Eduardo Mares Bisnetto*

Em país distante, de um planeta plano como os mares da Terra, a questão ambiental (conceito que será desenvolvido adiante) é tratada de forma bastante pitoresca. Lá, o presidente-rei-autocrata considera que um dos obstáculos ao desenvolvimento se dá pelo excesso de ervas daninhas que crescem em abundância, por vezes chegando a trinta metros de altura e cinco de diâmetro. Em uma região daquele país, a cegueira dos governantes de nível intermediário (eles chamam de governadores) e dos governantes centrais (que eles chamavam de presidente até a ascensão do presidente-rei-autocrata) provocou crescimento tão desenxabido de ervas daninhas, que elas se concentraram pelos territórios de nove governadores. Ao longo das minhas ainda incipientes pesquisas, com fontes secundárias, uma vez que os antropólogos foram banidos do país distante no mesmo decreto que baniu as religiões de matriz africana, pude perceber que há uma oposição muito clara entre a noção de progresso e a concentração excessiva de ervas daninhas gigantes, que os nativos chamam de Floresta Amazônica. Não se sabe a origem do nome dessa concentração, mas diz-se que foi uma imposição externa vinda de artistas de cinema, aliados a uma livraria, em momento de enorme fragilidade da política externa do país distante. Aliás, política externa e a tal Floresta Amazônica se misturam ao longo da história daquele exótico local, chegando a níveis extremos de reforço de posições hierárquicas, como tentarei mostrar aqui. No meio do fogo cruzado, está o presidente-rei-autocrata, com suas posições sempre autênticas, permanente desafio a pesquisadores exógenos como eu.

Quando ainda se dava às disputas eleitorais, banidas pelo mesmo decreto que proibiu satélites espaciais de enviarem imagens ao nosso país-objeto, o presidente-rei-autocrata explicava que o excesso de ervas daninhas era um obstáculo ao progresso. Nas minhas poucas leituras sobre o tema, lembro-me de que obstáculos ao progresso eram outras coisas, mas eu estaria importando noções pessoais e as incutindo ao objeto, coisa que um bom antropólogo jamais deveria fazer. O então candidato presidente-rei-autocrata dizia que iria incentivar o corte de ervas daninhas, uma vez que outras atividades econômicas podiam ali se efetivar. As possíveis atividades são muitas. Nas notas taquigráficas a que tive acesso, atividades econômicas de ponta, como o desenvolvimento de móveis de madeira de última geração, a extração de matérias primas para cosméticos e o garimpo de metais considerados muito preciosos para os habitantes do país distante, como o nióbio, representariam o que há de mais avançado em termos de progresso.

No meu texto anterior, expliquei aos atentos leitores que o presidente-rei-autocrata se comunica de forma muito direta e muito espontânea com seus súditos através das chamadas lives. Esses divertidos vídeos, sempre bem-humorados e recheados de ironias finas e piadas de duplo sentido, representam, pelo que pude compreender, o que há de mais de mais original em termos de comunicação política. Num desses vídeos, o mandatário daquele país distante apresenta o resultado de uma de suas muitas pesquisas (apenas ele faz pesquisas, uma vez que os cientistas foram banidos, como já pude apresentar em outra comunicação). Trata-se de um fio de nylon coberto por objetos esféricos produzidos com o nióbio extraído das regiões amazônicas. Segundo o líder, o que havia em suas mãos valia como ouro ou como petróleo.

É interessante perceber nessa fala os efeitos de uma política nociva para aquele país, a de privatização da empresa petrolífera, que resultou no esgotamento completo de petróleo, transferidos para países distantes. A saudade que o mandatário demonstra ao citar o termo petróleo é quase tátil. Mais interessante ainda é perceber que essa saudade foi provocada por atos do próprio presidente-rei-autocrata, que foi quem assinou o decreto de privatização da empresa petrolífera. Mas não nos apeguemos a detalhes sem importância. O fio de nylon com objetos esféricos de nióbio, que os nativos chamam de “colar”, passa por um complexo processo de trocas, podendo chegar, segundo o líder supremo, ao preço de mil dólares[1]. Logo, se aquele país pudesse produzir, por exemplo, cem desses ditos “colares”, ele arrecadaria cem mil dólares. Se produzisse um bilhão, um trilhão de dólares, e assim sucessivamente. Ou seja, sem a Floresta Amazônica, o país distante poderia ser o território mais rico de todo o universo.

No entanto, o planeta plano possui outros países. Alguns mais avançados, outros menos. Segundo o presidente-rei-autocrata, os países mais ricos não possuem ervas daninhas em escala florestal, ao passo que os menos desenvolvidos sim. Ainda, os países com excesso de ervas daninhas apresentam em sua constituição demográfica um grande percentual de veganos-esquerdistas-membros-de-ONGs.

Aqui, me permito admitir uma profunda dificuldade interpretativa. De acordo com múltiplos cruzamentos de fontes, em um determinado momento da história do país distante, cada um desses termos unidos por hifens possuía um significado muito específico. Alguns se perderam, mas podemos captar por textos arcaicos de fragmentos que se salvaram das grandes fogueiras rituais de livros (os livros foram banidos daquele território no mesmo decreto que proibiu reunião de pessoas para ouvirem música, que eles chamavam de shows) que os significados seriam os que seguem.

Veganos: pessoas que não comem determinados alimentos provenientes de animais (ou todos os alimentos, a depender da fonte mobilizada); esquerdistas: pessoas alinhadas a um determinado corpo ideológico extinto. O conteúdo do corpo ideológico não pôde ser recuperado ainda, requerendo mais pesquisas. Membros de ONGs: pessoas componentes de organizações não-governamentais. No contexto específico, tratam-se de pessoas componentes de grupos em defesa do meio ambiente, que é, de forma relevante para nosso problema, como os nativos nomeiam o conjunto de concentrações de ervas daninhas gigantes.

Há que se fazer uma ressalva, porque como sabemos, os sentidos dados pelos nativos aos seus próprios termos se criam e recriam. “Veganos-esquerdistas-membros-de-ONGs”, em termos correntes, são nada menos que os comunistas, já tratados no texto anterior. Em minhas pesquisas, pude notar a presença desse perfil específico de comunistas em países sem ervas daninhas, o que me causou espanto, já que os comunistas teriam conseguido gerar desenvolvimento com o fim das ervas daninhas, o que faria do presidente-rei-autocrata um comunista por associação. Portanto, me questiono: seria o presidente-rei-autocrata um elemento incoerente em suas falas? Um informante me respondeu “claro que não”.

Acontece que o presidente-rei-autocrata é um elemento que reúne todas as razões em si mesmo. Por ser um líder superior, e por ser o significado dos termos nativos algo passível de permanente mudança, incoerentes são os súditos que não percebem as mudanças do eixo semântico promovidas pelo seu guia. Aliás, a palavra incoerente não pode ser aplicada ao presidente-rei-autocrata naquele país, sob pena de demissão, em caso de membro do poder público, ou de expiação aos deuses dos mares, em caso de súditos comuns.

Por ser o próprio eixo semântico, o presidente-rei-autocrata se torna uma pessoa dinâmica, moderna e, obviamente, constantemente coerente. Resolvi buscar aqui elementos comprobatórios e, pasmem, encontrei a real síntese da oposição entre os dois pontos sobre os quais escrevo (meio ambiente e diplomacia) num pequeno conjunto de tratativas entre o presidente-rei-autocrata e o apenas presidente (por isso em nível hierárquico inferior) de outro território, que naquele planeta chamam de França. Ao longo do diálogo, um conjunto de servos do presidente-rei-autocrata intercede por ele, de modo a evitar a necessidade de intervenção mais incisiva do seu líder, o que resultaria em total detonação daquele território. A datação deste diálogo é imprecisa.

Inicia-se com argumentos de cunho comunista, para usar a linguagem nativa, do apenas presidente da França em defesa das ervas daninhas amazônicas, o que seria uma defesa do atraso. Sugere que país distante precisa de recursos financeiros para gerir a referida “floresta” daninha. Os burocratas servis de país distante reagem com espanto aos ataques do adversário. Um deles chega a uma conclusão: o apenas presidente francês (gentílico de França) demonstra repulsa à liderança do presidente-rei-autocrata porque sua esposa é mais velha e mais feia que a primeira-dama-rainha-autocrata. O presidente-rei-autocrata se posiciona como um pugilista em ataque e profere o seguinte golpe: “Não humilha, cara. KKKKKKK”[2]. A estratégia anima os burocratas parentais, funcionários públicos e membros da família presidencial-real-autocrática. Um dos membros da prole real-autocrática avança com um “presidente francês é um idiota”, o que no vocabulário nativo significa que o líder menor do território francês carece de inteligência, carisma e lideranças reais. Ao mesmo tempo, um dos burocratas servis que não pertence à prole redige o seguinte telegrama virtual:

“A França é uma nação de extremos. Gerou homens como Descartes ou Pasteur, porém também os voluntários da Waffen SS Charlemagne (Sic). País de iluministas e de comunistas. O Macron não está a altura deste embate (Sic). É apenas um calhorda oportunista buscando apoio do lobby agrícola francês.”

Pois bem, este trecho careceria de uma análise à parte, mas para não interromper a fluidez do texto, equivale a reduzir o apenas presidente francês ao que aquele irrelevante país produziu de pior.

Num gesto de reconhecimento da sua pequenez diante do presidente-rei-autocrata, o apenas presidente francês reconhece que “País distante precisa de um presidente à sua altura”. Ou seja, a disputa diplomática ficou assimétrica na sua visão, e ele pede que o presidente-rei-autocrata seja substituído por um apenas presidente, de modo que suas armas se equiparem às armas francesas. Se fosse um jogo de xadrez, aqui o apenas presidente francês derrubaria o próprio rei, reconhecendo a derrota.

A diplomacia é mais que um jogo de xadrez. Sua beleza reside em que as disputas se dão em torno da honradez e da gentileza. E nada mais demonstrador de gentileza e honradez que as reações do grande líder de país distante. Ele se posiciona sempre como eixo da coerência semântica. Afirma que aceita os recursos de origem comunista apenas se o apenas presidente reconhecer seu ultraje ao tentar impor sua ideologia vegana sobre país distante, confirmar que sua esposa é de mais feia e mais velha que a primeira-dama-rainha-autocrata e que o centro da coerência planetária resume-se apenas a um nome: presidente-rei-autocrata. Xeque-mate.

Notas:

[1] Embora não consiga precisar, ao que parece dólar é um tipo de meio de troca que mensura paridade e poder de compra de forma universal. Algo como o Big Mac para nós.

[2] De acordo com minhas pesquisas, a repetição de sete letras K possui duplo significado: bom agouro, em função da celebração do número sete; “bom humor eterno do nosso líder; que assim seja”. A pontuação foi acrescentada por este escriba, de modo a traduzir a linguagem do país distante para o português.

* Eduardo dos Mares Netto  é Antropólogo, Cientista Político e Professor Universitário, embora não trabalhe mais que oito horas por semana e ganhe entre R$15 e R$20 mil mensais. Nem ele sabe disso.