Por Fernando Perlatto*

A coluna “Escuta Recomenda” é publicada aos domingos, assinada por um dos editores da revista, Fernando Perlatto, com sugestões de leituras de textos de política e de cultura, publicados na imprensa ao longo da semana, além de indicações de livros.

Política

* Vazamento, The Intercept e Lava-Jato: A última semana foi dominada pelas repercussões políticas do vazamento das conversas divulgadas pelo site The Intercept Brasil, envolvendo o então juiz e atual Ministro da Justiça, Sergio Moro, e procuradores da Lava-Jato, em especial Deltan Dallagnol. Para além da publicação de duros editoriais do Estadão e da Folha – no caso do primeiro há o pedido aberto da renúncia de Moro e o afastamento dos procuradores: “Fariam bem o ministro e os procuradores envolvidos nesse escândalo, o primeiro, se renunciasse e, os outros, se se afastassem da força-tarefa, até que tudo se elucidasse”; no caso da Folha, há a ponderação sobre meios e fins: “Não é forçando limites da lei que se debela a corrupção. Quando o devido processo não é estritamente seguido, só a delinquência vence” –, diversos artigos foram publicados na imprensa buscando analisar a gravidade do conteúdo divulgado, bem como compreender os desdobramentos políticos do vazamento.

Dentre estes textos, destaco, em primeiro lugar, aquele publicado por Jorge Chaloub, logo na segunda, aqui mesmo na Revista Escuta, intitulado “O admirável mundo novo de Moro e Dallagnol”: “Quando juízes e promotores acham válido decidir contra a lei em razão de valores superiores e do seu próprio interesse, não estamos mais no direito democrático, mas na lógica da inquisição autoritária”. Também na segunda-feira, na Folha de São Paulo, Celso Rocha de Barros, em seu artigo “As conversas da Lava Jato”, destacou: “O fato é que a tese de que Lula não foi julgado dentro da normalidade jurídica ganhou força”. No site da Revista Época, no começo da semana, Conrado Hübner Mendes aponta para a corrupção de funções mais que evidente evidente do caso: “Houve corrupção de funções no maior processo de combate à corrupção da história do país. Se isso já não era claro, se isso ainda não está claro, quando estará?”.

Na quarta, na Folha, Augusto de Arruda Botelho, em artigo intitulado “A essência da justiça”, destacou ser este “o maior escândalo da história do Poder Judiciário” no Brasil: “A divulgação das conversas entre procuradores da Lava Lato e o então juiz Sergio Moro é o maior escândalo da história do Poder Judiciário em nosso país. Pelo Código de Processo Penal, várias fases da operação poderão ser anuladas e as condenações, revistas”. Também na quarta, Elio Gaspari publicou no Globo um dos artigos mais duros e diretos em relação às conversas de Moro com Dallagnol. Em texto chamado “Moro, pede pra sair”, o jornalista sentenciou: “em explicações, a presença dos dois nos seus cargos ofende a moral e o bom senso. No caso de Moro, ofende também a lei da gravidade. Ele entrou no governo amparando Jair Bolsonaro e agora depende de seu amparo. Se o capitão soltar, ele cai”.

Maria Ermínia Tavares de Almeida, na Folha, na quinta, em seu texto “Juízes e justiceiros”, também chamou a atenção para os riscos existentes para a democracia quando juízes se arvoram no papel de justiceiros: “Há demanda social e incentivo institucional para que juízes se transformem em justiceiros. Ao fazê-lo, correm sempre o risco de atropelar as leis que lhes cabem proteger”. Colunistas mais liberais como Reinaldo Azevedo e Demétrio Magnoli também fizeram questão de marcar posicionamento crítico às conversas divulgadas pelo The Intercept. Em texto publicado na Folha, na sexta, “Contra os missionários da destruição”, Azevedo destacou: “Cumpre ao Parlamento votar uma lei que puna efetivamente o abuso de autoridade para que os candidatos a Robespierres de nossas misérias não continuem a provocar estragos sob o pretexto de nos salvar das garras do mal”. Já em seu artigo “Não é sobre Lula ou Moro”, Magnoli chamou a atenção para o quanto o “conluio” de Moro com Dallagnol e os procuradores coloca riscos para a própria democracia: “O conluio de Sergio Moro com os procuradores coloca em risco o combate à corrupção — e, ainda pior, paira como nuvem de chumbo sobre nossa democracia”. Luis Francisco Carvalho Filho, na Folha, no sábado, em artigo chamado “Escândalos sobre escândalos”, destacou a perda de vestal da moralidade de Moro: “O vazamento da comunicação estreita entre Sergio Moro (juiz) e Deltan Dallagnol (procurador da República, parte acusadora no triângulo processual) cobre de desconfiança a imagem de bom-moço e o perfil técnico e provinciano do julgador.”

Em seu artigo publicado no sábado no jornal O Globo, Daniel Aarão Reis Filho também colocou em cheque o comportamento de Moro e dos procuradores da Lava Jato: “Não podem ser considerados normais procedimentos que atentam contra a ordem jurídica e os mais elementares princípios éticos e morais”. Em relação aos textos que saíram neste domingo, indico os artigos de Janio de Freitas e de Angela Alonso, publicados na Folha de São Paulo. Em texto intitulado “Delinquência múltipla”, Janio de Freitas chama a atenção para o fato de que as ações de Moro e dos procuradores só foi possível com a conivência de diversos outros atores, com destaque para a imprensa, o Supremo Tribunal Federal, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) e o procurador-geral Rodrigo Janot: “É preciso dizer que os atos delinquentes de Sergio Moro, Deltan Dallagnol e outros da Lava Jato só puderam multiplicar-se por contarem com o endosso de vozes e atitudes que deveriam eliminá-los. É preciso, pois, distribuir as responsabilidades anexas à delinquência, não pouco delinquentes elas mesmas”. Angela Alonso destaca aspecto semelhante em artigo publicado no caderno “Ilustríssima”: “Mídias tradicionais e alternativas (Mônica Bergamo lembrou os elogios de Glenn Greenwald à Lava Jato, em 2017), parcelas gordas das elites social e econômica, políticos, juristas e intelectuais trabalharam com afinco para tornar a novela moralizadora um estouro de público. A Lava Jato foi cantada em prosa, verso e série da Netflix”

* Governo Bolsonaro e a crise com os ministros: Como a semana foi quase toda dominada pela repercussão da divulgação do vazamento pelo site The Intercept, outros temas de grande relevância ficaram secundarizados. Esta foi a semana na qual o general Carlos Alberto Santos Cruz foi demitido por Bolsonaro, após divergências públicas com os filhos do presidente e com Olavo de Carvalho; foi a semana em que o ministro Paulo Guedes criticou o Congresso após o parecer da Reforma da Previdência e recebeu uma resposta do presidente da Câmara Rodrigo Maia, que chamou o governo de uma “usina de crises”; e foi a semana em que o mesmo Paulo Guedes assistiu Bolsonaro praticamente demitir publicamente o presidente do BNDES, Joaquim Levy. Sobre as crises do governo Bolsonaro e o enfraquecimento de Guedes, indico a leitura do artigo de Vinicius Torres Freire, publicado neste domingo na Folha, “Bolsonaro rebaixa os superministros”: “[Guedes e Moro] São príncipes transformados em plebeus da Esplanada dos Ministérios pelo caldeirão da política de Jair Bolsonaro, que tem intestinos envenenados, filé de serpente, pelo de morcego, língua de cão e múmias de feiticeiras, como o cozido das bruxas de Macbeth, mas não tem coalizão parlamentar. Fim”. Sobre o governo Bolsonaro, indico ainda a leitura do artigo de Leonardo Avrizter, publicado no jornal Nexo, “Os dilemas do outsider da direita brasileira na presidência”.

Indicação de leitura política da semana: artigo de Perry Anderson, intitulado “O Brasil de Bolsonaro”. Originalmente publicado na London Review of Books, o texto do historiador inglês foi traduzido e atualizado para a última edição da revista Novos Estudos Cebrap.

Leia o artigo de Perry Anderson em:

http://novosestudos.uol.com.br/

Cultura

* Indico a leitura de reportagem publicada neste domingo no caderno “Ilustríssima”, da Folha de São Paulo, com um levantamento que demonstra que a produção acadêmica na área das Ciências Humanas levou o Brasil à “elite da produção científica”.

Leia a reportagem em:

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/06/ciencias-humanas-levam-brasil-a-elite-da-producao-cientifica.shtml

* Nesta semana em que se comemorou o aniversário de João Gilberto, que completou 88 anos, a Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles, divulgou novamente um ótimo documentário, com músicas do compositor e depoimentos de músicos e especialistas.

Ouça o documentário sobre João Gilberto em:

https://radiobatuta.com.br/documentario/tim-tim-por-tim-tim-a-musica-de-joao-gilberto/

* O Nexo produziu um podcast que vale a pena ser ouvido sobre a obra do escritor israelense Amós Oz (1919-2018). O podcast apresenta entrevistas com o professor do Departamento de Letras Orientais da USP Luis S. Krausz e com o editor e tradutor do hebraico Paulo Geiger, que traduziu várias obras de Oz para o português.

Ouça o podcast sobre Amós Oz em:

https://www.nexojornal.com.br/podcast/2019/06/07/Como-come%C3%A7ar-a-ler-Am%C3%B3s-Oz

Indicação de leitura cultural da semana: O Jogo da Amarelinha (Julio Cortázar, nova edição, Companhia das Letras, 2019)