Joyce Louback*

 “E nossos sentimentos, os sentimentos que corriam e permaneciam dentro de cada um de nós nesses fins de tarde, eram sentimentos modernos, sem nenhuma outra história a não ser a nossa própria. E para nós, que éramos crianças, isso era o mesmo que não ter história. Tudo acontecia pela primeira vez”.

Karl Ove Knausgard, “A ilha da infância” (2016)

As memórias infantis do escritor norueguês Karl Ove Knausgard, fortemente vinculadas aos locais e rotinas próprias da vida privada de uma família escandinava de classe média, transitam entre a banalidade e o tédio de uma existência confortável, mas expõem os dramas característicos dos relacionamentos íntimos que, no seu caso, são marcados por alguma frieza e isolamento. Os sentimentos de menino, engendrados em um contexto absolutamente convencional, sem dúvidas, rementem e se confundem com o legado do welfare state nas sociedades nórdicas. A popularização de uma “utopia escandinava”[1], que vende para o resto do mundo o sucesso na educação, na economia e um estilo de vida baseado na organização, simplicidade e minimalismo, transformou o hygge em sinônimo de bem-estar, e países como Suécia e Noruega em modelos infalíveis de sucesso.

No último dia 5 de junho, em decisão inédita – ainda que tardia – o YouTube anunciou no blog oficial da plataforma sua nova política de combate à propagação de conteúdo nazista e demais “tópicos problemáticos”. O site comunicou aos usuários que a veiculação de vídeos que disseminem discursos de ódio contra grupos étnicos, etários, religiosos, entre outras minorias, será enfrentada com o banimento definitivo daqueles canais que divulgam tais ideias. Ainda que a regra demore algum tempo para ser efetivada, muitos vídeos já saíram do ar. Entre eles, destaca-se a desmonetização do canal de Nando Moura, um dos youtubers preferidos do presidente Jair Bolsonaro; e o desaparecimento do canal “Thulean Perspective”, propriedade de um certo Louis Cachet.

Cachet é mundialmente conhecido como Varg Vikernes, músico norueguês, líder da banda de Black Metal Burzum. A história de Vikernes conecta-se à explosão do neonazismo e da xenofobia na Noruega e, consequentemente, nos demais países escandinavos. Sob o signo do igualitarismo proporcionado pelos sistemas de bem-estar social, o Black Metal norueguês deu vazão à revolta juvenil contra o multiculturalismo e, sobretudo, o cristianismo. Mesmo distante de problemas econômicos e questões como a falta de perspectiva futura, a cena do metal extremo na Noruega desenvolveu uma contra-narrativa acerca da cultura do país, ancorada no paganismo, no resgate da ancestralidade e na estética da violência. Embora a leitura corrente sobre os sentidos das práticas e da produção desta vertente musical gire em torno da predileção pelo ocultismo, é fundamental situar a construção do Black Metal norueguês influenciado por uma ideologia essencialmente nacionalista.

Suicídio, assassinato, crime de homofobia e os famosos incêndios de igrejas históricas são os eventos mais emblemáticos perpetrados por jovens criados em uma sociedade marcada pelo discurso da estabilidade e da prosperidade. Vikernes esteve envolvido direta ou indiretamente em todos os atos citados. Em 1994, o inimigo público número um da Noruega foi condenado a 21 anos de prisão (pena máxima no país) pelo assassinato de Euronymous (Øystein Aarseth), líder da banda Mayhem e figura fundamental do cenário musical norueguês, e também foi responsabilizado pelos incêndios das igrejas[2]. Os desfechos brutais do Black Metal Norueguês engendraram uma nova vertente no estilo, o Black Metal Nacional Socialista, que arregimentou mundialmente jovens motivados por ideias elitistas de supremacia racial, cujas letras das músicas faziam referência aos costumes dos povos pagãos europeus e a uma permanente guerra cultural contra a moralidade ocidental capitalista e judaico-cristã.

Desde então, mesmo durante o cumprimento da pena, Varg Vikernes propagou sem grandes problemas, através das redes sociais, discursos de ódio através de artigos e livros sobre o paganismo e a cultura europeia, além de utilizar, mais recentemente, o YouTube como ferramenta fundamental para a disseminação de ideias discriminatórias. O já conhecido antissemitismo de Vikernes deu espaço à declarada rejeição aos imigrantes, especialmente aqueles de origem árabe/islâmica, ampliando o repertório de repulsa às religiões monoteístas e sua influência junto aos países europeus. Os textos publicados no site oficial de sua banda tratam o islamismo como uma praga a ser combatida, a fim de evitar o desaparecimento dos verdadeiros europeus, consequência óbvia da miscigenação.

Vikernes transformou o canal “Thulean Perspective” em um reality show da extrema direita. O músico mostrava a rotina da sua família, formada por sua esposa francesa e seis filhos, e apresentava desde os métodos utilizados nas aulas de homeschooling das crianças e técnicas de cultivo de permacultura, até monólogos em que disserta sobre o tipo de mulher ideal que deve ser escolhida para levar a cabo a missão de perpetuar a herança cultural e genética europeia.

Constantemente, Varg Vikernes discutia em seu canal os supostos problemas inerentes às democracias liberais, como é o exemplo da Noruega, em que o músico aponta a “farsa” do welfare state, sustentado por subsídios estatais combinados a altas taxas de impostos e custo de vida elevado. Consumismo, ambientalismo, socialismo, islamismo, judaísmo e cristianismo são algumas perspectivas veementemente rejeitadas por Varg em seu projeto supremacista branco. Cabe destacar que o canal “Thulean Perspective” contava com milhares de inscritos mundo afora (inclusive desfrutaa de uma boa audiência junto aos usuários brasileiros), os quais tinham em Varg um mentor intelectual que os orientava a reproduzir tais ensinamentos em seus países de origem.

Os avanços da extrema direita ao redor do mundo e a crítica ao consenso social-democrata são tensões vocalizadas no sucesso eleitoral de partidos vinculados ao movimento “alt-right” na Escandinávia e em regiões que não desfrutam do mesmo lastro de seguridade social dos países nórdicos. Ao que parece, a peça-chave para entender este fenômeno está no medo, seja das classes médias em perder para os imigrantes e refugiados não-europeus as benesses oferecidas pelo Estado, ou no temor em macular a historia cultural europeia com sangue “impuro”.

A vida de Varg Vikernes tornou-se livro, documentário e, mais recentemente, foi retratada no longa metragem “Lords of chaos” (Diretor: Jonas Åkerlund, 2018). O filme, que divide opiniões entre os fãs de Black Metal, apresenta um jovem Varg inseguro e violento, que utiliza símbolos nazistas como meros adornos para causar ojeriza em uma sociedade cristã e pacata. É curioso que o filme trata os atos extremos do Black Metal como resultado da conduta de jovens que perderam o controle das suas ações, as quais tomaram proporções gigantescas. Há, por parte da direção do filme, um desejo de humanizar aquele grupo de indivíduos, enfatizando suas relações pessoais e os conflitos inerentes à juventude. Esta abordagem diverge, sobremaneira, do tratamento legado pela mídia norueguesa e, posteriormente, mundial, que sempre explorou de maneira sensacionalista os sucessivos crimes ocorridos no país, e que classificou Varg Vikernes e os demais músicos como “psicopatas”, “monstros” e, principalmente, “satanistas”. Nos dois casos, as vinculações de tais figuras a uma agenda política neonazista são colocadas em segundo plano.

Enquanto o neonazismo é disseminado nas franjas de sociedades igualitárias, países como o Brasil ainda estão diante de um cenário nebuloso de reconhecimento da extrema direita e suas premissas. De certo, já se sabe do impacto dos canais do YouTube na popularização de fake news, teorias conspiratórias e demais conteúdos que flertam com a violência. A vitória eleitoral de candidaturas que podem ser vinculadas aos movimentos de extrema direita nos coloca perante de um desafio fundamental, que passa não somente pelo combate deste campo ideológico, mas também pela identificação e análise permanente das suas estratégias. Até agora, percebe-se que há certa dificuldade em atrelar determinados fatos políticos recentes ao avanço da extrema direita no país. Ao tratar direita e esquerda a partir de uma suposta equivalência, perdem-se de vista as ramificações profundas e dissimuladas que a nova direita já concebeu por aqui.

Na encruzilhada que estamos, ao sul e ao norte, talvez as frustrações ante o não cumprimento do ideal de vida boa prometida pelos regimes social-democratas, e o desejo de transgredir normas e padrões sociais estejam no cerne de um debate amplo sobre o esvaziamento dos regimes democráticos. Mais do que isso, no entanto, está a força cada vez maior dos discursos e narrativas pautadas pelo ódio. E, neste sentido, a produção da subjetividade está atravessada, fundamentalmente, por processos violentos e de formação de um pensamento marcado por alarmismo, generalizações e a construção de um inimigo comum a ser combatido. As micro-experiências autoritárias e a fragilização da convivência e do diálogo democrático expõem o subterrâneo das nossas sociedades, articuladas por acordos que obliteram seus conflitos mais profundos.

A responsabilidade histórica no momento presente transcende a dimensão política em sua esfera macrossocial e se impõe às dinâmicas pessoais e interpessoais mais costumeiras. Talvez, as resistências cotidianas frente à ofensiva da direita exijam de nós uma vigilância permanente para aquilo que há entre “o eu e o mundo, a capacidade de pensar e sentir” (…), perdidas em contextos clivados pelo fascismo.

Notas: 

[1] “The Almost Nearly Perfect People: Behind the Myth of the Scandinavian Utopia”, de Michal Booth (2016).

[2] Vikernes assassinou Euronymous com 23 facadas. O músico foi solto em 2009 por bom comportamento, ainda que em outubro de 2003 tenha tentado fugir da prisão em Oslo. Varg teria novamente problemas com a justiça em 2013, quando foi preso na França, país onde reside atualmente, sob a suspeita de planejar um ato terrorista em grande escala no país.  Vikernes estava sob investigação por ter recebido um manifesto escrito por Anders Behring Breivik, o terrorista responsável pela morte de 77 pessoas na Noruega, em 2011. Varg discute em seu site oficial as propostas do manifesto e reitera que a ação de Breivik foi inútil, uma que vitimou mais noruegueses inocentes do que muçulmanos.

Referências bibliográficas

ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. Anti-semitismo, Imperialismo Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

 

* Joyce Louback é doutora em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ), professora, além de colaboradora da Escuta.

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