João Dulci*

Copio quase literalmente o título do livro de Ariel Dorfman, o grande escritor argentino-chileno-norte-americano[1], apenas como um exagero retórico, para tratar de um cadáver ainda insepulto que teima em criar problemas para os amantes do futebol: os campeonatos estaduais. Na semana passada, a CBF divulgou o calendário do futebol brasileiro em 2020, reservando 16 datas para as competições locais. As 16 datas correspondem a quase a metade do campeonato brasileiro.

Quando, em 2003, iniciou-se a maior reforma do futebol brasileiro de todos os tempos, o campeonato de pontos corridos, muitos foram contrários. Saíamos de uma fórmula que muitos diziam ser emocionante (os “mata-matas”) para um modorrento e interminável campeonato de turno e returno em que todos os times teriam a oportunidade de se enfrentar duas vezes, sendo uma como “mandante”, outra como “visitante”. De fato, o primeiro campeonato de pontos corridos foi modorrento e interminável. Eram 24 times a se enfrentar duas vezes, num campeonato de 46 rodadas. A bizarrice ganhava até do campeonato escocês, em que os 12 times da primeira divisão se enfrentam quatro vezes até que o Celtic seja consagrado campeão ao fim da temporada. Mas o grande número de clubes em disputa se justificava, uma vez que, pasmem, não se queria rebaixar ninguém à segunda divisão nacional por uma canetada. A fórmula previa muitos rebaixamentos e poucos acessos da segunda divisão para a primeira, de modo que, ao fim de três temporadas, apenas 20 clubes estivessem na elite do futebol nacional, o que ocorreria em 2005.

O aprendizado para a disputa de um campeonato de 38 rodadas foi lento e com certeza ainda não se completou. As equipes mudam demais ao longo das temporadas, treinadores vão e vêm, salários são pagos em meses de 60 a 90 dias. E, ao fim e ao cabo, os torcedores e os telespectadores, em grande parte, não se habituam a um campeonato longo que pode ver um Dênis Marques ser substituído por um Adriano num piscar de olhos. Os dirigentes não conseguem construir nenhum tipo de planejamento racional, afinal, futebol no Brasil sempre foi paixão, jamais razão.

Mas esse contexto de recusa quase direta ao aprendizado passa, a meu ver, por dois macro-fatores que ainda vão se desmanchar no ar, tal qual qualquer coisa sólida na teoria marxiana. O primeiro, a herança dos estranhos modelos de regulamento que vigeram no país entre 1971 e 2002. O segundo, os campeonatos estaduais.

O modelo anterior aos pontos corridos era tão sui generis, que seus regulamentos nunca se repetiram. Uma fórmula equiparada ao orgasmo múltiplo de tanta emoção, guardava sempre o fator surpresa, já que no meio das competições o regulamento podia mudar inteiramente. O time que estava para ser rebaixado podia ser salvo numa reunião a portas fechadas, o campeão podia ser obrigado a jogar contra o campeão da segunda divisão para se ter certeza de que ele era mesmo capaz de ser campeão de qualquer coisa. Em linhas gerais, aqueles campeonatos eram compostos por uma fase inicial, ora uma fase de grupos como na copa do mundo, ora uma meia liga, de turno único, em que a sorte ou o humor do montador de tabelas podia definir o ano. Ao final, 16, 8 ou 4 times se classificavam para uma fase eliminatória em que tudo o que havia sido feito até então contava muito pouco. Um, dois ou três jogos eliminatórios resolviam o restante da temporada. O sobrevivente era o campeão.

Poucos se recordam do quão insuportável era aquele campeonato para as equipes que não conseguiam se classificar para as fases eliminatórias. De um bolo de 24, 28, 32, 144 times, apenas oito felizardos conseguiam jogar mais de vinte jogos no campeonato brasileiro. Os dois últimos eram rebaixados muito cedo. E muito cedo uns 200 times não tinham mais nada para fazer, senão esperar o natal chegar. Não são raros os exemplos de campeões brasileiros que fizeram menos pontos do que equipes eliminadas nas fases de quartas ou semifinais. De cabeça, recordo do Flamengo de 92, do Grêmio de 96, do Santos de 2002. Na final de 1996 se enfrentaram o sétimo contra o oitavo colocados. Uma emoção que jamais caberia na razão.

Não digo aqui que as fórmulas esdrúxulas do período pré-pontos corridos não tivessem seu charme. Para um país onde o inesperado sempre foi regra, as surpresas têm lugar de destaque. Mas foram raras as vezes em que se pôde dizer que a cada ano vencia o melhor. O campeonato de pontos corridos reduz um pouco essas incertezas, apesar das irregularidades sazonais típicas de nosso calendário. Mas, como já adiantei, creio que há um outro aspecto fundamental para desmotivar qualquer torcedor do décimo colocado do brasileirão: os campeonatos estaduais.

Quando o Brasil era muito menos integrado do que é hoje, os campeonatos estaduais eram o brasileirão de cada estado. Unidades da federação do tamanho de grandes países europeus sequer conseguiam ter um campeonato estadual que honrasse seu nome, o que explica títulos de times como o Siderúrgica em Minas Gerais, num cochilo dos três grandes. Havia ainda a macrocefalia metropolitana, fenômeno muito caro ao campeonato da Guanabara, em que equipes hoje quase extintas, como Campo Grande ou São Cristóvão, já aprontaram das suas. Salvo no estado de São Paulo, a regra geral era que os grandes venceriam ao final de fórmulas e regulamentos que nunca deveram em nada aos campeonatos brasileiros.

Alguns dos maiores nomes do futebol brasileiro nasceram nos estaduais. Outros sequer tiveram a oportunidade de jogar um brasileirão. Pelé, Pepe, Rivelino, Zico, Dinamite. Todos nasceram nas canchas locais. Poderia citar mais uns mil jogadores nessa linha. As altíssimas cifras de gols marcados por muitos deles também se explicam pelo excesso de jogos contra times muito pequenos. Claro que o talento ajudou também.

Até o fim dos anos 1990, os estaduais eram tão longos que ocupavam todo o primeiro semestre (ou o segundo, como em 1991 e 1992). O calendário era frouxo, permitindo mesmo um campeonato paulista em pontos corridos, possibilitando que o Palmeiras fizesse mais de cem gols numa única edição. Na virada do século, houve as primeiras tentativas de esvaziar os campeonatos locais, com os torneios regionais. Na prática, eram mais datas a serem ocupadas por torneios secundários. Fórmulas de sucesso ocorreram no Nordeste, enquanto campeonatos de nível variável eram jogados no Sul e no Sudeste. De qualquer forma, com estaduais, torneios Rio-São Paulo, Copa do Nordeste, Super Copa dos Campeões e que tais, a onda era encher o calendário de jogos, de modo que os jogadores tivessem algumas poucas semanas de férias e voltassem roliços para disputar partidas em Bangu às 16hs da tarde.

Todas essas complexas montagens de calendário se justificaram em algum momento pré-pontos corridos. Hoje, tudo parece uma enorme linguiça sendo enchida, de modo que a TV aberta tenha sempre uma linguiça para preencher suas noites de quarta e suas tardes de domingo.

Ao se tentar a fórmula dos pontos corridos, decidiu-se também respeitar alguns aspectos da saudosa legislação trabalhista, permitindo, por exemplo, que jogadores profissionais também tivessem 30 dias de férias. O calendário se iniciava no exato dia em que as férias terminavam, o que significava pôr em campo jogadores fora de forma e sem qualquer entrosamento. Aos poucos a racionalização do calendário permitiu uma pequena pré-temporada de uns quinze dias, possibilitando que os jogadores saibam seus nomes quando entram em campo para a abertura da temporada. O problema é que até hoje a abertura da temporada se dá no quarto mês do calendário futebolístico brasileiro. Dessa forma, tem-se basicamente três grandes marcos temporais no ano do futebol verde-e-amarelo: os estaduais, seguidos de demissões em massa de técnicos e da primeira reformulação dos elencos; o início do campeonato brasileiro, a maior competição do país, como uma nova esperança para os primeiros derrotados, seguido de demissão em massa de técnicos e reformulação de elencos; e o segundo turno do campeonato brasileiro, em que 19 jogos são disputados às pressas em intervalo de tempo menor do que os campeonatos estaduais, seguido de demissão em massa de técnicos e reformulação total do elenco.

Num campeonato que já começa no meio da temporada, nenhum trabalho é permitido. O centro-avante já está há meses sem marcar, dezenas de jogadores já se lesionaram, e os burros da casamata já mudaram, de modo que nem sabemos direito o quão burros são, até mais uns cinco jogos jogados.

Os estaduais não cabem mais num calendário que se pensa profissional. Alguns argumentos mambembes sobre a necessidade desses campeonatos não resistem a uma mínima mirada séria.

“Os clubes pequenos vão morrer sem os estaduais”. Este argumento não se sustenta por si mesmo. Os clubes pequenos que não conseguem uma vaga para a quarta divisão do campeonato brasileiro já são zumbis. Servem como locais de exibição de jogadores de empresários por três meses, até o fim dos estaduais. Depois dispensam seus jogadores e só retornam à vida no ano seguinte, para recomeçarem seu “planejamento” de cripta.

“É a chance de os torcedores dos clubes pequenos verem as grandes equipes”. É estranho dizer isso, mas, primeiramente, quase não existem torcedores dos times pequenos. São torcedores dos times grandes que têm os pequenos como seus segundos times. Mas, considerando os torcedores remanescentes dos clubes pequenos, por que diabos eles têm que ter o direito de ver os clubes grandes atuando em suas canchas apertadas, esburacadas, enfrentando equipes milionárias que põem suas canelas a prêmio? Os torcedores de times pequenos têm duas chances de verem os times grandes: pagando ingresso nos jogos dos times grandes, ou dando sorte no sorteio da Copa do Brasil. O resto é filantropia e demagogia. Fico me perguntando se os torcedores do Rochdale Manchester ou do Comunicaciones de Buenos Aires se põem em marcha rumo às suas federações demandando dois jogos anuais contra Manchester City e Boca Júniors.

“Os pequenos são celeiros de craques”. Alguns são mesmo. Outros são apenas clubes laranjas de empresários. Tomando a boa fé como norte, não seria melhor para os clubes pequenos desenvolverem seus jogadores se houvesse um calendário racional, de um ano inteiro, ao invés de buscar a máxima exposição de seus “craques” por apenas três meses?

“Os estaduais são charmosos”. Não. Não são. Charmosos são os clássicos locais, que os estaduais levam ao exagero, a ponto de os mesmos dois clubes que fizerem finais de turno (dois jogos), finais do campeonato (dois jogos), se enfrentarem na primeira divisão (dois jogos) e, por acaso, se pegarem na Copa do Brasil (dois jogos) se esbarrarem oito vezes em um mesmo ano, pra tudo começar novamente no ano seguinte. Os estaduais mediocrizam os clássicos. E, convenhamos, não há muito charme em ir a Paranaguá assistir Rio Branco da Estradinha e Arapongas, ou pagar quarenta reais para ver Tupinambás e Democrata de Sete Lagoas. Se há o tal “charme”, há um espaço ideal para isso: divisões inferiores.

O Brasil possui quase 700 clubes de futebol profissionais. Parece bastante, mas, considerando nossa fama de país do futebol e nossa dimensão territorial, não são muitos comparados aos mais de três mil times dos nossos vizinhos argentinos, ou aos mais de 40 mil clubes profissionais da Inglaterra. No Brasil, a maior torcida é por nenhum clube. Não somos lá um país tão fanático assim por futebol, o que não justifica jogos ao vivo TODAS as quartas na Globo. Mesmo assim, temos quatro divisões nacionais profissionais. A Argentina tem seis, a Inglaterra dezesseis, mais as divisões semiamadoras, que contam com muitos clubes profissionais. As divisões inferiores do Brasil (séries C e D) funcionam por poucos meses (a série C já conhece seu campeão e o ano ainda tem mais três meses para acabar). Não seria muito difícil buscar a profissionalização integral do futebol brasileiro através de ligas inferiores mais longevas e em maior número.

É verdade que temos distâncias enormes entre estados e municípios. Isso poderia se resolver com a regionalização das ligas, como, aliás, faz a Inglaterra em suas divisões inferiores. Mais: lá, um percentual da venda dos jogadores dos grandes clubes é destinado para a manutenção das ligas de clubes menores. Esses percentuais poderiam, aqui, custear meios de transporte das ligas inferiores em fases mais agudas, quando, invariavelmente, se enfrentariam clubes de cidades mais distantes. Claro que não tenho a solução para os desafios do futebol brasileiro. No entanto, alguém que é pago para ultrapassar tais desafios poderia começar a pensar em soluções um pouco melhores do que estaduais de 16 jogos.

O Brasil já acabou com campeonatos “charmosos” antes. O velho torneio Rio-São Paulo, a Copa dos Campeões. A Conmebol já fez o mesmo, ao descontinuar a Copa dos Campeões da Libertadores da América. A UEFA encerrou a Recopa. Não seria nenhum crime acabar com os estaduais, pelo menos na forma como são disputados. Que os clubes grandes entrem em fases finais, que só se jogue um turno, que se faça o diabo, mas que não mantenham essa chatice de três meses que só faz as estatísticas de gols de pernas-de-pau aumentarem. Essa filantropia canhestra não pode se manter. Que possamos dar adeus em definitivo para esse “charmoso” cadáver insepulto.

João Dulci é Doutor em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e e Políticos (IESP-UERJ) e Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Colabora com a Escuta.

[1] Ver “O longo adeus a Pinochet”.