João Martins Ladeira*

Vingadores: Ultimato flerta com a complexidade que ressuscitaria o blockbuster, mas suas pretensões são também sua desgraça.

 Já se repetiu bastante a ideia, atribuída a Spielberg, que enxergava nos super-heróis o substituto do faroeste. Existe aí algo de verdade, assim como de exagero – exatamente a mistura que define Vingadores: Ultimato (Avengers: Endgame, 2019, de Anthony e Joe Russo).

A estrutura do filme não desaponta. O mundo está em risco e os heróis irão salvá-lo. Seus feitos serão compatíveis com a tarefa. Há abnegação, sacrifício e morte, mas nem esse alto preço concede ao gênero a energia daquele que o teria antecedido.

Em tal filme – e na tradição recente da qual participa – as resoluções soam sempre falsas. Há um instante em que os Vingadores se unem, e bem poderia ser um daqueles momentos mágicos de John Ford, quando o povo se levanta.

No filme de 2012, vemos os heróis juntos durante a batalha de Nova York; em 2015, no confronto pela cidade flutuante. Contudo, é apenas um lampejo. Rapidamente, cada um segue sua direção, pois não parece haver grande justificativa para permanecerem muito tempo unidos.

Épicos passados

Com seu escudo destruído, o Capitão América (Chris Evans) se põe de pé para enfrentar Thanos (Josh Brolin) antes mesmo da chegada dos reforços. Isso prova sua coragem, mas não se compara à energia do bandoleiro, da prostituta e do bêbado de No Tempo das Diligências (Stagecoach, 1939, de John Ford).

Se todas aquelas explosões têm um efeito catártico bem curto, se a resolução da trama parece um exercício frio, é porque os Vingadores não se atrelam a nada, a não ser a eles mesmos.

Nenhum desses filmes tentou situar os heróis na crise política de nosso tempo, mas bem que poderiam. Como resultado, teríamos a imagem dessas criaturas como forças supranacionais. Seus poderes os sobrepõem às leis do Estado e às suas bombas atômicas. Nada os prende, tornando-os sós.

Aí está sua fraqueza. No fim, Thanos perde apenas porque não pode vencer. E a próxima escalação dos Vingadores bem poderia incluir a Capitã Marvel, o Homem Formiga ou o Chapolin Colorado.

O faroeste foi o épico da conquista da civilização, cujo mito importava graças à sua ingenuidade. Muitas combinações eram possíveis: diligências, bandidos, ferrovias, índios. Mas elas apenas escondiam fábulas situadas localizadas além da história.

Mas os Vingadores têm a pretensão de evoluir e se transformar. Seus superpoderes representam apenas parte da trama. Se um tema recorrente esteve nos dilemas pessoais desses personagens, isso se deve à constante tentativa de expressar sua humanidade.

Thor (Chris Hemsworth) se afunda em autopiedade disfarçada de alcoolismo; Hulk (Mark Ruffalo) descobre um meio de manter sua potência sem sacrificar a racionalidade; a Viúva Negra (Scarlett Johansson), assim como o Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), decidem pela própria destruição.

Nesses instantes, os personagens se deparam com ciclos, abrindo-se e fechando-se. Há dúzias de justificativas mercadológicas para tais roteiros, usualmente recorrendo à busca por narrativas intertextuais e intermináveis, evocando estratégias para produtos e outras ladainhas do tipo.

A complexidade do tempo

São apostas menos importantes do que o valor simbólico da obra. Não por acaso, a primeira metade de todos esses filmes contém tramas distantes das batalhas de videogame caras à conclusão. Tais enredos retiram os filmes do pedestal da epopeia, mergulhando-os na história.

Esses pseudodilemas surgem como resposta à obrigação autoimposta por uma complexidade dramática, presente nos supostos temas humanos contidos nos dilemas de Stark com sua família ou nas reflexões morais de Rogers.

Tal melodrama ornamenta algo que se poderia acusar de uma casca fria para alguns efeitos especiais. São pretensões que desconhecem seus limites – ou talvez os conheçam bem demais. Pois esse caminho conduz o filme a um tópico caro ao cinema moderno: o flerte com o tempo.

Banner é bem didático quando ironiza outros filmes que lidaram com o deslocamento entre passado, presente e futuro. O cientista nos elucida que, nessa viagem, o passado de alguém se torna seu futuro, enquanto o presente irá para o passado.

Se esse deslocamento cria outras linhas, tais trajetórias existem como acontecimentos isolados. Como o oposto de um efeito borboleta, produzem linhas distintas, em vidas que existem dentro de multiversos com dinâmicas próprias.

No Hulk, quase podemos escutar o Boris (Jean-Louis Trintignant) de L’homme qui ment (1968, de Alain Robbe-Grillet). Estariam Anthony e Joe Russo flertando com o cinema do tempo? Não, certamente. Mas o filme abandona uma ideia que bem poderia se tornar central.

Numa obra da Marvel, essa pretensão convence tanto quanto a imagem do sujeito que acha uma joia no cesto de roupa suja. A seriedade, todavia, permanece.

Becos sem saída?

Quando os heróis recaem no tempo, torna-se legítimo esperar que flertem com certas qualidades mais radicais. A primeira delas reside na mobilização de um paralelismo que adulterasse a condução do tempo, e, consequentemente, da própria ação.

Esse foi o caminho de outros filmes que, dissociando-se do fluxo contínuo, quebravam suas coordenadas usuais. Tal relação entre dimensões variadas implica uma virtuosidade como a de Christopher Nolan no seu “blockbuster de autor”. O caminho se encontra aberto, mas Anthony e Joe Russo preferem não o trilhar.

O que restaria também vale muita pouco. Parece difícil não se sentir satisfeito com o fato de metade das criaturas vivas do universo ter voltado de sua destruição. Mas Vingadores é tão empolgante quanto um jogo de xadrez. Decerto, não foi esse o drama que animou o cinema.

*João Martins Ladeira é professor e pesquisador em Comunicação. Colabora com a Escuta.