João Dulci*

Este ano de 2019 nos colocou desafios gigantescos em várias searas, principalmente na política, mas não estou com a menor paciência de debater o tema aqui. Se alguns minutos no Twitter ou lendo os jornais nos obrigam a doses cavalares de antiácidos, num campo específico a via de escape nos proporcionou algumas alegrias. Este campo, obviamente, foi o Flamengo. A despeito de uma das diretorias mais desrespeitosas de sua história, como já escrevi nesta mesma Escuta em outro texto, o Flamengo altera, mais uma vez, a rotação da Terra, transformando certezas em dúvidas e dúvidas em decepções. Quero tecer aqui um fio de impressões sobre o futebol brasileiro a partir de uma ótica flamenguista e que, a meu ver, mudaram um pouco a forma como entendemos o futebol no Brasil.

Palmeiras e Cruzeiro têm excelentes elencos

Neste momento é muito fácil refutar essa afirmação, pois o Palmeiras não venceu o campeonato e o Cruzeiro se encontra às portas da série B. São dois modelos de gestão do departamento de futebol criados pelo mesmo Dr. Jekyll, que atende pelo nome de Alexandre Matos.

A ideia do primeiro é trazer um sem número de bons nomes tendo por base que a soma de jogadores um pouco acima da média forma um time bom. De fato, do goleiro ao centroavante, todos os jogadores titulares do Palmeiras teriam espaço na série A do campeonato brasileiro. Mas essa equipe desfez uma máxima brasileira que dizia que time de medalhões precisa de um técnico disciplinador. Primeiro foi Felipão, depois Mano Menezes, que havia saído do Cruzeiro. Dois técnicos com uma razoável bagagem de títulos no Brasil, sendo Scolari muito mais vencedor que Mano. Ambos são extremamente chatos à beira do campo, quesito em que Mano Menezes é o nosso Clóvis Bornay. Ambos estão um tanto atrasados em termos de ideias e se valeram de fórmulas distintas para se manterem nos últimos anos. Se Felipão conseguiu um título de pontos corridos, praticamente concorrendo sozinho em 2018, Mano se fiou nas copas. Nenhum dos dois conseguiu um título internacional.

Quero me ater a Mano Menezes, já que a estratégia de Felipão me parece mais óbvia (tendo um elenco melhor, apostou nas vitórias simples, sem brilho, mas que somam sempre três pontos). O Cruzeiro de Mano Menezes obteve a melhor colocação em 2017, quando foi quinto colocado. Nunca esteve de fato na briga pelo título. Havia vencido a Copa do Brasil, classificando-se para a Copa Libertadores da América e isso lhe foi suficiente. Em 2016 ficara em 12º lugar e no ano passado, em oitavo. Mesmo assim, Mano Menezes podia parar seu automóvel onde quisesse na Toca da Raposa, provavelmente tendo a chave mestra do centro de treinamentos. Sem nenhum brilho maior, o Cruzeiro era um dos três favoritos para doze de cada dez programas esportivos. A teimosia numa fórmula que acalma a torcida e esconde os problemas trouxe o time à atual situação. Some-se a isso uma “criatividade” contábil que empurra o clube à bancarrota.

O Palmeiras dos mais de quarenta jogadores não venceu o campeonato brasileiro, tampouco a Libertadores, mas termina o ano entre os três primeiros, tendo a chance de rebaixar o Cruzeiro na rodada final. Não é uma campanha terrível, mas não tem brilho. O elenco ainda é bom, mas a soma de jogadores apenas um pouco acima da média só constrói um time um pouco acima da média.

Não é possível concorrer em duas frentes

O Grêmio de Porto Alegre admite desde a chegada de Renato Gaúcho que não é possível fazer boas campanhas em campeonatos brasileiros, mesmo tendo feito jornadas bem razoáveis (sua melhor colocação nos últimos anos foram os quarto lugares em 2017 e 2018). Renato Gaúcho é um técnico com grande apreço pelos holofotes, com boas ideias, mas que se mostra ultrapassado em vários aspectos. O canal “Lateral esquerdo”, de Portugal, desnudou suas limitações, talvez demonstrando que ele não cabe na seleção brasileira, seu sonho mais ambicioso. A caricatura que Renato faz de si mesmo tampouco ajuda. No entanto, seu time parece organizado, apenas carecendo de nomes de maior peso. No caso do Grêmio, que apostou em jogadores envelhecidos e com pouca ambição (casos de André Balada, Diego Tardelli, Léo Moura e Paulo Vítor), a máxima que dá nome ao presente tópico é verdadeira. No entanto, o problema não está no elenco do Grêmio, que muitas vezes atuou com seu time reserva e venceu, mas nas ideias de quem comanda o time, que ainda acredita que o Diego Tardelli de 2019 poderia ser o Tardelli de 2013, um Benjamin Button futebolístico. Quando se tem jogadores de qualidade questionável misturados a jogadores experientes e sem ambição, talvez não se consiga concorrer nem em uma frente. O ano de 2019 ensinou isso ao Grêmio, que, provavelmente, repetirá a fórmula de vender suas joias para trazer nomes que não jogam mais o que já jogaram.

Os técnicos brasileiros não treinam no exterior porque o exterior recusa os técnicos brasileiros

Essa máxima não é deste ano. É de um jovem treinador, Jair Ventura, que disse algo parecido quando o Flamengo trouxe o fugidio Reinaldo Rueda. Ela foi endossada por um sem número de treinadores nacionais, incluindo o eterno Vanderlei Luxemburgo. Se há uma coisa que o ano de 2019 provou, através de Jorge Sampaoli e Jorge Jesus, é que os técnicos brasileiros não cabem em um futebol de alto nível do exterior. Além das óbvias dificuldades idiomáticas, como os exemplos de Joel Santana e Luxemburgo, e da falta de um diploma aceito na Europa (coisa que poderia ser resolvida com uma boa dose de estudos), os treinadores brasileiros estão, em sua maioria, ultrapassados. Armam seus times da defesa para o ataque, quando ataque preparam. Aplicam as formações europeias, com dois pontas abertos, ignorando que seus jogadores não sabem cruzar as bolas. Invariavelmente o desenvolvimento de seus times durante uma partida se dá pelas pontas, resultando em bolas levantadas na área. O maior representante desse modelo deve ser Zé Ricardo, futuro ex-técnico do Inter de Porto Alegre.

Esses treinadores põem óleo numa engrenagem que eles criticam publicamente, mas que garante uma ceia de natal sempre gorda ao fim do ano. Dizem que as direções dos clubes não lhes dão tempo para treinar (o que é verdade), mas se picam ao primeiro convite melhor. Quando não trocam de camisa, aguardam suas demissões e o recebimento de gordíssimas multas rescisórias. Ao fim de um ano, constantes fracassos lhes valem mais dinheiro do que qualquer sucesso. Ficar num clube até o fim do contrato é a escolha de maior prejuízo financeiro. As direções os mandam embora, na esperança que, de técnico novo em técnico novo, seus times reajam por obra e graça divinas.

Fernando Diniz é um técnico futuroso

Não há muito o que dizer sobre esse treinador, que goza de gigantesco prestígio com a imprensa e com seus comandados. Seu aproveitamento como técnico da série A é de 26%, o que garante 29 pontos por temporada. Seus times seriam rebaixados todos os anos. No entanto, seus esquemas em que zagueiros pernas de pau saem tocando a bola para os adversários perto da área encantam os analistas, que o veem como um eterno jovem de futuro brilhante. Como jogador, foi mediano. Como técnico, seus trabalhos são abaixo da crítica. Mas ele estará empregado em algum grande clube no próximo ano. Quando sair, com um aproveitamento abaixo de 30%, ele poderá dizer que não teve tempo de implantar seu estilo de jogo, mesmo que seus zagueiros tenham oferecido a bola aos adversários incontáveis vezes.

Os estaduais

Ah, os estaduais. Como já escrevi sobre esse charmoso trambolho futebolístico, apenas vou dizer que muitos campeões estaduais não conseguiram mostrar para que serve esse torneio. O Cruzeiro foi campeão mineiro, o Corinthians campeão paulista.

Dinheiro traz felicidade

Essa máxima pode ser apenas parcialmente refutada. Palmeiras e Corinthians que o digam. Mas, vale lembrar, não fossem os muitos milhões arrecadados com bilheteria, patrocínio e, principalmente, TV, o Flamengo não poderia montar seu supertime campeão de quase tudo. Apesar disso, o orçamento dos principais clubes da primeira divisão brasileira é muito superior ao dos vizinhos argentinos, por exemplo. Mesmo assim, apenas Flamengo e Grêmio chegaram à semifinal da Libertadores. No Brasil, paga-se demais a jogadores de qualidade mediana. Paga-se demais a jogadores em fim de carreira. Paga-se demais a técnicos de habilidade questionável. Os salários de Mano Menezes, Felipão e que tais beira o milhão. Nos clubes, centenas de milhares de reais põem comida boa nos pratos de Ganso, Pato, Tardelli e Fred. Todos tiveram uma temporada abaixo da crítica, se valendo de brilharecos que não justificam as somas que recebem (quando recebem). A combinação explosiva de jogadores em fim de carreira e sem ambição com altos salários levou praticamente todos os clubes da primeira divisão a atrasar salários e direitos de imagem. A incompetência no planejamento e no manejo dos clubes salta aos olhos. Dinheiro na mão foi vendaval para muitos dirigentes que, como resposta, só sabem demitir seus treinadores e apagar incêndios com gasolina.

E o Flamengo?

O Flamengo é o certo e o errado da temporada. Iniciou seus trabalhos com o paizão Abel Braga, cujos conhecimentos futebolísticos remetem à arqueologia do futebol. Era o disciplinador que um elenco estrelado precisava. A fórmula mais que estúpida se mostrou falha na décima rodada do campeonato brasileiro, ainda que viúvas do Abel vaguem pelas ruas e editem revistas digitais. O alto volume de dinheiro recebido pelo clube permitiu a vinda de dois laterais de altíssimo nível para o futebol brasileiro, além de um treinador que se pendura entre a primeira e a segunda prateleiras do futebol europeu. Jorge Jesus, aos 65 anos, trouxe um conhecimento que o futebol brasileiro teimou em ignorar. Algo bem próximo do que se faz na Europa. Descobriu que os jogadores do Flamengo faziam muita coisa errada, desde chutar a correr. Com seu estilo incomparável, permitiu que um elenco muito bom brilhasse no seu nível máximo, vencendo o campeonato brasileiro com sobras e a Libertadores num jogo de infartar até o locutor da Globo.

Não se pode dizer, no entanto, que o Flamengo é o primor de organização na atual temporada. Além da troca de treinadores e da falta de convicção na escolha do próprio Jesus, o clube levou para seus camarotes figuras nefastas, convidando para o trio elétrico de comemoração do maior título em 38 anos um sujeito cuja folha corrida o precede, mirando no chão suas futuras vítimas. Nada justifica esse tipo de atitude. Não há pragmatismo que explique a razão de um político profissional da “nova” política estar celebrando um título para o qual nada fez nada para ganhar. Sequer torcedor do Flamengo o sujeito é. Trio elétrico e campo de futebol são locais para jogadores e comissão técnica. Taça é pros campeões. O resto é arroz oportunista de festa. Além disso, o Flamengo ainda tem como mancha, a morte de dez jogadores do sub-15, cujas pensões ainda não foram pagas, salvo uma ou duas exceções, e a recusa a homenagens a Marielle Franco e a Stuart Angel.

Porém, alguns ensinamentos ficam. O primeiro, como já dito, de que os técnicos brasileiros, Tite incluído, precisam urgentemente aprender a aprender. O segundo, que dinheiro bem gasto pode trazer felicidade. O terceiro, que uma das diretorias mais vencedoras da história do clube pode ser ridícula e nefasta. O quarto, que técnicos jovens e inovadores nem sempre são bons, assim como técnicos experientes podem sê-lo, mesmo que venham de fora. O último é que depois de muitos anos de sofrimento futebolístico, nós flamenguistas tivemos muito a comemorar em 2019.

João Dulci é Doutor em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e e Políticos (IESP-UERJ) e Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Colabora com a Escuta.