Por Fernando Perlatto*

A coluna “Escuta Recomenda” é publicada aos domingos, assinada por um dos editores da revista, Fernando Perlatto, com sugestões de leituras de textos de política e de cultura, publicados na imprensa ao longo da semana.

Política

* Declaração de Carlos Bolsonaro sobre democracia e ameaça às instituições: na semana em que o filho do presidente fez a postagem no Twitter de que “por vias democráticas, a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos”, vários artigos foram publicados na imprensa criticando a declaração e destacando os riscos para a democracia brasileira do governo Bolsonaro. Indico os textos abaixo:

– Artigo de Bernardo Mello Franco no jornal O Globo, na quarta, “Bolsonaro disse o que o pai pensa”: “O novo surto de Carlos Bolsonaro espelha as ideias autoritárias do pai. Jair foi eleito nas urnas, mas nunca escondeu o desprezo pela democracia. Em oito mandatos na Câmara, notabilizou-se por exaltar a ditadura, enaltecer torturadores e desdenhar a participação popular na política”

– Artigo de Bruno Boghossian na Folha, na quarta, “O que o tuíte de Carlos revela sobre o populismo de Bolsonaro”: “O vereador não anunciou a implantação de um regime autoritário, é verdade, mas reproduziu bem a doutrina bolsonarista contra as instituições”

– Artigo de Miriam Leitão, no jornal O Globo, na quarta, “A democracia como estorvo”: “As palavras querem dizer o que elas dizem. Não adianta tentar consertá-las depois. Tratar como naturais declarações antidemocráticas só porque elas são recorrentes é deixar-se entorpecer pelo absurdo. É exatamente a repetição que as torna mais graves”

– Artigo de Eugenio Bucci, “Abjuração”, na quinta-feira, para o Estadão: “Essas falas do presidente da República não são meras diatribes de moleque. Elas são, numa palavra, inconstitucionais. Não podem ser aceitas ou toleradas, pois ferem a normalidade democrática”

– Artigo de Oscar Vilhena Vieira, “Abrindo o caminho”, no sábado, na Folha: “Creio que o emprego sistemático de discursos que afrontam direitos e hostilizam instituições democráticas tenha, no entanto, uma função mais perversa, que é abrir espaço para a erosão do projeto de construção de uma sociedade mais livre, justa e solidária, como determinado pelo artigo 3º da Constituição”

– Artigo de Demétrio Magnoli, no sábado, na Folha, “Bolsonaro e o ‘Sistema’”: “O que Carlos Bolsonaro pensa é irrelevante. Mas o que escreveu sobre a democracia não é, porque ele apenas verteu para seu estranho idioma, longiquamente aparentado com o português, as sentenças emanadas do cérebro ideológico da ultradireita brasileira”

– Artigo de Luiz Carlos Bresser-Pereira, na Folha, na segunda, “Depois do pesadelo”: “Uma coisa, porém, é certa: os riscos que correm o Estado de Direito e a democracia são muito grandes. Apenas uma minoria de extrema-direita está realmente identificada com as políticas do governo. O Brasil já tem uma sociedade civil bem estruturada. Já tem uma classe trabalhadora, uma classe média e uma classe empresarial variada e de boa qualidade. Temos que contar com esses ativos para superar o pesadelo em que estamos mergulhados”

– Artigo de Bernardo Carvalho, neste domingo, a Folha, “Brasil de hoje seria um conto ruim”: “Se hoje o Brasil fosse um conto, seria um conto ruim, com personagens medíocres e boçais, para dizer o mínimo, porque não há história oculta, não há segundo grau, tudo está escancarado diante dos nossos olhos e ainda assim, por razões que têm a ver com a miragem de interesses de classe, privilégios e pautas econômicas, seguimos nos recusando a ver e entender. O governo Bolsonaro é uma ofensa diária à inteligência dos brasileiros. Do que mais precisamos para enxergar que somos suas principais vítimas?”

* Vaza-Jato e os abusos de Moro e dos procuradores: na semana em que mais áudios foram divulgados revelando os abusos de Moro e dos procuradores quando do episódio da nomeação de Lula como chefe da Casa Civil pela presidenta Dilma Rousseff, vários artigos foram publicados analisando ilegalidades da Operação Lava Jato:

– Artigo de Elio Gaspari neste domingo, no jornal O Globo, “Moro desculpou-se, mas não se arrependeu”: “No dia 16 de março de 2016, a República de Curitiba teve sua maior vitória. Como no gol de Maradona, a bola foi ajeitada com a mão (“de Deus”, como ele disse)”

– Artigo de Maria Hermínia Tavares de Almeida, na Folha, na quinta, “Filigranas”: “As conversas entre justiceiros da Lava Jato assustam por revelar que membros do Ministério Público Federal pudessem considerar filigrana jurídica a legislação que rege a formação de provas contra acusados. Afinal, a instituição da qual fazem parte é um dos pilares do estado democrático de direito, ou, em português corrente, o governo das leis.

– Artigo de Janio de Freitas, na Folha, neste domingo, “Lavar a Lava Jato”: “Só com uma Lava Jato da Lava Jato, uma Lava Jato honesta para investigar a Lava Jato deformada, sob manipulação de Sergio Moro e Deltan Dallagnol, para interferências políticas e eleitorais. E ainda para ganhos pecuniários pessoais”

* Outras sugestões de artigos interessantes publicados na semana:

– Artigo de Luiz Werneck Vianna, “Em defesa de uma utopia realista”, publicado na Revista IHU On-Line, na quinta-feira: “O mundo dá muitas voltas, e nesta em que estamos agora envolvidos, embora não faltem motivos para se temer o pior, não há por que ceder à desesperança que os profetas do apocalipse não se cansam de anunciar”

Artigo “Por que cortar gastos não é a solução para o Brasil ter crescimento vigoroso?”, de vários autores, publicado na Folha neste domingo: A manutenção do teto de gastos representa um entrave à retomada do crescimento econômico, amplia a crise social e aprofunda o desmonte dos serviços públicos. Situação que tende a se agravar com a ameaça do fim da garantia de recursos para áreas prioritárias como saúde e educação”;

– Artigo de Laura Carvalho, na quinta, na Folha, sobre a ideia do governo de acabar com a obrigatoriedade de gastos obrigatórios, “Uma pedra no meio do caminho”: “tentativa de livrar-se de uma vez por todas dos deveres mínimos do Estado na educação e na saúde, da indexação de benefícios sociais ao salário mínimo e de outros pilares do pacto constitucional de 1988”

– Artigo de Maria Cristina Fernandes para o Valor Econômico na quinta-feira, “Protesto necessário, mas insuficiente”: “Inexistente para as plateias do festival da cerveja ou da bienal e mesmo para os alunos da elite do ensino público, o medo é latente para as multidões de pobres desempregados. Pelo perfil das únicas reais sublevações vistas em São Paulo nas últimas semanas – as da Cracolândia, no centro da cidade -, só os nóias, com a retaguarda do PCC, parecem dispostos a pagar o preço. Mas é apenas na ficção de Bacurau, filme celebrado pela esquerda, que o oprimido alucinado vence. Na vida real, a mobilização contra o arbítrio e a desigualdade depende do esclarecimento e da política”

– Artigo de Conrado Hübner Mendes, “São seus olhos, excelência”, para a revista Época: “Se você se excita com pornografia, não perca seu tempo com revistas, vídeos e cines privé. Encare a pornografia hardcore que a realidade brasileira oferece”;

– Artigo de Rogério Arantes, “O xadrez e a dama do presidente”, para a revista Época: “Seja como for, o verdadeiro enxadrista da Constituição de 1988 conferiu independência funcional a todos os integrantes do MP, dentre outras formas de desidratar os poderes da chefia. O presidente acha que escolheu sua dama, mas no tabuleiro político ela pode não passar de um simples peão”

– Artigo de Bernardo Mello Franco, no jornal O Globo, na sexta-feira, “Dodge merece o Troféu Barrichelo”: “Raquel Dodge não conquistou a sonhada recondução, mas merece o Troféu Rubinho Barrichello. A cinco dias de deixar o cargo, a procuradora-geral da República descobriu que a democracia brasileira corre riscos”

– Artigo de Reginaldo Prandi, “Os 12% do presidente – em que lugar da sociedade habita o bolsonarista convicto?”: “Pelo que suas atitudes recalcitrantes indicam, é no espelho dos 12% que o presidente prefere ver sua imagem refletida”;

– Artigo de Matheus Vitorino Machado, publicado nesta Revista Escuta, na terça-feira, “A cruzada dos velhos vs a cruzada das crianças”;

– Artigo de José de Souza Martins, “Quatro barras de chocolate”, publicado na sexta, no Valor: “Não voltamos ao tempo da escravidão. Apenas não saímos dele. Leis, como a Lei Áurea, não revogam a cultura de iniquidades que se pretende combater por meio delas. A escravidão não se resumia ao tronco, ao pelourinho, ao ‘bacalhau’ de couro cru trançado para castigar o escravo atrevido que ousasse evadir-se das humilhações do cativeiro. A escravidão era também um modo de ver o outro como ínfimo, no limite entre o humano e o semovente. O escravo era mercadoria, animal de trabalho, garantia de empréstimos hipotecários junto aos bancos”

– Artigo da deputada Margarida Salomão (PT) sobre o “Future-se”, “Future-se: possível solução ou invenção de uma nova crise?”;

– Artigo de Drauzio Varella para a Folha, neste domingo, “Ideologia de gênero”: “Nos dias assustadores em que vivemos, em que os boçais se orgulham das idiotices que vomitam com ares de sabedoria, vários demagogos se apropriaram do preconceito social, para criar a tal “ideologia de gênero”, com o pretexto de defender a integridade da família brasileira. Partem do princípio de que assim ganharão mais votos, uma vez que os iletrados são maioria num país de baixa escolaridade, infelizmente. Mandar recolher livros e disputar a primazia do combate a essa ideologia cretina e sem sentido é apenas uma demonstração de arrogância preconceituosa tão a gosto dos pobres de espírito”;

– Entrevista traduzida de Thomas Piketty sobre seu último livro, Capital e Ideologia, publicada no site da revista IHU On Line. O site também publicou trechos traduzidos do novo livro de Piketty;

Cultura

– Publiquei na quinta, nesta Revista Escuta, o artigo “Chico Buarque, romancista”.

– Indico a leitura das reportagens da Folha e do jornal O Globo sobre novo disco de Elza Soares, Planeta Fome, lançado esta semana;

– Na semana em que se teve notícia da morte do fotógrafo Robert Frank, vale a leitura da tradução pelo jornal O Globo de artigo publicado no The New York Times sobre o fotógrafo, além dos textos sobre Frank de Walter Carvalho no jornal O Globo e de Daigo Oliveira na Folha.

Indicações culturais da semana:

Livro: Onde é que estou?, com entrevista e artigos de Heloisa Buarque de Hollanda (Bazar do Tempo, 2019)

Discos: Elza Soares (Planeta Fome, 2019) e Céu (Apká, 2019)

Podcast: Entrevista no Podcast da Companhia das Letras com o escritor Paulo Scott, que acaba de lançar o livro Marrom e Amarelo pela editora

Teatro: Grande Sertão: Veredas (Bia Lessa) e Macunaíma (Bia Lessa)

* Fernando Perlatto é um dos editores da Revista Escuta