Eduardo Mares Bisnetto*

Em país distante, de um planeta plano como uma moeda de vinte e cinco centavos, o presidente-rei-autocrata gosta de avaliar os filmes que sua população pode ou não assistir em seus cinemas. A preocupação, principalmente, é com filmes com teor sexual ou temáticas LGBT (sim, no tal planeta a tag é a mesma). Para tanto, o fiel mandatário lê as sinopses dos filmes que se submetem a uma avaliação da agência de cinema do local – chamam-na de Ancine – para, então, poderem captar recursos no mundo privado. Em determinados momentos, o presidente-rei-autocrata assistia aos filmes, mas parece não ter mais tempo em sua agenda para tal tarefa. Substituiu as sessões de cinema por sessões de cabelereiro.

A lei de captação de recursos para o audiovisual daquele planeta não é difícil de entender. Aliás, é muito comum em países em desenvolvimento do planeta Terra. Os produtores submetem seus projetos. Os projetos são avalizados pela Ancine. Os produtores ganham ou não o aval para captarem recursos com agentes privados. Os agentes privados podem declarar os valores investidos em troca de isenção de impostos. Lá, chamam de renúncia fiscal esse processo. Aliás, no país distante, muitos agentes privados fazem a mesma coisa. Grandes bancos de lucros bilionários aplicam algumas migalhas em projetos culturais a troco de isenções. Organizações não-governamentais fazem o mesmo. Até grandes industriais buscam isenções fiscais, mas em troca da ameaça de fecharem suas fábricas, mandarem seus trabalhadores embora e irem para qualquer reino mais barato para produzirem.

No país do planeta plano, o fiel mandatário gosta de utilizar das tecnologias de comunicação para explicar suas atitudes para seus súditos, sempre ladeado por uma tradutora e por um funcionário público, cuja função é concordar com o que fala. A tradutora, através de gestos, transmite as brilhantes palestras do mandatário para aqueles que não podem ouvi-las. O funcionário público fica sentado. Até hoje não se entendeu muito bem a função dos funcionários que ladeiam o mandatário. No entanto, sempre que tal funcionário deixa a transmissão, ganha uma piada espirituosa, seguida da já tradicional gargalhada do mandatário. Diz-se que os funcionários que não acham graça das piadas são enviados para fazendas interestelares de trabalhos forçados, ou demitidos de suas funções. Até hoje não se tem muita certeza do destino desses servidores públicos cujo humor não transparece.

Na última transmissão (eles chamam de lives), o fiel mandatário leu algumas sinopses, para que seus súditos pudessem compreender de fato o que ele faz. Apesar das enormes complexidades daquele país do planeta plano, o presidente-rei-autocrata sempre encontra tempo para proteger seus comandados das maiores atrocidades a que podem ser expostos, como o gaysismo e o comunismo. O planeta plano ainda abriga países comunistas, uma constante ameaça. Os países comunistas do planeta plano têm táticas revolucionárias muito sofisticadas de inserção para a conquista ideológica dos cidadãos de outros países. A última estratégia que se tem notícia é o envio de médicos alienígenas para os cantões mais remotos do país distante com o intuito de consolidação de focos revolucionários para a ascensão final do comunismo, entre a cura de uma doença endêmica e outra. Como é sabido em toda a via láctea, Marx e Paulo Freire são pragas interplanetárias forjadas por cientistas para que todos os planetas do universo se tornem comunistas através da corrupção desenfreada e do lucro recorde dos bancos.

A referida live desta vez, foi apenas sobre filmes, não tratando de ameaças alienígenas. As duas falas do mandatário sobre filmes que ele laboriosamente garimpou foram: “Um filme chama ‘Transversais’. Olha o tema: ‘Sonhos e realizações de cinco pessoas transgêneros que moram no Ceará. Conseguimos abortar essa missão.” A outra: “Confesso que não entendi nada (…) Olha, a vida particular de quem quer que seja, ninguém tem nada a ver com isso, mas fazer um filme mostrando a realidade vivida por negros homossexuais no DF, não dá para entender. Mais um filme que foi para o saco.”

Os súditos agradecem a preocupação do presidente-rei-autocrata batendo palmas e gritando palavras desconexas. Urram, por vezes. Em outras, comparam seu comandante a figuras mitológicas. Antes de a Antropologia ser erradicada daquele país (o que me forçou a trabalhar apenas com fontes de segunda mão), havia uma lenda de que, em algum momento, um mandatário com rabo de burro, corpo de burro e cérebro de minhoca viria para salvá-los da ameaça milenar do comunismo corrupto-medicinal. O pensamento etnocêntrico resolveu chamar a lenda, ou narrativa nativa, como diziam os antropólogos, de “mito”. Não raro os súditos do país distante acompanham as incursões do presidente-rei-autocrata pelos jardins de seu palácio para receberem-no com os dizeres “Mito! Mito! Mito!”. Com as papilas gustativas aguçadas, babam à espera de uma espirituosa piada. Na última incursão do mandatário aos jardins, ouviram que seu ministro da Justiça iria fazer um troca-troca com o ministro do Meio Ambiente. Os súditos adoram a ironia fina de seu líder. Confesso que não entendi a piada.

Ao pesquisar a história daquele país, descubro algo óbvio. Não foi a primeira vez que o presidente-rei-autocrata cancelou financiamentos para a produção, ou mesmo a exibição de filmes controversos. Os achados quase arqueológicos da presente pesquisa são apresentados abaixo. Em função do meu enorme tempo livre como professor universitário, fiquei com preguiça de fazer uma lista mais extensa. Reproduzo o mais fielmente possível as falas transcritas das notas taquigráficas encontradas, cotejadas, quando possível, com os vídeos das famosas e alegres lives.

1) Alemanha Ano Zero

“Olha, se o camarada quer ser otário e se jogar do prédio, é direito dele, talkey? Mas aqui no meu reino não. Aqui, criança pequena vai pro sinal aprender um ofício no tocante a uma profissão. Primeiro, o garoto se mata. Depois o quê? Vai tá fazendo filme da Bruna Surfistinha[1], ou sendo gay. Assim não dá. Abortada essa missão, talkey[2]? E outra coisa, no tocante a essa qüestão aí: o camarada passa duas horas trocando tiros, matando os comunistas, talkey? pra no final ele desistir desse jeito. Isso é coisa de menina. Aí não dá, talkey?”

Nessa passagem, notamos bem que a ideologia anticomunista, aliada à força anti-LGBT naquele país possui enorme relevância. É interessante perceber também que estão presentes políticas públicas profissionais para jovens aprendizes, uma vez que são apresentadas como alternativa ao destino do jovem nazista do filme de Rossellini. Não consta qualquer reação por escrito de Rossellini, de sua filha ou de sua neta. Ao entrar em contato com a distribuidora que ainda possui os direitos de Alemanha Ano Zero sobre as decisões do presidente-rei-autocrata, a resposta recebida foi, e aqui eu cito: “quem?” (PARIS FILMES, resposta por e-mail recebida em 16 de agosto do presente ano).

2) Persona

“Confesso que não entendi nada (…) Olha, a vida particular de quem quer que seja, ninguém tem nada a ver com isso. Inclusive, vou dizer aqui, talkey?, inclusive, quem gosta de terapia é quem tem problemas de gaysisse e vitimismo. E aí uma vira a outra, vira a outra, e é uma mulher lésbica, que não pode acontecer, talkey?. Também foi pro saco isso daí, talkey?, e meus súditos não vão perder tempo. E ainda tem outra coisa: o filme é preto e branco, pô. O FILME É PRETO E BRANCO, PORRA!”

Confesso que esse foi o trecho taquigráfico mais interessante que encontrei. Evocando um linguajar arcaico de seu país, presidente-rei-autocrata faz renascer uma expressão há muito não utilizada (“PORRA”), reproduzida nas notas em caixa alta, de modo a evocar o teor emocional da fala do mandatário. Aos poucos, podemos perceber a complexa colcha de retalhos psicológica que move esse líder do mundo não livre. Comparando as impressões pessoais do governante com as reações do filme em outros países daquele planeta, nota-se enorme semelhança, mostrando que a película não conseguiu atingir o público com a mensagem proposta. “Foi pro saco”.

3) Casablanca

“Olha, isso aí, talkey?, isso aí é complicado. O camarada tem que ser muito otário pra abrir um bar na selva e ficar de mimimi vitimista, com pianinho. O cara é alcoólatra, porra. E a mulher aí, no tocante à qüestão da mulher aí, nesse filme daí, a mulher não pode fazer o que ela fez. Primeiro, por que a mulher tá aí, talkey? A mulher tinha que estar fazendo a comida do homem e esperando ele em casa pra…(risos). Não é o que você tá pensando não, talkey? Aí o camarada coloca a mulher com dois homens. E um dos caras é menina, talkey? É óbvio isso daí. Não vai passar filme de mimimi covarde aqui no meu país. Não vai e pronto e acabou”

O trecho acima é lapidar. A essência do presidente-rei-autocrata é exposta, auxiliando-nos também na compreensão da população daquele país. Reparem que o mandatário precisa inúmeras vezes explicar à sua população que ele está falando do filme. Isso fica claro quando ele repete diversas vezes os termos “isso daí” e “aí”. Não é segredo nenhum que a população média do país distante possui níveis cognitivos baixos, com numerosos diagnósticos de déficits de atenção (diagnósticos anteriores ao mandato do líder em questão, já que qualquer tipo de terapia foi banida pela lei do mimimi-vitimista de 2019) (PAÍS DISTANTE, Lei do Mimimi-Vitimista, 71/2019). Por isso, é sempre reforçado que o assunto não mudou, embora não fique claro qual assunto propriamente está sendo tratado.

4) De volta para o futuro 2

“Olha, todos vocês sabem que ‘De volta para o futuro 1’ foi liberado antes do meu mandato, talkey? Então, eu tenho que dizer, talkey?, que nenhum filme sobre roupas coloridas vai passar no meu governo. Eu ganhei porra. EU GANHEI PORRA. Não vai ter filme sobre meninas viajando no tempo pra se encontrar com meninas no futuro. Até porque, no tocante à qüestão da viagem no tempo que trata disso aí, eu já falei com meus ministros, não pode. Filme pra família, no meu governo disso daí, é filme sobre o presente. Aliás, não pode. Garimpei esse filme daí e não pode. Se quiser filme sobre desfile de moda colorida gaysista futurista, vai ver em outro planeta. E tem mais, que a imprensa não gosta que eu fale, mas eu caguei pra imprensa: esqueite cor-de-rosa, não sei não, hein?, talkey?…(gargalhadas)”

A sequência realça bastante a preocupação estética do presidente-rei-autocrata. Michael McFly nesta película abusa do uso de uma jaqueta vermelha brilhante, moda corrente em outro país naquela época. A confusão exposta sobre o corte espaço-temporal do filme também não passa em branco aos olhos sempre preocupados do líder do país distante. De fato, não há evidências científicas de que viagens no tempo possam ser efetuadas sem danos físicos ao viajante, ou graves consequências para a sequência cronológica. Apesar de a ciência ter sido banida do país distante, há relatos de sua existência em espaços restritos, onde ainda são praticados sacrifícios humanos para a ocorrência de chuva, ou produção de sopas rituais para a cura de doenças. Ao final desse trecho, o líder ainda retoma tema pujante da sociedade do país distante: a cromologia. A recusa aos skates de cor rosa não se justifica por qualquer documento encontrado nesta breve pesquisa, mas deve se referir à constante preocupação com a segurança dos meios de transporte utilizados, conforme aparece em outra live, em que o líder suplica para que os motoristas não sejam “otários de entrar numa curva a 80km/h-100km/h).

5) Os trapalhões e o rei do futebol (único filme cuja transcrição foi feita pela recuperação de vídeos somente)

“Olha… complicado isso daí, talkey? Eu assisti duas vezes pra poder entender. Lembrei dos meus tempos de exército[3], porque tem um gordinho (trechos a seguir não podem ser garantidos pela confusão de risos com as falas). O gordinho… de voz fina… gay!… e um outro, que joga mamado, talkey?… e o careca… (as risadas demoram dois minutos, trinta e oito segundos para terminarem)… aiaiaiai…olha…isso daí é gaysista PORRA (aqui recupera o termo arcaico utilizado em gritarias rituais), é gaysista. Olha… (ainda recuperando o fôlego, com o rosto vermelho) esses daí, esses daí não poderiam jogar no meu time nunca, nem trabalhar nos meus ministérios. Tem um escuro que joga direitinho nisso daí. Mas os outros disso daí?… o cara bêbado?! Que mensagem esse filme vai passar pras crianças? PRAS FAMÍLIAS?! (aos gritos novamente). Isso daí, garimpei e foi pro saco, talkey? Não pode isso daí não. E vou dizer mais uma coisa no tocante à qüestão do respeito às regras da família: tem que respeitar as regras. Tem que respeitar as regras, talkey? Não pode bater o escanteio e cabecear a bola. É anarquia! É COMUNISMO! Não pode.”

O trecho sem a devida visualização do vídeo perde um pouco da eloquência do líder em análise. Sua mistura de respeito às regras sagradas do futebol (todos os planetas sabem que o cobrador de um lance de bola parada não pode tocar novamente na bola até que um segundo jogador a encoste) com respeito às regras sagradas familiares daquele país saltam aos olhos vermelhos do orador. A linguagem recebe uma nova densidade com as gargalhadas do presidente-rei-autocrata, o que nos permite perceber que nem sempre as notas taquigráficas foram devidamente fiéis ao jeito espirituoso do mandatário. Os rótulos quase gramaticais das formas de classificação do presidente-rei-autocrata retornam agora com a devida entonação, fazendo-nos entender o que o respeito à heteronormatividade futebol-familística representa para a devida condução do país distante.

Considerações finais

Nenhum dos sete filmes em questão jamais foi exibido no país distante do planeta plano, porque, apesar de haver uma constituição em vigência naquele território, a caneta do tipo BIC (multinacional francesa que conseguiu tornar-se interplanetária) do líder tem mais poder que qualquer instituição existente. Nas minhas ainda incipientes pesquisas, não consegui identificar o papel prático das instituições republicanas num local que não se considera uma república, mas uma autocracia coletiva, em que membros da família presidencial-real-autocrática comandam o país distante em todos os seus cargos, num trabalho excessivamente laborioso, que deve levar tais servidores públicos à quase total  fadiga. Ao proceder uma breve comparação com outras repúblicas, o que se percebe em termos distintivos é a ausência de uma divisão de poder e de tarefas, o que pode explicar o não crescimento econômico daquele país. Sobre duas questões, porém, podemos arriscar certeza: não há nenhuma ameaça à gramática legal do presidente-rei-autocrata, tampouco a possibilidade de um filme, uma peça teatral ou uma pesquisa científica serem apresentados ao público sem o devido “filtro” do comandante-em-chefe da cultura local.

Notas:

[1] ?

[2] Nas minhas ainda incipientes pesquisas, não consegui descobrir o que significa o termo “talkey”. No entanto, comparando com achados de outros países daquele planeta, se assemelha a algum termo como “estamos de acordo?”, ou, numa tradução mais rara “aqui paro de falar sobre o assunto anterior e faço uma pausa dramática, seguida de uma profunda respiração, de modo que não fique claro que perdi meu raciocínio”. Os linguistas do país distante tampouco me puderam ajudar, uma vez que não há mais linguistas no país distante, desde o ano de 2019, quando foram enviados para trabalhos forçados. Não vou falar sobre filólogos, porque ninguém sabia o que filólogo era naquele país.

[3] Forças interestelares armadas com brochas de tinta e rádios telefônicos do país distante. Em sua história, constam que suas atividades principais, além da pintura de troncos de árvore e abuso de cargos públicos para complemento de renda são: tortura de indefesos, estupros e assassinatos por afogamentos, inalação de dióxido de carbono, lançamentos de indefesos de aeronaves e por choques elétricos, além de cerimônias anuais de humilhação pública nos quarteis.

* Eduardo dos Mares Netto é Antropólogo, Cientista Político e Professor Universitário, embora não trabalhe mais que oito horas por semana e ganhe entre R$15 e R$20 mil mensais. Nem ele sabe disso.