Por Fernando Perlatto*

A coluna “Escuta Recomenda” é publicada aos domingos, assinada por um dos editores da revista, Fernando Perlatto, com sugestões de leituras de textos de política e de cultura, publicados na imprensa ao longo da semana.

Política

* Desigualdade: O Escuta Recomenda desta semana inicia não com a indicação de um artigo, mas de uma reportagem publicada pelo jornal O Globo, na sexta-feira, intitulada “Brasil vive o ciclo mais longo de aumento da desigualdade”. Baseada em uma pesquisa realizada pelo economista Marcelo Neri, a reportagem destaca o impacto do desemprego sobre o aumento da desigualdade e chama a atenção para o fato de que, no período de 2014 a 2019, a renda da metade mais pobre da população caiu, com perda de 17,1%, ao passo que a renda da parcela que compreende o 1% mais rico aumento em 10,11%.

É importante destacar que esta ampliação da desigualdade coincide com o avanço da política econômica neoliberal e com o desmonte da legislação trabalhista, impulsionada com a reforma trabalhista no governo Temer e que tende a se intensificar com a Medida Provisória da Liberdade Econômica, aprovada pela Câmara dos Deputados. Sobre esta MP, indico o excelente artigo de Maria Cristina Fernandes, publicado na quinta no Valor Econômico, intitulado “A MP do Estado anarcocapitalista”: “Com a MP da Liberdade Econômica, o presidente vai além do cumprimento de uma promessa de campanha. Em apenas quatro meses fez passar na Câmara uma iniciativa que ameaça a capacidade regulatória do Estado e mina os freios contra o abuso do poder econômico. (…). A Câmara que, na reforma da Previdência, funcionou como um contrapeso às medidas mais radicais do governo, desta vez, se limitou a podar as selvagerias mais gritantes contra o que restou da legislação trabalhista. Sob o escudo de uma proposta que, aparentemente, não afeta a vida da população, tornou-se sócia do anarcocapitalismo que inspira a equipe sub-30 que o Paulo Guedes colocou na secretaria de desburocratização do Ministério da Economia”

Ainda sobre a temática da desigualdade, indico fortemente a leitura de uma série que vem sendo publicada pela Folha de São Paulo, intitulada “Desigualdade global”, que discute o tema da desigualdade em uma perspectiva global, com artigos e dados sobre o tema, e aborda suas consequências sobre o sistema político.

* Retórica presidencial, ofensa, baixaria e escatologia: ao longo desta semana, o presidente Jair Bolsonaro deu sequência ao festival de frases absurdas e ofensivas direcionadas contra diferentes alvos. O jornal O Globo publicou neste domingo uma reportagem, com um infográfico, baseada em um levantamento que contabilizou 58 frases ofensivas de Bolsonaro, direcionadas a 55 alvos diferentes, feitas desde o início do mandato.

Alguns artigos foram publicados na imprensa nesta semana buscando analisar a retórica do presidente. Juan Arias, no jornal El Pais, em texto publicado na quarta-feira com o título “São inocentes os rompantes linguísticos de Bolsonaro?”, destacou: “Nada seria pior do que tomar suas bravatas e loucuras linguísticas como algo sem importância a que deveríamos nos acostumar. Pode ser trágico”. Em artigo publicado neste domingo na Folha, com o título “A palavra do coprófilo”, Janio de Freitas ressalta: “Nenhum desses dados e assuntos [relacionados ao desemprego] esteve próximo dos escolhidos por Bolsonaro em sua safra atual de dejetos mentais. A preferência foi pelas fezes, citadas inúmeras vezes por meros anseios de uma coprofilia que, aliás, lhe fica bem”

Outros textos publicados na imprensa ao longo da semana destacaram o quanto a retórica presidencial se assenta na lógica “amigo-inimigo”. Na quinta-feira, Renato Ortiz publicou na Folha o artigo “Verdades e mentiras”, em que chama a atenção para uma dimensão central da retórica presidencial: “Os insultos e as agressões tornam-se elementos legítimos na luta contra a parte ‘malsã’ da sociedade, o ‘eles’ que ameaça a idealização de um ‘nós’. Este é um aspecto que diferencia o populismo no Brasil de outros países (Estados Unidos ou França). Ali, o ‘eles’ é representado pelo que se encontra fora de suas fronteiras: os imigrantes. No caso brasileiro, a questão é outra, o tema da imigração não faz parte da agenda política atual. Nesse sentido, o ‘eles’ se manifesta no interior do espaço da nação”. Conrado Hübner Mendes, em texto publicado na revista Época desta semana, intitulado “Quando o presidente diz que te odeia”, destaca aspecto semelhante: “O presidente não apenas te odeia. Ele diz que te odeia. O ódio do presidente não é um ódio qualquer. É o ódio do presidente. O vilipêndio verbal possui pedigree eleitoral e um bando de apoiadores dispostos a realizar os íntimos desejos do capitão. É público, declarado e repetido. Move as máquinas do Estado e excita o Johnny Bravo da esquina (o bolsonarista da esquina com menos senso do ridículo e autoestima fora do lugar)”.

* Indicação para a Procuradoria Geral da República e interferências de Bolsonaro na Polícia Federal e na Receita Federal: esta semana foi marcada pelas indecisões de Bolsonaro em relação à nomeação para a Procuradoria Geral da República e por ações e declarações do presidente no sentido de interferir nos órgãos de combate à corrupção e ao crime organizado.

Sobre a questão da Procuradoria Geral da República, indico a leitura do artigo de Oscar Vilhena Vieira, na Folha, publicada no sábado, “Risco de legalismo autocrático”: “Entregar a indicação do procurador-geral para aquele que deverá ser por ele fiscalizado, de fato, não foi uma boa decisão da Constituição de 1988, mas isso é assunto para uma outra coluna. O que importa agora é reduzir os riscos de avanço do legalismo autocrático”. Na mesma direção, o texto de Reinaldo Azevedo, também na Folha, na sexta, “Senado pode votar de pé ou de joelhos”: “O Senado terá de avaliar se a futura indicação para a PGR terá como parâmetro a Constituição e demais regras do jogo ou se o presidente busca um perseguidor-geral da República”.

Já no que diz respeito à intervenção sobre a Polícia Federal e a Receita Federal, sugiro a leitura do artigo de Bernardo Melo Franco, “O presidente e as bananas”, publicado no jornal O Globo neste domingo: “O mandonismo presidencial já fez vítimas em diversas áreas do governo — do fiscal do Ibama que o multou ao diretor do Inpe que não aceitou esconder os números do desmatamento. Agora chegou a vez dos órgãos de combate à corrupção e ao crime organizado”.

* Enfrentamentos na educação e ataques à ciência: em uma semana marcada por mais um protesto contra os cortes na educação, que ocorreu na terça-feira, de rejeição por várias universidades do “Future-se” e pela notícia de que o CNPQ suspenderá o apoio para novos bolsistas, diante da indefinição do crédito suplementar, vários artigos e entrevistas foram publicadas na imprensa buscando discutir os enfrentamentos do governo Bolsonaro à educação e à ciência.

Em seu artigo publicado na Folha deste domingo, Angela Alonso destaca os ataques do governo à ciência e à educação e, em especial, às universidades públicas: “A turma do cascalho ataca ciência, pesquisa, liberdade de pensamento. Na retórica obscurantista, crença vale mais que argumento, fé mais que demonstração. Seu dogma é o da verdade revelada. Como pensam assim, supõem que os demais também assim pensem. Daí julgarem a universidade um celeiro de esquerdistas que passariam, como os bolsonaristas, o dia todo produzindo fake news e incitando estudantes a repeti-las”. Oliver Stuenkel, em artigo publicado na quarta no El Pais, intitulado  “Ataques de Bolsonaro contra universidades seguem mesma lógica de Hugo Chávez”, destacou as semelhanças com aquele outro contexto. Maria Hermínia Tavares de Almeida, em artigo publicado na quinta na Folha sobre o “Future-se”, enfatizou: “As universidades públicas —entre elas, as federais— são peças essenciais do sistema brasileiro de ciência e tecnologia. Merecem que sua autonomia administrativa e financeira seja tratada com menos amadorismo e mais competência. Com a palavra, o Congresso”.

Entre as entrevistas sobre o tema, indico a leitura daquela realizada pela Revista Exame com Ricardo Galvão, ex-diretor do INPE, na qual ele aborda o posicionamento anticiência do governo Bolsonaro: “O governo tem um posicionamento muito claro, influenciado por gurus como Olavo de Carvalho, que é anticiência. Ouvem-se pessoas que contestam o aquecimento global, o que é vergonhoso para o país”. Também sugiro a leitura da entrevista de Marcelo Knobel, Reitor da UNICAMP, para a Folha, publicada na terça-feira: “O problema é quem financiará esse fundo [do ‘Future-se’] depois de tantos ataques às universidades e como esse fundo não atrapalhará o investimento público?”

* Outras sugestões de artigos interessantes publicados na semana:

– Artigo de Paulo Roberto Pires, “O coach de esquerda”, na revista Quatro Cinco Um: “Para ele, é mais importante corrigir os vícios dos desprezíveis esquerdistas do que cerrar fogo contra os ataques do Planalto à democracia. Antes de falar, propõe o coach, a esquerda tem que ajoelhar no milho ideológico”

– Artigo de Rafael Mafei Rabelo Queiroz, para o caderno “Ilustríssima”, da Folha, neste domingo, “Atitudes de Bolsonaro são motivos para impeachment?”: “Os trilhos do impeachment são jurídicos, mas sua locomotiva é política: cabe a deputados e senadores saber enxergar, no horizonte, onde está o ponto de não retorno. De todos os cenários, o pior seria aquele em que nos contemplaríamos atônitos, esperando que quebrassem o silêncio incômodo”

– Artigo de Áurea Carolina para o jornal Nexo, na segunda-feira, “Sem tempo para Bolsonaro”: “A imprescindível crítica ao desgoverno, no meu entendimento, precisa ter uma pegada “vira voto”, com compromisso prático”.

– Artigo de José Eduardo Agualusa para o jornal O Globo, “O Brasil rumo ao ostracismo”, sobre os riscos do país virar um “pária, ostracizado e desprezado pela comunidade internacional”;

– Artigo de Sérgio Augusto, publicado no sábado, no Estado de São Paulo, “O bugre e seu duplo”: “Em várias passagens do ensaio [de Burt Neuborne,  When At Times the Mob Is Swayed] me senti lendo não sobre Trump, mas sobre seu clone brasiliense. O mesmo destempero, as mesmas bravatas, os mesmos preconceitos, os mesmos despautérios, a mesma necessidade de estar em evidência, de espezinhar a mídia, de produzir factoides e fake news; mas Trump, se absoluto em assédio sexual, ainda perde no quesito escatologia para o nosso presidente”

– Artigo de José de Souza Martins, “A religião das entrelinhas”, publicado no Valor, na sexta sobre a relação entre a Igreja Universal e Bolsonaro: “Essa igreja, em sua ação social, tem no centro de suas concepções e de sua conduta o ser humano e a humanidade do homem. Bolsonaro e seu governo centrado no primado do poder, do lucro e na centralidade do capitalismo rentista, em atos reiterados destes sete meses de mando, têm no centro a coisificação da pessoa, reduzida à condição de objeto do lucro, de seres descartáveis da reprodução ampliada do capital”

– Artigo Yascha Mounk, autor de O povo contra a democracia, na Folha (onde estreou uma coluna mensal), “Saúde e política econômica”: Em 2020 os democratas têm a chance de recuperar a Casa Branca e corrigir algumas das maiores injustiças do país. Mas, a não ser que construam sua campanha em cima das propostas progressistas que realmente sejam capazes de ganhar o apoio da maioria dos americanos, eles correm grande risco de perder para Trump.

– Artigo de Drauzio Varella, neste domingo, na Folha, “Sem o SUS é a barbárie”: “Pouquíssimos têm consciência de que o SUS é, disparado, o maior e o mais democrático programa de distribuição de renda do país”

– Artigo de Eliana Brum, no El Pais, publicado na quinta, “As crianças de Altamira”: “A forma como quase todos nós olhamos para aqueles que estão presos expõe a deformação de nossas almas. Não há como viver num país com esse nível de violência, em todas as áreas, acirrada agora por um perverso no poder, sem ser também contaminado e transformado. Se 62 pessoas brancas, de classe média, tivessem sido decapitadas ou carbonizadas ou estranguladas, as reações seriam imensamente maiores. A pressão por mudanças e a eloquência também”

– Artigo de Maria Laura Canineu, Diretora da Human Rights Watch Brasil, publicado na Folha, na quarta, sobre as condições precárias e brutais dos prisioneiros no Brasil, “Como consertar nossas prisões?”: “Cerca de 40% dos presos no Brasil ainda aguardam julgamento. Uma das causas da superpopulação é o fracasso em garantir audiências de custódia, nas quais juízes avaliam logo após a prisão se o preso pode aguardar o julgamento em liberdade. Embora essas audiências sejam exigidas pelo direito internacional, elas não ocorriam no Brasil até recentemente”

– Artigo de Bruno Boghossian, neste domingo, na Folha, sobre a política pública de segurança do governo Witzel: “A necropolítica do ex-juiz carrega, na essência, essa maneira indiferente de encarar uma população que ele também deveria proteger. Em sua plataforma, a morte de moradores é vista só como o efeito colateral do trabalho para livrar uma favela do tráfico, como um buraco aberto na rua para uma obra”

– Debate sobre “anarquistas”, “anarcopalistalistas” e “libertários”: artigo de Camila Jourdan e Acácio Augusto, neste domingo, no caderno “Ilustríssima”, da Folha, em resposta ao texto de Fábio Zanini, publicado no mesmo espaço no dia 04 de agosto: “A associação dos anarquismos com o ultraliberalismo é uma apropriação arbitrária de elementos deslocados de contexto; é, na verdade, uma confusão deliberada, que desconsidera características próprias das práticas anarquistas”

– Reportagem ampla publicada pelo The New York Times sobre o 400º aniversário da chegada dos escravos nos Estados Unidos, intitulada “1619 Project”: “It aims to reframe the country’s histroy, understanding 1619 as our true founding, and placing the consequências of slavery and contributions of black Americans ate the very center of story we tell ourselves about who we are”.

* Indicação de leitura política da semana: artigo “A Era dos descontentes”, de Ivan Krastev e Stephen Holmes, publicado na edição deste mês na Revista Piauí, no qual os autores analisam a “revolução iliberal” do Leste Europeu.

Cultura

– O jornal O Globo publicou na segunda-feira uma reportagem sobre o “novo cinema mineiro” – com filmes como Arábia, de Affonso Uchôa, Temporada, de André Novais e No coração do mundo, de Maurílio Martins e Gabriel Martins, Baronesa, de Juliana Antunes e Baixo Centro, de Samuel Marotta e Ewerton Belico – que vale a leitura.

– A revista Rolling Stone publicou uma lista feita pela Associação Paulista dos Críticos de Arte com os 25 melhores discos de 2019 até agora.

– Indico a leitura da entrevista publicada pelo jornal Nexo com o escritor cubano Leonardo Padura sobre sua obra e o mercado editorial cubano.

– A Folha de São Paulo publicou uma reportagem na quarta-feira sobre os “cuidados” que os centros culturais e museus vêm tendo na abordagem na temática da ditadura. Vale conferir.

– Na semana em que a obra-prima de Miles Davis, Kind of Blue, completa 60 anos, sugiro a leitura da reportagem sobre a importância do disco, publicada na quinta-feira pelo Estado de São Paulo;

* Indicações culturais da semana:

documentário: Privacidade hackeada, do Netflix;

podcast: podcast da revista Quatro Cinco Um deste que aborda a inteligência artificial em uma entrevista com o escritor Daniel Galera, o feminismo na arte, com Lilia Schwarcz e Mariana Leme, ambas da equipe de curadoria do Masp, e a crise da segurança pública no Brasil, com os antropólogos Luiz Eduardo Soares e Gabriel Feltran;

música: na sexta-feira, Elza Soares lançou sua nova música, “Libertação”;

livro: Serotonina, de Michel Houellebecq (Alfaguara, 2019)

* Fernando Perlatto é um dos editores da Revista Escuta.