira que tangenciou as campanhas e os governos petistas, parecia pouco num cenário de expansão e crescimento. Já se sabia, com clareza, que a desproteção seria nociva. O que não se sabia era o apoio que ganharia de amplos setores da sociedade civil, mesmo dentre os desprotegidos. Não é raro, em conversas com motoristas de aplicativo (não há metodologia aqui, tampouco os resultados dessas conversas podem ser considerados científicos), ao perguntar se compensa, ouvir um “ah! Compensa!”.

Já perdi o pudor de perguntar quanto ganham ao fim do mês os motoristas. Eles sabem relativamente bem o quanto gastam com manutenção (!) dos automóveis e, principalmente, com combustível. Ganham em torno de 3 mil reais na cidade de Juiz de Fora (que tampouco é parâmetro para qualquer conclusão). Certa vez, um motorista me disse que largara o emprego em que ganhava 1,2 mil para dirigir como uberista. O motivo era um filho inesperado. Sua carga horária, de 12 a 14hs por dia. Um dia de descanso semanal (quase sempre esse dia é terça). Ao longo da conversa, depois de tanto dizer sobre os prós da nova função, ele disse: o problema é que não tem plano de saúde.

O plano de saúde empresarial era geralmente dividido entre os empregadores e os funcionários. Por isso, não se encontra nos planos para pessoas físicas os mesmos valores do que aqueles compartilhados, mesmo nos modelos coparticipativos. O vale alimentação ou o vale refeição, em sua grande maioria, eram arcados integralmente pelos empregadores. O vale transporte era, algumas vezes, descontado do contracheque, o que forçava o trabalhador a optar. Mas isso foi no passado. Agora, é cada um por si atrás de um volante, e o mercado por todos. Para quem possui carro, claro.

Os aplicativos de entrega são a mais clara representação do que poderíamos chamar de subemprego. A moto ou a bicicleta são dos entregadores. As taxas de retenção da empresa do app são altas (pelos percentuais que já vi, maiores até do que as dos aplicativos de entrega de gente, do tipo Cabify, Uber ou 99), e o combustível fica a cargo do dono dos meios de locomoção. Gasolina, para os motociclistas, saúde individual, no caso dos ciclistas. Não é difícil imaginar que os segundos demoram mais a entregar que os primeiros, o que resulta em avaliações piores e maior propensão a serem bloqueados dos sistemas. A isso tudo, no Brasil contemporâneo, alguns teimam em chamar de autoemprego (a Justiça já determinou em alguma instância que não há vínculo empregatício entre o app e o entregador, seja de gente ou de comida), ou mesmo de empreendedorismo. Sob esse manto, reside sempre o mantra de que, se trabalhar duro, em algum momento, serás rico. Nem que esse momento seja no ano 10.429 d.C.

Sempre se trabalhou duro no Brasil. Muitas vezes repete-se que a produtividade brasileira é baixa. O cálculo de unidades produzidas sobre o número de trabalhadores ignora o fato de que, em muitas indústrias, por exemplo, era mais barato contratar pessoas do que importar máquinas. Isso nos setores mais modernos. Nos setores de mão de obra menos qualificados, o trabalho duro beira a estafa. Impressionaram-se os brasileiros com a construção de hospitais em uma semana na China, espantados com os prédios daqui que demoram três anos entre a fundação e os acabamentos. Bem, a forma de construção, dotada de tecnologia, ajuda a entender as diferenças. Cabe às construtoras responderem sobre isso, não ao camarada que, faça chuva ou faça sol, ergue-se sobre as construções para instalar dos tijolos aos afrescos.

Somos a Itália do pós-Guerra? Obviamente que não. Nem fomos destruídos por invasões estrangeiras, nem fazemos parte do plano norte-americano de reconstrução de um continente. Estamos mais próximos de um estranho plano de autodestruição modernizadora de um país continental. Só que Bruno Ricci não verá seu pai furtando uma bicicleta para voltar ao trabalho, simplesmente porque ele não verá seu pai nunca numa jornada de trabalho de 12 a 14hs, a menos que acorde durante a madrugada.

Notas:

[1] Não me parece factível construir aqui um texto de crítica cinematográfica. A Escuta tem colaboradores muito mais qualificados que eu, como os brilhantes João Martins Ladeira e Wallace Andrioli Guedes.

João Dulci é Doutor em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e e Políticos (IESP-UERJ) e Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Colabora com a Escuta.