Raul Nunes*

Antes mesmo de ser exibido para o grande público, o filme Joker – que se propõe a dar uma versão para o surgimento do arqui-inimigo do Batman – foi acusado de produzir um herói para os incels[1]. Incel é o termo estadunidense para algo que a blogueira Lola há muito denuncia no Brasil: homens (cisgêneros, héteros e, quase sempre, brancos) que se sentem excluídos pela sociedade e são particularmente ressentidos com as mulheres. Esses homens, a quem Lola atribuiu o nome de “mascus” (masculinistas), não só culpam as mulheres por seus infortúnios, como se organizam em fóruns virtuais (chans) para atacá-las[2]. Quem viu o filme sabe que as mulheres não são o problema maior do Coringa – nem mesmo sua mãe, mas voltaremos a isso depois.

Para além da visão do personagem como incel de extrema-direita, houve quem propusesse que o Piadista seria “uma demonstração do que a anomia social e o ressentimento esquerdista podem fazer com uma mente perturbada”[3]. Essa pérola, é claro, só poderia ter vindo dos corredores do governo Bolsonaro; mais especificamente, do olavista que é o número 2 (há quem diga número 1) na política externa. Ambas as visões, conquanto diametralmente opostas, possuem algo em comum: relegam a loucura do personagem a um segundo plano, como se esta fosse artifício meramente instrumental de uma causa maior de sua vilania.

A narrativa do filme, porém, não deixa muitas brechas: o Piadista não é ideólogo, nem revolucionário; é antes de qualquer coisa um louco que entrou em colapso. Sem dúvidas, a rejeição social (o que inclui, embora não centralmente, a rejeição das mulheres), as péssimas condições sociais e urbanas e a completa desestruturação familiar foram fatores fundamentais para que a mente perturbada se tornasse incontrolável. Que sua mãe fosse louca não é fato menor, ainda que esteja longe de ser o principal. Talvez mais determinantemente ainda seja a destruição do sistema de seguridade social, que lhe propiciava alguma forma de tratamento psiquiátrico. Nada nessa mistura, porém, seria capaz de criar o Joker, não fossem os elementos propriamente insanos.

Como argumenta Gabriel Peters[4], as psicopatologias costumam ser divididas entre as compreensíveis e as verdadeiramente insanas. Depressão, ataques de pânico e transtorno bipolar, por exemplo, poderiam ser vistas como fases mais agudas (e propriamente patológicas) de tristeza, medo e autoconfiança, respectivamente. Esses são sentimentos que todos experimentamos, portanto somos capazes de desenvolver identificação empática. Do lado incompreensível, estariam condições como a esquizofrenia, que borra ou implode categorias básicas do conhecimento racional, como tempo e espaço.

No caso de nosso personagem, ambas as formas de tormenta psíquica estão presentes, seja no riso descontrolado, na inabilidade social, nas fantasias realistas, na agonia constante ou nos pensamentos suicidas. De fato, nem todos esses elementos são necessariamente patologias, ainda que provoquem dor e componham uma forma tortuosa de raciocínio. Como propõe Peters, não se deve pensar a loucura como completamente irracional, ou como uma racionalidade inacessível, completamente silenciosa. Seguindo o argumento, é preciso tomar a loucura como uma forma de pensar que não passa pela racionalidade e que pode envolver variados graus de sofrimento, mas que é passível de alguma compreensão.

Levada a sério, a loucura do Joker conecta todas as espoliações a que ele está sujeito, social e individualmente, culminando com a autolibertação pelo assassinato. Sua autocofiança é estabelecida quando ele emerge do metrô depois de ter disparado todos os tiros contra os jovens insolentes. E então a dança no banheiro, quando pode guiar seus próprios passos pelo mundo, finalmente. O caso do metrô poderia ser tão só um episódio de descontrole, algo que não é mesmo monopólio dos loucos. Mas ele vai além. Assassina o colega que o ridicularizava. Planeja e executa o assassinato de sua mãe. Espetaculariza seu gran finale alvejando um apresentador ao vivo. A reação, o planejamento e o espetáculo são os instrumentos dessa mente insana. O que o Piadista busca não é nem bem vingança, muito menos revolta. Nem mesmo rebeldia. Ao louco não lhe importa ser odiado ou adorado, não importa que a cidade se afunde ou progrida – está muito longe do comunitarismo heróico e moralista do seu contrário, o racional Batman. Ao louco lhe importa sua autosatisfação, seu show particular, o stand up interior, em que o riso passa de incontrolado a incontrolável, porque não haveria mais motivos para não sorrir.

Sem qualquer coisa minimamente próxima de um projeto político, o Joker certamente não pode ser tido como masculinista ou revolucionário. Certamente criminoso, provavelmente mau. Afinal, mesmo a intencionalidade louca produz consequências e responsabilidades. E se não há um projeto são, as consequências não intencionais de sua ação é que reverberam pela sociedade. No filme, uma rebelião é iniciada pelo ato louco – algo parecido com a autoimolação que deu origem à Primavera Árabe, embora o raciocínio desesperado ali fosse muito mais religioso e racional do que propriamente insano. Fora do filme, porém, as apropriações do ato louco podem transcender mesmo a narrativa pretendida pelo diretor. Afinal, o homem cisgênero, hétero e branco que experimenta o sofrimento e não é ouvido está ali, como observarão os incels. O pobretão que é vítima de um sistema desigual comandado pelas elites também está presente, como apontarão os comunistas. Anarquistas e trumpistas também terão algo em que se espelhar. Fato é que nessas interpretações totalizantes, a loucura permanecerá silenciosa, vista como mero instrumento ou ardil. “A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse”. Disso os loucos sabem.

*Raul Nunes é doutorando em Sociologia no IESP-UERJ e colaborador da Escuta.

Notas:

[1] https://br.ign.com/coringa/76516/news/filme-coringa-e-acusado-de-estimular-comportamento-incel

[2] https://theintercept.com/2018/12/21/prisao-do-misogino-marcelo-mello/

[3] https://istoe.com.br/assessor-de-bolsonaro-chama-coringa-de-ressentimento-esquerdista/

[4] https://revistaescuta.wordpress.com/2017/11/16/a-incompreensivel-loucura-do-ser-um-dialogo-critico-com-jaspers-e-foucault/