Por Fernando Perlatto*

A coluna “Escuta Recomenda” é publicada aos domingos, assinada por um dos editores da revista, Fernando Perlatto, com sugestões de leituras de textos de política e de cultura, publicados na imprensa ao longo da semana.

Política

* Pesquisa Datafolha mostrando a queda da popularidade de Bolsonaro: na segunda-feira, o instituto de pesquisas Datafolha publicou uma pesquisa evidenciando a queda da popularidade do apoio de Jair Bolsonaro. Vários artigos foram publicados na imprensa sobre o tema ao longo da semana. Sugiro as leituras abaixo:

– Artigos do Diretor Geral do Datafolha e do Diretor de Pesquisas do Datafolha Mauro Paulino e Alessandro Janoni, publicados na segunda e na quarta na Folha de São Paulo. Na segunda, “Com tom belicoso, Bolsonaro arrisca pregar apenas para convertidos”: “Mesmo com o peso quantitativo de sua crescente impopularidade entre mulheres, entre os que têm menor renda e baixa escolaridade, moradores do Nordeste, talvez incomode mais o pesselista ver sua reprovação subir também entre homens, moradores do Sul e entre os que têm altas renda e escolaridade —perfis que o elegeram com expressivas taxas de apoio”. Na quarta, outro artigo, “Núcleo duro de apoio a Bolsonaro é de 12% da população”: “O núcleo duro de entusiastas de Bolsonaro, isto é, que votou nele no último pleito, classifica sua gestão como ótima ou boa e diz confiar muito nas suas declarações, corresponde a 12% da população brasileira”

– Artigo de Vinicius Mota, na segunda, na Folha, “A depuração do bolsonarismo”: “O tamanho e as características dessa base popular da direita brasileira ficam mais nítidos conforme o presidente se desgasta”

– Artigo de Bernardo Mello Franco, na terça no jornal O Globo, “O presidente que encolheu”: “Desde a última rodada da pesquisa, Bolsonaro disse palavrões em discursos e entrevistas, ofendeu os governadores do Nordeste, demonstrou descaso pelo desmatamento da Amazônia e comprou brigas com líderes de países europeus”

– Reportagem do Nexo jornal, com especialistas analisando as razões da queda de popularidade de Bolsonaro;

– Artigo de Ranier Bragon, na terça, na Folha: “só 2 em cada 10 brasileiros dizem confiar no que diz o mandatário do país. Um merecido tributo a quem embalou a carreira na mentira, na baboseira e na mais espalhafatosa falta de conhecimento de que se tem notícia”;

– Artigo de Rosangela Bittar, no Valor, na quarta, “Reação química”: “Bolsonaro, assim, vai amarrando cada vez mais seu eleitorado e afastando o resto do Brasil, para quem não governa”;

* Indicação de Augusto Almas para a Procuradoria Geral da República e abusos do Ministério Público: na semana em que o presidente Jair Bolsonaro fez a indicação do novo Procurador Geral da República, Augusto Almas – nome escolhido fora da lista tríplice e com forte rejeição de bolsonaristas, da Lava Jato e de setores da oposição – e na qual novos áudios revelaram abusos de procuradores nas investigações conduzidas pela Lava Jato, vários artigos foram publicados na imprensa sobre o Ministério Público e seus poderes. Sugiro a leitura dos textos abaixo:

– Artigo de Elio Gaspari neste domingo no jornal O Globo, “O Ministério Público precisa saber seu lugar”: “Quando Ulysses Guimarães trabalhou para transformar o Ministério Público numa entidade independente, sonhava com uma instituição. Passados 30 anos, surgiu uma corporação”;

– Artigo de Bruno Boghossian, na Folha, na sexta, sobre a nomeação de Augusto Aras para a PGR: “A desconfiança se dá num momento em que o presidente interfere sobre órgãos de controle e vê um dos filhos sob investigação. Antigos bolsonaristas reclamaram. Eles temem que Aras trabalhe para blindar a primeira-família e outros políticos”;

– Artigo de Fabio Zanini, na Folha, neste domingo, “Opção por Aras mostra que bolsonarismo duro não está imune a fissuras”: “Não é comum expoentes do bolsonarismo duro, aquele que resiste à queda de popularidade do presidente, mostrarem desconforto tão abertamente com as escolhas de seu líder”;

– Artigo de Rogerio Arantes esta semana na revista Época, “Lei de Abuso de Autoridade: equilibrando o jogo”: “Iniciativas para conter abuso de autoridade já haviam ocorrido no passado, mas é sintomático que só tenham prosperado depois que a Lava Jato chegou ao céu e, em seguida, conheceu o inferno em sua versão particular do mundo de Hades”;

* Outras sugestões de artigos interessantes publicados na semana:

– Artigo de Luis Fernando Veríssimo, na quinta, no jornal O Globo, “Somos atacados pelo governo”: “(…) o que deve nos unir é o fato, agora inegável, de que estamos sendo violentamente atacados pelo nosso próprio governo”

– Artigo de Conrado Hübner Mendes para a revista Época, “Gilmar amava Sergio, que amava Gilmar”: “Sergio Moro e Gilmar Mendes se odeiam. Ou é o que parece. Mas não se deixe enganar: o mal que fazem a instituições e costumes políticos tem o mesmo DNA. Nenhuma outra dupla, sozinha, em tão pouco tempo, deu contribuição comparável à erosão da democracia brasileira. Jair veio depois, na cratera que a dupla ajudou a cavar”

– Artigo de Laura Carvalho, na quinta, na Folha, “Antes tarde”: “Mas o que importa é que estamos finalmente caminhando para um consenso —que hoje só exclui os mais radicais— de que é necessário rever a regra em sua forma atual. Façamos agora, portanto, o debate interditado em 2016 sobre que regras escolher para garantir o ajuste de médio prazo sem causar danos à economia”

– Artigo de Renan Quinalha para a Folha, no sábado, “Recolhimento de HQ viola Estado de Direito”, sobre a censura imposta pelo prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, com apoio de setores do judiciário;

– Artigo de Luis Francisco de Carvalho Filho, no sábado, na Folha, “Em nome do pai, do filho e do genro”: “Além do perfil provinciano e quase mafioso, a vulgaridade verbal de Jair Bolsonaro sintetiza, sem a autocensura presente em despachos judiciais permissivos do favorecimento à parentela, um sentimento que ainda se espraia socialmente: ‘pretendo beneficiar filho meu, sim’, ‘se puder dar filé mignon, eu dou’, balbucia o presidente da República sobre a nomeação de Eduardo Bolsonaro para a Embaixada do Brasil em Washington. Se a escolha é reprovada por 70% da população, segundo o Datafolha, já é recebida com naturalidade por juristas do Distrito Federal”

– Artigo de Miriam Leitão para o jornal O Globo, na quinta, “Mente autoritária e seus métodos”: “É patológica a compulsão de Bolsonaro pelas ditaduras e sua admiração ilimitada pelos regimes tirânicos, como o de Pinochet. É doentio seu prazer em ferir pessoas atingidas pelos crimes das ditaduras latino-americanas, como fez com o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz. Mentir sobre o passado do Chile, ou do Brasil, na política ou na economia, não alterará a história real. Tentar apropriar para uma ideologia de extrema-direita os símbolos nacionais não dará certo agora, como não deu no passado. (…). O que ele falou sobre Michelle Bachelet jamais poderia ter sido dito. É sobretudo desumano”

– Artigo de Sergio Abranches, na quinta, “Brasil vive crise crônica e grave”: “Isolado internacionalmente e desvalido de seu principal poder de uso multilateral, o Brasil tende a mergulhar cada vez mais fundo em suas próprias crises. Mostra-se incapaz de atuar com eficácia e de mobilizar apoio para supera-las. Ao contrário as ações presidenciais têm contribuído para aumentar a tensão política e o conflito social”;

– Artigo de Eliane Brum, publicado na quinta, no El Pais, “Bolsonaro está espionando Papa?”: “Em fevereiro, o Sínodo já era tratado pelo Governo como ameaça à “segurança nacional”. Hoje, a paranoia se instaurou. Já que desta vez Bolsonaro não pode usar sua aversão por mulheres como munição, como fez com Emmanuel Macron ao atacar sua esposa Brigitte, resta saber onde o ultradireitista vai mirar para dar um golpe baixo no Papa Francisco”

– Artigo de Priscila Cruz para a Folha, na sexta, “Escolas cívico-miliares: erro, viés ou o quê?”: “Tudo isso posto, a política pública nacional não deveria ser, portanto, de ampliação de escolas de tempo integral, de fortalecimento da gestão escolar (incluindo seleção com critérios técnicos e formação de diretores), de enfrentamento da má qualidade da formação dos professores no Brasil, de promoção da paz? Sem dúvida, mas é um caminho que exige muito mais da gestão governamental do que colocar militares nas escolas”

– Artigo de Andrés del Río e André Rodrigues, publicado nesta revista Escuta, na quinta, “Brasil em duas velocidades: realidade e desejo”: “”A profunda crise dos sentidos humanitários, a já insuportável crise econômica e multiplicação da desigualdade e da concentração de renda, a destruição da democracia desde seu próprio coração, e a ideologia miliciana se estendendo a cada canto das instituições, deixa ao nosso Brasil na beira da destruição. Somos muito mais que isso, e somos a maioria, a rua é nossa, as instituições são nossas, e é tempo de parar esta destruição dos sentidos do Brasil com horizonte, antes que o Brasil se torne uma maquinaria de aniquilar os sonhos democráticos e de inclusão”

– Artigo de Angela Alonso publicado neste domingo na Folha, “Vilão de novela mexicana dá raro ensejo para esquerda convergir”: “A esquerda carece urgentemente de quadros novos com apetite para o Executivo e para a briga. Nas questões cruciais —desigualdade, reforma do Estado, sustentabilidade— é pouco apontar descalabros alheios. É preciso apresentar projetos alternativos, consistentes, factíveis”;

– Artigo de Heloisa Starling, na Quatro Cinco Um, “A outra Independência” no dia 07 de setembro;

Cultura

– Na semana em que o grande sambista Elton Medeiros faleceu, a Radio Batuta do Instituto Moreira Salles fez um programa em homenagem ao compositor. Indico também a leitura do artigo de Zuza Homem de Mello para o Estadão, publicado na quinta, sobre a obra de Elton Medeiros;

– Sugiro a leitura do artigo de Pedro Almodóvar publicado no El Pais na sexta, “Dor e glória, o primeiro desejo” sobre o seu novo filme Dor e Glória;

– Indico a leitura do belo texto de Gustavo Pacheco publicado na revista Época, “A memória contra a degradação: Marcel Proust numa prisão stalinista”;

– A Folha publicou na quinta uma pesquisa realizada pelo Datafolha sobre a percepção dos brasileiros em relação às leis de incentivo à cultura e à censura, que vale a leitura;

Indicações culturais da semana:

– Livro: 35 anos de Silviano Santiago (organização de Italo Moriconi; Companhia das Letras, 2019)

– Documentário: Estou me guardando para quando o carnaval chegar (Marcelo Gomes, 2019)

– Podcast: episódio 4 do podcast da revista Quatro cinco um, 451 MHz,História, feminismo, vida digital”, com entrevistas com Luiz Felipe de Alencastro, Heloisa Buarque de Hollanda e Ricardo Abramovay;

* Fernando Perlatto é um dos editores da Revista Escuta.