Jorge Chaloub*

Josué Medeiros**

Uma recente reportagem sobre o narrador Januário de Oliveira não apenas relembrou expressões e personagens do futebol carioca dos anos 1990, como expôs os traços de um passado que não existe mais. Responsável por alguns dos maiores bordões da nossa imprensa esportiva – como “taí o que você queria!”, “tá lá um corpo estendido no chão!”, “acabou o milho, acabou a pipoca, fim de papo!” – Januário é símbolo de um outro futebol. Não estamos apenas diante de uma mudança nos padrões da transmissão televisiva, mas também de uma distinta lógica do esporte.

 

“É disso, é disso, que o povo gosta!”

Januário narrava um mundo habitado por heróis improváveis – “Super” Ézio, Túlio “Maravilha”, Sávio “Anjo Louro” e Valdir “Bigode” –  cuja graça estava bem além das habilidades do jogador. Esta é, aliás, a maior virtude desse modo de ver o futebol: a clara ideia de que não estamos apenas diante de um esporte onde 22 jogadores correm atrás da bola para coloca-la dentro do gol. Esse futebol “encantado”, que transborda ao próprio jogo, era incomparavelmente mais rico em emoções, narrativas e imagens, mesmo que as mesmas ocorressem no gramado ruim de Conselheiro Galvão ou Moça Bonita.

Ao comparar o futebol com outros esportes, José Miguel Wisnik via como marca do velho esporte bretão a limitação do placar enquanto instrumento de descrição do jogo. No basquete, vôlei ou futebol americano, o resultado dá uma boa ideia de como a partida transcorreu, ao passo que no futebol cada 0x0 ou 2×1 podem encobrir as mais diversas histórias. Outra característica distintiva é a importância do lance isolado, capaz de dar vitórias a times mais fracos e consagrar jogadores menos talentosos ou habilidosos. Essas feições dão ao espectador uma ampla possibilidade de criar narrativas e construir personagens, ou seja, de pensar o futebol como expressão de algo além das quatro linhas.

Figuras com Nelson Rodrigues, João Saldanha e Mário Filho perceberam esse potencial dramatúrgico, a partir do qual fizeram do futebol matéria de grandes textos. Um indiscutível gênio, Nelson já então clamava contra os “idiotas da objetividade”, que ao não conseguirem ver o que ultrapassava o futebol, eram incapazes de compreendê-lo. Para provável tristeza do cronista tricolor, eles venceram, mas ao menos tiveram a gentileza de não o obrigar a presenciar esse triunfo.

 

 “Cruel, muito cruel…”

As últimas décadas presenciaram a completa hegemonia de uma maneira de ver futebol definida pelo vocabulário do empreendedorismo e por uma concepção de sociedade de profundos traços conservadores. Antes da emergência de um governo de direita radical, organizado a partir das linguagens neoliberais e neoconservadoras, fomos longamente expostos a transmissões televisivas que saudavam como maior virtude o “profissionalismo” de jogadores e clubes, criticavam o “jeitinho brasileiro” e comemoravam “a festa da família brasileira”. Luís Roberto, narrador da Globo do Rio, surge como modelo dessa visão de mundo e futebol, mas a questão vai além.

Na década de 1990, a Band de Januário – “o canal do esporte” – é desbancada pela Globo do Galvão. O futebol, produto central da emissora dos Marinho, precisava ser higienizado (a chamada “modernização”), algo similar ao que ocorreu na Inglaterra com Margaret Thatcher nos anos 1980: a “justa” fórmula dos pontos corridos, o absurdo horário das 21:45, o criminoso monopólio sobre a seleção, a cirúrgica distribuição de patrocínios entre os clubes. As novas “arenas”, onde as “famílias” usufruem seus direitos de consumidoras do espetáculo, são a representação física desse processo. O império do sócio torcedor consagra, por sua vez, novos padrões da relação entre torcedor e time, no qual a fidelidade é medida pela capacidade de dispender dinheiro e tempo. Contra o “vândalo” das organizadas, emerge o correto pagador de boletos. As justificativas foram cautelosamente construídas nos milhares de horas dos programas esportivos. Figuras como Januário – ou José Trajano da ESPN – foram dando passagem a uma nova leva de especialistas em tática e gestão. No atual cenário, resta ao rádio o cultivo, absolutamente periférico e geracionalmente limitado, desse outro olhar.

Por outro lado, temos a presença cada vez mais forte do futebol europeu em nossa vida, com a franca popularização de campeonatos nacionais, copas locais e da Liga dos Campeões da Europa. Já há algumas décadas secundários no mercado mundial dos times de futebol, por nosso lugar periférico e papel como país exportador de talentos, agora nos defrontamos com a possibilidade ver os principais jogadores do mundo, dentre os quais os nossos, com uma facilidade cada vez maior. A combinação entre uma experiência de futebol, dentro e fora do estádio, cada vez mais desinteressante e a positiva possibilidade de acompanhar o futebol europeu tem direta relação com o crescente número de torcedores de times europeus no Brasil. Em breve, se não já agora, veremos Barcelona, Real Madrid e Manchester United como os times populares no Brasil.

 

Reencantar o futebol: “Olhos nos olhos, se passar fica na boa”

As saídas, contudo, não passam por um retorno saudosista do passado. Não é pelo niilismo do “ódio ao futebol moderno” que reencontraremos algum caminho. No mundo de Januário já cresciam algumas das ervas daninhas responsáveis pelas mazelas contemporâneas do nosso futebol, como a estrutura oligárquica de clubes e federações, que tornam as imensas massas de torcedores devedores de velhos sócios proprietários. Frequentemente são algumas poucas famílias que, desarticuladas e dotadas de uma limitada visão do futebol, acabam prisioneiras de uma organização onde apenas a Globo se beneficia. A negação das virtudes do futebol europeu, em isolacionismo infantil, e o elogio da precariedade, como se gramado ruim fosse responsável pelas virtudes de outrora, tampouco são positivas. Assim como comentaristas incapazes de ver o jogo, e presos a lugares comuns, também contribuem para nossa miséria futebolística contemporânea.

O retorno ao mundo de Januário pode, entretanto, apontar meios para possíveis reinvenções. Não mais estávamos nas décadas encantadas do futebol brasileiro e já víamos, mesmo que em menor escala, nossos melhores jogadores tomarem o caminho do aeroporto. Ainda assim o futebol brasileiro era diferente.  Se mesmo “a mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana”, como dizia Nelson Rodrigues, aqueles jogos em estádios acanhados sem dúvida expunham com maior clareza essas nuances. A questão não passava pelo “nível técnico”, mas estava sobretudo no modo de ver e viver o jogo. Algo que perdemos, mas que pode ser reinventado.

Uma hipótese a ser explorada é vincular o encantamento que transborda na emoção de um Januário de Oliveira com dinâmicas comunitárias ainda presentes no futebol brasileiro do final do século XX. Se esta relação faz algum sentido, o caminho para reencantar a nossa paixão nacional já existe em potência na base da sociedade futebolística e peladeira, que segue costurando a paixão no cotidiano dos campos e quadros Brasil a fora. Trata-se, portanto, de conferir centralidade à luta pela democratização da estrutura do nosso futebol. Se a era do Sócio-Torcedor hoje vigora, que eles tenham direito a voto nas eleições dos clubes, e possam compor os conselhos gestores. Se as arenas não serão demolidas, é fundamental brigar pela criação de espaços populares, sem cadeiras, com preços acessíveis e com a presença de bandeiras, baterias, balões e fumaça. A atual diretoria do Bahia, por exemplo, vem dando seguidos exemplos de valorização da paixão futebolística (promovendo uma cultura de estádio popular e homenageando lideranças populares em datas marcantes), o que provavelmente se relaciona com um processo de mobilização da torcida, que derrubou a diretoria anterior.

“Eu vi, eu vi”, gritava Januário para registrar um lance que supostamente apenas ele percebeu. Rever o saudoso narrador – hoje cego –  na já mencionada reportagem foi um alento. E uma certeza de que, quando voltarmos a melhores tempos, ele gritará novamente “Escancarou, escancarou legal”, para comemorar conosco mais um gol.

*Jorge Chaloub é um dos editores da Escuta.

**Josué Medeiros é professor da UFRJ e colaborador da Escuta.

Imagem do Museu Aeroespacial.

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