André Rodrigues*

Um livro embrulhado em um saquinho de Cosme e Damião. Mais do que uma grande ideia gráfica: decoro litúrgico. Todo livro deveria ser uma prenda sacro-profana, uma oferenda para as crianças. Mestre Simas (assim o tratarei não pelo título acadêmico, mas pela condição de iniciador, conhecedor profundo dos saberes populares, mediador entre o concreto e o invisível) nos oferece um livro que nutre o corpo e o espírito; no qual podemos nos lambuzar e devorar de uma vez ou ir abrindo doce a doce.

Preparar em mutirão os saquinhos de doce e oferecer às crianças é prática que se vincula de modo profundo com nosso processo civilizatório (não o do controle das emoções e o da racionalização da vida, como o dos europeus). Do “doce inferno” dos engenhos, chaga da nossa formação, para a delicadeza das cores e o deleite das crianças, na rua. Qualquer livro que pretende pensar o Brasil deveria ser composto tendo como referência essa encruzilhada. Cosme, Damião, Doum na rua, mostrando o caminho para a superação da bestialidade colonial e imperialista.

Uma das potências do livro é o caráter insubmisso em relação à teoria historiográfica do Norte, mesmo aquela que trata da crítica ao colonialismo. Simas sabe que não somos nós que temos que tomar a bença de Foucault, mas o careca que deveria ter umas lições com Seu Zé Pelintra. Mestre Simas foge, portanto, daquele figurino dos que se debruçam sobre nossa realidade, mas quando abrem a boca parecem papagaios foucaultianos.

As figuras e práticas populares não são abordadas sob o signo da concessão, como aconteceu na tratamento que as elites intelectuais deram a Carolina Maria de Jesus em meados do século passado. Elas são a fonte dos saberes cruciais, as pedras de toque de nossa civilização. O conhecimento que realmente interessa. As histórias que realmente interessam e que, exatamente por esta razão, são atacadas e apagadas pelas forças de reprodução das relações de dominação e hierarquia. Eis o pulo do gato: uma das formas de desmontar essas relações é quebrar com as hierarquias dos saberes. É bagunçar o coreto para “Que se cruzem as filosofias diversas, no sarapatel que une Bach e Pixinguinha, a semântica do Grande Sertão e a semântica da sassanha das folhas, Heráclito e Exu, Spinoza e Pastinha, a biblioteca e a birosca. Que se cruzem notebook e bola, tambor e livro, para que os corpos leiam e bailem na aventura maior do caminho que descortina o ser naquele espaço que chega a ser maior que o mundo: a rua”, como escreve Simas em uma das passagens mais deliciosas do livro.

A historiografia das “pedrinhas miudinhas” não é coleção de anedotas e curiosidades, não é inventário do pitoresco. Muito pelo contrário, é um trabalho de atualizar, reforçar e relembrar quem somos, o quê somos. É resultado de um esforço minucioso de pesquisa e compreensão: não para fazer o real caber nos esquemas teóricos gringos, mas para dar trabalho aos conceitos e fazer ver aquilo que está sempre e sistematicamente oculto e silenciado nos saberes que se acumulam por dentro das capas dos livros e dos muros das universidades e bibliotecas. Mas este não é o esforço ascético do gabinete, é o suor de estar na rua.

Também não é obra menor, despretensiosa. Muito pelo contrário. O corpo encantado das ruas é um livro que apresenta um projeto grandioso. É um livro abusado: quer nada mais nada menos do que reorientar os sentidos da compreensão de nossa civilização. Gilberto Freyre disse uma vez em entrevista que ele teve a pretensão de redescobrir o Brasil, que ele seria, portanto, um concorrente de Pedro Álvares Cabral. Mestre Simas não se coloca tarefa menor que esta. Quer mais. Quer que saibamos de tudo que foi e está sendo morto, apagado, eliminado, silenciado, destruído e esquecido em nossa história marcada pela brutalidade. Mas, assim como Freyre, Simas não cai no vacilo da melancolia e do pessimismo. É na festa, no batuque e na rua que o povo dá o troco de tudo o que sofreu e tem sofrido. É na fresta e na festa que Simas encontra os sentidos para a compreensão de nossa verdade histórica. Essa que não é a verdade que chega triunfante e montada num cavalo branco, mas que se revela nas miudezas e vai se adensando, se multiplicando, ganhando intensidade até desembocar na apoteose do carnaval.

O mergulho nos sentidos guardados por pipas, esquinas, tambores, balcões dos botequins, lendas, malandros, exus e pombagiras é exercício de formulação de uma forma de conhecer. Mais do que isso: é preparação para a luta. Na seguinte passagem, temos um bom exemplo dessa postura: “Em um momento em que o Brasil dá a impressão de se desmanchar num mar de ódio, pode parecer maluquice escrever sobre pipas. Não acho. Soltar pipa, jogar porrinha, fazer churrasco na esquina, sambar, jogar futebol, ir à missa, bater palmas no terreiro, macerar plantas que curam, benzer quebranto, intuir as chuvas, lembrar dos mortos, ler os livros, desfilar na avenida, temperar o feijão são formas de construir sociabilidades mundanas capazes de dar sentido à vida, reverenciar o tempo e instaurar a humanidade no meio da furiosa desumanização que nos assalta.”

As deliciosas histórias contatas, o jeito majestosamente elegante e leve de falar (não a elegância dos granfinos, mas a dos sambistas), não impedem de lermos o propósito de frente do livro: o combate àquilo que ele chama de “epistemicídio”. Mestre Simas organiza as batalhas contra as forças que têm negado sistematicamente nossa existência. Uma guerrilha que torna as ruas lugares de perigo para aqueles que querem um povo domesticado e disponível para a escravidão, o subemprego, o desemprego e a doença. Relembrar os sentidos que as ruas têm é fazer com que elas não sejam mais vias para o controle e o desempenho do policiamento ostensivo. É devolvê-las ao povo que as construiu. É não se dobrar aos desejos de poder da acumulação primitiva e selvagem, pautada na família, na terra e na propriedade.

Em explícito diálogo com João do Rio, as ruas são retratadas não como encantadoras, mas como encantadas. Pode parecer mero jogo de palavras, mas o enredo (o babado, como Mestre Simas gosta de dizer) é muito mais profundo. O encantador é o que se dá a ver, que agrada pelo charme e pela polidez. É aquela piada que provoca um riso contido no chá da tarde. As ruas encantadoras de João do Rio têm a alma despojada das elites e das camadas médias de frente para o mar. As ruas de Simas têm o corpo encantado pelo gozo e pela dor, pela gargalhada alta e insubmissa dos terreiros das Zonas Norte e Oeste e da Baixada Fluminense. São testemunhas de uma história que não esconde a violência e a brutalidade de nossas elites, ainda escravocratas e coloniais.

Quando estive no lançamento do livro, no dia 28 de setembro, na livraria Folha Seca, para pegar a dedicatória no meu exemplar, contei a Mestre Simas que tinha colocado o capítulo intitulado “Educação” para bater uma bola numa aula que dei sobre Lima Barreto. Ele respondeu, enquanto escrevia:    “É… Este livro é cheio dessas mandingas”. Quem vier a ler O corpo encantado das ruas como um livro de amenidades e curiosidades, quem pensar se que trata do pitoresco e do exótico, não terá entendido absolutamente nada, assim como também não compreenderá essa resposta que fala de mandinga. Tudo no livro é coisa séria. Como disse o próprio autor em sua rede social: “O corpo encantado das ruas é uma gira, amizades. Os nossos mortos dançam!”.

*André Rodrigues é Doutor em Ciência Política pelo IESP/UERJ e professor do IEAR/UFF. Colabora com a Revista Escuta.