Matheus Vitorino Machado*

Ainda que pareça contraintuitivo, os populares e onipresentes super-heróis nem sempre foram recebidos com o entusiasmo e carinho dedicados a suas versões cinematográficas. Sua mídia de origem, as histórias em quadrinhos norte-americanas, foi alvo de constante e intensa censura. A trajetória de editoras como a Marvel Comics, casa de personagens como Homem-Aranha, X-men e Vingadores, é fruto dos movimentos de acomodação e desafio a censura moralista imposta à indústria de quadrinhos norte-americana.  Assim, a cruzada moral contra os quadrinhos se confunde com a própria história das HQs, e é reveladora de um movimento que não se circunscreve apenas aos Estados Unidos da década de 50, mas é retomada em múltiplos momentos da história Brasileira.

A recente tentativa de censura ao livro “Vingadores: A cruzada das crianças”, protagonizada pelo prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella[1], é um caso duplo de resgate histórico. A história “A cruzada das crianças” é uma reimpressão da minissérie em nove edições de nome Avengers – The Children’s Crusade, publicada pela Marvel Comics em 2010, e que apareceria pela primeira vez no Brasil em Os Vingadores Especial 1 e 2, pela editora Panini, em 2012. A edição que ganharia os noticiários e redes sociais corresponde ao volume de número 66 de uma coleção de reimpressões chamada Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel, publicada desde 2013 pela editora Salvat [2]. O conteúdo do polêmico livro não é, portanto, novidade no Brasil ou no mundo, e o mesmo pode ser dito das ações de Crivella. A tentativa de censura aos quadrinhos não é uma cruzada solitária do prefeito do Rio, mas antes, é a “reimpressão” de uma prática cujo exemplar pode ser encontrado no final na primeira metade do século XX nos EUA, e tem se tornado comum no Brasil contemporâneo.

O movimento de censura aos quadrinhos nos Estados Unidos deve ser compreendido no contexto de um movimento pró-censura amplo que se estrutura no Pós-Guerra. Ainda no período anterior à Segunda Guerra Mundial, organizações religiosas como a católica National Organization of Decent Literature já reivindicavam a censura  a livros inapropriados. Contudo, mesmo que tais organizações já se estabelecessem em torno da pauta da proibição de literatura, cinema e música, a Guerra Fria e o macartismo criaram um terreno fértil para a mobilização de ampla frente de associações cívicas, religiosas, profissionais e políticas que reivindicavam o dever moral de censurar produtos culturais que promovessem o “anti-americanismo” e a “depravação”.

A histeria coletiva do macartismo e Guerra Fria proporcionaram um fenômeno que possibilitou que as populares histórias em quadrinhos se tornassem o alvo prioritário, uma virada para o medo da depravação e delinquência juvenil. A popularidade dos gibis entre jovens, e as temáticas corriqueiras de terror, fantasia sobrenatural e crimes os tornavam um alvo fácil do olhar moralista, o crime e a delinquência juvenil eram corriqueiramente associados ao consumo das revistas. No final dos anos 40, as associações de pais, religiosas e cívicas eram bem  sucedidas em aprovar legislações locais de censura, pressionar editoras e mesmo mobilizar recolhimentos de exemplares.

A cruzada dos velhos atinge seu ápice em 1954, quando dois importantes eventos possibilitariam a criação de uma autocensura responsável por limitar a liberdade de expressão nos Estados Unidos. Por um lado, a publicação de Seduction of the Innocent, por Fredric Wertham, criaria um terreno comum para a argumentação contra as HQs. O psicólogo alemão naturalizado norte-americano passará anos de sua vida denunciando os efeitos maléficos da cultura de massa, dentre eles o estímulo a violência e a depravação sexual. Sua formação como psicólogo proporcionava um verniz de credibilidade científica a sua obra, ainda que ela fosse marcada não só pelo sensacionalismo barato, como pela manipulação de dados. Dentre as estranhas teses presentes em seu livro, se encontra a defesa de que os quadrinhos estimulavam os jovens a masturbação precoce, promoviam fantasias sadomasoquistas, de que Batman e Robin eram personagens homoeróticos e de que a independência da mulher-maravilha a levava a comportamentos lésbicos.

Concomitante ao sucesso das teses de Wertham, a cruzada ganhava contornos ainda mais claramente políticos. quando Senado norte-americano instaura uma comissão para investigação da relação entre delinquência juvenil e histórias em quadrinhos. Uma série de audiências públicas foram realizadas, apenas para que se estabelecesse o já malfadado culpado pelos desvios morais da juventude: as HQs. Contudo, a audiência foi pródiga em separar os interesses comerciais dos editores do conteúdo artístico pretensamente inapropriado. Assim, em um esforço de evitar o iminente colapso comercial, as editoras concordam em uma autocensura conhecida como comic code authority. O código estabelecia que os gibis deveriam possuir um conteúdo inequivocamente moral e casto. Qualquer representação de sexo ou nudez, de zumbis ou vampiros, de violência gráfica deveria ser banida das páginas das revistas.

O resultado da atuação do código foi, na melhor das hipóteses, desastrosa para a então pulsante indústria. Não apenas a venda de títulos caia, como a sua variedade diminuía: os 650 títulos publicados no início dos anos 1950 seriam 300 no final de 1955. As editoras, por consequência, não resistiram. Expoentes do mercado, como a editora EC comics, notória por suas histórias de terror e ficção científica, cercadas pela censura constante, deixariam o mercado de quadrinhos.

Não coincidentemente, o código geraria cópias brasileiras. A editora brasileira EBAL, responsável pela publicação de inúmeros títulos norte-americanos durante a década de 50, estipula uma regulação interna chamada Código da Editora Brasil-América, que combinava uma série de regras análogas ao código americano original, com uma preocupação de cunho nacionalista. Ao passo que o código da EBAL emulava o americano nas questões morais, se prestava concomitantemente a alterar o texto de maneira a torná-lo menos americano possível. Outra cópia seria produzida na década de 1960, o código de ética dos quadrinhos, assinado em comum acordo por múltiplas editoras.

A vida útil de tais cópias, no entanto, seria curta, uma vez que o Ato Institucional N° 5, de 1968, concentraria as funções de censura na estrutura do Estado brasileiro. Casos célebres, como do semanário de humor O Pasquim, demonstram como a arte sequencial era reconhecida como subversiva e incompatível com os valores da ditadura de 64. A revista, que possuía em seu quadro artistas como Millôr, Jaguar, Ziraldo e Henfil, sofreu perseguições durante toda a sua trajetória, passando pelas prisões de dez de seus doze membros, meses após sua publicação original, como também por inúmeras censuras feitas ao material publicado.

O célebre cartunista Henfil, em suas cartas compiladas em “Diário de um cucaracha”, relata a experiência de censura vivida tanto no Brasil, quanto em sua estadia nos Estados Unidos. Ainda abatido pelos ataques sofridos porO Pasquim, Henfil se mostra contagiado pela liberdade de imprensa norte-americana:

“O problema, Zé, é que estou grogue com a liberdade desvairada de imprensa nos EUA. Como que por encanto sumiu a autocensura que sempre me orientou aí, quando mandava as coisas do Pasquim para a censura prévia. Tenho visto os jornalistas americanos darem tanto cacete no presidente Nixon, tenho visto tanta charge política, as pessoas falarem tudo pelo telefone, conversarem tudo sem desconfiarem do outro, os jornais darem tudo, que entrei na dança (HENFIL, 1988, p. 73)”

Contudo, a sensação de liberdade dá lugar as pressões da censura, que logo afetam o artista:

“Enquanto isto, o Syndicate continuava “editando” e me obrigando a fazer 60 tiras para eles aprovarem 36. Pior e alarmante: o Syndicate começou a alterar na maior cara de pau os diálogos de algumas tiras! Reclamei, mas já estava tudo impresso e distribuído. Prometeram não fazer mais e pediram mil desculpas. Fizeram mais e mais desculpas pediram (HENFIL, 1988, p. 213)”

Henfil experimenta, assim, uma censura dupla e simultânea. Via suas tiras enviadas ao O Pasquim censuradas pela ditadura, e suas tiras enviadas ao sindicato censuradas pelo editor. Tal experiência é reveladora do tipo de recepção que o quadrinista estava disposto, em ambos países. Ainda que o comic code authority atuasse especificamente sobre os comic books, as tiras de jornal estadunidenses também sofriam ”regulações” que adequavam seu conteúdo ao sentimento moralista que regia a sociedade americana. Como observou o autor “Aqui não precisa de censura oficial. O povo se encarrega de manter a ordem.” (HENFIL, 1988, p. 206) Concomitantemente, a ditadura institucionaliza a censura, submetendo quadrinistas e cartunistas ao escrutínio governamental de maneira constante.

A ampliação da censura proposta por Crivella, ainda assim, parece pouco provável, justamente pelo conteúdo usual das revistas de super-herói, que narram histórias frequentemente conservadoras. A cruzada das crianças, contém, no entanto, um beijo entre dois homens. Hulkling e Wicano, um casal de jovens vingadores,  se beijam no final da trama. A HQ, que poderia ser comprada na Bienal do livro do Rio de Janeiro, gerou reclamações online, que se sucederam com um pronunciamento pelo vereador Alexandre Isquierdo (DEM) na Câmara Municipal do Rio de Janeiro enquadrando a edição como pornográfica e indecente, mesmo sem nenhuma imagem de sexo ou nudez, Nesse movimento, Marcelo Crivella ordena a fiscalização e recolhimento do material.

O ataque aos quadrinhos, como forma de defesa da juventude, compõe um repertório que tem sido utilizado à exaustão pelas principais figuras da política brasileira. O famigerado kit gay, alvo preferencial do ódio bolsonarista durante campanha presidencial, tem sua origem também nas HQs. O real livro, “’Aparelho sexual e cia: um guia inusitado para crianças descoladas”, é um pequeno guia sobre sexo e sexualidade baseado no popular personagem de quadrinhos franco-belga Titeuf [3],um jovem rapaz que vive aventuras baseadas na descoberta da sexualidade. Somam-se às fileiras dos velhos cruzados um seleto time de conservadores: a ministra dos direitos humanos Damares Alves, que em culto, ataca o longa animado Frozen – insinuando que Elsa, protagonista da animação, é lésbica [4] –  e , denuncia um beijo entre duas princesas presentes no livro A bela e a adormecida, do escritor e quadrinista Neil Gaiman [5]; o pastor Silas Malafaia, que propôs um boicote a Disney após presenciar o beijo entre dois homens no desenho Star vs As forças do Mal[6]; o prefeito da cidade de São Paulo, João Dória, que ordenou recolhimento de material didático de ciências para adolescentes do ensino fundamental que continha referência a identidades de gênero[7]. Os exemplos poderiam se estender, uma vez que o rol dos cruzados não se resume apenas ao círculo do atual governo.

A cruzada empreendida por Crivella, Bolsonaro, Malafaia, Dória e Damares Alves remete, por um lado, à cruzada anti-quadrinhos de Wertham nos Estados Unidos dos anos 50. Trata-se de um movimento que tem como núcleo discursivo a perversão da juventude incauta pelo nefasto entretenimento infanto juvenil, cabendo, portanto, o papel de defesa da infância e do amadurecimento às figuras velhas e religiosas. Pululam discursos conspiratórios contra empresas do entretenimento infanto-juvenil, com destaque para gigantesca Disney, proprietária não só de Frozen e Star vs As Forças do mal, como também de toda Marvel Entertainment. As abruptas investidas contra o conteúdo jovem, como no caso americano, se ancoram e visam fortalecer um sentimento de macartismo e radicalização política, que se expressam em um moralismo homofóbico e puritano.

Essa incorporação da proteção dos direitos da criança e do adolescente ao discurso pró-censura implica, também, em severo ônus às políticas de proteção social da infância. A falsa equivalência da proteção dos jovens à censura possibilita o recuo de importantes avanços na educação infantil, como a inclusão da educação sexual e dos debates sobre gênero e sexualidade; como também fortalece os discursos abertamente contrários aos mecanismos de proteção da infância, como é o caso dos ataques públicos que Jair Bolsonaro desferiu contra o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)[8].

Esse movimento, assim, se desloca da já terrível mobilização pela censura de conteúdo infanto juvenil para uma movimentação pró-censura mais ampla, com forte história no Brasil. Pesam nesse caso as inúmeras ameaças feitas à Agência Nacional do Cinema (ANCINE) por Bolsonaro[9], a censura ao comercial do Banco do Brasil que continha uma jovem transexual[10], os ataques à exposição Queermuseu desferidas pelo MBL[11], e a baixa investida contra a Feira Literária de Paraty (FLIP)[12].  Se os ataques a FLIP e ao Queermuseu remetem ao vigilantismo do período ditatorial de nossa história, casos como o do Banco do Brasil e ANCINE revelam uma vontade de reestruturação da Divisão de Censura de Diversões Públicas, órgão responsável pelas censuras prévias durante a ditadura militar.

O que presenciamos é uma reedição das cruzadas moralistas que estruturaram perversas políticas de censura não só aos gibis, como a toda liberdade de expressão. A postura da Bienal do Livro, dos editores e artistas foi digna de quem compreende os riscos envolvendo tal movimento. Ações como a do youtuber e empresário de entretenimento infanto-juvenil Felipe Neto foram acertadas, uma vez que impediram o recolhimento e estimularam a circulação das obras ameaçadas. No entanto, a cruzada das crianças, dos quadrinhos, da animação e da literatura continuará a ser empreendida pelos velhos arautos do moralismo. Se a reação negativa à ordem da prefeitura demonstra comprometimento público pela liberdade de expressão, vale ressaltar que a própria Marvel Comics, em que pese seu histórico de progressismo, recentemente censurou um prefácio para edição comemorativa escrito por Art Spiegelman, famoso escritor da obra Maus,  por conter críticas ao presidente dos Estados Unidos Donald Trump[13].

Para não terminar este texto com o tom pessimista de quem estará fadado a viver de reimpressões do conservadorismo de outrora, gostaria de lembrar que um dos principais focos de resistência à censura é a produção criativa e subversiva de arte. No Brasil, revistas como O Pasquim, mesmo sobre intenso cerco, foram essenciais em proporcionar um espaço de invenção e resistência, enquanto a censura americana esvaneceria frente a criatividade das revistas underground e das decisões criativas das grandes editoras de quadrinhos de super-herói. Edições de gibi como a Astonishing X-Men #51, que estampava em sua capa o casamento do herói mutante Estrela Polar com seu noivo Kyle[14], servem de lembrete de que o “A cruzada das crianças” não é a única frente contra a cruzada dos velhos conservadores. A solução é não se render a reimpressão do autoritarismo; como sugere Henfil:

“Recebi de volta meus 15 cartuns vetados pela censura. Que fazer? Fazer mais 20.”

 *Matheus Vitorino Machado é mestrando em Ciência Politica pelo IESP-UERJ e colaborador da Escuta.

 Referências

BUZALAF, Márcia Neme. A censura no Pasquim (1969-1975): as vozes não-silenciadas de uma geração. 2009.

DA SILVA REIS, Dennys. TRADUÇÃO E FORMAÇÃO DO MERCADO EDITORIAL DOS QUADRINHOS NO BRASIL.

HENFIL. Diário de um cucaracha. — 8 ed. Rio de Janeiro: Record, 1988.

LOPES, Paul. Demanding respect: The evolution of the American comic book. Temple University Press, 2009.

SAIDENBERG, Ivan. A história dos quadrinhos no Brasil. Marsupial editora, 2013.

Notas

[1https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/09/marcelo-crivella-manda-censurar-gibis-dos-vingadores-na-bienal-do-livro-no-rio.shtml

[2] http://www.universohq.com/noticias/prefeito-do-rio-de-janeiro-determinou-que-hq-da-marvel-seja-recolhida-na-bienal-do-livro/

[3https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/29/politica/1535564207_054097.html

[4] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2019/05/12/em-nova-polemica-damares-diz-que-elsa-de-frozen-e-lesbica.htm

[5]https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/damares-usa-ilustracao-do-livro-de-neil-gaiman-para-chamar-a-princesa-de-frozen-de-lesbica-e-ele-comenta-oh-brazil/

[6]https://f5.folha.uol.com.br/voceviu/2017/03/apos-beijo-gay-em-desenho-pastor-malafaia-pede-boicote-a-disney-e-atriz-vera-holtz-rebate.shtml

[7]https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2019/09/doria-manda-recolher-material-que-cita-identidade-de-genero-e-fala-em-apologia.shtml

[8]https://oglobo.globo.com/brasil/bolsonaro-diz-que-eca-deve-ser-rasgado-jogado-na-latrina-23006248

[9]https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/08/30/bolsonaro-afasta-diretor-presidente-da-ancine.ghtml

[10]https://blogs.oglobo.globo.com/lauro-jardim/post/bolsonaro-veta-campanha-do-banco-do-brasil-marcada-pela-diversidade-e-diretor-cai-veja-o-video-proibido.html

[11]https://exame.abril.com.br/brasil/exposicao-queermuseu-abre-no-rio-com-protestos-do-mbl-e-da-liga-crista/

[12]https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,flip-2019-moradores-de-paraty-marcam-protesto-contra-glenn-greenwald,70002916982

[13]https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/08/cartunista-art-spiegelman-e-censurado-pela-marvel-apos-mencao-a-trump.shtml

[14]http://www.universohq.com/noticias/marvel-confirma-casamento-gay-em-astonishing-x-men-51/