Por Fernando Perlatto*

Bacurau é um filme intenso, forte, visceral. É a alegoria brutal do Brasil contemporâneo, com suas violências e ferocidades, visto pelas lentes distópicas dos diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

Assistir a este western tupiniquim selvagem é uma experiência quase catártica neste país que se desmancha a olhos vistos.

O filme se passa em uma pequena cidade no interior de Pernambuco, Bacurau, que não consta no mapa e que tem nome de um pássaro noturno e bravo. O clima é de suspense e terror, com caixões e corpos espalhados pelas estradas, drones que se assemelham a discos voadores, assassinatos gratuitos e brutais, blecautes e a permanente ameaça da invasão da cidade. A atmosfera do filme é mais de O som ao redor (2002) do que de Aquarius (2016), os trabalhos anteriores de Kleber Mendonça Filho.

Não é possível dizer que haja protagonistas em Bacurau. Os habitantes da cidade, como um coletivo, assumem este lugar, com destaque para Domingas (Sonia Braga), Plínio (Wilson Rabelo), Teresa (Barbara Colen), Acácio ou Pacote (Thomas Aquino) e Lunga (Silvero Pereira).

Se é possível identificar em Bacurau o diálogo com diretores diversos como John Carpenter, Sergio Leone e Quentin Tarantino é, talvez, na tradição do cinema brasileiro, especialmente naquela que se debruçou sobre o sertão do país, que ele se sinta mais bem situado. Na conjuntura radicalizada dos anos 1960, foi o sertão o lugar privilegiado da imaginação cinematográfica brasileira para falar dos conflitos e dos dilemas que assolavam o país, em obras como O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte (1962), Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos (1963), Cabra marcado para morrer, de Eduardo Coutinho (1964/1984) e Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha (1964).

Ainda que o sertão não tenha perdido sua importância no cinema brasileiro desde o início da chamada “retomada” – ele se faz presente, de formas diversas, em filmes como Central do Brasil  e Abril despedaçado, de Walter Salles (1992; 1998), O auto da compadecida, de Guel Arraes (2000), Cinema, aspirina e urubus, de Marcelo Gomes (2005) e Viajo porque preciso, volto porque te amo, de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes (2009) –, o mundo urbano passou a ganhar cada vez mais destaque em produções como Cidade de Deus, de Fernando Meirelles (2002), Tropa de Elite 1 e 2, de José Padilha, 2007; 2010) e Que horas ela volta?, de Anna Muylaert (2015). Nos próprios filmes de Kleber Mendonça Filho, como O Som ao Redor e Aquarius, é a cidade, Recife, que se coloca como a geografia privilegiada.

Bacurau, ao contrário, é um filme de sertão. Mas o sertão de Bacurau é um sertão diferente daquele filmado por outros diretores. Se os elementos clássicos do atraso que retratam tradicionalmente o sertão estão ali presentes – o sol, a seca, a pobreza, a violência, a dominação coronelista –, o que vemos em Bacurau é um novo sertão, no qual o moderno se faz presente no carro de som repleto de luzes, na internet, nos celulares, no cinema, ainda que precário, projetado na praça. Este sertão pós-era Lula é o sertão da inclusão moderna via mercado, mediante acesso a bens materiais e tecnológicos, mas no qual as relações do atraso, da violência, do mando, do assistencialismo, ainda se fazem fortemente presentes. Moderno e atraso, ao invés de serem pensados como contrapostos, se articulam em Bacurau, em uma visão refinada das contradições do capitalismo nas franjas da sociedade brasileira.

Como tem sido destacado por diferentes analistas, o tema mais forte de Bacurau é o da resistência. A resistência que se organiza não apenas contra estrangeiros doentes obcecados por armas e assassinatos gratuitos, mas também contra o prefeito e os invasores do sudeste, que se acham estrangeiros e superiores ao povo do nordeste.

E a resistência, é importante perceber, se dá de diferentes maneiras. Ela passa, em primeiro lugar, pela construção “por baixo” de uma rede de comunicação informal, via troca de mensagens de celulares e a utilização do carro de som – uma espécie de “esfera pública subalterna” –, que permite que Bacurau esteja sempre preparada para enfrentar as invasões que chegam de fora, seja do prefeito, seja dos motoqueiros do sudeste ou ainda dos estrangeiros pervertidos e sanguinários.

Mas a resistência também se dá de forma direta. E neste caso, ela precisa de um herói para organizá-la.

E este é um dos pontos altos de Bacurau: os heróis são, na verdade, anti-heróis. Lunga, uma figura odiada e amada, que vive escondido por crimes pregressos, retorna a Bacurau para construir a resistência violenta junto com os demais habitantes, em especial com Pacote – este também um anti-herói, reconhecido e admirado por uma sequência de assassinatos gravados e divulgados na internet, transmitidos na praça na cidade. Ao contrário de serem os portadores da virtude e da decência, como se poderia esperar em uma narrativa clássica, estes anti-heróis são complexos, repletos de contradições, incoerências.

Ainda que não ganhe o protagonismo da narrativa, Lunga, particularmente, é um dos grandes personagens surgidos no cinema nacional recente. Este anti-herói moderno é um cangaceiro que descende de Antonio Conselheiro, de Lampião, de Corisco, do Antônio das Mortes de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Porém, ainda que seja a continuidade desta longa tradição de sertanejos resistentes, Lunga também é ruptura, com sua figura andrógena, meio homem, meio mulher, como a representar uma ampliação dos sujeitos das resistências no Brasil contemporâneo, com suas novas identidades, temas e agendas.

Não há como se deparar com o banho de sangue em Bacurau e não se questionar sobre o tema da violência como forma de resistência legítima. Resguardadas as particularidades dos contextos, esta temática que atravessa a cinematografia dos anos 1960 – em filmes como Os fuzis, de Ruy Guerra (1964), Terra em Transe, de Glauber Rocha (1967) –, reaparece novamente em um contexto autoritário como o que vivemos no Brasil no tempo presente. Embora seja equivocado compreender o filme como um chamamento às armas, todo imaginário construído em torno dele – inclusive com o acompanhamento da trilha sonora da bela música de Geraldo Vandré, “Réquiem para Matraga”, “Vim aqui só pra dizer / Ninguém há de me calar / Se alguém tem que morrer / Que seja pra melhorar” – recoloca no debate o tema da violência como forma de resistência legítima. Provoca e faz pensar.

Ainda que menos complexo do que Som ao redor e menos poético do que Aquarius, Bacurau é um grande filme. É imperativo assisti-lo e discuti-lo neste país que se desfaz em pó.

* Fernando Perlatto é um dos editores da Revista Escuta.