Rafael Betencourt*

“Os maiores problemas do mundo são resultado da diferença entre como a natureza funciona e como as pessoas pensam.” ( Gregory Bateson)

 

Em sete meses de governo o presidente Bolsonaro tem acumulado grandes intempéries para os admiradores da democracia e dos direitos humanos. Uma em particular traduz a urgência e desesperança  que o mundo todo sente ao acompanhar seu governo: o ataque às florestas.  O último embate político do presidente foi contra os dados científicos do INPE( Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que indicavam um aumento de 40% do desmatamento na Amazônia em relação ao ano passado. Nesse sentido, ao  desdenhar sistematicamente de ONGS que dedicam-se a proteção de ecossistemas florestais e  diminuir consideravelmente a potência de organismos como Funai e  Ibama na fiscalização e proteção de populações indígenas e das nossas florestas, o presidente mantém uma coerência ante  sua estupidez política da época de deputado.  No entanto, pretendo refletir aqui como um aspecto do movimento do bolsonarismo contra a natureza torna-se revelador em um cenário maior de uma crise cultural e civilizatória que todos enfrentamos. Para isso dois pressupostos são essenciais: o bolsonarismo não é algo de fora do campo civilizatório que nos ameaça, é parte constituinte de suas engrenagens culturais, e a polarização entre Bolsonarismo e a Floresta traduz uma tensão entre cultura ocidental e a maneira pela qual a natureza opera os processos de vida.

Diz-se que a evolução do homem foi um movimento também de separação dele com a natureza, o uso das ferramentas e a capacidade de “dominar” o mundo natural através da agricultura  seriam algumas das dinâmicas indicativas desse movimento. No entanto, tais certezas podem ser resultado da maneira de olhar para o mundo que a cultura ocidental produziu. Em diversos  âmbitos da nossa vida lidamos com outras certezas desta mesma forma cultural Nela nossa existência é hegemonicamente percebida através de uma ideia de separação. Nesse contexto, a nossa cultura é capaz de estabelecer certezas que permeiam grandes elementos de  nossa sociabilidade, influenciando na maneira pela qual nos pensamos como indivíduos e família, assim como como enxergamos e analisamos o mundo de uma forma geral.

Na sociabilidade do mundo ocidental prevalece a ideia de indivíduos atomizados, a consciência sobre si não é sistêmica e é limitada pela fronteira de um “eu” sem o outro. O capitalismo e as instituições da democracia liberal moderna são de alguma maneira causa e efeito dessa consciência e funcionam de acordo com a mesma lógica de individualidade extrema. Tal consciência é construída a partir da noção de que a vida é uma sucessão de escolhas pessoais( no máximo familiares),  sendo essas qualificadas e hierarquizadas de acordo com capacidades de consumo, trabalho e de produtividade. Identificar esse padrão de consciência não significa dizer que não houve uma pluralidade de influências em sua formação, ou que não exista nenhum tensão nas dinâmicas sociais regidas sob essa cultura. Aliás, é exatamente esse o ponto do bolsonarismo: ele representa o radicalismo da tensão entre um tipo de consciência moderna e uma percepção sistêmica dos processos de vida que operam no mundo natural. O sociólogo alemão Nobert Elias afirmou que a individualidade do ser humano é construída na interação e interdependência entre individuo e sociedade. Uma oposição complementar,  definida a partir de suas relações históricas, sociais e afetivas. Um debate que transparece a dificuldade de se fazer qualquer definição mais rígida, e que nutriu diversas disputas ideológicas no campo político ao longo da história, determinando uma miríade de formas de se organizar uma sociedade.

O ímpeto por individualizar dialoga com um imperativo cultural por definição de algo , quase sempre a partir da exclusão e separação de outra coisa. Zygmunt Bauman o relaciona a uma questão trazida pela modernidade: nosso imaginário é permeado pela necessidade de ordem, por uma ânsia classificatória que tende a destruir ambivalências e relações.  Já dizia Bauman: “ Classificar significa separar, segregar”. Na visão moderna de mundo, a existência é percebida em entidades distintas, separadas. Mesmo a ciência muitas vezes reflete essa primazia cultural ao estabelecer narrativas na lógica da separação. Toda nossa estrutura do conhecimento acaba por ser encaixotada em compartimentos chamados disciplinas, que projetam um mundo separado e não orgânico.

No entanto, se o mundo é das ambivalências e o contraditório está na essência de nossa cultura, a filosofia ocidental também foi capaz de produzir reflexões questionadoras dessa percepção moderna. O filósofo norte americano William Irwin Thompson é parte de um grupo interdisciplinar de pesquisadores que há algumas décadas advogam por uma visão sistêmica do conhecimento Ele afirma que a natureza é constituída por processos e não por objetos.Tudo está em relação, existe uma organicidade, uma interdependência entre seres e ambientes. O antropólogo inglês Gregory Bateson dizia que tudo que existe  está em relação com algo, logo nada pode ser definido sem ter em consideração sua função na relação com o sistema. Por exemplo, ao definirmos o que é uma árvore criamos uma categoria restrita sem perceber que parte de sua essência é pertencer a um processo sistêmico, nesse caso,  sua atuação no organismo “floresta”.

Recentemente, a pesquisadora canadense Suzanne Simard da Universidade de Bristish Columbia, tem avançado a passos largos na revelação de uma rede de comunicação e interdependência entre uma comunidade de arvores em uma floresta, principalmente através de suas raízes em conexão com uma rede de fungos. Na agricultura, o suíço Ernest Gotsch reivindica que plantamos comida há séculos de maneira contrária ao funcionamento sistêmico da natureza e de seus processos de vida. A  prática da monocultura seria  oposta à noção de uma agricultura de processos, onde uma policultura de espécies interagem estabelecendo relações  comunitárias funcionais. Novamente, a tensão entre relação e separação está também no centro dessas percepções.

Movimentos recentes de transformação da escola tradicional também trazem uma reflexão sistêmica sobre a aprendizagem  e a infância, afinal a escola ocupa uma posição de força na reprodução do padrão social individualista e competitivo de “todos contra todos”, interrompendo o desenvolvimento natural de relações comunitárias nas crianças. A escola desde  muito cedo  submete os pequenos a uma lógica de ordem e obediência, desvinculando o” aprender” da curiosidade e do autoconhecimento, criando classificações e dinâmicas de separação, e não de relação.  Não é a toa que muitos desses movimentos de transformação defendam a floresta como espaço de aprendizagem potente e a arte como força expressiva de autoconhecimento. Na arte tudo está em relação, é sua condição, uma pintura não é sobre a tinta na tela, nem tão pouco uma escultura é sobre o objecto e seu material, todas manifestações artísticas expressam sua relação com o artista, com uma ideia, um sentimento, com sua época e seu lugar. Quando uma criança deseja aprender algo, ela se aproxima da natureza, de sua natureza, os dois são partes do mesmo. O mundo natural não é algo estático, uma paisagem, ele está sempre em movimento. Uma floresta é um sistema em movimento contínuo, onde todos os seres são diferentes mas estão em relação,  cumprindo funções para o sistema se movimentar.

Retorno à questão do bolsonarismo e das suas políticas contrárias à floresta. Há na nossa cultura uma patologia da separação, que nos faz pagar um custo emocional grande  nos ambientes escolares, empresariais e sociais. Mesmo a construção histórica da ideia de “cidadania”, algo que ainda nos é tão caro, possui no seu gene um devir de separação, uma definição política que para existir necessita de se pensar quem não é cidadão.
O padrão da vida no planeta, por outro lado, é de conexão, não a partir de uma pretensa igualdade uniforme, mas  sim de uma sincronicidade multiforme, orgânica.  Bolsonarismo é parte extrema dessa patologia, ataca as relações, a partir do ódio a quem não pertence a seu limitado mundo de possibilidades, cria divisões. A patologia da separação é parte também de todos nós, logo o Bolsonarismo não é uma ameaça que vem de fora, mas é uma das possibilidades reais da nossa cultura.  O seu perigo está na sua disfuncionalidade sistêmica e no radicalismo  contrário aos processos de vida na natureza.

Torna-se simbólico, e diria quase inevitável, que o bolsonarismo ataque a importância das florestas, ou qualquer protagonismo do cuidado com os ecossistemas naturais. O modelo de interação ecológico das florestas contraria a estrutura social do bolsonarismo, seu radicalismo atenua a tensão entre a cultura ocidental e o mundo natural, aparece como um antagonismo destrutivo que precisa negar qualquer organicidade, destruir relações, para dar sentido a sua existência. Para nós resta abraçar a crise como oportunidade de transformação e de retorno ao que nos é natural: construir relações.

 

*Rafael Betencourt é formado em história pela PUC-RIO, mestre em história moderna e contemporânea pelo ISCTE de Lisboa, especialista em direitos humanos pela Universidade de Coimbra  e ducador dedicado às metodologias ativas de aprendizagem e às práticas de Floresta Escola. Colabora com a Escuta.

Fotografia de Ann-Marie John.