Marcelo Sevaybricker Moreira

Marcia Rangel Candido

Paulo Henrique Paschoeto Cassimiro

Nara Salles

Jorge Chaloub

Diogo Tourino de Sousa

Fernando Perlatto

 A força de uma obra passa, em parte, pela sua duração no tempo. Dentre os possíveis indícios dessa virtude, está sua capacidade de atingir e influenciar distintas gerações. Com base nessa ideia, a Escuta propôs que alguns jovens acadêmicos, ainda no início de suas carreiras como professores e pesquisadores, escrevessem sobre a obra de Wanderley Guilherme dos Santos. Desses convites surgiu uma grande diversidade de relatos, que vão do tom mais pessoal, de quem conviveu com o homenageado, a distintos olhares sobre a sua obra.

 Um legado memorável

Nota pessoal

Marcelo Sevaybricker Moreira*

Em agosto deste ano finalizei a redação de meu primeiro livro, que versa sobre a obra e a trajetória de Wanderley Guilherme dos Santos. Quando aguardava a publicação desse escrito, fui pego de surpresa pela notícia de seu falecimento. Poder-se-ia dizer que ninguém deveria ficar espantado com a morte de alguém com 84 anos. No entanto, Wanderley não era, para mim e para muitos, um simples “alguém”. Embora o conhecesse pouco pessoalmente (entrevistei-o duas vezes no Rio e nos encontramos mais uma vez em Minas), posso dizer que me formei como cientista político através de seus textos e do seu olhar sobre a democracia e sobre a política nacional. Desde 2006, no mestrado (e também em parte do doutorado) passei a estudar sistematicamente a sua obra e a acompanhar sua trajetória intelectual. Depois disso, como um modo de encerrar essa etapa, de aproximadamente treze anos de pesquisa, e passar para uma nova, me dediquei, nos últimos dois anos, a escrever o livro acima mencionado. Quem imaginaria que essa pesquisa se encerraria junto à morte de seu “objeto”! Pois agora vejo que a morte de pessoas extraordinárias, como Wanderley, ocorre sempre cedo demais. Ao contrário do que esperava, não poderei saber o que ele achou do livro, ele, que, em 2008, foi tão generoso ao receber o trabalho final de um mero mestrando, dizendo: “No mais, parabéns pelo êxito de seu trabalho, que independe do mérito intrínseco do seu objeto de estudo. Pessoalmente, fiquei muito gratificado por ter meu trabalho intelectual escolhido para análise de um futuro doutor com apurado rigor e correção artesanal. Abraço cordial, Wanderley Guilherme”. Segue, pois, algumas passagens do livro (aqui editadas e bastante modificadas para a Revista Escuta), como uma humilde homenagem ao legado memorável desse autor.

***

Wanderley Guilherme dos Santos (doravante WGS) representa hoje, junto a alguns nomes de sua geração, um tipo de intelectual, por assim dizer, “em extinção”. Os jovens intelectuais no Brasil (e, provavelmente, em todo o mundo) estão sujeitos a um processo de crescente especialização acadêmica. Cada pós-graduando é compelido a escolher um nicho de pesquisa a qual se dedicar integralmente, perdendo, obviamente, a capacidade de formular uma visão mais ampla da realidade. Ao lado dessa tendência, o estudioso da política, em particular, acaba se distanciando da opinião pública, pois seu trabalho passa a ser avaliado mais por marcadores de qualidade internos à própria comunidade científica. É certo que em relação a essas tendências da intelectualidade brasileira é possível encontrar contraexemplos, mas eles constituem antes a exceção do que a regra. Por essas e outras razões, penso que a obra de WGS representa um importante contraponto ao modo majoritário de se fazer hoje ciência política no país, embora ele deva ser reconhecido como um dos principais “pais-fundadores” dessa ciência entre nós. Primeiramente, porque essa obra ainda é capaz de dialogar com as diversas subáreas do estudo da política, tendo, por conseguinte, desdobramentos que não se circunscrevem a uma área de especialização. Assim sendo, pode-se encontrar textos seus que são referenciais sobre teoria política, partidos, eleições, políticas públicas, dentre outros assuntos; convenhamos, algo, por si só, excepcional para qualquer cientista social hodierno. Além disso, por mais de meio século, WGS dedicou-se a realizar análises de conjuntura a fim de esclarecer o debate público brasileiro, tal como em “Quem dará o golpe no Brasil?”, Kantianas brasileiras, Regresso, À margem do abismo, e, mais recentemente, no blog Segunda Opinião. Outra característica de seu trabalho intelectual é que ele é sempre teórico e empírico: se seus escritos estão lastreados por amplo conjunto de dados (muitos deles coletados pelo próprio WGS, como em Que Brasil é este?), o uso de teorias não é algo secundário ou instrumental na sua análise. A divisão do trabalho entre “empíricos” e “teóricos”, tão comum na ciência política contemporânea, inexiste na obra de WGS. Cumpre destacar que o seu pensamento é marcado, outrossim, por conceber a política não como uma dimensão à parte da sociedade, da economia, etc., mas como parte integrada a elas. Diferentemente de certas tendências influentes na “nova ciência política”, seus escritos se formam pela articulação entre instituições políticas e outras variáveis, o que não o impediu de examinar, por meio de um recorte específico, o impacto dessas instituições sobre a dinâmica do poder, como na sua tese de doutorado transformada em livro: Sessenta e quatro: anatomia da crise. Por outro lado, essa compreensão articulada o permitiu compreender que o grande problema brasileiro não reside na dimensão institucional (daí o equívoco dos reformistas), mas, sim, nas formas de sociabilidade vigente no país. Não menos importante é o fato de que a obra de WGS nos relegou uma nova narrativa sobre a formação do Brasil (incluindo-se no rol dos chamados “intérpretes do país”), e não apenas estudos circunscritos sobre um aspecto da política. Nela, a democracia nacional emerge dos conflitos internos ao passado oligárquico, em um processo não-teleológico e sempre sujeito a retrocessos. O caso brasileiro, como de outras nações periféricas, é compreendido como particularmente mais complexo do que o das democracias mais “antigas”, dado que a formação de sua poliarquia ocorreu em um contexto institucional e social adverso, na medida em que nem mesmo a integração do território nacional havia sido plenamente realizada, não se tinha universalizado os direitos básicos e, portanto, tinha-se que lidar, simultaneamente, com pressões por garantias constitucionais, ampliação da participação política e por redistribuição da riqueza, como explicado magistralmente em Razões da desordem. A partir dessa nova explicação para o problema nacional, evidencia-se um déficit de cultura e práticas cívicas no país que, embora não sejam sinônimos de democracia, são um pré-requisito de sua efetivação. Como horizonte normativo para a consolidação da democracia (hoje ameaçada, como ele denuncia em A democracia impedida), WGS reafirma a necessidade de se manter (e, se possível, aumentar) os atuais níveis de competição e de participação política (bastante satisfatórios quando comparados com os de outros países) e – principalmente – de realizar, ao mesmo tempo, a “constitucionalização” de todo território brasileiro. Não é possível deixar de lembrar aqui que também do ponto de vista institucional, WGS, junto a outros de sua geração, teve também um papel decisivo, como na fundação e direção do IUPERJ, da Revista Dados e da ANPOCS, abrindo os caminhos para os cientistas políticos mais jovens. Em resumo, a análise de sua trajetória acadêmica e de sua obra permite ao observador não apenas conhecer abordagens, indicadores, hipóteses e dados fundamentais da política contemporânea (sobretudo, sobre as democracias de massa, objeto ao qual ele se dedicou com afinco), como acompanhar o processo de institucionalização e de formação das tradições da moderna ciência política brasileira, ciência essa, como se sabe, formada sob forte influência estadunidense. Sob esse aspecto também, se é verdade que seus textos evidenciam a incorporação dessa matriz epistêmica, como em relação à teoria da poliarquia (formulada por Dahl e modificada por ele em “Poliarquia em 3D”), por outro lado, longe estamos de uma mera imitação de ideias criadas alhures. Mais do que isso, diferentemente de muitos politógos de nosso país, o pensamento de WGS nunca ignorou as tradições do pensamento político brasileiro (PPB). A fundação de uma nova ciência, de sua parte, não implicou na rejeição das “velhas” formas de se estudar a política no país. A própria conformação da subárea de PPB é, em grande medida, decorrente de seus estudos sobre autores brasileiros, como os capítulos de Ordem burguesa e liberalismo político sobre o até então quase ignorado, Oliveira Viana. Interpreto, pois, a obra de WGS como expressão de uma transição entre dois modos de se fazer ciência política no país: aquela feita tão tipicamente no ISEB, nos anos 50-60 (ainda que WGS não fosse, é bem verdade, um isebiano típico), e a que se tornaria hegemônica no país a partir dos anos 70, tal como praticada pelo IUPERJ. Na sua trajetória, portanto, a “velha” e a “nova” ciência política se encontraram de maneira excepcionalmente virtuosa. Creio que por todas essas razões aqui arroladas, a obra e a trajetória de WGS sirvam como uma experiência-modelo, rica de possibilidades e promessas para qualquer jovem cientista político no país e no mundo.

*Marcelo Sevaybricker Moreira é doutor em Ciência Política pela UFMG, Professor da Universidade Federal de Lavras (UFLA) e colaborador da Escuta.

 

 

Wanderley Guilherme dos Santos: um pioneiro na História da Ciência Política brasileira

Marcia Rangel Candido**

…eu acho que as mulheres da minha geração, nos anos 70, final de 60 e 70, as mulheres pós-pílula, que não queriam ter uma trajetória comum, tinham três alternativas, ou o desbunde, ou a clandestinidade, ou fazer a pós-graduação. Eu e algumas colegas queridas fomos fazer a pós-graduação, e lá né, a convivência com o Wanderley foi, assim, espetacular. Eu devo ao Wanderley a estrutura teórica da minha tese, apesar de ser na área de política externa.

 O Wanderley sempre exigiu que a gente fosse no limite.

 

Os trechos acima são parte do depoimento da cientista política Maria Regina Soares de Lima em um evento de homenagem às contribuições de Wanderley Guilherme dos Santos, realizado no IESP-UERJ, em 2015[1]. Longe de ser um intelectual que recebeu apenas reconhecimento póstumo, WGS, falecido no último dia 25 de outubro, testemunhou em vida uma série de declarações de admiração, fossem elas estritamente acadêmicas, publicamente formais, ou atravessadas por relações interpessoais.

A história da ciência política costuma ser relatada no Brasil a partir da criação de instituições de ensino e pesquisa – como os programas de pós-graduação -, a consagração de periódicos especializados, a consolidação de associações profissionais e o alcance de autonomia epistêmica, marcada pela definição dos fenômenos políticos como objetos centrais de estudo. Por todos esses fatores, além de outros tantos, a delimitação de “fundador” encontrou em Wanderley plena personificação. A declaração de Soares de Lima, por sua vez, é singular ao manifestar, em meio à alusão à inserção feminina em uma disciplina dominada por homens, o papel de professor e incentivador que WGS exercia.

No âmbito das instituições, Wanderley fez parte das primeiras iniciativas que almejavam qualificar os debates sobre a realidade política e social nacional. O intelectual participou do findado Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), fechado com o golpe militar de 1964; foi figura central na constituição dos cursos de mestrado e doutorado do antigo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), atual IESP-UERJ, tendo orientado, inclusive, a primeira tese defendida no programa de pós-graduação em ciência política, de autoria de Ângela de Castro Gomes, em 1987; e, lecionou em projetos precursores de formação em metodologia de pesquisa em ciências sociais, como os elaborados sob coordenação de Fanny Tabak no Instituto de Direito Público e Ciência Política da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ) em parceria com o IUPERJ, o Centro Latino-Americano de Pesquisas em Ciências Sociais (CLAPCS) e a Pontifícia Universidade Católica (PUC- RJ) (Tabak, 1971).

Em 1977, Wanderley foi um dos articuladores da fundação da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), na qual ocupou a presidência entre 1983 e 1984. Em 2006, por seu turno, a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) concedeu a WGS o Prêmio Victor Nunes Leal, um dos tantos que o autor viria a receber ao longo de sua trajetória. A obra agraciada na condecoração foi Horizonte do Desejo: instabilidade, fracasso coletivo e inércia social, que busca entender o conformismo brasileiro frente às intensas desigualdades sociais do país. Dono de uma bibliografia acadêmica que excede, em muito, a média de produtividade e qualidade dos “meros mortais”, os frutos do trabalho do intelectual são objeto permanente de intensa discussão, algo que originou, por exemplo, a organização de livros com ensaios selecionados (Santos, 2017) e a publicação de artigos que tomavam seus escritos como fonte de observação sobre a construção e o aprimoramento de sub-áreas do conhecimento na ciência política (Lynch, 2013; Moreira, 2014), referência em métodos (Amorim Neto e Rodriguez, 2016) ou hipóteses de pesquisa (Amorim Neto, 2002).

Na repercussão da morte de WGS na mídia, a cientista política Maria Hermínia Tavares de Almeida, também pioneira na disciplina, salientou a dificuldade de eleger quais livros comentar frente à amplitude da obra do intelectual. Para a autora, merecem destaque Quem dará o golpe no Brasil?, de 1962,  Cidadania e Justiça, de 1979, Sessenta e Quatro: anatomia da crise, de 1986, Crise e Castigo: partidos e generais na política brasileira, de 1987 e A democracia impedida: o Brasil no século 21, de 2017[2]. Em linhas gerais, a produção de Wanderley aprofundou o entendimento sobre pensamento político brasileiro, instituições e aspectos filosóficos da política, sempre com o intento de aprimorar e fomentar a democracia; contribuindo decisivamente para a autonomização dos fenômenos políticos como temática de análise.

Por outro lado, embora grande parte das publicações em livro de WGS tenham obtido legitimidade e se tornado referência obrigatória no ensino de ciência política, elas atestam também o descaso do mercado editorial brasileiro com os clássicos nacionais. A última edição de Sessenta e Quatro: anatomia da crise, que foi revista e ampliada em O Cálculo do Conflito: Estabilidade e Crise na Política Brasileira, ganhou prêmio da Academia Brasileira de Letras (ABL), mas é datada de mais de quinze anos atrás. Ter acesso ao livro impresso requer desembolsar pelo menos 130 reais em sebos virtuais.

Vale mencionar, entretanto, que a abrangência do aporte escrito de Wanderley à ciência política não se restringe à prolífica produção em livros. Os mais de cinquenta anos de atuação profissional de WGS acompanharam a modernização do sistema de comunicação científica e o autor ingressou nas redes sociais, mantendo um blog de análise de conjuntura política – o Segunda Opinião – e divulgando os posts em sua página do Facebook – Wanderley Guilherme dos Santos. Além disso, no que toca aos periódicos acadêmicos, o cientista político também chegou a exercer cargo de editor na DADOS, uma das revistas mais importantes da disciplina no país, originada no antigo IUPERJ e, atualmente, em exercício no IESP-UERJ.

A DADOS foi marcada por Wanderley não só em sua rápida passagem como editor, mas também pela assiduidade com que o intelectual colaborou às edições do periódico. Entre notas e artigos, WGS assumiu a liderança de textos publicados – 19 -, bem como veio a se tornar o autor mais citado da história da revista, passando à frente de referências estrangeiras, o que raramente ocorre no Brasil (Campos, Feres Júnior e Guarnieri, 2017)[3].

O legado de WGS à ciência política é inconteste e imenso. Retomando a declaração de Soares de Lima, contudo, exalto especificamente a dimensão da instrução e formação de gerações de pesquisadoras(es). Em acréscimo aos depoimentos de colegas de profissão e estudantes, é possível encontrar na obra de Wanderley a constante confrontação direta ao que significava produzir estudos sobre política no país. O intelectual valorizava a tradição de pensamento político e social nacional, ao mesmo tempo que desafiava a comunidade de cientistas a enxergar mais longe e aperfeiçoar suas análises.

Ainda nos anos 80, quando a ciência política começava a vislumbrar o processo de redemocratização do Brasil e a desfrutar certa estabilidade, WGS escreveu para a DADOS um ensaio sobre a disciplina na América Latina. No texto, o pioneiro, cuja totalidade dos escritos é basicamente de autoria individual, acusava a institucionalização da área na região de vir acoplada a consequências particularmente negativas, representadas por incompetências dos pesquisadores em realizar totalizações parciais, em diálogo com métodos históricos, referenciais econômicos e marxistas. Estas falhas, grosso modo, estariam explícitas em produções sobre a política que se mostravam dóceis às perspectivas “vitoriosas” de narração dos eventos passados, às “autoridades” bibliográficas da economia ou à incorporação de debates marxistas de “segunda classe” (Santos, 1980).

Envolto no contexto da ditadura militar e tendo a defesa da democracia como principal marco do seu pensamento, WGS não deixava de mencionar a perseguição de regimes autoritários, a violência e a censura, direcionadas às ciências sociais. Mas Wanderley salientava:

“Se é lícito exigir dos investigadores sociais que, enquanto cidadãos plenos, lutem pela emergência de regimes políticos mais livres e mais justos na área, é igualmente válido que se os convoque a maior responsabilidade intelectual, iniciando-se esta pela aceitação de um debate sobre nossas próprias insuficiências (Santos, 1980: 26).”

Tal tarefa, aparentemente interminável, se manteve como norte nas últimas aparições públicas de WGS. Além de ter colaborado à criação de cursos de pós-graduação, à formação de associações profissionais, à escrita de livros exemplares, ao contínuo exercício da docência, à circulação de textos simplificados de conjuntura em meios virtuais, à editoração de revistas e à publicação de artigos científicos, conformando uma atuação ímpar de intelectual público, Wanderley se despediu nos desafiando ao atrevimento. Dominar métodos e referências, nesse caso, poderia ser um traço estimado da disciplina na contemporaneidade, mas que, no entanto, nos aprisionou a não sofisticar a originalidade do que temos produzido[4]. Um dos grandes “pais” da ciência política brasileira nos instou, mais uma vez, a ir ao limite, e superá-lo.

Referências Bibliográficas

AMORIM NETO, Octavio.  (2002), De João Goulart a Hugo Chávez: a política venezuelana à luz da experiência brasileira. Opinião Pública, v.8, n,2, p. 251-274.

AMORIM NETO, Octavio.  RODRIGUEZ, Júlio César Cossio. (2016), O novo método histórico-comparativo e seus aportes à ciência política e à administração pública. Rev. Adm. Pública, v.50, n.6, p.1003-1027.

CAMPOS, Luiz Augusto. FERES JÚNIOR, João. Guarnieri. (2017), 50 Anos da Revista DADOS: Uma Análise Bibliométrica do seu Perfil Disciplinar e Temático. DADOS – Revista de Ciências Sociais, v.60, n.3, p.623-661.

GUILHERME DOS SANTOS, Wanderley. (1980), A Ciência Política na América Latina: notas preliminares de autocrítica. DADOS – Revista de Ciências Sociais, v.23, n.1, p;15-27.

LYNCH, Chrystian Edward. (2013), The institutionalization of Brazilian Political Thought in the Social Sciences: Wanderley Guilherme dos Santos’ Research Revisited (1963-1978). Brazilian Political Science Review, v.7, n.3, p.36-60.

MOREIRA, Marcelo. (2014), A Poliarquia Brasileira e a Reforma Política: Análise de uma Contribuição de Wanderley Guilherme dos Santos à Teoria Política. DADOS – Revista de Ciências Sociais, v.57, n.2, p.293-323.

SANTOS, Wanderley Guilherme. (2017), LYNCH, Chrystian Edward (org.) Imaginação Política Brasileira: cinco ensaios de história intelectual, Editora Revan: 216p.

TABAK, Fanny. (1971), Relatório sobre o trabalho do Instituto de Direito Público e Ciência Política para a formação de pesquisadores em conjunto com o Instituto Universitário de Pesquisas, a Pontifícia Universidade Católica e o Centro Latino-Americano de Ciências Sociais. Revista de Ciência Política, Rio de Janeiro, v. 5, n. 4.

 

A última aula de Wanderley Guilherme dos Santos.

Paulo Henrique Paschoeto Cassimiro***

Muito já foi dito e ainda mais o será sobre a obra diversa e fundamental de Wanderley Guilherme dos Santos, sobre a capacidade que seu trabalho teve de abrir caminhos novos na ciência política brasileira, sobre os conceitos fundamentais e interpretações centrais que ele legou à compreensão do Brasil – o autoritarismo instrumental, a cidadania regulada, a paralisia decisória, dentre outros. Como todo clássico, a obra de Wanderley será merecidamente revisitada, criticada e reavaliada pela atual e pelas futuras gerações de cientistas sociais. Será inevitável que aconteça com seu legado intelectual aquilo que ele próprio evitou durante toda a vida: converter-se num “intérprete do Brasil”, um autor consagrado cujos últimos anos seriam dedicados a glosar a própria obra. Wanderley demonstrava um incômodo com a necessidade de comentar aquilo que já havia escrito e, quando republicava seus livros, quase sempre fazia questão de adicionar algo a mais à nova edição.

A última prova de sua constante inquietação com a necessidade de explorar novos caminhos, novos problemas e novas explicações para os fenômenos políticos foi o curso que estava ministrando no IESP-UERJ até a última semana de vida, que levava o título provocador e desafiador de “Introdução ao século XXI”. O curso era uma tentativa angustiada de entender a crise das sociedades contemporâneas e o processo que Wanderley passara a chamar de “declínio da sociedade industrial”. Ele estava imerso em uma literatura apenas saída do forno, não somente no campo das ciências sociais, mas da economia, da demografia, da engenharia robótica, da informática, etc. Em sua última aula, no dia 22 de outubro, dedicou-se a explicar o processo de expansão da produção dos bens de subsistência com a revolução industrial e as condições de possibilidade para a expansão populacional das sociedades europeias, com uma brilhante retomada crítica da teoria de Malthus. Interessava-lhe revisitar todo o processo de formação da sociedade industrial – suas bases materiais, suas redes de solidariedade e formas da ação coletiva – com o objetivo de entender em que condições demográficas, econômicas e sociais a democracia foi possível para que, por fim, ele pudesse compreender com precisão em que medida o processo de exaustão da sociedade industrial poderia apontar para uma exaustão correspondente da democracia como forma de organização das sociedades contemporâneas. O tema das condições de possibilidade da democracia, eixo em torno do qual construiu sua obra, orientou suas pesquisas até o fim.

Contudo, o mais interessante daquela aula ficou para o fim. Após voltarmos do intervalo para o café, Wanderley informou que tinha um “assunto difícil” para tratar conosco: disse que não se sentia a altura daquele curso, que não estava sendo capaz de organizar as informações de modo satisfatório e que seu desempenho estava aquém do que fora prometido aos alunos. Por fim, Wanderley anunciou que não poderia continuar e encerraria o curso ali. A reação dos alunos foi imediata e vários manifestaram o desejo de que ele continuasse o curso da forma que achasse adequado, pois estavam ali, sobretudo, para ouvi-lo. Ao fim, ele aceitou manter as aulas, se elas se transformassem em uma conversa com a participação de todos, e não num curso puramente expositivo, e concluiu avisando: “mas nesse modelo nós vamos até acabar a bibliografia. Não sei se em janeiro, fevereiro, mas não tem data pra acabar!”.

Ao longo deste último ano de convivência constante, Wanderley mudou definitivamente minha compreensão sobre a atividade de um cientista social, me ensinando que é o mundo e sua dimensão conflituosa e em constante transformação que deve orientar e conduzir os nossos objetivos e interesses acadêmicos, antes do que as especialidades consolidadas e modas acadêmicas; e que a urgência dos tempos coloca desafios que o cientista social comprometido com sua atividade intelectual deve enfrentar. Minha pesquisa recém-iniciada na Universidade de São Paulo deve muito ao que ouvi em suas aulas e às conversas que tínhamos após elas.  Ao fim da aula saímos, como sempre, para comer uma pizza na companhia de Argelina Figueiredo, Vanda Ribeiro e César Caldeira, amigos pessoais de Wanderley e acadêmicos com carreiras consolidadas que estavam ali, sentados junto aos alunos, para ouvi-lo e aprender com ele. Na volta ofereci uma carona até sua casa e fomos conversando animadamente sobre a nova série que Wanderley estava ansioso para ver, “Catarina, a Grande” (com comentários sobre a persistente beleza de Helen Mirren) e sobre o jogo do Flamengo no dia seguinte. Ao chegar, Wanderley se despediu dizendo: “Obrigado, Paulo. Até a próxima!”.

Até a próxima, mestre!

*** Paulo Henrique Paschoeto Cassimiro é doutor em Ciência Política pelo IESP-UERJ, pós-doutorando em Ciência Política pela USP e colaborador da Escuta.

  

Wanderley Guilherme dos Santos entre a Roda de Samba da Pedra do Sal e os sistemas locais nacionalmente difusos

Nara Salles****

Era começo de noite de uma terça-feira de agosto de 2015 quando troquei minhas únicas palavras com Wanderley Guilherme dos Santos. Ao decidir fazer um intervalo no primeiro dia de aula de Partidos, Índices e Coligações, ele apontou para mim e disse:

– Fiz esta pausa para você, notei que está muito dispersa.

– Posso ser honesta, Wanderley? Estou mesmo. Fui ontem na Pedra do Sal, achei que me recuperaria para a sua aula, mas a verdade é que eu estou com uma ressaca que está me matando, desculpa.

– Onde fica a Pedra do Sal?

– Ê, ê, tantos anos no Rio de Janeiro e você nunca foi na Pedra do Sal?

Ingenuamente, cheguei a pensar por um momento que talvez ele não soubesse, de fato, o que era a Pedra do Sal, mas muito rapidamente me convenci que aquela foi apenas uma saída imediata diante de uma aluna inesperadamente confessa. Não ensinei a ele sobre o samba no Rio de Janeiro, mas ele me ensinou coisas tão maiores, que nenhum diálogo, senão o intelectual, seria capaz de materializar.

Isso aconteceu neste ano, quando fiz a leitura tardia de A Difusão Parlamentar do Sistema Partidário: exposição do caso brasileiro, que ele lançou em 2018 pela UFRJ, com colaboração de Fabrícia Corrêa Guimarães. Eu precisava explicar o fato empiricamente observado que muitos partidos no Brasil alinharam seus programas de governo nas eleições municipais de 2012 e de 2016 mesmos em locais tidos como os mais improváveis: os menores e mais pobres municípios. Desfrutei, então, do alento que só experimentam aqueles que encontraram um embasamento para chamar de seu – e também de alguma vaidade em descobrir que os meus achados muito se coincidiam com aqueles que WGS apontava.

Dos sistemas eleitorais de países-membro da OECD a uma abordagem histórica não surpreendentemente invejável da política brasileira, Wanderley tratou do desperdício de votos, discutiu o Número Efetivo de Partidos (NEP), organizou uma série de dados, propôs Índices 1, 2 e 3 de Competição Partidária e Eleitoral. Retomou a perspectiva comparada e histórica para tratar da nacionalização territorial das eleições, passou pela Sérvia, pela Síria e por Floriano Peixoto. Não negligenciou a variedade sociodemográfica e econômica dos municípios brasileiros, nem se esqueceu dos vereadores. Calculou a produtividade de cada partido, traçou perfis parlamentares das legendas periféricas, pensou a reforma eleitoral e finalizou com um ensaio sobre a disputa de 2016.

Substantivamente, sua maior contribuição é o conceito de sistemas locais nacionalmente difusos, através do qual ele redimiu os pequenos partidos pelos males da política brasileira. Em vez de negligenciar o que se passa na maior parte do Brasil e lançar mão de uma perspectiva quase folclórica que tipicamente se tem da política local, Wanderley, ao contrário, evidencia. Ele não deixa passar despercebido o fato de que, para classificar um partido como grande ou pequeno, mais vale o ponto de referência – que não deve ser única e cegamente o Congresso Nacional. O argumento não deixa de ser polêmico, mas é absolutamente necessário: foram as legendas periféricas que atenderam à demanda de representação, massificação e nacionalização dos eleitores brasileiros. Em outras palavras, os pequenos partidos cumpriram um papel que os grandes não foram capazes de exercer: institucionalizar a política no interior do país e, assim, impedir o enraizamento de um retrógrado cartel partidário.

Em nenhum sentido o seu argumento é trivial – e o é menos ainda quando se trata de política local no Brasil. Com justiça, é preciso reconhecer o desafio de se investigar o que se passa nos 5.570 municípios brasileiros e o que isso implica em termos de acesso e coleta de dados, por exemplo. Não pretendo, sobremaneira, ignorar os muitos esforços e suas consequentes contribuições que estão sendo feitos nesse sentido nos últimos anos. Fato é, no entanto, que ainda temos um retrato quase literário da política local no Brasil, arraigado no município de Victor Nunes Leal, delimitado por clivagens rural-urbano, interior-capital e, invariavelmente, definido como o lócus por excelência das práticas políticas arcaicas.

Porque é também este o desafio encarado por Wanderley em sua obra, estou segura de que qualquer estudo que, hoje, tangencie o tema dos partidos no nível local sem passar pela ideia de sistemas locais nacionalmente difusos tem qualquer coisa de desperdício. É uma revisão bibliográfica malfeita – que, não sem constrangimento, eu admito já ter elaborado.

A relevância de seus apontamentos é evidente, mas não foi nenhum deles que me levou a estado de êxtase neste diálogo com Wanderley – e sim o seu ponto de partida: crítico, honesto e inteiramente aberto à realidade brasileira. Partindo dos pequenos partidos, ele me ensinou que são as perspectivas incomuns que podem desobscurecer fenômenos ainda incompreendidos. Inserindo-se em universos pouco explorados, ele me relembrou da nossa vulnerabilidade a conclusões falaciosas quando não nos dedicamos a investigações incisivas e pormenorizadas. Conectando a crônica usual sobre os pequenos partidos com a reforma política, ele me atentou para o fato de que o horizonte da ciência política deve sempre e efetivamente ser um mundo real mais democrático.

Mas, sobretudo, ele me rememorou que o verdadeiro dever intelectual está mais em nos desafiar com perguntas que ainda não foram postas do que em convencer ou provar nossos argumentos. Não importa quanto busquemos métodos sofisticados, ou grandes volumes de dados, a tarefa primeira reside sempre no pensamento. Como bem escreveu seu igualmente talentoso e muito querido filho, Fabiano Santos, na introdução do livro, “como o próprio W. S. dos Santos nos ensina em diversas obras sobre a teoria do conhecimento, o valor de um trabalho científico não se mede pela magnitude do que se acrescentou ao patrimônio do que se conhece, mas, sobretudo, por aquilo que revela de nossa ignorância sobre o mundo” (p.18).

Mais do que uma homenagem, portanto, este é um pequeno texto de agradecimento. Porque entre a Roda de Samba na Pedra do Sal e os sistemas locais nacionalmente difusos sempre terá Wanderley Guilherme dos Santos e muito a aprender.

****Nara Salles é doutora em Ciência Política pelo IESP-UERJ e colaboradora da Escuta.

 

Um intelectual intempestivo

Jorge Chaloub*****

São muitas as razões da grandeza de um intelectual. Alguns olharão para a capacidade de inovação, outros para sensibilidade perante as grandes questões do tempo, muitos pensarão na longevidade da obra, ou ainda na sua coerência e amplitude, dentre tantos motivos que podem ser aqui elencados. Wanderley Guilherme dos Santos condensava muitas dessas características. Aqui, entretanto, buscarei delinear um motivo específico para a constatação da sua excepcionalidade: sua capacidade de transcender sistemas, mesmo aqueles que o tiveram dentre os seus criadores.

Egresso do ISEB, onde foi assistente do grande Álvaro Vieira Pinto, Wanderley inicialmente se destacou a partir da capacidade de transitar entre disciplinas diversas, dialogando fluentemente com a Filosofia, a História e a Sociologia. Estão nesse campo seus clássicos trabalhos publicados no Instituto, inclusive aquele onde ele “previu” o golpe de 1964. O golpe, na verdade, já estava nas bocas há muito tempo e mais do que um adivinho, Wanderley foi um arguto leitor da confusa conjuntura que então se delineava.

Ele segue diretamente certa tradição intelectual brasileira, muitas vezes remetida vagamente ao conceito de ensaio, que buscava conjugar grandes interpretações sobre a realidade social com forte desejo de intervenção na conjuntura. A partir da afirmação de um conhecimento centrado nas universidades e marcado por crescente especialização, esse campo passou a ser chamado de Imaginação Político-Social Brasileira, Imaginação Política Brasileira (termos por ele utilizados em seus clássicos artigos sobre o tema na Revista Dados), Pensamento Social Brasileiro, Pensamento Político-Social Brasileiro ou Pensamento Político-Brasileiro.

O campo se distinguia por um olhar sobre a história intelectual brasileira pregressa, que ganhava novo sentido em tempos de novas linguagens intelectuais. Wanderley foi, nesse momento, voz de defesa dessa tradição, dialogando com as formulações anteriores de Guerreiro Ramos e munido da mesma verve polêmica do seu antigo companheiro isebiano contra as formulações de Florestan Fernandes. O resgate do passado não se dava no nome de simples antiquarismo, mas surgia como instrumento central na conjuntura nebulosa  do pós-1964, onde o passado nacional parecia emergir como maldição inescapável. Wanderley foge aos determinismos e vê no passado respostas úteis para questões do presente.

Seus próximos movimentos não adentram, entretanto, esse subcampo, mas caminham em outras direções. Ao lado de outros importantes intelectuais que foram fazer seus doutorados nos Estados Unidos – como Fábio Wanderley Reis, Simon Schwatzmann, Elisa Reis, Olavo Brasil de Lima Junior e Bolivar Lamounier- Wanderley confere outro significado ao que até então se compreendia como Ciência Política no Brasil. Em diálogo com uma contemporânea literatura sobre neoinstitucionalismo, o autor dá nova feição ao estudo sobre instituições políticas no Brasil, trazendo novas ideias e métodos para uma tradição até então muito identificada com os cursos de direito. Apesar das grandes contribuições de autores como Victor Nunes Leal, Themístocles Cavalcanti e Lourival Fontes Machado, é inegável que os estudos de Wanderley sobre o Golpe de 1964 em sua tese de doutorado, a partir do conceito de paralisia decisória, contribuíram para um novo momento no estudo das instituições políticas brasileiras. Até então muito lateral no Departamento de Ciências Sociais da USP, na Faculdade Nacional de Filosofia, no ISEB e na Escola de Sociologia e Política, a Ciência Política surgia como olhar privilegiado para explicar a grande questão das ciências sociais brasileiras de então: a persistência do nosso autoritarismo.

Ao final da década de 1970, Wanderley traria uma nova contribuição para a história brasileira, agora a partir do estudo sobre o Estado e os atores coletivos. Em seu livro Cidadania e Justiça, ele constrói um conceito sobre a particularidade da cidadania no Brasil, a qual seria uma cidadania regulada. Dialogando com clássicos de estudos do movimento operário, produzidos sobretudo em São Paulo, ele interpreta o tema a partir de outra perspectiva e contribui decisivamente para a construção de estudos sobre o Governo Vargas e a formação do moderno Estado brasileiro. Poucos anos depois, em 1985, ele orientaria a primeira tese de doutorado do IUPERJ, que até há poucos anos tinha apenas programa de mestrado, a Invenção do Trabalhismo, de Ângela de Castro Gomes, que contribuiria de forma decisiva para renovar os estudos sobre o varguismo e a República de 1946 a partir de um olhar construído por meio de uma novíssima bibliografia da História Social da Cultura.

Em sua trajetória, Wanderley ajuda a delinear de forma decisiva os três grandes campos que constituem a Ciência Política no Brasil contemporâneo: os estudos sobre Teoria Política e Pensamento Social Brasileiro, os estudos sobre instituições e comportamento político e os estudos sobre o Estado e os atores coletivos. Essa trajetória certamente não se fez sozinha, nem se limitou aos três momentos acima mencionados. A partir da década de 1980, ele estudou a transição à democracia no Brasil (A pós-Revolução brasileira), os limites sobre o conhecimento social (Discurso sobre o objeto), os caminhos do nosso liberalismo (Os paradoxos do liberalismo), as feições do nosso Estado (O ex-Leviatã brasileiro), os virtudes e limites da ordem de 1988 (As Razões da Desordem), as relações entre democracia e representação (O paradoxo de Rousseau), os caminhos da ordem política poliárquica (Poliarquia em 3D), os horizontes da nossa ordem política (Horizontes do Desejo) e os malogros da democracia no mundo contemporâneo (Democracia Interrompida), olhando para o Brasil como sintonizado ao tempo do mundo, mas também munido de certas especificidades.

Até o fim, ele continuou sempre a transitar com liberdade e pouco apego a dogmas por meio dos mais diversos campos das ciências sociais, em boa parte dos quais ele figurou como protagonista. Tudo isso munido de profundo senso de intervenção e responsabilidade pública, em chave onde o pensamento se voltava não apenas aos círculos de especialistas, mas também à intervenção pública. Em tempos onde mais do que nunca as humanidades se veem sob forte ataque de forças da reação e precisam justificar sua relevância para a sociedade, Wanderley fará falta. Resta, para nossa sorte, uma grande obra e um grande exemplo.

*****Jorge Chaloub é um dos editores da Escuta.

 

Uma união estável com o pensamento político brasileiro

Diogo Tourino de Sousa******

Há certas questões que se tornam simples uma vez formuladas. Em parte, penso que a genialidade da questão reside, inclusive, na sua simplicidade. Wanderley Guilherme dos Santos não era, decerto, um intelectual simples. Responsável por uma sofisticada leitura do país, em franco diálogo com o que havia de mais recente na teoria social contemporânea, Wanderley produziu vasta obra de interpretação do Brasil, tendo como ponto privilegiado de inflexão a questão democrática.

Todavia, sua sofisticação conviveu com alguma simplicidade no questionamento acerca do nosso cânone. Modo que trouxe originalidade e ineditismo na forma como as ciências sociais brasileiras costumeiramente se interpretavam, passando Wanderley a figurar como percurso inevitável no entendimento da nossa trajetória.

A pluralidade de estudos sobre o pensamento político e social brasileiro de hoje, manifesta num número crescente de trabalhos e espaços de interlocução, não apaga, porém, o corte epistemológico no qual algumas gerações se formaram. Ainda que no presente seja lugar comum indicarmos tal corte como problema, ele existiu. Ao menos até a década de 1990, era comum identificarmos programas de curso sobre Sociologia e Política brasileira que traziam em sua estrutura a proposta de pensarmos os anos 1930 como um marco para nossa construção.

Teria sido, conforme leitura corrente à época, o surgimento da disciplina nas Universidades e centros de pesquisa – enquanto variável interna –, além da construção do moderno Estado nacional – enquanto variável externa –, o ponto de inflexão na imaginação nacional, tendo feito com que passássemos de ensaios pré-científicos, não rigorosos, pré-disciplinares, para estudos monográficos que teriam incorporado os modernos métodos de pesquisa social no seu fazer. Apenas com isso a Sociologia, enquanto disciplina científica, passaria a existir entre nós, “condenando” autores e obras das décadas anteriores ao nosso passado reflexivo.

O corte, sem juízos exagerados, está presente na obra seminal organizada por Sergio Miceli, “História das Ciências Sociais no Brasil” (Ed. Sumaré, 2001), por meio da qual vários de nós apreendemos a formação e o desenvolvimento do nosso campo intelectual. Na narrativa que dá corpo à coletânea, autores de obras do nosso passado reflexivo constituem fatos relevantes sobre o passado, mas não interlocutores sobre o presente. Em linhas gerais, faltava-nos, ao menos no modo comum como a história das Ciências Sociais era contada, aquilo que Italo Calvino definiu como os nossos “clássicos”: aqueles que nunca cessam de dizer o que têm a dizer.

A narrativa era aceita. Mas por Wanderley não. Coetâneo, em parte, ao próprio campo disciplinar em construção, o autor foi capaz de formular, ainda na década de 1960, questões simples acerca do nosso cânone que demoraram, por razões várias, a decantar nos currículos.

Hoje, contudo, é incontornável para quem pretende apreender nossa formação enquanto campo reflexivo a leitura de “A imaginação político-social brasileira” e “Raízes da imaginação política brasileira”, ambos publicados na Revista Dados, em 1967 e 1970, respectivamente. Ensaios compilados, aliás, em virtuosa reedição organizada por Christian Lynch, “A imaginação política brasileira: cinco ensaios de história intelectual” (Ed. Revan, 2017), que tornou mais acessível sua leitura presente.

Os ensaios carregam a pretensão exaustiva de indicar autores e obras sobre o pensamento político brasileiro, ao mesmo tempo em que denunciam a escassez de estudos sobre nossos intérpretes e, o que importa para o meu argumento, a limitação analítica dos estudos então existentes.

E Wanderley o faz, com inconteste originalidade, a partir de um questionamento simples: seria o corte cronológico dos anos 1930 uma ferramenta acertada para relegar ao passado reflexivo um estoque interminável de autores e obras sobre o Brasil? Em suas palavras, “Pouca sorte de Nabuco e Tavares Bastos de terem nascido antes da fundação das Escolas de Sociologia. Uma comparação final: apenas utilizando tal critério não consigo ver de modo algum por que razão Gilberto Freyre é cientista e Azevedo Amaral não é” (SANTOS, 2017, p. 73).

O infortúnio de ter nascido e produzido na década “errada” teria, conforme questionamento de Wanderley, condenado não apenas autores e obras, mas também um repertório de questões sobre nossa formação ao passado pré-científico. Uma vez aceita a narrativa comum, autores como Azevedo Amaral, Silvio Romero, Oliveira Vianna, Tavares Bastos, ou mesmo José de Alencar – a quem Wanderley dedicou especial atenção, elevando sua produção ao patamar de teórico da política sem adjetivos –, apenas para citarmos alguns, poderiam ser acessados como figuras de vulto sobre nossa história, mas nunca como interlocutores sobre nossos desafios presentes.

Em chave menos justa, nosso passado pré-científico poderia, no limite, contar algo relevante sobre nossos erros de interpretação, mas nunca sobre como aqui chegamos.

A recusa de Wanderley em aceitar a narrativa padrão sempre esteve lá. O modo, aliás, como o autor eleva José de Alencar ao lugar de formulador de questões próprias da boa teoria política, mostrando sua originalidade frente a Stuart Mill, por exemplo, mostra como Wanderley nos ajudou a construir um olhar mais generoso e acertado, não sobre nosso passado, mas sobre nossos “clássicos”.

Sem dúvida, sua união estável com o pensamento político brasileiro, originada no garimpo de livros raros na Biblioteca Nacional (SANTOS, 2017, p. 07), rendeu frutos importantes. Penso que a capacidade de colhermos no caminho que nos trouxe até aqui questionamentos sobre o que somos é um deles.

Referências Bibliográficas

SANTOS, Wanderley Guilherme dos. A imaginação política brasileira: cinco ensaios de história intelectual. Rio de Janeiro: Revan, 2017.

******Diogo Tourino é um dos editores da Escuta.

 

Wanderley Guilherme dos Santos: uma imaginação interdisciplinar

Fernando Perlatto*******

Um intelectual da grandeza de Wanderley Guilherme dos Santos é como uma espécie de caleidoscópio. Sua obra, vasta e diversificada, se abre para possibilidades variadas de leituras e de interpretações. Os insights presentes em seus trabalhos atravessam áreas diversas. Do pensamento social e político brasileiro até as discussões sobre cidadania no país, passando pelos partidos e pelo liberalismo no Brasil, impressiona a força de suas contribuições que ficam como legados para as ciências humanas.

Particularmente, eu sempre gostei muito das reflexões de Wanderley sobre conjuntura. Ainda que discordando de algumas de suas análises – sobretudo na última eleição presidencial –, sempre as achei instigantes, boas para pensar. Seus dois últimos livros A margem do abismo: conflitos na política brasileira (2015) e A democracia impedida. O Brasil no século XXI (2017) são trabalhos exemplares de um observador arguto da cena política que conseguia articular em sua reflexão, de modo muito sofisticado, aspectos estruturais e conjunturais na inquirição sobre o tempo presente.

Também sempre me encantou sua disposição para a polêmica e o contraditório. Um livro que me marcou de modo forte foi O paradoxo de Rousseau: uma interpretação democrática da vontade geral (2007). À época, um entusiasta, da democracia direta, me incomodou ler sua crítica refinada aos mecanismos plebiscitários e sua defesa consistente da democracia representativa. Não se tratava de uma objeção conservadora à ideia de participação, mas um alerta para os riscos da mobilização dos instrumentos plebiscitários também pelas tiranias e a valorização do parlamento como um espaço relevante de deliberação, do exercício do contraditório e de respeito às minorias. Ainda que não tenha perdido o entusiasmo pela democracia participativa, a leitura desse livro e sua crítica provocativa ao “autocratismo iluminista-rousseauniano” – que ia, em certo sentido, contra um determinado senso comum à esquerda – me provocou a pensar.

Mas, além da pluralidade de insights, da fineza na leitura da conjuntura e da inteligência provocativa, o que mais me instigava nas obras de Wanderley era sua imaginação interdisciplinar. Sua própria trajetória intelectual foi marcada pela interdisciplinaridade: sua graduação foi em Filosofia, na UFRJ (1958), seu Doutorado em Ciência Política, em Stanford (1969) e seu Pós-Doutorado em Antropologia na UFRJ (1986). Esteve identificado com duas instituições intrinsecamente interdisciplinares, a saber: o ISEB e o IUPERJ. Seus trabalhos eram atravessados por referências diversas, vindas de diferentes campos do conhecimento, evidenciando uma erudição de enorme alcance, que potencializava, em muito, o alcance de suas contribuições.

Sempre me chamou muito a atenção a forma como Wanderley estabelecia em suas obras um diálogo interdisciplinar muito inteligente, em particular com a História. Isso ficava evidente em duas dimensões. Em primeiro lugar, na sua capacidade de analisar conjunturas históricas específicas, articulando de modo muito potente empiria e teoria, a exemplo de seus trabalhos sobre a conjuntura que levou à disposição de João Goulart – Sessenta e Quatro: Anatomia da Crise (1987) / O cálculo do conflito: estabilidade e crise na política brasileira (2003) – e sobre o processo de construção da política social no Brasil – Cidadania e justiça. A política social na ordem brasileira (1979). Foi precisamente esta articulação que permitiu a ele contestar interpretações até então consolidadas sobre estes períodos e formular conceitos de largo alcance, como “paralisia decisória” e “cidadania regulada”.

Uma segunda dimensão do diálogo de Wanderley com a História se mostra na sua capacidade de pensar os problemas contemporâneos em uma perspectiva de longa duração. Se isso fica evidente em trabalhos sobre o Estado brasileiro – em especial em Ex-Leviatã Brasileiro. Do voto disperso ao clientelismo controlado (2006) –, penso que é em seus escritos sobre a democracia que este tipo de abordagem tem maior rendimento analítico. Nesse sentido, destaco especialmente um livro como Horizonte do desejo. Instabilidade, fracasso coletivo e inércia social (2006). É notável a reconstrução que Wanderley realiza da trajetória da democracia no país, mobilizando uma profusão de dados empíricos, colocando-os em diálogo com teóricos como Hobbes, Marx, Tocqueville e Rousseau, para discutir os desafios democráticos no Brasil no tempo presente.

Uma obra como a produzida por Wanderley demandará um tempo para ser decantada e analisada com toda a atenção que merece. Haverá ainda o tempo de refletir de modo cuidadoso e crítico sobre algumas de suas ideias que parecem ter sido colocadas em questão pelas transformações na conjuntura política do país – a exemplo de uma aposta alta em certo virtuosismo do sistema político brasileiro –, mas não restam dúvidas de que seu legado intelectual é enorme. É possível discordar de muitas de suas formulações, mas não tem como permanecer indiferente a elas. E isso é a maior força de um trabalho intelectual.

*******Fernando Perlatto é um dos editores da Escuta.

 

Notas (de todos os textos)

[1] Homenagem à Wanderley Guilherme dos Santos IESP-UERJ 2015 – Depoimentos Diversos (19/10/2015). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=wDfuiL3KsDM Acesso em 30 de outubro de 2019.

[2] TAVARES DE ALMEIDA, Maria Hermínia. Depoimento: o intelectual irrequieto. Folha de São Paulo, 27 out. 2019. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/10/depoimento-o-intelectual-irrequieto.shtml

Ver também: CANONE, Helio. Wanderley Guilherme dos Santos: uma vida intelectual dedicada à política brasileira. Horizontes ao Sul, 30 out. 2019. Disponível em: https://www.horizontesaosul.com/single-post/2019/10/29/WANDERLEY-GUILHERME-DOS-SANTOS-UMA-VIDA-INTELECTUAL-DEDICADA-80-POLCTICA-BRASILEIRA

LYNCH, Christian. CASSIMIRO, Paulo Henrique. Wanderley Guilherme dos Santos: modelo de intelectual público. NEXO, 29 out. 2019. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2019/10/29/Wanderley-Guilherme-dos-Santos-modelo-de-intelectual-p%C3%BAblico

[3] CAMPOS, Luiz Augusto. Artigos de Wanderey Guilherme dos Santos. Blog – DADOS. Disponível em: http://dados.iesp.uerj.br/artigos-da-wanderley-guilherme-dos-santos/ Acesso em 30 de outubro de 2019.

[4] Ver Caminhos – Programa de Memória Oral da Pós-Graduação do IESP-UERJ. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RX9Co_xOcX8&t=2s

Imagem: Reprodução: Rede Brasil Atual