Eduardo Mares Bisnetto*

Em país distante, de um planeta plano como uma cova rasa, a divisão de responsabilidades se dá assim: o presidente-rei-autocrata, de quem já muito descobrimos, manda em tudo o que vê. Por ser levemente míope, ele delega algumas funções para alguns de seus súditos privilegiados. São governantes de nível intermediário, que os habitantes daquele país chamam de governadores. Alguns governadores são mais excêntricos que outros. Esses são chamados de governadores-reais. Os governadores-reais não obedecem a nenhuma lei, até porque as leis foram revogadas no país distante no mesmo decreto que baniu a razão (PAÍS DISTANTE, 2019). Os governadores-reais podem dar vazão aos seus mais sofisticados hobbies, sem qualquer impedimento.

Há um governador-real específico que, em minhas pesquisas, me chamou muita atenção. Por ser um esforço longo de levantamento de informações, ainda não possuo conclusões precisas sobre o tema, mas vejo, pelo bem da ciência, a necessidade de compartilhar achados de investigação com a comunidade acadêmica. Esse governador-real governa uma província famosa por suas belezas naturais e por um processo de trocas primitivas de produtos valiosos por agressões físicas, como um kula em que a honraria reside na pessoa que cede seus produtos a um personagem que, semi-artisticamente, finge ameaças ao fornecedor de bens pessoais. Eles chamam esse complexo processo de “assalto”. Pela extensão quantitativa das cerimônias de “assalto”, os habitantes daquele local, os sacoiracs, parecem apreciar muito tal evento ritual, largamente difundido por todos os estratos da sociedade provincial. Chamemos a província de província ensolarada, apenas para efeito de apresentação. O nome original se refere a termos muito específicos, quase intraduzíveis, que remetem a erros cronológicos e geográficos, o que resultaria em algo como “Aquele lugar que descobrimos num dia de sol durante o mês de janeiro, com uma bacia aquífera que parece um rio, mas não temos certeza, por isso o nome será este mesmo”. Província ensolarada reproduz melhor a localidade.

O referido governador-real possui um enorme carisma entre sua população. Os sacoiracs acreditam que o carisma pessoal se concentra na calvície e na larga barriga de seus governantes, conceito mais difícil de entender do que as noções rasas de líder carismático propagas por Max Weber. Aos governadores-reais, se permitem mimos totêmicos. O governador-real da província ensolarada, por exemplo, adorna sua barriga com uma faixa nas cores azul e branco. Essa faixa, aos olhos do governante-real, lhe protege de bruxarias que minorias rebeldes possam, porventura, lhe atingir. Ele também se desloca de um ponto a outro de sua província por aeronaves com propulsão horizontal, que os nativos chamam de hélices voadoras. As hélices voadoras não são de uso exclusivo do governador-real. Elas também são utilizadas por tropas provinciais.

Cabe nos determos um pouco no funcionamento das tropas provinciais, de modo a compreendermos as estruturas elementares de um esporte muito popular da província ensolarada, de que trataremos mais adiante. As tropas provinciais operam por estruturas simples, chamadas de soldados. A cada par de soldados correspondem duas armas artesanais e um meio de locomoção, que chamaremos, reconhecendo a forma equivocada, de carro. Um conjunto de carros forma uma frota. A frota se reúne em ambientes cercados, de modo a conter a curiosidade popular, que os nativos chamam de batalhão. O conjunto de batalhões, suas frotas, carros, soldados e armas artesanais compõem as tropas provinciais.

Para pertencer às tropas provinciais, o nativo precisa provar possuir aptidões físicas assemelhadas às do governador-real – como amplas barrigas –, sensos aguçados de honradez e honestidade e, obviamente, lealdade cega ao governador-real. Quanto mais semelhante é o soldado ao governador-real, maiores as chances de ascender nas fileiras das tropas provinciais, que conformam uma intrincada teia de promoções hierárquicas, sub-promoções, promoções horizontais etc. Àqueles soldados que descumprem com as rígidas normas de conduta das tropas provinciais cabem sanções e diversas formas de punição. A mais comum é privar o soldado da atuação ostensiva, o que esvazia o punido de honradez. Quanto menos honradez, menos atuação ostensiva.

O cotidiano das tropas provinciais corresponde às necessidades dos sacoiracs. Não é incomum assistir a pequenos ritos de compartilhamento de riquezas entre os nativos e os soldados. A benevolência é marca sagrada dos nativos da província ensolarada. Esta forma específica de circulação de riquezas monetárias da província ensolarada é por demais complicada. Em linhas muito gerais, parecem nortear as relações de dádiva um senso distributivo, por um lado, associado ao desejo de demonstrar gratidão, por outro. Dessa forma, os nativos doam voluntariamente suas riquezas aos soldados, num ritual muito análogo ao chamado “assalto”, mas a forma de atuação dos personagens difere. As falas que dão o impulso ao início dessas cerimônias são (livremente traduzidas para o português): “como podemos resolver isso, senhor?”, seguida de “Assim você me complica”. O resto da atuação é de livre improviso dos interagentes, podendo resultar em gargalhadas, risos contidos, choro passional ou morte expiatória.

Não há na província ensolarada algo que nos parece habitual, como os trâmites de prisão, instauração de processo, livre defesa e condenação/absolvição. Aos transgressores dos desígnios provinciais (espécie de direito consuetudinário dos sacoiracs, já que não há códigos legais normativos) cabem, quase invariavelmente, duas alternativas: o compartilhamento de riquezas, quando se inicia o diálogo descrito acima, ou a morte expiatória. Para delitos considerados leves, o ritual artístico de compartilhamento tende a ser o processo mais comum. Para transgressões graves, a morte expiatória é uma forma de restauração durkheimiana da fé institucional designial. As mortes expiatórias parecem ser mais populares entre os sacoiracs, que as celebram recorrentemente. Como as tropas provinciais e o governador-real possuem elos simbióticos de valores, desenvolvem-se, portanto, os eventos mais marcantes do calendário solar dos nativos da província ensolarada: o “tiro ao alvo humano”.

Como já salientei, ao governador-real permitem-se mimos. Além da faixa protetiva, ele promove diversões coletivas, ou jogos, cujo cenário é toda e qualquer localidade da província ensolarada. É curioso perceber como os eventos de diversões coletivas são democráticos, não necessitando de nenhum veículo mediador para suas transmissões, tampouco de nenhuma forma de pagamento monetário ou de bens. O “tiro ao alvo humano” está aos olhos de todos.

Em minhas pesquisas documentais, encontrei lives[1] que mostram uma dessas cerimônias. Um transgressor sai de dentro de um meio coletivo de locomoção com as mãos para cima e é prontamente alvejado por um soldado provincial. Por ter bem servido o governador-real no grande jogo do “tiro ao alvo humano”, o próprio governante-real, descendo de uma hélice voadora, celebra o ponto marcado por seu servo com socos aéreos e contrações de barriga. Nasce instantaneamente um novo herói provincial.

A mais impressionante manifestação desse jogo, numa tática que é sempre muito bem-sucedida entre os sacoiracs, é a combinação de hélices voadoras, soldados e armas artesanais, que atiram projéteis do céu em direção aos nativos que estão em solo. Por ser uma estratégia quase infalível, os soldados somam muitos pontos, embora não haja registro de congratulações governamentais tão efusivas quanto as citadas acima. Os projéteis podem (e, pelo visto, devem) acertar qualquer nativo que se mexa em solo, ou mesmo aqueles que, como num jogo de pique-esconde, se acocoram em algum local fechado. No meu ponto de vista etnocêntrico, me permitindo apenas uma licença do fardão antropológico, creio que os sacoiracs não são muito dotados da habilidade de esconder, uma vez que são constantemente alvejados pelos projéteis que caem do céu.

As conclusões parciais desse ainda muito incipiente quebra-cabeças são de que o jogo de “tiro ao alvo humano” é extremamente popular entre os sacoiracs, uma vez que a mais recente consulta sobre os êxitos pessoais do governador-real mostrou amplo apoio às suas ideias. As consultas não possuem resultado prático, mas servem como uma demonstração de accountability dos governantes de nível intermediário. A mais recente perguntava em sua cédula: “você aprova as políticas fratricidas e genocidas propostas para o nosso próximo ciclo de desenvolvimento desenfreado e de alegria sem fim?”. Quase 60% da população respondeu “sim, claro! Por que estão me perguntando isso?”, enquanto 40% respondeu “não sei porque ainda sou obrigado a responder a essas consultas, se todos sabemos que nosso governador-real é brilhante”.

Diante dessa breve exposição, fico me perguntando de que forma o governador-real poderia se tornar ainda mais exitoso na condução de seu infinito mandato provincial. Recordo-me do meu colega Clifford Geertz, de quem guardo apenas lembranças boas, em suas angústias num trabalho de campo em Bali. Ele queria estudar brigas de galo, mas não lhe permitiam acesso total ao espírito daquele jogo. Quando foi numa luta entre galináceos às escondidas, o local foi desbaratado pela polícia local. Geertz poderia ter dado uma “carteirada”, dizendo: “oficial, não estou com esses nativos. Sou apenas um respeitado antropólogo. Não posso ser preso”, o que resolveria a questão, uma vez que nada se sobrepõe ao status antropológico. Mas não. De forma a se conectar ao âmago da população local, fugiu do ringue de bicadas junto com os nativos. Esse foi um momento mágico de interconexão com os balineses, que rendeu a Geertz um trabalho seminal. Por mais amado que seja o governador-real, uma estratégia que ele ainda não testou para extrapolar a mais de 100% sua popularidade foi a da conexão última com o espírito dos sacoiracs. Creio que ele só conseguirá essa união fraternal assimétrica no dia em que participar do “tiro ao alvo humano” não mais das hélices voadoras, como costuma fazer, mas do solo, num excitante jogo de esconder dos projéteis que caem do céu.

* Eduardo Mares Bisnetto é Antropólogo, Cientista Político e Professor Universitário, embora não trabalhe mais que oito horas por semana e ganhe entre R$15 e R$20 mil mensais. Nem ele sabe disso.

Imagem de Thiago Ribeiro/AGIF/Estadão Conteúdo. Disponível em https://noticias.r7.com/brasil/governador-witzel-participa-de-desfile-da-independencia-no-rio-07092019

Notas

[1] Já tratamos dessa forma de comunicação em outros textos (ver MARES BISNETTO, 2019).