Luís Falcão*

…e até os monarcas mais absolutos estão submetidos ao meu império.

Erasmo de Roterdã, Elogio da Loucura, 1511

Quando soube da notícia de que Sérgio Moro iria ser ministro da justiça e da segurança pública, veio-me à mente a única possibilidade para entender o acontecimento: reler O Alienista.

“- A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo.”

Moro, como Bacamarte, sempre fora respeitado em sua profissão. Bacamarte, como Moro, acreditava na ciência e na técnica. Aceitaram, porém, o consentimento das autoridades de Estado para assumir um cargo de confiança, abandonar a promissora carreira, no Brasil ou no exterior, para reservarem-se em seus universos, com a devida promessa de que teriam autonomia para fazer o que bem entendessem. Bacamarte, “exteriormente era modesto, segundo convém aos sabedores”, mas isso não impediu que sua esposa, em ocasião especial, “contentíssima com a glória do marido, vestira-se luxuosamente, cobriu-se de joias, flores e sedas”.

Quando os jornais perguntaram a Moro por que, ora, teria ele deixado uma carreira definitiva de Estado, que lhe dera tanto prestígio, para assumir uma posição temporário de governo incerta, a resposta foi de alguém desacostumado com as potencialidades da política. Disse ele que acreditava em poder fazer uma boa gestão à frente do Ministério, já que tinha carta branca do presidente. O mesmo cargo foi ocupado por um advogado respeitado e muito rico por sua atuação privada e, quando o Roda Viva ainda se detinha a coisas do gênero, perguntaram para ele o motivo da troca: “Vaidade”, respondeu sem meias Márcio Thomaz Bastos. Moro, “exteriormente era modesto”, lembremos de Bacamarte, precisava de uma justificativa à altura. Largar a Lava-Jato para se enfurnar em Brasília enfraqueceria a operação, retrucavam dignos repórteres. Absolutamente, respondeu ele com outras palavras.

Dizia-se na imprensa que os avanços da Lava-Jato estavam comprometidos, tanto que, bastou que assumisse Moro o Ministério, as delações começaram a ser questionadas e o número de prisões despencou. O que se parecia querer era a continuidade das prisões, por justiça, revanche, vingança… ou medo de que se alguém estivesse solto, poderia atrapalhar os planos imperiais. “Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era uma povoação. Não bastaram os primeiros cubículos; mandou-se anexar uma galeria de mais trinta e sete. O padre Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco e vilão, que todos os dias, depois do almoço, fazia regularmente um discurso”.

Bacamarte não se contentava com os encarceramentos que fazia, queria mais e estava amparado na ciência para isso. Afinal, era um técnico e não um político, como respondeu recentemente Moro à Sadi, “eu entrei pro Ministério da Justiça para ter um trabalho mais técnico […] Não me considero um político […] não que tenha alguma coisa errada nisso”. Quando decidiu abandonar sua carreira e aceitar o cargo, Bacamarte não se apercebeu que, com a autoridade científica que construíra, não chegaria a lugar nenhum, “uma vez empossado da licença começou logo a construir a casa”. Ao sentir-se encurralado por um dos vereadores, Bacamarte arranjou-se pelas costas do parlamentar e, enfim, pôs de pé a Casa Verde, com o assentimento moral da autoridade do vigário e de Crispim Soares, boticário da vila.

O dono da única farmácia local não tinha motivos outros com o engrandecimento de Bacamarte senão o genuíno desejo de ver curados os dementes, conta-nos a ironia machadiana. Talvez por isso, Bacamarte, “aceitando a ideia do boticário Crispim Soares, aceitou-lhe também dois sobrinhos, a quem incumbiu da execução de um regimento que lhes deu, aprovado pela câmara, da distribuição da comida e da roupa”. Os negócios andavam bem para ambos os lados. Mais se identificavam os doidos, por critérios científicos, mais a Casa Verde crescia em prestígio, mais os sobrinhos do amigo farmacêutico poderiam justificar seus ordenados.

Bacamarte é um médico e, como tal, responsável pelo diagnóstico da doença e pela prescrição do remédio. Ele, sozinho, por ofício, investiga e executa. A união tentadora dessas duas funções foi responsável pelas mais brutais tiranias ao longo da história e, por isso, decidiu-se há séculos separar as funções: aquele que acusa não pode julgar e vice-versa. Como se Bacamarte enviasse mensagens para ele mesmo com orientações do que seja o diagnóstico e a prescrição, a conversa entre juízes e promotores é comum no Brasil. E está justificado todo o conteúdo que veio a público antes de ser destruído. Talvez Bacamarte precise do aplicativo para se recordar de mensagens que enviou no mês passado.

A querela com o vereador desconfiado fora totalmente resolvida, afinal, ele não era sobrinho do boticário. Mas se fosse? Ou se fosse filho de D. Pedro? “É uma questão institucional”, disse Moro, “esse é um caso que está lá no Supremo Tribunal Federal”. Bacamarte tinha o nepotismo ao seu lado, talvez por isso não tenha perdido o COAF nem uma bodega de secos e molhados. Bacamarte nunca foi ingênuo de acreditar que sua ciência convenceria o vilarejo da necessidade de suas ações, por isso, permitia-se ao autoritarismo mais escuso. Mas como não se pode crer que as bruxas não existem, tem que manter isso, viu?… com os Eduardos e com o Flávio, pois, eu jamais apoiei ou fiz empenho pelo golpe […] eu não era adepto do golpe. “Quando eu procurei o presidente”, cometeu Moro um semelhante deslize à mesma Sadi, “nós assumimos um compromisso de que nós seríamos firmes contra a corrupção”. Até certo ponto, Bacamarte sabia quem podia ou não prender. Nada mais verdadeiro do que um ato falho, e não me refiro ao Temer, raposas não falam a verdade impunemente e nem mantêm a palavra dada.

“Quatro dias depois, a população de Itaguaí ouviu consternada a notícia de que um certo Costa fora recolhido à Casa Verde.

– Impossível!

– Qual impossível! Foi recolhido hoje de manhã

– Mas, na verdade, ele não merecia… Ainda em cima! Depois de tanto que ele fez…”

O alienista perdeu as estribeiras e pensou poder prender o Costa, pelo menos não terceirizou o serviço às “instituições”, ou ao STF, não passou a vergonha de tentar justificar o injustificável. Bacamarte não tinha que responder por um Roberto Leonel ou um Maurício Valeixo. “Não me cabe ficar comentando afirmações do presidente”, disse o técnico ministro nomeado ex-juiz. Se a novela terminasse no capítulo cinco, estaríamos em boas mãos: Bacamarte desmascarado e a nau dos loucos em delírio. Mas o mundo machadiano é absolutamente imperdoável com seus leitores.

“- A Casa Verde é um cárcere privado, disse um médico sem clínica.”

Imaginemos que Bacamarte diagnosticasse, com seu preparo técnico, a insanidade mental de alguém mais popular do que o Costa ou que impedisse o vereador implicante de concorrer às eleições municipais. A câmara de vereadores possivelmente aprovaria o feito, já que, salvo ele, aprovou por unanimidade os impostos para a Casa Verde. Até que ponto o aflito leitor de Machado acredita que Bacamarte acredita no que faz e quando ele começa a questionar as boas intenções do alienista é uma questão irresoluta. Afinal, morreremos sem saber se a Capitu traiu ou não o Bentinho. Talvez o Intercept possa um dia revelar…

Mas o médico sem clínica é assim descrito por um motivo: a Casa Verde lhe constrange, porque ele não é o Bacamarte. Se tivesse clínica, esse médico iria ao inferno, ou ao STF, para tirar os menos doidos da insanidade que se tornara o lado de dentro.

O óbvio, quando do convite presidencial, seria afirmar que Moro favoreceu Bolsonaro ao prender Lula, o que requer crer num completo amadorismo do então juiz, requer fazê-lo inábil como Bacamarte. A tendência de se crer em Thomaz Bastos se deve ao fato de que seu vício depõe contra ele mesmo, mas insistir na cantilena de que Lula não tem nada que ver com eleições é julgar que estamos todos merecidamente dentro da Casa Verde.

O próximo carnaval promete novas máscaras e fuzis. A ineficiência, porém, de nossa orgulhosa criatividade nos faz questionar com maior probabilidade de acerto se haverá carnaval se não houver Brasil do que se a Terra é redonda. “Entre sem bater”, pregou na porta da frente o Barão de Itararé depois de apanhar da polícia. “Pelo menos lá dentro deve estar mais engraçado do que aqui fora”, vinha escrito em letras miúdas na primeira página quando o Pasquim sofreu com o surto de “gripe”. Foi-se época em que vacina era prioridade e que informações públicas eram públicas, oriundas do INPE ou do moroso site do DETRAN. Mas voltemos à conspiração.

Caso houvesse interesses escusos habitando o Ministério da Justiça, a URSAL e o comunismo da família Marinho seriam desmascarados. O combate à corrupção usado como discurso político destrói o discurso político. Mas, do que esperar de um alienista que crê serem todos loucos? Quando a nau afundar, não haverá mais loucos. Mas, como se manter são ouvindo Armínio Fraga defendendo distribuição de renda como prioridade? ou Delfim Netto atacando o lamarckismo de Weintraub? ou Reinaldo Azevedo elogiando, com poucas ressalvas, Rui Costa? Quando lotado, o terror assentado em Itaguaí, disseram sem receios os moradores:

“- Devemos acabar com isto!

– Não pode continuar!

– Abaixo a tirania!

– Déspota! Violento! Golias!”

São palavras do texto de 1882. “Mas o interesse particular deve, dizia ele [Porfírio, quem lucrava com a venda das sanguessugas para a Casa Verde], deve ceder ao interesse público”. Há momentos históricos que não parece nada prudente rir da ironia machadiana, particularmente ao se falar de clamores populares:

“Cerca de trinta pessoas ligaram-se ao barbeiro, redigiram e levaram uma representação à Câmara.

A Câmara recusou aceitá-la, declarando que a Casa Verde era uma instituição pública, e que a ciência não podia ser emendada por votação administrativa, menos ainda por movimentos de rua”.

Sente-se um profundo saudosismo de um tempo fictício no qual as autoridades de governo sabiam a diferença entre ciência e política. Perguntemos, então:

“- Nada tenho que ver com a ciência; mas se tantos homens em quem supomos juízo são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?”

E fica a sugestão: “o ilustre médico, com os olhos acesos da convicção científica, trancou os ouvidos à saudade da mulher, e brandamente a repeliu. Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo”.

*Luís Falcão é cientista político, professor da Universidade Federal Fluminense e colaborador da Revista Escuta.

Crédito de imagem: Cândido Portinari, ilustração para “O Alienista” de Machado de Assis, Editora Imprensa Nacional, 1948, p. 5.