André Rodrigues *

Tubiacanga é uma cidade submersa. Não há diferença de substância entre o que está abaixo e acima do espelho d’água do mar picotado por ilhas que se amontoa no ventre de sua costa; são dois estados da mesma coisa. O antigo estaleiro Ben Israel lida com as máquinas que flutuam entre essas duas densidades; os macacões azuis e laranjas de seus operários pesam como escafandros de novo tipo, um traje para mergulhos existenciais. Nos fundos dos armários crescem recifes de mofo. Não é maresia; é água e é sal que em tudo penetram. Esse sal, entretanto, não salga. É possível sentir nos lábios um gosto adocicado como nas feridas mal cicatrizadas. As árvores são marítimas, algas gigantes, os pássaros marítimos, os automóveis naufragados circulam ameaçadores e enigmáticos, tubarões de aço e plástico, venenosos, os pescadores canibais, os homens homicidas, muitos deles. Dizem que outro dia um rapaz foi morto, decapitado. Tinha fodido com a namorada do dono da boca de fumo. Jogaram bola com sua cabeça em chamas. Atletas febris de um esporte em brasa. Lava incandescente escorrendo pelas ruas. Tudo isso de dia, em hora de expediente.

Todas as pessoas de Tubiacanga têm o olhar sem pálpebras dos peixes e um pouco do terror da asfixia. O ar tem um visgo úmido, antigo. No Benisrael – bairro que recebeu o nome, em corruptela, do estaleiro – não é possível andar sobre as calçadas: são acidentadas e parecem se mover como a areia aos golpes das ondas. O bairro surgido do engenho dos operários do estaleiro foi construído aos marulhos, às golfadas. Caminhar ali é nadar; todos os referenciais são móveis. As vozes chegam abafadas aos ouvidos. Um silêncio ruidoso e onipresente. As forças mudas e brutais que regem o cotidiano são afinadas pelo diapasão desse silêncio. Newton foi muito metafísico ao imaginar a gravitação como uma regência invisível. Seu sistema de atrações mútuas é ali inoperante pela ação dos pontos nodais da diferença, da distância hierárquica. Em Tubiacanga vige o império dessa engrenagem aquática: alguma força que traga tudo, come tudo, rói tudo, tudo apodrece. Tudo carcomido pela água e pelo tempo e, de repente, passa liso e silencioso um carro de luxo reluzente, de escamas cor de prata. Ele vigia o bairro com olhos de tubarão. Sempre retorna, está em toda parte.

No sol do meio dia, com a barriga adormecida e quente do almoço, o ar pesado e translúcido, lembro, no instante em que miro o olho do tubarão metálico, da primeira vez em que vi um homem ser morto. Era ainda no Morro da Conceição e eu devia ter uns dez anos. O Nino perseguia o Alex que descia as escadas do Adro em carreira, descalço, sem camisa. Nino disparava o revólver contra ele. Foram uns seis tiros. Não sei quantos atingiram Alex, mas ele caiu no pé da escadaria agonizando. Eu não via sangue, só a fumaça saindo do cano do revólver. Ainda que eu só visse da janela as costas e a nuca e as pernas do Alex com os calcanhares batendo na bunda, lembro de seu rosto com os olhos embotados de sangue e febre. O corpo agora caído, ainda que trêmulo, em contraste com sua fuga elétrica, fazia parecer que tudo estava calmo. De longe, Alex parecia sorrir. O estampido do revólver e a fumaça formavam um espectro maligno como uma gargalhada que ecoava nas paredes seculares das casas e da igreja e assombrava meus ouvidos. Mas sangue eu não via; e pensava na diferença entre os tiros do cinema e a cena que eu assistia. Havia um interregno entre a perfuração e a ferida. Alex descia a escadaria como um fantasma até que suas costas começassem a jorrar o sangue que lhe queimava por dentro e o fazia lembrar que ainda estava vivo, por pouco tempo. Eu não via sangue, mas vi Alex morrer, vi seu fantasma rolando pelas escadas como um enguia que entra na toca. Lúcia, sua noiva, era minha visinha. Ela carregou, por muito tempo, a palidez cinzenta das viúvas, seu viço de garota secou. Enquanto o fantasma elétrico de Alex singrava as escadas, Lúcia se tornava adulta, mesmo que estivesse dormindo em casa, sem saber de nada. Nino circulava arisco pelo Adro. Já era possível ver na sua testa o estigma dos assassinos, um rosto que não tinha mais olhos e um sorriso permanente como que entalhado à faca em suas bochechas. Aquela tarde foi tóxica para Nino, para Lúcia e para mim. Aquele assassinato sem sangue era um mau agouro. Como se as balas do revólver de Nino fossem feitas da mesma lâmina fria do tempo. Era como um cordeiro sacrificado que não sangrasse. Mais tarde, eu fui procurar na escadaria as manchas já coaguladas do sangue de Alex. Tinha sangrado muito. Havia gotas perfeitas como no início de uma chuva de verão. Outras eram respingos abruptos como acidentes com tinta. Era possível, além disso, contar algumas poças e umas marcas de pé. Alex tinha escorregado no próprio sangue. Isso foi o que o abateu. Mas aqueles afrescos de coágulos marrom-avermelhados eram ainda mais tóxicos que o fantasma elétrico de Alex.

A segunda vez em que vi um homem abatido a tiros foi já em Tubiacanga, no Benisrael, numa terça-feira, depois de jantar. Tinha sangue demais dessa vez, mas não havia um corpo. Só a voz e o sangue. No terceiro tiro dos cinco disparados, corremos todos. Antes de entrar na sala onde me abriguei, escutei o rapaz pedindo socorro. Ele atravessou e salão do restaurante, que funcionava na garagem de uma senhora do bairro, e caiu na outra sala. Todos gritavam, menos ele. Imploravam para ele ficar acordado. Eu só via o sangue. Uma mancha em círculos concêntricos, como se ele tivesse tombado uma vez e depois levitasse até a sala na qual era acudido. Eu vi muito sangue, mas não vi o corpo. A polícia chegou antes dos médicos. A sonolência dos policiais era irritante, uma forma de violência, como tudo no fazer policial é repleto de violência. Em seguida, chegaram os bombeiros e o corpo foi removido com vida. Eu não vi o corpo, nem uma vez. Só o sangue pelo chão, os círculos concêntricos agora pisoteados pelos coturnos de policiais. Chegava gente e mais gente. Detetives amadores e sonolentos como os policiais – mas de olhos afoitos, meio curiosos, meio satisfeitos – começavam já na cena do crime a tecer suas hipóteses. Todas elas incriminavam o agredido. Os agressores chegaram num carro branco. Um deles desceu como um cirurgião bêbado e pouco experiente, vestido com um casaco branco de capuz, disparou cinco vezes, entrou no carro e partiram. Deles não se sabia nada – ou pelo menos se evitava falar. Era como agimos na frente dos médicos: mesmo que encham nossos cornos de tiros, seguimos com certa reverência pelo jaleco. É o poder de matar que nos paralisa. Já o baleado começava a receber narrativas sobre sua agressão antes mesmo de chegar o socorro médico. A primeira coisa que disseram dele é que era um rapaz nervoso, agitado. Disseram isso com ares de quem vê a implosão de um prédio que está condenado a desmoronar. Segundos depois, a segunda persona do quase morto: tinha dívidas com a boca de fumo. Seguida de: se desentendeu com o traficante, mexeu com a mulher errada. Havia os que proferiam suas hipóteses proféticas como quem apenas constata que aquilo tudo já estava feito. O rapaz sobreviveu. Fugiu de Tubiacanga. Seis perfurações no abdômen. Duas das quatro balas que o atingiram entraram e saíram. Logo que se recuperou, saiu da cidade. Nunca vi seu corpo, nem verei. Só seu sangue não me sai da memória. Nos dias seguintes os figurinos já gastos do quase morto, começavam a dar lugar a vestes mais plausíveis, menos previsíveis: devia dinheiro, não para a boca de fumo, mas para o dono de uma oficina mecânica, no Benisrael, que encomendou sua morte.

Não existem crimes passionais. Isso é um equívoco jurídico. Os tipos penais talvez sejam as principais fontes de desenganos em relação à natureza dos atos descritos como criminosos. Não existe assassinato fortuito. Cada morte matada é uma resultante de forças e interesses, muitas engrenagens que se movimentam para puxar o gatilho. Pelo menos, é assim em Tubiacanga. Engana-se quem pensa que estão em jogo poderes microscópicos só porque eles prescindem de cerimônias. Poder matar é um jogo de imersão, uma pregnância de razões e paixões, uma asfixia.

No dia seguinte, na hora do almoço, um desses programas de telejornalismo policial passava na televisão que ficava um pouco acima da mesa, na parede. Numa reportagem sobre um criminoso que foi preso em Tubiacanga os fatos eram narrados da seguinte forma: Ele só não foi linchado e morto pela população porque a polícia havia chegado rápido demais.

Lembro de uma vez em que fui a um museu nos quais estavam expostas umas obras de Lygia Clark. Estavam ali alguns de seus Bichos. Uns objetos de metal, em lâminas curvas, que se articulavam por dobradiças e pareciam máquinas, mas eram imóveis. Eu pensei que ela pretendia que imaginássemos como aqueles Bichos se moviam. Ou ainda: se eles se moviam longe dos nossos olhos. Agora parece que a questão não é como ou  se, mas o quê os movia. Quais forças podiam mover aqueles Bichos? As forças mais densas são as mais discretas: aquelas que movem e aparentam imobilidade. E parecem naturais por causa disso. Mesclam inconsciências com discursos, como desmaios eloquentes. Fazem o real parecer paisagem. Sustentam toda a cena enquanto o gatilho é pressionado. Matam antes da bala. Ferem antes do tempo. Não vemos o sangue. Não vemos o corpo.

Estarmos cercados de ar é uma circunstância exterior fundamental da nossa relação com o invisível: a impressão de que estamos livres, soltos no espaço. Como se pairássemos entre vazios. Quando precisamos descrever circunstâncias mais densas da existência somos levados, portanto, às metáforas líquidas: estamos imersos, mergulhados, afogados, embriagados. (Os que se dizem soterrados ou são pouco hábeis com as palavras ou não estão permeados por densidades tão sérias: em soterramentos há esperanças de algum ar para os pulmões). Abusamos dos líquidos quando pretendemos diluir abstrações que construímos sobre a solidez de nossas amarras. O líquido não é uma metáfora rebuscada. É a circunstância mais concreta possível de nossa condição. Uma esponja mergulhada num mar sem bordas. Ou um mar com bordas tão extensas quanto a própria esponja.

O sol a pino ocupa o ermo da margem do rio que passa pelo Benisrael. Uma multidão de presenças invisíveis ao meio dia, como um soco bem no alto da cabeça que faz todo o sangue correr ao contrário. O calor na garupa da água pesando nos pulmões, impregnado por baixo das roupas, nas frestas, nos pelos. A margem baldia, sem calçamento, era de um braço de rio canalizado e imundo, um valão. Eu caminhava depois do almoço. Os frêmitos no leito do valão ainda pareciam emanações dos tremores do garoto abatido a tiros, eram ainda seu choro e sua vertigem, a febre do sangue que escorreu pelas seis perfurações no seu tronco. Para qualquer canto que se olhe, os morros cobertos pela mata atlântica nos encaram. As clareiras que deixam a rocha exposta parecem olhos à espreita. Como um animal que aguarda imóvel, por milênios, o momento de nos abater, de nos esmagar sob a pata oculta antes de nos tragar para dentro de si. Como uma baleia. O sol a pino parava o tempo, um presente perpétuo. A água que escorre pelo ralo antes que se perceba qualquer mudança de nível ou movimento na superfície. Eu era um escaravelho preso na cortiça com um alfinete feito do aço mais duro e menos visível.

* André Rodrigues é Doutor em Ciência Política pelo IESP/UERJ e professor do IEAR/UFF. Colabora com a Revista Escuta.

** Crédito da imagem: Site <https://pixabay.com/pt/photos/lixo-pilha-de-metal-sucata-res%C3%ADduos-977603/&gt;. Acesso em: 21 set. 2019.