Por Fernando Perlatto*

A coluna “Escuta Recomenda” é publicada aos domingos, assinada por um dos editores da revista, Fernando Perlatto, com sugestões de leituras de textos de política e de cultura, publicados na imprensa ao longo da semana.

Política

Compartilho abaixo a indicação de artigos interessantes sobre política publicados nesta semana:

* Sobre o assassinato da menina Ághata no Rio de Janeiro:

– Artigo de Angela Alonso, neste domingo, na “Ilustríssima”, da Folha, “Para garotas como Ághata, o país prometeu muito e cumpriu muito pouco”: “O Brasil contemporâneo está fechando as estreitas portas abertas para ascensão social dos negros pela educação, vide o desmonte de políticas de ação afirmativa nas universidades públicas. E está autorizando a restrição de seus direitos civis, ao expandir a política de encarceramento e execução sumária de negros pobres ou dos ‘quase pretos de tão pobres’, do verso de Caetano Veloso”

– Artigo de Renato Sergio Lima, na segunda, na Folha, “Caso da menina Ághata: A falsa régua ética que nivela criminosos e policiais”: “Em nome da guerra contra o crime, a política de segurança pública de Wilson Witzel ultrapassou todos os limites éticos que pudessem diferenciá-la da ação dos traficantes e milicianos que dominam os territórios abandonados pelo Estado”

– Artigo de Sergio Abranches na revista Época, “A paz pode ser uma utopia”: “Diante da morte da menina Ágatha, porém, a ideia de que a paz seja uma utopia se torna muito concreta”

– Artigo de Valter Hugo Mãe, publicado no The Intercept Brasil, “Carta aberta de Valter Hugo Mãe a Marcelino Freire”: “Estão atirando sobre as crianças e alguém me diz que apenas as negras, são apenas as crianças negras, mas eu duvido que parem por aí”

– Artigo de Ranier Bragon, na terça, na Folha, “A Kombi que levava Ágatha e a Kombi dos insensatos”: “A kombi dos insensatos segue desgovernada e a toda velocidade, sem radares a lhe intimidar, alheia a consequências e atropelando tudo pelo caminho a segurança pública é só uma de suas vítimas”

– Artigo de Juan Árias, na quarta, no El Pais, “É preciso acabar com a hipocrisia de chama-las de ‘balas perdidas’. São balas assassinas”: “Que toda ela tome consciência de que o Brasil deve gritar junto um NÃO cada vez maior a um poder que pretende ter direito sobre a vida e a morte da grande massa de anônimos e excluídos dos campos de concentração das periferias, onde o poder político e o econômico relegam esses milhões cuja única liberdade até hoje é a de chorar seus mortos”

– Artigo de Monica de Bole, na revista Época, “O espetáculo brutal da nulidade absoluta”: “O Brasil que saiu da ONU saiu menor, saiu mais irrelevante, saiu como um franco-atirador que mira na cabeça de uma menina de 8 anos e atira pelas costas.”

– Artigo de Eliane Brum, na sexta, no El Pais, “Como vocês se atrevem?”: “Quando a sociedade permite ao Estado determinar que há crianças que podem morrer, infâncias as quais podem ser negados todos os direitos, está muito perto do ponto de não retorno. Se o Brasil não estivesse profundamente adoecido, teria parado por Ágatha”

* Sobre o discurso de Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral da ONU:

– Artigo de Eugenio Bucci, no Estadão, na quinta, “Essa tal de ‘ideologia’”: “Poucas vezes um documento de credenciais autoritárias tão escancaradas foi lido numa assembleia da ONU: a verdade sou eu, a verdade é a direita, a verdade é o meu Deus, e toda dissidência será combatida por mim como apostasia, vício, mentira e ameaça”

– Artigo de Bruno Boghossian, na Folha, na quarta, “Bolsonaro consolida marcas e abraça fundamentalismo político”: “O discurso do brasileiro na Assembleia Geral foi uma vitória da ala ideológica do Palácio do Planalto e da Esplanada –uma prova praticamente definitiva de que esse grupo determina não apenas a essência, mas todo o corpo do bolsonarismo”

– Artigo de Vinicius Torres Freire, publicado na Folha, na quarta, “Bolsonaro, ameaça à segurança nacional”: “O Brasil é obrigado a se aliar não a países com interesses práticos comuns, mas a uma trupe de líderes com quem Bolsonaro compartilha a mesma religião autoritária (desde que sejam brancos e ditos cristãos). Junta-se à comunhão de inimigos do multilateralismo, arranjo mundial que nos beneficia”

– Artigo de Maria Hermínia Tavares de Almeida, na Folha, na quinta “O Brasil emudeceu”: “Em seu discurso defensivo e belicoso, não é possível encontrar menção aos problemas mundiais prementes, às formas de encaminhá-los de modo mais favorável aos múltiplos interesses do país e tampouco ao papel que podemos desempenhar. E assim faz o país se transformar em figurante sem voz”

* Outros artigos interessantes publicados na semana:

– Artigo de Angela Davis, neste domingo, na “Ilustríssima”, na Folha, “Há elo direto entre luta dos negros e dos LGBTs”: “Mas uma coisa é certa: se as lutas do passado não tivessem ocorrido, se as pessoas não tivessem erguido a voz, cometido desobediência civil, batalhado e exercido sua influência para remoldar as relações humanas, nosso mundo seria muito mais empobrecido material e espiritualmente, e nós, certamente, não seríamos capazes de seguir em frente hoje.”

– Artigo de Celso Rocha de Barros, na segunda, na Folha, “O adulto no recinto é o cheque do Queiroz”: “Desde o começo do governo Bolsonaro, tivemos vários candidatos a “adultos no recinto”, a voz de moderação que deveria, em tese, moderar Bolsonaro e impedi-lo de embarcar em aventuras autoritárias. Todos, sem exceção, fracassaram abjetamente”

– Artigo de Lilia Schwarcz, no Nexo Jornal, publicado na terça, “A queima dos livros na história – e no presente”

– Artigo de Elio Gaspari, na Folha, na quarta, “Uma boa notícia: Elizabeth Warren”: “A presença de Elizabeth Warren na disputa pela Presidência dos Estados Unidos será uma lufada de inteligência num tempo de debates com personagens medíocres. Mais que isso: nunca um grande partido americano teve candidato tão crítico dos privilégios e das mumunhas do andar de cima”

– Entrevista de Silvia Federici, autora de Calibã e a Bruxa e do recém-lançado O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista, publicada na quarta no El Pais: “O feminismo não é somente melhorar a situação das mulheres, é criar um mundo sem desigualdade, sem a exploração do trabalho humano que, no caso das mulheres, se transforma numa dupla exploração”

– Entrevista com Marcio Pochmann para o Instituto Humanitas Unisinos: “A renda nacional não aumenta, porém a riqueza dos já muito ricos segue aumentando, uma vez que o ônus de toda a crise tem sido repassado para a classe trabalhadora. Em 2018, por exemplo, enquanto o PIB teria variado 1,1%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, os ganhos financeiros foram multiplicados por mais de sete vezes”

Cultura

– Na segunda, publiquei um artigo nesta Revista Escuta sobre as últimas peças da diretora Bia Lessa. Leia Grande Sertão: Veredas, Macunaíma e o teatro de Bia Lessa”;

Gregório Duvivier publicou um artigo na quarta na Folh, sobre as ofensas do Diretor da Funarte, Roberto Alvim, a Fernanda Montenegro. Vale a leitura do texto “A escória contra Fernanda”: “Fernanda nos lembra que já fomos, e ainda podemos vir a ser, um país digno de aplauso”;

– O El Pais publicou uma boa entrevista com Silvero Pereira, ator de Bacurau: “Há uma revolução LGBT+ no sertão”

– Indico a leitura da reportagem publicada na Folha deste domingo sobre as ações históricas revisionistas de museus europeus, em reconhecimento ao passado colonial.

– O Prêmio Rio de Literatura divulgou a lista de finalistas de 2019 das categorias Prosa de Ficção, Ensaio e Poesia.

Indicações culturais da semana:

Livro: Marrom e Amarelo, de Paulo Scott (Companhia das Letras, 2019)

Disco: Chico César, O Amor é um Ato Revolucionário (2019)

* Fernando Perlatto é um dos editores da Revista Escuta