Jorge Chaloub*

Os símbolos são uma dimensão inescapável do mundo político. Eles atuam sobre o modo como os atores entendem seu lugar e suas ações, de forma a delinear os limites da própria conjuntura. A capacidade de condensar experiências e expectativas, inerente ao símbolo, faz com que ele seja capaz de influir no tempo e no espaço da disputa política, munido da eventual capacidade de abrir linhas de fuga no tempo e no espaço.

Antes de ser preso, Lula disse ser uma ideia. Creio ser mais adequado dizer que ele é um símbolo, que  ultrapassa, em muitos sentidos, seus limites e erros como ator político. O ex-presidente representa a abertura de uma esfera política longamente refratária a trajetórias populares. Em 130 anos de República, nunca tivemos à frente do mais importante cargo brasileiro alguém com tão claro pertencimento às classes populares. Sua importância na redemocratização e centralidade em todas as eleições presidenciais após 1989 demonstram os avanços da ordem construída sobre os escombros da Ditadura, enquanto primeira experiência de sufrágio universal no Brasil.

Lula também representa a importância, e os limites, de uma experiência de partido de massas central na história brasileira: o Partido dos Trabalhadores (PT). Surgido das lutas contra a Ditadura, o PT congregava um novo discurso sindical, parte da intelectualidade brasileira, com destaque para a paulista, e a Igreja Católica progressista, em franco processo de expansão na América Latina ao longo das décadas de 1960, 1970 e 1980. As sucessivas vitórias em quatro eleições presidenciais representam um desempenho raro em democracias em massa e colocam o partido não apenas como um fenômeno político no Brasil, mas nas democracias ocidentais.

Essa trajetória não seria possível sem Lula, figura que representa as virtudes e limites do partido. O mesmo personagem capaz de abrir o PT para novos protagonismos ofusca o surgimento de novas lideranças capazes de ombreá-lo e limita as inovações da democracia de base, que sempre distinguiram o partido. Não se trata de jogar água no moinho do personalismo, ou recair na cantilena dos populismos: a política também é definida pelas personalidades. Um ator político do campo da esquerda, entretanto, deve ser capaz de sempre se abrir ao novo, sob pena de não ser capaz de dar conta de um novo mundo que, à despeito da vontade de muitos, sempre vem.

Seria possível dedicar esse texto a outros equívocos e problemas de Lula, ou aos limites do projeto político petista. A capacidade do ex-presidente de, enquanto símbolo, condensar ideias e experiências faz, todavia, com que esse não seja o momento para tanto, ou a chave mais interessante para entender as questões mais urgentes do presente. Libertado em virtude da acertada decisão do STF da última quinta-feira, o ex-presidente expõe, mesmo em silêncio, os limites da ordem atual.

Após a derrubada de Dilma Rousseff, em 2016, veio ao chão o mais longevo arranjo político da nossa história democrática, construído a partir da queda de Fernando Collor e da subida ao poder de seu vice, Itamar Franco, em 1992. Dotada de evidentes limites, como a violência estatal nas periferias bem demonstram, essa ordem não flertava, todavia, com soluções autoritárias no centro do poder, mesmo que mantivesse práticas autoritárias em suas margens.  O cenário ganha novas feições após 2016 e, sobretudo, depois de 2018, quando a defesa de extermínio de opositores não se refugia em metáforas, mas é diretamente afirmada pelo centro do poder. Deve-se ressaltar que as esquerdas são apenas a face mais evidente de um ataque à ordem de 1988, retratada como intrinsecamente corrupta. Em uma narrativa onde PSDB ganha a pecha de comunista e as instituições democráticas vigentes são descritas como as mais nefastas da história brasileira, a defesa da ruptura democrática se torna  discurso corriqueiro. A prisão de Lula, em um processo inquisitorial e com evidentes fins eleitorais, como está demonstrado em ampla documentação, é um dos mais evidentes e importantes sintomas dessa escalada autoritária.

O atual cenário não oferece grandes perspectivas de mudança. Os genocídios nas comunidades cariocas alcançam números ainda mais assustadoras e as aldeias indígenas convivem com uma censura institucionalizada no governo federal. Progressivamente mostra sua face uma coalizão destinada não apenas a sufocar as novas formas de vida produzidas pela nossa sociedade, e pelo mundo, ao longo dos últimos 50 anos, mas a contestar direitos e liberdades individuais básicos, vistos como requisitos mínimos mesmo antes as mais modestas demandas democráticas. A maior parte da direita construída em meio à democracia evita, contudo, um confronto mais duro com o governo e a extrema-direita, apoiando-o na maior parte das suas medidas. Tal postura se funda em dois motivos: a adesão ao projeto ultraliberal de Paulo Guedes e o horror à esquerda. Os dois fenômenos estão diretamente relacionados, já que há uma construção das críticas à política econômica do primeiro Governo Dilma a partir de uma perspectiva francamente moral que, ao fim e ao cabo, identifica a centralidade do Estado à corrupção. A imprensa é protagonista na construção desse cenário, seja através da naturalização de um consenso em torno do ultraliberalismo, tão bem representado pelos editorais dos três grandes jornais impressos – Folha, Globo e Estadão –  em apoio ao pacote de Paulo Guedes, seja por meio de uma longeva campanha de criminalização da esquerda, mesmo aquela mais moderada. Nessa narrativa, o sempre moderado Lula, conhecido por seu pragmatismo e capacidade de diálogo, se torna um “radical”, pertencentes às hostes da “extrema-esquerda”. Dificilmente é possível abrir um grande jornal ou ouvir comentários na televisão sem se deparar com o discurso de “falsas equivalências”[1], que compara uma direita autoritária a uma esquerda democrática.

A liberação de Lula representa um momento de abertura em meio ao fechamento. Por um lado, vemos um raro evento de funcionamento rotineiro das instituições judiciais, depois de seguidas manifestações de lógicas de exceção. Mais importante do que isso, entretanto, foi a mudança no controle da agenda pública, nas mãos da esquerda depois de alguns anos. No lugar de mais um protesto contra uma medida ou declaração contrária à democracia, um discurso de oposição que, mesmo sem maiores novidades, não se limitou a atacar medidas do governo, o que é incontornável, mas ofereceu uma agenda alternativa. Todos os limites dessa agenda já foram objeto de grande debate. A possibilidade de controlar o tempo da política, construir narrativas e oferecer caminho é, entretanto, algo a se comemorar em tempos de escalada autoritária.

A liberação de Lula é, por certo, insuficiente. Por si só, ela pouco produz, ainda mais se limitada a relatos hagiográficos ou a uma fé irrefletida nas habilidades políticas do ex-presidente. A capacidade de construir uma narrativa pública a partir do seu duro sofrimento pessoal, encarado com inegável dignidade, é, entretanto, algo a apreendermos com Lula, único ator que, à esquerda, parece capaz de reencantar uma política presa nas rotinas. Nem tudo passa por grandes líderes, mesmo ante sua importância em tempos bicudos como os de agora. Ao abrir mão de construção de futuros alternativos, a esquerda se viu superada por uma direita radical e autoritária, eleita com a promessa de uma ruptura radical com a ordem existente. Lula contribuiu para esse cenário. Ironicamente, ele pode nos ajudar a encontrar, ao lado de outros, saídas para superá-lo. Que venham outras sextas de novembro!

*Jorge Chaloub é um dos editores da Escuta.

**A imagem em destaque é da autoria de Ricardo Stuckert.

Notas

[1] Tratei do tema em outro texto da Escuta: https://revistaescuta.wordpress.com/2018/09/15/o-abismo-das-falsas-equivalencias-divagacoes-sobre-a-comparacao-entre-as-esquerdas-e-bolsonaro/