Andrés del Río*

André Rodrigues*

A bússola não funciona. No Brasil pareceria que já não nos guia, nem tenta orientar. Pelo menos se sente isso, de forma massiva. Errado e certo são a mesma coisa, verdade e mentira estão no mesmo patamar. Mas não nos confundamos, norte e sul continuam aumentando assimetrias, e estão piorando as formas da tolerância e aprofundando divisões: raça, gênero e desigualdade. Existe um mundo a duas velocidades: a realidade e desejo.

O desejo, esse pai dos sonhos, esse pai da vontade é fundamental, segundo a psicologia, porque movimenta montanhas, e nos faz acreditar que tudo vai mudar. O desejo nos faz viver o governo do Bolsonaro como um pesadelo. O desejo de que ao acordar tudo vai estar como era antes; de que, mesmo com dificuldades, o humanismo não estava enterrado.

O desejo de que a realidade não vai piorar, nos faz viver e sobreviver, mas não necessariamente analisar, partir para ação. Respiramos um desejo torpe. A realidade é que temos um grupo de pessoas no poder, que vai destruir a democracia por dentro, e, até que isso aconteça, governa para uma minoria fervorosa que tem elevado problema de autoestima: essa minoria acredita ser a maioria do país, e acredita que sua legitimidade está por cima da lei, por cima do humanismo.

Nesta encruzilhada estamos tentando agir. Estamos sem bússola da realidade.

 

A realidade

Sem tentar abraçar tudo. Já podemos dizer que a censura é a política pública nacional mais eficiente e mais expandida até hoje. Existe censura em todos os âmbitos e se apresenta das mais diversas formas: Na educação, da escola sem partido à censura propriamente dita, os filtros ideológicos nas escolas e no ENEM. No ensino superior, a briga é preferencial e se explicita afetando a todo o mundo universitário, sejam professores, alunos, reitores. As agências de fomento, CNPq, Capes e outras, estão sendo dirigidas e reduzidas[1].CNPq recentemente anuncio que deverá suspender o pagamento de bolsas a 84 mil pesquisadores espalhados pelo Brasil[2]. O projeto Future-se como imagem do naufrágio da educação superior, um precipício no horizonte. Somos um falso reflexo do que éramos. Na arte, seja música, tv, cinema, teatro, enfim, nas diferentes expressões artísticas a censura deambula e escolhe beneficiar os amigos. Lembremos, não é uma questão quantitativa, mas qualitativa. Saber a quem e quando censurar é mais importante, porque seu simbolismo é extensivo, e evita trabalho. Uma censura disciplinadora, um macartismo à brasileira. Ao expandir o medo e a preservação, um ato de censura acertado funciona para todos, de forma nítida. E salientamos: estamos descrevendo somente alguns casos de visibilidade, mas a coragem e valentia acontecem nas sombras dessa visibilidade, onde não há a possibilidade de ter voz, nem apoio e, muito menos, segurança.

A imprensa está acuada e é um dos principais alvos desse processo de restrição. Por um lado, censuram-se apresentadores, escritores, jornalistas. Por outro, a cooptação pela via do dinheiro dos conglomerados de mídia. É só observar SBT e Record como viram seus orçamentos dispararem. Assim, a imprensa está sendo domesticada num processo de redução do seu papel na sociedade e aumentando seu perfil propagandista, cúmplices do saque.

Na virada para o segundo semestre de governo, Bolsonaro parece ter dobrado a aposta. Há uma avalanche recente de declarações ofensivas, toscas, desrespeitosas, perversas e mentirosas por parte do petit trump tropical. Ao ser questionado sobre a política ambiental do seu governo, afirmou que para preservar o meio ambiente: “É só você deixar de comer menos um pouquinho. Você fala para mim em poluição ambiental. É só você fazer cocô dia sim, dia não, que melhora bastante a nossa vida também”[3]. Em outra entrevista, ele afirmou que “Um dia se o presidente da OAB [Felipe Santa Cruz] quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, eu conto para ele. Ele não vai querer ouvir a verdade. Eu conto para ele”[4]. Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira, pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, foi morto pelo regime militar. Em outra ocasião, ao confrontar a imprensa, Bolsonaro soltou um exaltado e delirante “Eu ganhei. A imprensa tem que entender que eu, Johnny Bravo, Jair Bolsonaro, ganhou, porra!”[5]. Além disso, Bolsonaro voltou a exaltar a memória do torturador Ustra, dizendo que ele foi um “herói” nacional. Saliente-se que ele não fala mais como parlamentar ou candidato em campanha. É o presidente quem fala, é uma declaração oficial, com tudo o que significa[6].

O fato é que poderíamos preencher as páginas deste artigo somente com citações dos despautérios e perversidades emitidos pela boca do presidente. Mas o importante é notarmos que esse desarranjo verbal não é um descuido ou um acidente do destempero. É a própria expressão de um projeto: a afirmação de uma verdade quase monárquica. Um governo dançando nas ruinas da Constituição Federal de 1988. A expressão mais recente dessa noção de verdade bolsonarista pôde ser vista no debate entre o ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, e o ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Ricardo Galvão, no programa Painel, da Globonews[7]. O ex-diretor do INPE foi demitido por ordem do presidente por ter divulgado dados sobre o aumento exponencial do desmatamento da Amazônia sob o governo Bolsonaro[8]. No referido debate, Ricado Salles justificou a demissão de Galvão por ter sido desrespeitoso com o presidente. Galvão respondeu que ele não foi desrespeitoso, e que a falta de respeito partiu do presidente ao dizer que os dados do INPE eram mentirosos. Salles retrucou dizendo que os dados são realmente mentirosos e que o presidente é uma “autoridade política”. O que o ministro expressou é que a palavra do presidente é lei e não deve ser questionada, que ela possui, portanto, as prerrogativas monárquicas: dizer o que é real e o que não é. São palavras que desconstituem o real e abrem as portas do inferno. São palavras que matam, como quando Bolsonaro afirma que “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira”[9]. Um canalha.

As instituições que poderiam colaborar para que houvesse alguma bússola estão sendo esvaziadas e desarticuladas. Talvez o caso de IBGE e a redução das questões do censo[10] e da negação dos números do desemprego[11], do buraco negro ambiental[12]e suas políticas de mordaça ao Ibama e ao ICMBio,[13] da rejeição da pesquisa sobre drogas da Fiocruz[14], sejam a imagem da realidade moldada, a medida a ser implementada. Nesse bojo, são atacados aqueles que defendem o trabalho histórico destas instituições, como no caso do diretor do INPE ao qual nos referimos[15]. Existem nítidas interferências por parte do Presidente Capitão Motosserra na Polícia Federal, na Receita Federal e no Conselho de Controle de Atividades Financeiras COAF para evitar apurações sobre a sua família[16]. Assim a luta pela corrupção é discursiva, mas no fundo se trata de um governo de privilégios, exclusão e destruição do estado de direito. Só existe uma visão do mundo nesta construção da realidade unilateral. A destruição dos meios de compreensão do real, como a ciência e os institutos de pesquisa produzem um resultado pior que o vazio, aprofundando o delírio institucional em paranoia negadora da transparência e da honestidade. Características ausentes na forma e no conteúdo desse governo. A modo de exemplo: é só observar ao Ministro de (In)justiça, ex-herói, hoje um fantasma na beira do precipício.

Os movimentos sociais são objeto de polícia, e não de interesse do governo para canalizar demandas, e escutar a sociedade. Há muito tempo que existe uma criminalização desses movimentos. Claro, o autoritarismo atual possui enfoque na repressão de agendas específicas:  raciais, de gênero, indígenas e de direitos humanos. Em caso recente, houve a prisão preventiva decretada pela justiça de nove lideranças de movimentos sociais por questões de moradia[17]. Lembremos do caso Preta Ferreira, outra liderança presa sem explicação e sem ter cometido crime, que já supera um mês na prisão[18]. Além disso, as instituições foram castradas da participação social. As políticas públicas são unilaterais e reorientadas para essa minoria concentrada.

Violência, autoritarismo e impunidade já são parte da nossa realidade. Não porque antes estávamos na panaceia. Mas agora estamos ante à promiscuidade da violência, ou seja, ela está liberada. A lei é menos importante que a suposta legitimidade dos discursos pro-violência das autoridades que comandam o país.

No caso do Poder Executivo nacional, a verborragia escatológica pró-morte é o canto do galo do dia. Com a campanha eleitoral sem debate nem ideias, a “arminha” da mão foi e ainda é a única proposta realmente colocada pelo presidente-miliciano desde que a farsa se tornou tragédia presidencial. Existe o apoio “moral” a favor da violência por parte dos líderes que os deixa por cima das leis. Um carimbo informal autorizando políticas de morte que hoje têm sabor a legalidade. Como falou recentemente o presidente: “os caras vão morrer na rua igual a barata”[19]. A realidade distorcida, a lei esquecida e os direitos humanos demonizados.

Nesta realidade, os problemas históricos não resolvidos se multiplicam e existe um exibicionismo do autoritarismo e da impunidade contra os setores que sempre foram alvos: negros, jovens, periféricos. As mortes que o sistema não faz questão de resolver e é o argumento e base desta política de violência.

O terreno político e discursivo é ideal para a proliferação das milícias, um negócio criminoso que tem como base o uso ilegal da força armada para a gestão da ordem e a penetração no poder político, aos moldes das organizações mafiosas. A violência autorizada por uma suposta legitimidade, sem respeitar as leis, se transforma em políticas de segurança que desembocam em tragédias cotidianas. E nessa espiral, os discursos dos xerifes estão à ordem do dia. Do ponto de vista ideológico (sabe-se lá até que ponto também do ponto de vista administrativo), podemos dizer, por essas razões, que vivemos sob um estado miliciano, no qual as polícias são estimuladas a agirem como milícias e que as milícias ganham cada vez mais relevo na política nacional.

E na economia? Pensar que a potência de América de Sul só tem uma política econômica conhecida, a reforma da previdência, nos mostra que, na verdade, existe uma profunda falta de transparência em todos os âmbitos. Uma reforma, seja qual seja o setor, não altera a complexidade da economia brasileira. Mas se começamos a analisar mais detidamente, o processo é de destruição da matriz econômica brasileira. Tchau indústria. Tchau corporativismo econômico. Bem-vinda roleta financeira e a privatização das joias da família. Estamos vivendo a transformação do país no Brasil S.A., sem ser dito. Nesta trajetória, o Brasil vai descendo mais um círculo da “Divina Comédia” de Dante Alighieri, onde a economia brasileira é um espelho do inferno social. Apesar do esforço da mídia propagandista de abafar a notícia, o Brasil entrou no segundo semestre de recuo do seu PIB, decretando-se oficialmente ‘recessão técnica’[20]. Mas socialmente, os dados são uma tragédia, porque a desigualdade não para de subir e a pobreza chega a 23,3 milhões de pessoas[21]. Lembremos, trata-se de pessoas que vivem com menos de 233 reais por mês, uma população semelhante a quase duas vezes o Chile. Inaceitável.

Uma das áreas onde tudo fica nítido, o delírio interno e a respostas de ação no âmbito externo, é nas relações internacionais, comandadas pelo vanguardista do atraso, Araújo, e pelo visto, em breve, com a presença do filho do petit trump. Salientamos, o Itamaraty é uma das instituições mais reconhecidas no Brasil e fora. Uma trajetória importante na história dentro das relações internacionais. Com a chegada do Bolsonaro, a destruição de sua imagem e trajetória é a constante, o projeto.

A pasta integra uma quadra que conjuga do pior do governo em andamento, juntamente com o ministro de meio ambiente, o ministro da educação e o próprio presidente. A política externa proposta é de destruição e focalizada em interesses concentrados, sem pensar nem avaliar a geopolítica, a diplomacia, nem as relações entre Estados. Como ilustrou Eduardo Bolsonaro na Câmara, um dos filhos do Capitão Motosserra: ‘Diplomacia sem armas é como música sem instrumentos’[22]. Toda uma declaração de princípios, ou de ausência deles.

No caso das relações com a Alemanha, após congelar doações (35 milhões de euros) para proteção ambiental, também estão analisando os destinos do fundo Amazônia[23]. Na mesma linha, Noruega bloqueou o repasse de R$ 133 milhões para preservação da Amazônia[24]. Ações ante ao delírio tropical. Lembremos que a França impôs condições para acordo do Mercosul com União Europeia, na principal delas, o governo francês condicionou assinatura ao cumprimento de metas ambientais pelo Brasil[25]. Na mesma linha, a Embaixada do Brasil em Londres foi alvo de protestos contra política ambiental do governo e os assassinatos contra indígenas, reforçando a rejeição internacional[26].”Acho dramático o que acontece atualmente no Brasil”, afirmou Merkel recentemente[27]. Mas no Brasil as coisas são diferentes, cínicas. Governo publicou mais de 500 autorizações de desmatamento horas após assinar compromisso pela preservação, a ‘Carta de Palmas’, durante fórum com governadores da Amazônia Legal[28]. Assim, a palavra e a ação são parte da dinâmica do governo nacional, o norte do Capitão Motosserra. Não é surpresa, é política.

Na mesma linha, segundo dados do Greenpeace, desde o início do governo do presidente Jair Bolsonaro, 290 substâncias agrotóxicas foram liberadas para sua utilização[29]. Ao liberar agrotóxicos, Brasil vai na contramão da tendência mundial, diz o jornal Le Monde[30]. Em rápida resposta, em protesto contra agrotóxicos, rede de supermercados da Suécia boicota produtos brasileiros[31]. Na mesma linha, Rússia manda Brasil reduzir agrotóxicos na soja, pela quantidade de glifosato, caso contrário, deixará de comprar[32]. Mas não é a única área na qual essas restrições acontecem. A Rússia anunciou em junho a suspensão temporária da importação de carne brasileira, porque as empresas locais não conseguiram atingir as exigências sanitárias pelas autoridades russas[33]. Dessa forma, o descaso local não tem a mesma repercussão no âmbito internacional.

As eleições primarias da Argentina, no domingo 12 de agosto, foram muito elucidativas. Numa das primeiras viagens do petit president, num encontro do Mercosul, ele voltou a apoiar reeleição de Macri e pediu que argentinos votem “com a razão e não com a emoção[34]. Lembremos que antes, durante viagem a Dallas, nos EUA, o brasileiro disse esperar que a Argentina não siga o mesmo caminho da Venezuela. Ante ao delírio bolsonarista, as repostas vieram em formato de voto. Assim, em vista dos expressivos resultados das primárias argentinas, saindo vitorioso o candidato kirchnerista, Bolsonaro modulou: “Se esta esquerdalha voltar na Argentina, nós poderemos ter no Rio Grande do Sul um novo Estado, como o de Roraima, e não queremos isso[35]. O little Trump brasileiro previu uma relação “bastante conflituosa” com o país vizinho caso o presidente Maurício Macri seja derrotado, chamando “bandidos de esquerda” ao kirchnerismo[36][37]. Com o mesmo estilo de peitar o vizinho, Paulo Guedes, o guru sem poderes nem magia, diz que Brasil pode sair do Mercosul se Kirchner vencer eleição e fechar economia da Argentina[38]. Declaração complexa e pouco patriota se pensarmos que a grande maioria das manufaturas que produz o Brasil tem como destino a Argentina. Enfim, um presidente sem a menor responsabilidade nem compromisso com a tradição e respeito às instituições brasileiras e as relações internacionais, uma política de estado, e na divisão entre política interna e externa. A Argentina não é o Brasil, tem lógicas diferentes. Distintamente do delírio interno da dinâmica bolsonarista, fora do Brasil, acontece outra coisa. O interessante é que Macri tentou fugir da imagem de Bolsonaro nestas eleições, um cabo eleitoral negativo no país. Alberto Fernandez cutucou Bolsonaro: “Que o Bolsonaro continue falando mal de mim. Ele não sabe o favor que me faz[39]. E ele estava certo.

Agora, neste cenário e com as próximas eleições em outubro na Argentina e no Uruguai, a polarização que serviu no Brasil não necessariamente pode ser boa para os países vizinhos com tradições diferentes, e a imagem de Bolsonaro gera mais rejeição que abraços. O que pode ocorrer com nossos países vizinhos deve nos servir de alento, caso passem a emergir alternativas às tentativas de expansão neoliberal na América Latina. Mas temos que ir além da recusa externa aos absurdos aqui em curso e da reação interna permanente a tais abusos. Por mais que nossa humanidade nos conduza à perplexidade, precisamos pensar e agir no mundo apesar do bolsonarismo, precisamos pensar em um mundo que não seja somente contra ele, mas que seja para além dele. Precisamos não apenas enunciar o que rejeitamos de monstruoso no bolsonarismo, mas afirmar o que desejamos realmente no lugar dele.

 

Os desejos

Para onde dirigimos nossos desejos? Para qual horizonte apontamos para vislumbrarmos as alternativas à asfixia do autoritarismo em curso? E as lideranças? Muitas delas, sem bússola, como peixe fora d’água, tentam se movimentar gritando tardiamente pela perda que sofremos. Uma mistura de impotência e não aceitação. Talvez o caso do encontro entre os legisladores Marcelo Freixo e Janaina Paschoal, em um programa de canal do Youtube, seja a imagem de nossa falta de realidade[40]. É importante o debate. Não estaria mal ter uma postura que considera a democracia como mero procedimento dialógico, se estivéssemos efetivamente em uma democracia. Sentar-se com uma pessoa que parte do coração do problema beneficia mais a ela do que gera uma suposta aceitação para ele. Estamos falando do que seria uma esquerda para além do PT. O eixo está errado. Marcelo Freixo já pode substituir a Haddad? Não. Mas é um dos políticos que teria o maior potencial para se tornar uma liderança de esquerda com relevo nacional. Dificilmente, essa trajetória se dará sob a insistência na democracia como procedimento vazio de diálogo. No contexto atual, a democracia requer uma tomada de posição e uma intransigência com as forças do obscurantismo. Nada se sabe sobre quem mandou matar Marielle Franco, e Lula da Silva continua sendo um preso político, a impunidade e arbitrariedade é a norma neste estado de exceção. O espaço da transigência ajuda a esgarçar os sentidos do real: se o contraste é frágil, torna-se possível que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, deambule como um político que tem senso e lucidez. Neste mundo da desordem da razão, Doria, liderança do mundo cínico excludente, indicou: “Rodrigo Maia é o garantidor da república[41]. Isso nos exibe a falta de bússola da qual padecemos e alteração dos sentidos, tudo ao reverso. Como indicou o Maia: “Bolsonaro é produto de nossos erros, e a pergunta é: onde erramos?[42]. O cinismo e oportunismo é o que reina.

Assim, neste processo, o que resta da democracia está sendo reduzida cotidianamente. E a mudança de regime não vai demorar. Porque uma mudança de regime não é abrir uma porta e já se está num outro regime. Existem transições, processos, trajetórias, e, como sapo na panela, nos vamos adaptando e negando o processo. Mas a fome grita, violência e sangue estão tocando nossos pés e nossas mãos com cada jovem negro que é assassinado, e o mal-estar com a democracia nos deixa na beira da caixa de pandora nacional. E lembramos, ela já foi aberta. Estamos nesse projeto, nesse processo, nessa realidade.

Frases dos desejos que se escutam em cada canto do país de verde e amarelo: “O Brasil sempre dá uma volta por cima”. “A gente vai ganhar deles finalmente”. “Violência sempre tivemos, precisamos alguém que coloque as coisas em ordem”. “Ele cai sozinho, é só deixá-lo falar”. “Eles não sabem que fazem”. Enfim, muitas frases de coaching do desejo negador de realidade para todos os gostos.

A cada fala da escatologia infantil do pequeno presidente atual, as reações são: “que bizarro!”, “não pode ser”, “ninguém fala nada ou pára ele?”, “até onde vai chegar?”. Enfim, a surpresa é, em geral, a reação social. Segundo psicólogos, sobre Bolsonaro: um perverso mimado que precisa gritar pra atrair olhares[43]. Existe duas velocidades, não se trata de surpresa. A surpresa que experimentamos tem dois significados. A surpresa é uma mostra da humanidade que temos dentro, de como nos afeta essa realidade violenta e distópica. Mas ao mesmo tempo, a surpresa deixa ao descoberto a falta de realidade que estamos tendo sobre o processo. Temos o grau dela na medida de nossa compreensão da realidade. Os fatos inesperados, repentinos, não anunciados, falas imprevisíveis se tratam, na verdade, de características essenciais do presidente.

Para fechar, e falando de desejos e da construção coletiva de uma realidade que contrarie uma minoria perversa, nos falta salientar as potências contra as quais o governo se contrapõe quando tenta destruir a memória, a verdade e a justiça. Neste aspecto, ele tem muito para perder. Uma das áreas onde há maior quantidade de pessoas corajosas por metro quadrado, que estão lutando pela democracia há muito tempo. Bolsonaro, na sua tentativa de desmerecer e destruir toda luta histórica desse campo, que dá sentidos a nossa memória coletiva, acaba por nos ajudar a ver o horizonte. É nesse passado que ele tenta negar que talvez encontremos as bases para o que virá. Aqueles que viveram diante do extremo, mais de uma vez no tempo de uma vida, têm muito o que nos ensinar. Se o desejo da maioria é uma sociedade sem racismo, sem machismo e sem homofobia, uma sociedade de igualdade e liberdade, um país que priorize a educação e a saúde de seu povo, não é o bolsonarismo que guarda a história e o condão de construção desse horizonte. Somos nós!

A profunda crise dos sentidos humanitários, a já insuportável crise econômica e multiplicação da desigualdade e da concentração de renda, a destruição da democracia desde seu próprio coração, e a ideologia miliciana se estendendo a cada canto das instituições, deixa ao nosso Brasil na beira da destruição. Somos muito mais que isso, e somos a maioria, a rua é nossa, as instituições são nossas, e é tempo de parar esta destruição dos sentidos do Brasil com horizonte, antes que o Brasil se torne uma maquinaria de aniquilar os sonhos democráticos e de inclusão. O setor da educação e os movimentos das mulheres talvez sejam os nortes que devemos olhar e fortalecer nessa luta que pareceria que nos pegou de surpresa, mas sem surpresa nos adaptamos. É tempo de ação, colocar limites e nortes, nós temos as propostas. Temos um desejo coletivo de recuperar os sentidos inclusivos e sociais do Brasil.

* Andrés del Río e André Rodrigues são Doutores em Ciência Política pelo IESP/UERJ e professores do IEAR/UFF. Colaboram com a Revista Escuta.

Notas

[1]https://exame.abril.com.br/brasil/capes-nega-verba-a-evento-por-militancia-politica/

[2]https://educacao.uol.com.br/noticias/2019/08/15/cnpq-deve-suspender-bolsas-de-84-mil-pesquisadores.htm?fbclid=IwAR3l8HTBu7mtXM8t2IQR6nSuFiPCsf5mcFKH_DFX5ZNw1mVJHsZJFeDHF4E

[3]https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2019/08/bolsonaro-sugere-fazer-coco-dia-sim-dia-nao-para-preservar-o-ambiente.shtml

[4]https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/07/29/se-o-presidente-da-oab-quiser-saber-como-o-pai-desapareceu-no-periodo-militar-eu-conto-para-ele-diz-bolsonaro.ghtml

[5]https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/08/bolsonaro-se-comparou-a-johnny-bravo-um-tipo-patetico-e-bronco-que-trata-mal-as-mulheres.shtml

[6]http://www.valor.com.br/politica/6382939/bolsonaro-chama-coronel-condenado-por-tortura-de-heroi-nacional

[7]http://g1.globo.com/globo-news/videos/v/ministro-ricardo-salles-e-ex-diretor-do-inpe-trocam-acusacoes/7835739/

[8]https://oglobo.globo.com/sociedade/alertas-do-inpe-sobre-desmatamento-na-amazonia-crescem-278-em-julho-23857095

[9]https://www.gazetadopovo.com.br/republica/bolsonaro-contesta-numeros-desmatamento-fome-desemprego/

[10]http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2019-05/ibge-anuncia-reducao-dos-questionarios-do-censo-2020

[11]https://www.google.com/search?q=po+governo+nega+os+dados+de+desemprego+pela+metodologia&rlz=1C1JZAP_enBR810BR810&oq=po+governo+nega+os+dados+de+desemprego+pela+metodologia&aqs=chrome..69i57.14065j0j4&sourceid=chrome&ie=UTF-8

[12]https://g1.globo.com/natureza/blog/andre-trigueiro/post/2019/06/03/15-pontos-para-entender-os-rumos-da-desastrosa-politica-ambiental-no-governo-bolsonaro.ghtml

[13]https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,ministerio-do-meio-ambiente-impoe-lei-da-mordaca-a-ibama-e-icmbio,70002753849

[14]https://jornalggn.com.br/noticia/sob-moro-ministerio-rejeita-pesquisa-nacional-sobre-drogas-que-custou-r-7-milhoes/

[15]https://www.gazetadopovo.com.br/republica/breves/bolsonaro-inpe-exonerado-desmatamento/

[16]https://istoe.com.br/bolsonaro-intervem-em-orgaos-de-controle/

[17]https://revistaforum.com.br/brasil/justica-decreta-prisao-de-mais-nove-lideres-de-movimentos-por-moradia-em-sao-paulo/

[18]https://www.brasildefato.com.br/2019/07/24/preta-ferreira-denuncia-prisao-politica-estou-presa-porque-briguei-por-direitos/

[19]https://oglobo.globo.com/brasil/os-caras-vao-morrer-na-rua-igual-barata-po-diz-bolsonaro-sobre-criminosos-23855554?utm_source=meio&utm_medium=email&fbclid=IwAR24BeezMeaWzGj5hMBkWsXnvKaLw4PHSKkacCFwOwGEruWGn_bfpIuVeq8

[20]https://g1.globo.com/economia/noticia/2019/08/12/previa-do-pib-do-banco-central-recua-013percent-no-2o-trimestre-e-indica-inicio-de-recessao-tecnica.ghtml

[21]https://oglobo.globo.com/economia/desigualdade-sobe-pobreza-chega-233-milhoes-de-pessoas-23881282

[22]https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/08/14/diplomacia-sem-armas-e-como-musica-sem-instrumentos-diz-eduardo-bolsonaro-na-camara.ghtml

[23]https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2019/08/12/apos-congelar-doacoes-ministra-alema-defende-rever-tambem-o-fundo-amazonia.htm

[24]https://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,noruega-bloqueia-repasse-de-mais-de-r-130-milhoes-para-preservacao-da-amazonia,70002968928?utm_source=facebook%3Anewsfeed&utm_medium=social-organic&utm_campaign=redes-sociais%3A082019%3Ae&utm_content=%3A%3A%3A&utm_term&fbclid=IwAR2I0Y9D0obSpNa_ts1yINNfo0f1yxrvlQZ3Eqnn1Uj2Z4VRXV9bvilwnyA

[25]https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2019/07/02/franca-impoe-condicoes-para-acordo-do-mercosul-com-uniao-europeia.ghtml

[26]https://oglobo.globo.com/sociedade/embaixada-do-brasil-em-londres-alvo-de-protestos-contra-politica-ambiental-do-governo-1-23873271

[27]https://www.infomoney.com.br/mercados/noticia/8441353/merkel-parar-acordo-ue-mercosul-nao-vai-combater-desmatamento-no-brasil

[28]https://g1.globo.com/to/tocantins/noticia/2019/08/03/governo-autoriza-mais-de-500-pedidos-de-desmatamento-horas-apos-assinar-compromisso-pela-preservacao.ghtml

[29]https://epocanegocios.globo.com/Brasil/noticia/2019/07/governo-bolsonaro-libera-51-agrotoxicos-e-totaliza-290-no-ano.html

[30]https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/rfi/2019/06/27/ao-liberar-agrotoxicos-brasil-vai-na-contramao-da-tendencia-mundial-diz-le-monde.htm

[31]https://oglobo.globo.com/sociedade/em-protesto-contra-agrotoxicos-rede-de-supermercados-da-suecia-boicota-produtos-brasileiros-1-23720583

[32]https://jornalggn.com.br/comercio-exterior/russia-manda-brasil-reduzir-agrotoxicos-na-soja-caso-contrario-deixa-de-comprar/

[33]https://videos.band.uol.com.br/13091577/russia-suspende-importacao-de-carne-brasileira.html

[34]https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2019/06/bolsonaro-volta-a-apoiar-reeleicao-de-macri-e-pede-que-argentinos-votem-com-a-razao.shtml

[35]https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2019/08/12/interna_internacional,1076705/bolsonaro-diz-que-rs-pode-virar-roraima-se-esquerdalha-voltar-na-arge.shtml

[36]https://oglobo.globo.com/mundo/bolsonaro-preve-relacao-bastante-conflituosa-com-argentina-caso-chapa-de-kirchner-seja-eleita-23872636

[37]https://www.clarin.com/brasil/bolsonaro-chama-kirchneristas-bandidos-esquerda-_0_bYMBb_GV1.html?fbclid=IwAR0yeHWI0E_gP2dYDdmgRnz9CLasEILRRhcvVnxgbqeyiTO1xu4Z02_nXf4

[38]https://oglobo.globo.com/mundo/guedes-diz-que-brasil-pode-sair-do-mercosul-se-kirchner-vencer-eleicao-fechar-economia-da-argentina-23879865

[39]https://www.minutouno.com/notas/5040967-alberto-fernandez-que-bolsonaro-siga-hablando-mal-mi-no-sabe-el-favor-que-me-hace

[40]https://www.youtube.com/watch?v=sEJ1aPM7CJQ

[41]https://www.valor.com.br/politica/6394461/rodrigo-maia-e-o-garantidor-da-republica-diz-doria

[42]https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2019/08/08/maia-diz-que-bolsonaro-e-produto-de-nossos-erros.htm?cmpid=copiaecola

[43]https://odia.ig.com.br/brasil/2019/08/5669562-psicanalistas-e-psicologos-tracam-o-perfil-comportamental-de-bolsonaro.html?fbclid=IwAR0Lk0ouFc92-shKaugDePjRnSh3WAXAfovtNIozXfp0hejZ3Y3TAvtP-yo