Pedro Henrique Antunes da Costa** e Kíssila Teixeira Mendes***

Esboçar uma interpretação acerca das subjetividades produzidas na presente conjuntura – desafio aqui posto – nos leva a uma primeira conclusão: as subjetividades estão em disputa e caracterizam trincheiras de batalhas. Não por acaso, temas como ideologia, consciência e conscientização parecem retomar aos poucos sua relevância acadêmica e política. Na esfera da disputa política – onde se inserem propostas como o Escola sem Partido, a suposta “ideologia de gênero”, entre outras – em que se reforçam pautas conservadoras e reacionárias e se discute acerca do ressurgimentos de fascismos, neofascismos ou protofascismos, a saúde mental torna-se cada vez mais relevante e debatida. Os próprios retrocessos nas políticas sociais, como um todo, não podem ser pensados dissociadamente de suas vinculações com a produção de determinadas subjetividades e subjetivações. Tudo isso nos leva a considerar que as disputas e enfrentamentos necessários se dão nos planos objetivo e subjetivo, afinal estes não apenas fornecem subsídios múltiplos, mas se conformam, não havendo dicotomia entre ambos; é a já famosa disputa por corações e mentes.

O atual estágio de desenvolvimento capitalista expressa, mais do que nunca, suas próprias limitações e natureza contraditória, e isso vale para a economia, para a política e para as subjetividades, vide os alarmantes e não-aceitáveis índices dos variados tipos de sofrimento, adoecimento, tanto físico quanto mentais – afinal tal separação não acontece na realidade em si. Diferentemente do que pode ser pensado e do que disciplinas do conhecimento como a Psicologia, a Psiquiatria, Neuroramificações e afins, hegemonicamente, nos disseram, falar sobre subjetividade não significa, por um lado, adentrar no mundo auto governável das nuvens e reino dos céus ou, por outro, abrir a cabeça das pessoas para localizá-la em determinados excertos cerebrais.

Tais subjetividades, portanto, não se produzem no vácuo, não são aglomerados de ideias puras e soltas, uma caixa de pandora psíquica, ou se tratam de meras causalidades de um social apartado do ser que o cria – e se cria a partir de sua ação. Falar sobre subjetividade nos remete ao próprio ser ao qual esta se remete. E se este ser não é dado ou estático, mas um processo, assim também será a subjetividade. Buscando uma síntese, a subjetividade aqui será compreendida enquanto processo de interiorização, por meio de representações mentais, de uma realidade externa, concreta e objetiva. Ou seja, é gerada nas e pelas relações sociais que estabelecemos com os outros, a natureza e as coisas, em determinado contexto e período histórico.

Tais subjetividades, enquanto expressões do atual estágio de desenvolvimento da sociabilidade capitalista – de esgotamento das possibilidades civilizacionais e de  humanização, que fazem, justamente, parte de sua rota -, na particularidade brasileira não apenas dependente, mas servil e de base colonial, demonstram a irreconciliabilidade a que chegamos, indicando o tamanho da montanha que devemos conquistar[1], mas, igualmente, sinalizando caminhos para essa conquista. E se a montanha não se move e se derruba sozinha, nós iremos até ela e provocaremos sua avalanche.

O atual Brasil da cólera – que a tem em sua gênese e a traz em sua formação – é o da (ainda maior) precarização da vida, o que, por sua vez, traz uma série de implicações para uma precarização subjetiva. E tudo isso se dá na e pela ofensiva do capital em sua faceta e razão-de-ser neoliberal, tendo como fundamento o trabalho e as formas como ele se constitui no modo capitalista de produção e reprodução da vida social. No capitalismo, as únicas mercadorias que não são livres são os próprios seres humanos, que não têm nada para se manter a não ser as suas forças de trabalho. A despeito do que se expressa, a liberdade que temos é meramente formal e não concreta, não se dá objetivamente. Na atualidade, nada é tão ilustrativo quanto a crise humanitária imperialista – como expressão da crise estrutural -, compelindo milhares de pessoas a fugirem de seus contextos de vida e se refugiarem em outras localidades, mas sendo impedidas de adentrarem em determinados países, em decorrência de suas nacionalidades, origens raciais e étnicas e condições socioeconômicas. E se este ser, ao vender sua força de trabalho, torna-se um mercadoria – cabe ressaltar, mais barata do que as que produz -, poderíamos afirmar que suas subjetividades também se mercantilizam.

Dessa forma, a lógica do capital, para sua própria manutenção, preenche todos os âmbitos da vida pública e privada – em uma espécie de terrorismo psicossocial – que se coloca disfarçadamente como uma falsa liberdade individual. Os problemas sociais do Estado, assim, transitam entre público e privado, se materializando, fundamentalmente, na responsabilização dos sujeitos por seus problemas – como uma psicologização da vida social. Tal valorização abstrata do indivíduo, na verdade, se converte em um esvaziamento das individualidades. O ethos individualista torna-se, assim, o principal legitimador do capitalismo em seu movimento e natureza imperialista. Como consequência, a psicologização das relações sociais compensa o vácuo societário que possibilitaria relações autônomas, e as relações com as instituições públicas, por exemplo, se dão, no máximo, a partir de um caráter personificado – visando um ajuste das “personalidades”. A resignação e o fatalismo, não por acaso, são as chaves explicativas desse momento histórico, como veremos. Como consequência, a patologização como norte, mira no controle dos sujeitos que escapam à “normalidade” exigida pela ordem.

Acompanhando tal individualização, autonomização e psicologização, temos que a mente domina o homem e, portanto, o mundo: um fetichismo da subjetividade. Para sair da pobreza, basta pensar positivo, afinal existe um desejo, um gozo – primário ou secundário – em tal condição pauperizada e subalterna. Ou essa condição será resolvida com tratamentos para a mente empobrecida e, que, por isso, produz a pobreza ou prende a pessoa nela. Mude seu mindset, que o “worldset” muda automaticamente, preconiza o coach. As próprias “doenças” que, em tese, dizem respeito à subjetividade, quando não se reduzem às coisas propriamente ditas, são compreendidas em razão delas. Por exemplo, uma das novas modas, a “dependência tecnológica” se dá em razão das tecnologias, isto é, o problema está nestas e sua capacidade mirabolante de nos escravizar, e não acerca de possíveis faltas e ausências as quais são preenchidas não pelas tecnologias em si, mas pelo que estas mistificam proporcionando às pessoas. Ora, se o problema é a tecnologia, a solução é simples: acabemos com ela; voltemos à idade das pedras. Por mais que tal assertiva pode parecer absurda ela está presente, por exemplo, no entendimento e tratamento da “questão” das drogas, na lógica antiproibicionista: é só trocar os termos “tecnologia” por “drogas”. Aproveitando o gancho, temos a dependência de drogas (ou seja, das drogas-mercadorias), tratada harmonicamente como uma dependência química, se reduzindo à fisiologia humana e aos componentes de tais substâncias, ou uma toxicomania, restringindo-se ao psiquismo.

Nesse sentido, é bastante esclarecedora a concepção de Martín-Baró (1984/2017)[2]  sobre saúde mental, como sendo a materialização nos indivíduos do caráter humanizador ou alienante de nossa sociedade, por meio das relações que estabelecemos entre nós, com as coisas e o mundo. Põe-se claramente o terreno pantanoso e antagônico sob o qual emerge o ser humano e sua subjetividade no capitalismo: humanização versus alienação.

Se queremos, então, abordar o “problema” contemporâneo da saúde mental em sua complexidade, devemos, antes de tudo, olhar mais para o modo de funcionamento de nossa sociedade e menos para dentro das cabeças das pessoas. Nossos manuais diagnósticos, como o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM), ao invés de tipificarem as “patologias mentais” a partir de suas estruturas internas ou sintomas – sendo eles construções sociais tomadas como se fossem naturais e dadas -, poderiam fundamentar suas classificações de tal forma: A causa do absenteísmo no trabalho de Fulano é o… trabalho (alienado); A histeria de Beltrana se chama patriarcado e machismo; Sicrano sofre de racismo; Sua depressão se chama desemprego, ausência de perspectivas de vida etc.

Fundamentando-se em Harvey (1998)[3], a tese defendida é a de que há uma relação necessária entre a ascensão de formas culturais “pós-modernas” com a reestruturação produtiva capitalista ocorrida nos anos 1970 e a emergência de modos flexíveis de acumulação do capital, tendo como principal mecanismo a compressão do espaço-tempo. Assim, suas principais características seriam: a relativização e compressão da dimensão espaço-tempo, uma maior volatilidade, imediatismo e fragmentação, fomento ainda maior às individualidades e competitividade, hedonismo, efemeridade da vida e relações, numa busca incessante e alienante pela felicidade e prazer, dentre outras, ao mesmo tempo em que se fortalecem as desigualdades sistêmicas do capitalismo, atrelada à liberdade e ditadura do mercado.

Portanto, essa flexibilização também perpassa a forma como nos relacionamos com as coisas e não apenas os processos e formas produtivos. Comidas e seus valores de uso, em termos da saciação, são abocanhadas pela quantidade calórica, saúde é encapsulada, produção de conhecimento vira o número de artigos publicados e o tamanho do lattes, dentre outras. Observamos, então, seus reflexos em nosso “mundo privado”, fazendo com que questionemos a cisão entre o público e o privado do capitalismo. Movidos pela máxima do desempenho, da eficácia, do imperativo do quantitativo sobre o qualitativo, nos relacionamos uns com os outros. Amizade e sociabilidade medidas por número de amigos nas redes sociais, felicidade pelo número de likes etc. Até mesmo elementos da intimidade passam a ser medidos por tais réguas, como o desempenho sexual (com o próprio nome já sendo bastante representativo), reduzido ao número de parceiros, de gozos, de minutos perdurados.

Do mesmo modo que somos mercadorias, mercadores e empreendedores de si, somos os consumidores em potencial daquilo que se produz. A lógica disciplinar, até então presente nos chãos das fábricas, flexibiliza-se e torna-se ainda mais subjetiva, de modo a nos “prender” às mercadorias, isto é, ao consumo, permeada pelos fatores culturais tão bem descritos e analisados por Harvey; daí a importância dos fetichismos da mercadoria e da subjetividade. Não somos mais regidos apenas pelas esteiras industriais, pela rigidez fordista, mas, cada vez mais, por correntes invisíveis que nos aprisionam às coisas sob o signo da liberdade. Estas coisas, por sua vez, têm o seu tempo de vida cada vez menor, na chamada obsolescência programada, de modo que sejam trocadas em uma maior frequência, renovando os mercados e gerando mais lucros. Para dar conta de toda essa superprodução, nos é requisitado, por um lado, não somente o consumo, mas o consumismo, e, por outro, uma maior exploração no âmbito do trabalho de maneira flexibilizada, com a realização de várias tarefas e ocupação de vários postos ao mesmo tempo – o multitasking ou, em bom português, o trabalhador bombril, mil e uma utilidades -, com ares de modernização, adjetivações positivas de empreendedorismo e afins. Além disso, temos uma transposição dos antagonismos estruturais para a esfera individual, fomentando uma polarização social entre indivíduos, como se o problema fosse meramente de uns contra os outros, contribuindo para a perpetuação e intensificação da alienação e diferenciação frente ao da visualização de similitudes e identificação comum.

Aumentos nas incidências e prevalências de transtornos mentais, nos números de suicídios, dependências das coisas, tudo isso se intensifica acompanhando o movimento do real – e sendo parte dele. Deveria, então nos fazer refletir que, apesar de reverberações docilizantes da ordem, também são as formas que as subjetividades, corpos, os sujeitos conscientes ou inconscientes têm de gritar e buscar visibilizar a dominação que lhes aflige. Cabe a nós não reproduzirmos o ajustamento a uma ordem cuja normalidade é o desajuste, dando vazão a estes gritos. Exemplos claros e cotidianos desses mecanismos de fomento e gerenciamento são a (psico)patologização e medicalização da vida, o neopentecostalismo (e sua Teologia da Prosperidade), o coach, dentre outros. Medicamo-nos, nos medicam e a dor não cessa. Aumentamos a dose e o incômodo permanece. Rezamos e a graça não chega – pelo menos não para nós. Nós somos a imagem e semelhança de Deus e ele não tem sido brasileiro, parece. Pensamos positivo, mas a realidade teima em não melhorar. Nem a felicidade compulsória tem sido eficaz. É o reino do fracasso: pessoal – o que constata o êxito do sistema. Voltamos uns para os outros e nos culpabilizamos, almejamos a supressão dos também explorados e oprimidos ou miramos nos exploradores e opressores, em grande parte, os idealizando e almejando ocupar seus lugares.

Mais do que nunca imperam dois grandes – e antigos – desafios humanizatórios ao conjunto dos explorados e oprimidos: transformar, por meio da tomada de consciência coletiva, de classe para si, essa autonomização e o decorrente ressentimento em ódio de classe e mirá-lo ao sistema e a classe dominante que se indissociam, fazendo-os ruírem de mãos dadas. Em síntese, reposicionar conscientemente nossas armas para a destruição dos muros e pilares dessa sociedade, até que não reste um tijolo intacto, construindo a partir dos escombros algo e alguéns inteiramente novos. Para construir o novo é preciso fazer morrer o velho.

Nesse sentido, usando como ilustração e metáfora do filme Bacurau (contém spoiler), cada cabeça explodida daqueles que vieram explodir Bacurau e os seus – sendo, historicamente, bem-sucedidos por aqui – , torna-se um regozijo para os que a explodem ou aqueles que compreendem o que isso significa e não se contentam em apenas entender. Cabeças brancas, europeias, estadunidenses explodidas, não mais africanas e latino-americanas. E os nossos Rambos são de carne e osso: são gays, lésbicas, pretos(as), pobres, possuem genitálias, rugas e barrigas; são perpassados por contradições. Suas próprias existências já são provas de resistência e oposições em si à ordem.

Notas:

[1] Título de obra de István Meszáros, publicada no Brasil pela Boitempo Editorial, em 2014.

[2] MARTÍN-BARÓ, I. Guerra e Saúde Mental. In: MARTÍN-BARÓ, I. (Organização, notas e tradução Fernando Lacerda Júnior). Crítica e libertação na Psicologia: Estudos psicossociais. Petrópolis: Editora Vozes, p. 251-270, 1984/2017.

[3] HARVEY, D. Condição pós-moderna: Uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Edições Loyola, 1998.

* Texto oriundo do livro Subjetividades no Brasil da cólera: Formação e conjuntura, que se encontra em processo de finalização.

** Pedro Henrique Antunes da Costa é Psicólogo, Mestre e Doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). É Professor do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Brasília (UNB). E-mail: phantunes.costa@gmail.com

*** Kíssila Teixeira Mendes é Cientista Social e Psicóloga. Mestre e Doutoranda em Psicologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). E-mail: kissilamm@hotmail.com

**** Fonte da imagem: <https://www.fayerwayer.com/2019/10/video-caupolican-estatua-temuco/&gt; Acesso em: 04 nov. 2019.