Raquel Guilherme de Lima*

Gugu est mort. Morto de morte estúpida. Uma lástima. Assim, lástima no sentido humano especista cristão que nos vincula, não no sentido, digamos, de lastimar a partida desse ser humano em específico. Com todo o respeito que o catolicismo me ensinou, admito que não tinha grande estima pelo Gugu e muito menos reconhecia nele substância de estima indispensável.

Também não quero parecer demasiadamente indiferente a ponto de negar três vezes o quanto eu assisti o seu Domingo Legal, que fazia do meu um mar de tédio entrecortado apenas por uma ereção ou outra no palco, broadcasting in old fucking times. Por falar desses fálicos episódios, não faz muito dava gargalhadas com os meus amigos doutores relembrando as cenas impagáveis do Padre Marcelo no palco, cercado pelas gostosas da banheira, cantando louvores coreografados pelo É o Tchan. Uma maravilha para uma geração que mitifica a Gretchen por suas versões animadas.

Longe de mim, disparar parágrafos reivindicado a verdade virtuosa de uma essência popular. Algo como “só nós sabemos como aquelas tardes eram o ápice da troça, espontânea alegria sentida apenas por gente humilde”. Vez ou outra, utilizo o meu repertório televiso, trocadilhos e imagens surreais que me destacam em meio a filhos bem nutridos de pais que, já naquela época, lutavam contra o embotamento precoce dos infantes causado pela televisora. Toda vez que eu evoco “essa é a mistura do Brasil com o Egito” (eu realmente adoro essa introdução) tá lá na minha mente as rebolativas Sheila e Carla no programa do Gugu. Mas, camaradas, é foda, é o capital, é terrível ter que caetanear toda porcaria consumida pelo povo para não ser empurrada rumo a vala dos elitistas tupiniquins sem graça afetados por sabe se lá o que, aquilo que exatamente ninguém sabe a não ser umas 46 pessoas[1]

Muito menos serei a sentinela a denunciar um mundo popular corrompido por baixarias. A TV foi minha companheira, de Xuxa, Cavaleiros do Zodíaco às minisséries da Globo aprendi de um tudo. Não quero colocar esse cabedal em escrutínio substantivo, nem teria essa habilidade. Diante de novas possibilidades de entretenimento midiático, ainda resta nesse lugar, contudo, uma força inegável para se comunicar com a massa. Uma vez que, empáticos ou não à ideia, reconheçamos que Fátima Bernardes falando de transexualidade nos seus encontros matinais é algo como um jogral elevado a milésima potência.

Muito bem colocada na societé carioca, eu busquei com afinco referências e vivências que me afastassem de uma vida vivida no sofá na companhia daquele que eu anunciei a morte na primeira linha e de outros genéricos. Com insistência, consequências dos trinta e tals, bate uma onda reflexiva e me pego a comparar o que eu era com o que me tornei. Eu e esta minha condição sociológica de ter um passado popular na periferia belo horizontina e ter um presente endividado na zona sul do rio mal resolvidos.

Do papo das origens, o que vale é a conexão com os seus pares longínquos da época em que acompanhávamos as disputas dominicais acirradas pela audiência. Se há muitas moedas culturais genuinamente “do povão” que são muito bem vistas, há outras, como o Gugu, difíceis de creditar[2].

As memórias da telespectadora de canais abertos contam mais sobre as escassas opções de fruição em outras searas do que o deleite absoluto com o Passa ou Repassa. São práticas que remetem a um cotidiano imperativo que abria poucas brechas para as famílias trabalhadoras, como a minha, ousar alternativas que não a oferta fácil da televisão. Assistir aos programas se colocava como escape, mas também cumpria uma função socializadora. Não raro era da programação dominical que surgia o assunto da semana. A denúncia do Fantástico, o famélico ajudado pelo Gugu, a pegadinha do Silvio Santos e tantos outros casos que se repetem ad eterno. Ocorre que se tudo soa parecido na TV, como nos anos 80 e 90, as formas de comunicação, a cartela de canais, as diferentes plataformas e, sobretudo, o comportamento do potencial telespectador mudou demais. Hoje, dizem alguns especialistas, que adolescentes, independente do seu estrato social, não assistem televisão. Naquela época, eu, a minha mãe, minha tia e a minha avó sempre travávamos algum debate fomentado por um furo de reportagem, algum plantão da Globo, alguma novela, ou, óbvio sobre algum famélico ajudado. Era o nosso esperanto.

Cancelar a TV é arriscar perder uma habilidade de comunicação. Ao menos, com esse universo que elege esses conteúdos como passatempo, ou que só pode contar com eles. Pode ser até uma boa arriscar nos dias que se seguem, pois as audiências em queda nos dão pistas que outras preferências andam concorrendo pesado com o plin plin.

Dessas vivências, há o que se reivindicar orgulhosamente como formativo e distintivo de sujeitos consumidores e produtores culturais. Outras experiências, por sua vez, merecem apenas um obituário sarcástico. A advertência cabal sobre os malefícios da exposição excessiva ao sinal analógico durante a primeira infância e a adolescência para a formação crítica e estética pode ser um tanto alarmista, – eu, pelo menos, me apego nisto. Oremos. Ademais sempre terão aqueles mais criativos, que mesmo tendo assimilado altas doses da grotesca e empobrecida grade dominical, andam por aí a devolvê-la regurgitada como paladar para as representações insossas do mainstream.

Em tempo, continuo sendo fonte primária do mundo das celebridades e, se ando afastada da programação televisa, não deixo escapar épicos como “A Fazenda” de Pepe e Nenem e de Theo Becker.

* Raquel Guilherme de Lima é professora do Departamento de Sociologia e Metodologia das Ciências Sociais daUFF e, às vezes, a gêmea má. Colabora com a Escuta.

Notas

[1] Dessas, 17 estão fingindo saber.

[2] Sim, sim eu sei que não era só o povão que assistia ao Gugu. Obrigada.