Eduardo Mares Bisnetto*

Num país distante de um planeta plano como uma face de um triângulo isósceles, ocorre, anualmente, a festa da carne. Para aqueles que já imaginaram tratar-se da milenar festa de origem italiana do carnevale, como ocorria nas antigas cidades inundadas de Barranquilla, Montevidéu, Rio de Janeiro ou Atlântida, adianto que a etmologia aqui é uma mera coincidência.

Para evitar qualquer confusão e dissipar analogias açodadas, explico aqui o carnevale, ou carnaval, como alguns dos antigos povos latinos do planeta Terra assim a chamavam. O carnaval tem origem veneziana. Na cidade submersa italiana, durante alguns dias, as pessoas fantasiavam-se e mascaravam-se de personas projetadas, de modo a divertir-se anonimamente em grandes aglomerados, ouvindo uma animada canção. É difícil traçar no passado sua origem, ou mesmo o lapso temporal entre a festa italiana e suas mimeses brasileira[1], colombiana[2] ou uruguaia[3]. No entanto, temos alguns registros antropólogo-arqueológicos da cerimônia.

Em linhas gerais, o carnaval latino reunia centenas de milhares de pessoas nas ruas, bailando seus corpos quase nus ao som de canções. Essas canções eram ditas como atualizações de estilos barrocos acompanhadas por instrumentos de percussão de matriz africana[4]. Um antigo pupilo e amigo teceu algumas observações sobre a variante brasileira desta festa. Dizia ele, abusando dos vernáculos em latim, que a festa permitia uma saída de um arremedo de civilidade e da conformação a um comportamento socialmente esperado. Durante um período definido, as pessoas se permitiam projetar como outras personas, adquirindo assim comportamentos a elas estranhos. Em antigos registros fonográficos é possível perceber que, de forma cantada ou lamentada, esse comportamento permissivo – com prazo pré-determinado – foi caro a muitos cancioneiros locais.

Curiosamente, é de um antigo território europeu de matriz prussiana que vem uma interpretação parecida. Um teatrólogo, em livros sobre teoria da atuação, dizia que o ator deve ser cínico o suficiente para conseguir espaços ou janelas de transformação das personagens em títeres temporários, estendendo assim seu controle sobre a atuação. Em síntese, a vertente brasileira do carnevale permitia que pessoas, travestidas de atores, fantasiassem-se de personagens, numa profunda mutação de comportamento, através de uma janela temporal definida.

Nesses rituais amplificados pela multidão, não são raros os registros de uso prolongado de substâncias etílicas e de opioides, elementos necessários para que os ditos “foliões” animassem seus longos eventos. Até hoje é possível encontrar, no fundo do mar, resquícios alegóricos dessas intensas celebrações.

Desbastadas as confusões com o que não vamos falar, passemos agora ao assunto deste registro de pesquisa: a festa da carne distantina[5]. Há três grandes fluxos prático-conceituais relevantes a serem tratados. Descrevê-los-ei de forma tópica, mas individualizada.

As grandes marchas rituais

Se há um nítido ponto de contato entre o carnevale brasileiro ou uruguaio e a festa da carne distantina é o hábito de marchas coletivas. Confesso minha dificuldade de marcar origens comuns para esse esforço coletivo, mas nitidamente, através de pesquisas documentais com textos mimeografados e fac-símiles de arquivo, percebo dois grandes movimentos.

O primeiro, que é causa e resultado do seguinte, envolve marchas expiatórias de multidões trajando branco, segurando apetrechos nitidamente religiosos (uso o termo apenas para clarear a analogia). Os sem números de pessoas cantam hinos de louvor, sempre rumando para algum monte ou templo de concreto. Ao chegar, discursos são passionalmente bradados pelo guia espiritual, lembrando a todos os presentes que muitos haviam morrido para salvá-los, a despeito de todos os erros que aquelas pessoas insistem em cometer. Ao final das celebrações ritualísticas, enquanto canções são executadas com instrumentos de corda ou movidos a correntes elétricas, dezenas de membros daquelas congregações recolhem moedas e doações para a manutenção dos montes, dos templos ou da vida dos guias. Pelos montantes recolhidos, percebe-se a devoção dos presentes e os altos custos de manutenção dos montes, templos e da vida dos guias espirituais. Montes, templos e guias espirituais não precisam pagar tributos ao presidente-rei-autocrata de país distante. É impressionante como, mais uma vez, nota-se a extrema benevolência desse grande líder junto ao seu povo.

O segundo movimento de marchas rituais de país distante ocorre sempre alguns meses antes da festa da carne enfim ter início, uma diferença nítida para o primeiro movimento, muito embora seja possível afirmar que os frequentadores das duas marchas sejam quase sempre as mesmas pessoas. Recordo-os de que a preparação para o kula, conforme descrito por meu querido mestre Malinowski, também demorava muitos meses, o que trazia certa ansiedade aos partícipes, como traz aqui.

Ressoa-me sólido dizer que, enquanto o movimento acima descrito executa uma expiação coletiva, o segundo antecede-a. No entanto, descrevo-o aqui, e não antes, porque minhas investigações indicam um nítido ciclo que se inicia com a salvação espiritual anterior, para que se reinicie o calendário festivo com o movimento aqui descrito. De certa forma, há um chamamento de cunho ritual-religioso para não deixar as pessoas esquecerem de que precisam preparar novamente o chamamento ritual-religioso, e isso se segue ad infinitum.

No segundo movimento, milhões e milhões de habitantes de país distante reúnem-se em ágoras e vias públicas para, aos gritos (o que é uma constante no comportamento deste povo), deixar claro o que eles não querem que ocorra durante o próximo ano ritual. Um dos maiores temores desse grupo de pessoas é a permanente ameaça do comunismo, tema de que já tratamos em outros estudos. Outros alvos são congregações de trabalhadores, memórias de representantes destituídos de suas atuações oficiais e a tentação da corrupção. Muitos dos presentes, de acordo com os mimeos a que tive acesso, eram corruptos e criminosos. Isso me leva a traçar uma semelhança, para que meu leitor entenda melhor do que estou tratando, com a festa de Jesús Malverde, no antigo território do México, na qual assassinos e narcotraficantes cultuavam a imagem de um antigo delinquente.

Pois, além da recusa ao que não se quer em país distante, é importante notar que, assim como as marchas ritual-religiosas, novamente há um traje comum – o que reforça minha suspeita anterior. Todos saem para as vias públicas com vestes amarelas ostentando brasões da casa esportiva daquele local. Alguns príncipes da referida casa foram presos por variados crimes. Não se trata, pois, de um paradoxo. Trata-se de deixar muito claro, quase na pele, o que não se deseja para o próspero futuro de país distante. Ao fim das marchas amarelas, há uma grande confraternização entre os presentes e os membros das guardas provinciais. Salta aos olhos a felicidade dos presentes ao conseguir expulsar de seus corpos a tentação à transgressão e a sempre reafirmação de lealdade ao presidente-rei-autocrata.

O alimento do corpo

Como percebe o leitor mais arguto, o elemento carne não entrou ainda na nossa minuciosa descrição, seja por via material, seja por via metafórica. A carne como alimento do corpo é um totem ritual de suma importância para país distante. Durante o período negro que antecedeu a ascensão ao poder do presidente-rei-autocrata, os distantinos intoxicavam amiúde com o consumo excessivo de carne bovina. A óbvia conclusão a que chegaram os líderes xamânicos daquele locai foi que o consumo vinha sendo feito sem a devida purificação ritual. Ou seja, estavam comendo carne advinda de rituais de bruxaria. Antes que você pense que estamos aqui falando das bruxarias azande, esqueça. Ali, nitidamente, havia uma função socialmente construída da bruxaria. Aqui a conclusão é quase-científica.

Diante disso, decidiu-se que a única maneira de evitar o consumo de carne bovina não abençoada em país distante era proibi-la. Qual forma melhor de proibi-la que determinar seu preço de modo que apenas o presidente-rei-autocrata e seu séquito de sábios pudessem comprá-la? Eu não pensaria em solução melhor. Dessa maneira, anualmente, milhões de distantinos saem às ruas em vestes amarelas, durante um período, e brancas em outro, para, de forma conjunta, abençoar a carne, que só poderá ser comida depois de um longo sacrifício da população. O sacrifício envolve, dentre outras práticas, o jejum, a exposição prolongada do corpo nu a chuvas e geadas e longas e diárias caminhadas até suas casas de ofício.

A dança do prazer

O último fluxo prático-conceitual para a total limpeza da alma entre os distantinos é a dança do prazer. Ela é resultado do diagnóstico de uma sábia assessora do presidente-rei-autocrata[6]. Ao perceber que o excesso de intercursos sexuais pelos habitantes de país distante, sem uma árdua limpeza holística dos maus pensamentos, resultava no nascimento de comunistas, a sábia veio com uma brilhante afirmação: interrompei, pelo amor que tendes pelo presidente-rei-autocrata, o número de intercursos que fazeis ao longo de um ano!

A única forma aceita de intercurso sexual (no singular mesmo, já que só um é permitido) ocorre se os habitantes de país distante tiverem a alma e o corpo sãos, proporcionando chacras abertos para a iluminação divina e resultando na certeza de que daquele intercurso nascerá um distantino não comunista. A iluminação final só pode fenomenizar-se caso o indivíduo passe pelos dois fluxos antes descritos, ou seja, se estiver livre de carne contaminada, e se contribuir para o fim dos comunistas corruptos e para sua conexão com o divino presidente-rei-autocrata.

Sabemos que ainda hoje há registros no planeta Terra do ritual do carnevale em territórios não inundados, mas a eles abro caminho de estudos aos meus discípulos, em monografias ou, no máximo dissertações, à guisa de aprendizado. O desafio mesmo é destrinchar a festa da carne em país distante, com suas interações simbólico-práticas de múltiplas fontes e de robustos resultados. Para esse desafio convoco meus melhores pares.

Notas:

[1] Referente a um antigo país do planeta Terra chamado Brasil. Afundado por manchas de óleo, esse país deixou de existir por volta do ano 2010 d.C.

[2] Antiga colônia espanhola, situada alguns milhares de quilômetros acima do Brasil. Não se tem exatamente o período de existência desse território, embora muitos ainda hoje acreditem tratar-se apenas de uma lenda nunca comprovada.

[3] Referente ao Uruguai, território onde habitaram os uruguaios. De acordo com relatos antigos, o país sucumbiu ao exigir, de forma excessiva, tolerância e civilidade. Os últimos registros datam do ano de 1950 d.C.

[4] Referente à África, continente dividido em 53 territórios, cujas narrativas tratam de extremo sofrimento e expiações. Continente rico em cultura, mas pobre em moeda. Data de extinção confunde-se com a data de seu descobrimento.

[5] Referente ao país distante

[6] Embora ele defenda que foi ideia dessa sábia, todos sabemos que, pela enorme cultura do líder supremo, ele mesmo teve a ideia. De forma benevolente, dividiu os créditos da invenção. Vamos contar aqui a versão oficial, uma vez que jamais abriremos mão do papel coesivo das lendas e das narrativas nativas.

* Eduardo Mares Bisnetto é Antropólogo, Cientista Político e Professor Universitário e não gosta de compartilhar eventos científicos com mais de dois colegas de instituição por vez.