Matheus Vitorino Machado*

Oesterheld, em Maio de 1969, receberia em seu escritório em Buenos Aires a surpreendente visita de um viajante do tempo. Curioso, ainda que confuso, o escritor argentino se põe a escutar o viajante que se autointitula “Eternauta”. Vindo do futuro, Juan Salvo começa a narrar história que tem início em seu domicílio em Buenos Aires, onde se encontrava junto de seus amigos, com quem jogava cartas, e de sua esposa e filha. Repentinamente, contudo, um barulho interrompe as atividades da casa. O grupo se dirige a janela, que permanece fechada, para avistar a terrível cena: uma nevasca atinge a capital argentina; seus flocos matam tudo que tocam. Preso em sua casa, o grupo lentamente desenvolve formas de sobreviver à neve mortífera, ao passo que descobrem uma terrível verdade: os flocos de neve fatais são frutos de uma invasão, e se estendem por toda a América Latina. Os países centrais, temerosos com a própria segurança, abandonaram o sul do continente americano a sorte do próprio destino.

Descrita acima, está a sinopse da história em quadrinhos argentina O Eternauta 1969, recentemente publicada no Brasil pela editora Comix Zone. Há quem leia não apenas a descrição de uma ficção científica distópica, mas um texto premonitório, quase profético, do destino de seu autor, Hector Gérman Oesterheld. Em 1977, Oesterheld e suas quatro filhas seriam sequestrados e assassinados pelas forças armadas nacionais, como tantos outros argentinos desaparecidos no contexto da cruel ditadura militar. Mais de 30.000 argentinos desapareceram, como na mortífera nevasca descrita em O Eternauta. Não se trata de futurologia, ou das previsões corriqueiramente associadas a escritores de ficção científica, e sim de constituição da memória de experiência e resistência aos autoritarismos latino-americanos.

Contrariando o senso comum que iguala o gênero da ficção científica às narrativas de previsão do futuro, a célebre escritora norte-americana Ursula K. Leguin escreve: “Toda ficção é metáfora. Ficção científica é metáfora”. O gênero literário que se desenvolve a partir do século XIX com obras como Frankenstein, de Mary Shelley, e Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne, se distingue dos demais não pela capacidade de predição do futuro, como afirma o senso comum, mas por incorporar a seu repertório narrativo metáforas advindas de elementos centrais da modernidade, como a razão científica e histórica. Em referência a esses elementos Leguin desenvolve: “A viagem espacial é uma dessas metáforas, assim como a sociedade alternativa é uma metáfora, a biologia alternativa; o futuro também. O futuro, em ficção, é uma metáfora.” Assim, toda composição de futuro em obras de ficção científica é metafórico ao presente de sua produção. Nesse sentido O Eternauta 1969 é obra fundamental, não só pela força criativa de Oesterheld e Breccia, mas por imaginar, paradoxalmente, o futuro como metáfora da memória do passado.

Ainda que a ficção científica comece por explorar temas próprios ao contexto da modernidade ocidental, como a ansiedade pré-guerra em Guerra dos Mundos de H.G Wells, ou o avanço da técnica e ciência na obra de Asimov, paulatinamente ela se desloca para olhares “periféricos”, como de Octavia Butler, que explora em Kindred as relações raciais nos Estados Unidos, ou as questões de gênero e sexualidade trabalhadas por Ursula K. Leguin, em A Mão Esquerda da Escuridão. De maneira similar, o roteirista Héctor German Oesterheld desloca o cenário típico da ficção científica para a América Latina. Com isso, desloca também os sentidos dados a metáfora. HGO, como ficaria conhecido Oesterheld, foi o maior e mais prolífico quadrinista da Argentina, responsável por histórias que variavam dos faroestes às ficções científicas. O Eternauta, sua principal obra, teria sua primeira versão em 1957, com desenhos de Francisco Solano López. É, contudo, na segunda versão da história em quadrinhos que O Eternauta ganharia contornos políticos mais claros, com capítulos mensais publicados na revista Gente (um periódico dedicado a vida cotidiana das celebridades) em 1969, O Eternauta agora contava com os desenhos de Alberto Breccia, repetindo a parceria responsável por obras clássicas como Mort Cinder (1962-64) e a biografia de Che Guevara em quadrinhos Che: os últimos dias de um herói. A dupla, que agora trabalhava no contexto de uma ditadura civil-militar instaurada em 1966, tinha a possibilidade de reforçar as tonalidades de crítica política da HQ, ainda que na improvável e pouco amigável revista Gente.

O roteirista argentino explicitamente alude à escalada autoritária na política argentina, que desembocaria nas ditaduras, de 1966 e 1976, e estende a metáfora às ditaduras que se instalavam no restante do continente latino-americano, como a instaurada pelo golpe de 1964 no Brasil. Aponta-se também para a participação estrangeira nos golpes militares latino-americanos. Como bem diz um termo do título de célebre discurso de Gárcia de Marquez, a HQ de HGO transborda a solidão da América Latina. Assim, a neve aparta, nos primeiros momentos da trama, o núcleo de personagens centrais do mundo público, os confinando ao mundo privado do domicílio de Juan. A volta ao mundo público, agora deteriorado, se converte na organização de guerrilhas de sobreviventes contra o avanço dos invasores. Constitui-se, assim, paralela à insurgência dos movimentos de resistência e luta armada contra os regimes ditatoriais. Pesam, neste sentido, a deflagração do “cordobazo” em maio de 69, e os grupos de resistência armada, como os “montoneros” a quem Oesterheld e filhas se associariam em 1976. As guerrilhas de O Eternauta permitem vitórias pontuais contra os invasores, reservando, contudo, término trágico ao protagonista da história.

Ao final da trama, Juan Salvo, o eternauta, é condenado a vagar pelo espaço-tempo a procura de sua família. Assim, a dupla constrói um personagem cuja jornada opera como analogia, ainda que realizada sete anos antes, da experiência de desaparecidos da ditadura argentina de 76. O protagonista da trama, ao se encontrar com o quadrinista argentino, rememora os dias de reclusão causados pela neve, o embate contra os invasores e sua longa jornada pela eternidade em busca de sua esposa e filha.

Paradoxalmente, o futuro vivido por Juan Salvo se converte em passado ao voltar para maio de 69, permitindo que Oesterheld transforme a narrativa de O Eternauta 1969 em memória dos anos de repressão vividos pelo autor. Breccia reforça a impressão de uma memória turva e dolorida em sua arte: os personagens possuem faces obscurecidas pelas pesadas sombras, estimulando a indistinção das experiências de Juan Salvo e seus companheiros. Enquanto a historiografia sobre os anos ditatoriais revelou que a política de sequestro argentina fora inspirada no “decreto de noite e névoa” da Alemanha nazista, que institucionalizava o desaparecimento de civis, Breccia corporifica o ambiente criado pela prática que viria. As pesadas sombras de sua arte formam uma névoa e noite que perpassam toda a obra. A mesma neve embaça e borra o cenário argentino, criando a forte impressão de um ambiente distorcido, disforme, onde os flocos, por vezes, se confundem com buracos de bala.

Como na América Latina de Oesterheld, voltamos a ver a política ser tomada por iniciativas autoritárias. Emergindo em meio as crises econômicas e políticas dos últimos anos, tais grupos compartilham não só de um apreço pelo passado ditatorial do continente, como da decisão consciente de disputar a memória que nos informa sobre os crimes e abusos cometidos por tais regimes. A disputa pelo poder político dos partidários do autoritarismo, mobiliza, assim, também uma importante competição pela constituição da memória sobre nosso passado, como também pela interpretação dos acontecimentos presentes. O recente pleito eleitoral que elegeu Alberto Fernández, os protestos no Chile, o golpe em curso na Bolívia e o bolsonarismo em ação no Brasil denotam uma conjuntura crítica, que deve ser disputada também no plano discursivo, assim como fez Oesterheld.

A memória é um objeto de poder. Por tal razão, a definição de seu conteúdo é marcada por intensa disputa, que não cede nem se mantém estável. Consciente disso, o viajante no tempo da HQ tem como objetivo salvar o passado (ainda que futuro) do esquecimento. Nas palavras de André Pereira de Carvalho, responsável pelo prefácio à edição brasileira: “Ele conta sua história. Sua função é a de fazer lembrar o que aconteceu, de não deixar esquecer. Se Juan e todos os demais morrerem e não houver quem conte sua história, seu desaparecimento será uma incógnita.” Na história de Oesterheld e Breccia, Juan é como os diversos mortos e sequestrados das ditaduras latinas, dotados de rostos jovens, porém vincados, de feições indefinidas e perdidos no tempo. É apenas pela memória, no ato de reconstituir o passado e o dotar de sentido político, que o Eternauta reconstrói a identidade, sua e de seus companheiros.

*Matheus Vitorino Machado é mestrando em Ciência Política pelo IESP-UERJ e colaborador da Escuta.