Fernando Perlatto*

Em momentos de crise, como o que estamos a atravessar agora no país, parece que temos a necessidade quase que imperiosa de voltar a textos clássicos que ajudaram a pensar o que é o Brasil. A despeito do fato de algumas formulações e reflexões contidas nestas obras serem datadas, tendo mais a ver diretamente com questões da sua época do que com aquelas que estão colocadas no tempo presente, estes textos, de algum maneira, mantêm sua atualidade, servindo como espécies de bússolas para interpretar o Brasil, tatear a nação e refletir sobre seus dilemas e desafios. Não à toa, uma obra como Os Sertões, de Euclides da Cunha, foi tão relembrada e discutida neste ano, sob o impulso da homenagem recebida pelo autor na última edição da Feira Literária de Paraty.

Quando se fala de obras clássicas e interpretações do Brasil, muitas vezes somos tentados a pensar somente em trabalhos mais sociológicos, a exemplo de O Abolicionismo, de Joaquim Nabuco, Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Holanda, ou Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro. Mas a literatura também desempenhou historicamente papel importante no movimento interpretativo de inquirir o país e abordar as tensões do nosso processo civilizatório. Macunaíma (1928), de Mário de Andrade, e Grande Sertão: Veredas (1956), de Guimarães Rosa estão, sem dúvida alguma, entre as obras literárias mais importantes no sentido de forjarem imagens e representações possíveis sobre o Brasil.

É presumível supor que tenha sido justamente esta potencialidade para pensar provocativamente o país que influenciou a diretora Bia Lessa a escolher estes dois livros para levar aos palcos, em um contexto no qual o Brasil parece desmanchar a olhos vistos. Escritas em momentos muito específicos, em que se testemunhava uma produção intelectual rica e diversificada interessada em descobrir o que é este Brasil, suas periferias e sertões, seus sujeitos e suas geografias, Macunaíma e Grande Sertão: Veredas ainda continuam a levantar questões muito atuais.

Levar as duas obras para o teatro não é tarefa fácil. Além de serem trabalhos que já estão, de alguma maneira, disseminados no imaginário do país – o que implica dizer que muitos daqueles que vão aos espetáculos já possuem determinadas noções sobre o que são aqueles textos –, Macunaíma e Grande Sertão: Veredas colocam dificuldades adicionais para serem adaptadas do formato livro, pois são obras fundamentalmente ancoradas nas palavras. Mais do que isso, Mário e Guimarães são construtores de linguagens, inventores de termos, expressões, conceitos. Ainda que ambos os livros tenham narrativas centradas na oralidade, é desafiador fazer a tradução de textos literários sofisticados como estes para a linguagem falada do teatro sem que isso resulte na perda da força e da poesia da linguagem escrita.

De modo geral, a transposição de obras literárias para outras linguagens artísticas é sempre um empreendimento repleto de riscos. Porém, quando acontece de ser bem sucedido – como é o caso de filmes como Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos (1963), além do próprio Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade (1969) –, a experiência artística acaba por se revestir de enorme potência. Esta transposição acaba por ampliar a obra, com isso querendo dizer que ela ganha novos sentidos, camadas, interpretações.

E é precisamente isso o que ocorre com Grande Sertão: Veredas e com Macunaíma quando transpostos para os palcos pelas mãos de Bia Lessa. A diretora já havia levado outras obras literárias para o teatro – Orlando, de Virginia Wolf e O homem sem qualidades, de Robert Musil –, mas o desafio com as obras de Mário e Guimarães parece ser ainda maior por tudo o que estas duas obras representam no imaginário sobre o país.

Nas mãos de Bia Lessa estes dois monumentos literários ganham desenhos imprevistos, contornos inesperados. Ainda que, por óbvio, mantenham os elementos estruturais dos livros originais, convertem-se em obras novas.

O que vemos no palco são trabalhos artísticos de altíssima qualidade que lembram grandes instalações cênicas. Bia Lessa realiza obras multiplamente artísticas, misturando teatro, música, performances, artes plásticas, coro, balé.

Grande Sertão: Veredas e Macunaíma são obras de arte grandiosas. Explodem a percepção sensorial e emocionam.

Bia Lessa, que já havia trabalhado com a obra de Rosa em uma exposição da qual foi curadora no Museu da Língua Portuguesa nos anos 2000, se ancorou na interpretação de Silviano Santiago – sistematizada na obra Genealogia da Ferocidade, sobre a qual escrevi nesta revista – para conceber para o teatro seu Grande Sertão: Veredas. Santiago pensa o “monstro rosiano” a partir de sua “qualidade selvagem”, de sua intempestividade, de sua visceralidade estética, que “desorganiza e desnorteia”.

Para transpor para o palco aquele “enclave arcaico”, que é o sertão de Guimarães Rosa, Bia Lessa utiliza como espaço cênico uma gaiola de ferro. Não há cenários; apenas o vazio. A exceção são centenas de bonecos de feltro, usados com funções diversas, que viram gente, animais, rios, trincheiras; eles aparecem, desaparecem e reaparecem em diferentes cenas. Dentro da gaiola, neste espaço desocupado, não domesticado, tudo é passível acontecer. Os atores, vestidos de preto, se movem de forma feroz, brutal, anárquica. O espectador acompanha o desenrolar das cenas, enquanto fica com um fone de ouvido, que, além de projetar as vozes dos intérpretes, emite sons diversos, que trazem ruídos, emissões, barulhos que parecem vindos de longe, mas que o remetem ao sertão selvagem rosiano.

É bem sucedida a seleção dos trechos de Grande Sertão: Veredas. A escolha recai especialmente sobre as passagens em que Rosa, na voz de Riobaldo, reflete sobre o ser humano, suas complexidades, contradições. A luta de Riobaldo com os sertões é o leitmotiv da narrativa. E não se está a falar apenas dos sertões externos, com suas paisagens duras, seus bichos selvagens, suas gentes ferozes; mas sobretudo o sertão interior, o sertão subjetivo de Riobaldo, este sertão imenso que trava uma batalha viva e dilacerante em torno do seu amor por Diadorim.

 A entrega dos atores ao espetáculo merece ser destacada. Ainda que nem todas as atuações acompanhem o deslumbre que é Caio Blat no papel de Riobaldo, há um engajamento físico e emocional de todos os atores nas cenas. Como em uma mágica, que remete aos mistérios do sertão, homens e mulheres, de maneira versátil, se transformam em bichos variados, aves, cavalos, sapos, bois, para no momento seguinte se converterem novamente em humanos. Como na cosmologia do perspectivismo ameríndio, formulado por Viveiros de Castro, o sertão rosiano é povoado de seres humanos e não humanos que, de modo contínuo, se misturam, se embaralham e se transformam no outro.

Macunaíma não tem o mesmo encantamento que Grande Sertão: Veredas, mas é também impactante. Bia Lessa se vale da abertura e da plasticidade da obra de Mário de Andrade, que mais do que um romance propriamente dito se constitui como uma rapsódia. Não à toa, o espetáculo se chama Macunaíma – Uma Rapsódia Musical.

A dificuldade maior aqui nem é tanto com a adaptação do texto literário em si – que passou pelas mãos habilidosas da escritora Veronica Stigger –, mas com a transposição para o teatro de um volume enorme de imagens que atravessam a obra de Mário de Andrade, com seus mitos, ritos e lendas.

Assim como ocorre com Grande Sertão: Veredas, as soluções cênicas encontradas por Bia Lessa são muito inteligentes e repletas de originalidade. A utilização no primeiro ato de sacos pretos mobilizados para fins diversos e o emprego, no ato seguinte, de caixotes de papelão, guarda-chuvas, ventiladores, grandes caixas de plástico nas quais os atores se deslocam em seu interior, são opções muito bem sucedidas para reconstruir o universo de Macunaíma.

Neste espetáculo, como em Grande Sertão: Veredas, o trabalho dos atores merece ser realçado. É notável a entrega, o empenho físico e emocional para a montagem das cenas. Aqui como lá chama a atenção a versatilidade dos atores, que dançam, cantam, interpretam.

Se em Grande Sertão: Veredas os corpos nus já apareciam, em Macunaíma, sobretudo no primeiro ato, eles assumem o protagonismo. Não se trata de um exibicionismo gratuito. Os corpos nus têm sentido nos espetáculos. E mais do que isso: a exposição destes corpos da forma como se dá é um grito explícito e necessário de liberdade, o “leite mau na cara dos caretas” em tempos de conservadorismos carolas que buscam cercear as artes no Brasil.

É possível objetar que as montagens de Bia Lessa de Grande Sertão: Veredas e Macunaíma, às vezes, pecam pelo excesso. A plateia não tem tempo para o respiro, seja com o enorme volume de textos no caso do primeiro espetáculo, seja com a grandiosidade de imagens, no caso do segundo; o espectador, bombardeado diante de toda exuberância que é exibida nos palcos, quase não encontra momentos de contemplação.

Mas é provável que esta limitação seja também a grande força destes espetáculos. Em um momento de crise política aguda como este em que o país atravessa, os excessos de Bia Lessa – assim como os excessos de Zé Celso Martinez Corrêa do Grupo Oficina nas montagens recentes e deslumbrantes de O Rei da Vela e Roda Viva – talvez sejam opções estéticas necessárias para inquirir e denunciar em grandes gestos e em alto e bom som esta experiência caótica de Brasil que estamos a enfrentar.

Guimarães Rosa, Mário de Andrade, Zé Celso, Bia Lessa são parte daquilo que deu certo no Brasil. É por aí, por estas trilhas da arte que questiona o Brasil e suas entranhas, que o país pode se salvar das trevas e se reencontrar consigo mesmo nestes tempos sombrios que atravessamos agora.

* Fernando Perlatto é um dos editores da Revista Escuta