João Dulci*

Às 18h53 do dia 30, o jornal O Globo subiu a manchete “Dia 30 foi menor: nas redes, protesto pela educação tem metade do impacto registrado no dia 15”. A reportagem, baseada num estudo da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da FGV, analisa as postagens no Facebook e no Twitter sobre os protestos do dia 30 de maio, em comparação com os atos dos dias 15 e 26 de maio. Apresenta alguns números, todos de alta grandeza, da pesquisa conduzida por Lucas Calil, pesquisador da Diretoria. Em suma, a conclusão do estudo é de que os atos do dia 30 provocaram menor comoção do que os dois anteriores, considerando apoiadores e opositores.

No g1.com, site de cunho mais abrangente e com linguagem mais popular do que o jornal que reproduz em suas páginas um viés muito carioca da realidade nacional, a manchete era mais neutra: “Cidades brasileiras registram atos em defesa da educação”. Na Folha de São Paulo, “Estudantes e MEC medem forças em segundo dia de protestos” era a chamada para a reportagem da TV Folha. Na versão impressa da edição nacional do Estadão, nenhuma imagem dos protestos ganhou espaço na primeira página, que preferiu dar maior destaque à queda do PIB, com uma imagem do encontro de Pelé e Obama. Uma chamada lateral trata dos atos do dia 30.

As manchetes de jornais e sites são apenas um indicativo de uma torta visão sobre democracia, que foi reproduzida nas preocupações de muitos militantes no dia 30: será que hoje vai ser maior do que dia 26 (pró-governo)? Desde as maiores manifestações populares pró e contra o impeachment de Dilma Rousseff, essa disputa quantitativa das ruas ganhou força. A lógica seria muito clara (e simplória): quem colocar mais gente nas ruas vence. Quem tiver mais apoio detém a razão. Seria mais ou menos como pensar: quem tiver mais votos vence as eleições, ou quem comer mais cachorros quentes é o melhor glutão. Mistura-se quantidade com qualidade, ignorando alguns princípios razoáveis da democracia e do regime presidencialista em que vivemos. É óbvio que um protesto a favor da pena de morte com 2 pessoas deve ser relegado ao esquecimento, mas um protesto contra as medidas do governo para a educação com mais de um milhão de pessoas não pode ter o mesmo destino. Trata-se de respeitar a vontade da minoria (?), algo que ainda se deve presar, contanto que a minoria represente alguma coisa razoável.

Dizia um italiano que, durante as campanhas, defende-se as bandeiras ideológicas da sua base de apoio. Quando se chega ao poder, há que se convencer a população que as bandeiras ideológicas da base de apoio são as bandeiras de todos. Quando não se consegue isso, tem-se um país dividido.

Durante muitos anos, parte da imprensa citada acima dizia que o então presidente Lula deveria sair do palanque e governar. Algo análogo é proferido hoje, quando muitos dizem que o presidente Bolsonaro deve sair do Twitter e governar. Em ambos os casos, por razões distintas, sente-se uma lacuna de ações da parte dos governantes, em parte apontada por um desejo dos presidentes de falar apenas à sua base, sem conseguir convencer a população que a vontade de sua base é a vontade geral da população.

Se quando Lula venceu pela primeira vez, em 2002, “unir” o povo brasileiro em torno de causas comuns já era difícil, fazê-lo no atual momento parece ainda mais complicado. Tudo fica muito mais difícil quando não se busca fazê-lo. Lula achou uma agenda comum, de pouca resistência à época, que era a do combate à pobreza extrema. Bolsonaro achou por bem que a agenda comum da população brasileira é o combate ao comunismo, ao estatismo, à ilustração, ao conhecimento formal e ao campo científico. Sua estratégia parece cada vez mais clara: calar posições contrárias às suas, já que elas não merecem consideração. Parte para uma estratégia estranha em que, ao invés de combater os argumentos dos seus críticos, legitimando sua posição democrática como oposição, decide que essa oposição não deveria existir. Suas armas são uma caneta BIC, um guarda-chuva, uma câmera de resolução intermitente, e sua capacidade de conversar com os cidadãos de bem. Mobiliza uma gramática simbólica e material que toca fundo num tipo muito específico de brasileiro. Este reage em apoio, likes, views. Nada do que sai da presidência da república tem menos de um milhão de views ou compartilhamentos. Muitos desses views, no entanto, vêm da oposição, que Bolsonaro sonha em destruir.

A mais recente cartada do presidente foi buscar um pacto entre os três poderes, de modo que ele possa governar com mais tranquilidade, unindo Supremo e Congresso, busca suplantar a oposição e pautar uma agenda mínima que não lhe crie problemas pequenos. Com sua base de apoio, pequenos problemas têm se tornado enormes tsunamis, e toda semana é árdua para ele. Os fios do novelo bolsonarista parecem cabelos com pontas duplas em propagandas de condicionador, ou pisca-piscas de natal que ficam guardados por um ano para serem desembolados durante dois ou três dias até que se consiga pendurá-los nas árvores. Isso quando ainda funcionam.

Porém, Bolsonaro ainda consegue desembolar seus pisca-piscas e mobilizar milhões de pessoas em torno de sua figura. As manifestações em apoio às suas medidas, sejam elas quais forem, são relevantes, o que significa que sua agenda ainda pauta muito do imaginário popular brasileiro. Mais recentemente, encontrou no ministro da educação um bom seguidor de suas estratégias. Alguém disposto a gravar um vídeo com um guarda aberto em local fechado, dizendo que está chovendo fake News no ministério da educação, enquanto publica uma portaria autoritária proibindo a liberdade de expressão e de manifestação entre pais, alunos e professores. Sua medida seria mais ou menos como se eu escrevesse no meu prédio uma proibição às festas que acontecem na casa da frente. Elas podem me atrapalhar de estudar, mas não tenho nenhum poder legal para proibi-las, a menos que firam alguma lei. Pais e filhos conversarem, a menos que seja um plano criminoso para lavagem de dinheiro ou algo assim, não configura crime, mesmo que isso doa no coração sempre brincalhão do nosso ministro. Aliás, o cargo de ministro da educação parece cada vez mais com o posto de técnico de futebol: todos os ministros são interinos, até que se prove o contrário. O atual, apesar de seu alinhamento cego e de seu robusto currículo, melhor que o de seus 15 antecessores, não parece sólido o suficiente para manter-se até o final do mandato presidencial, embora eu possa me enganar daqui a três anos e meio.

O alinhamento do ministro, as falas do presidente, o pacto entre os poderes e as manchetes de jornais têm algo em comum, como já adiantei, que é a simbologia de se calar de vez a oposição. A tentativa de optar pela imposição ao convencimento. A garantia do presidente, de que a caneta francesa produzida na Zona Franca de Manaus, num arroubo demagógico de alta grandeza, já que a presidência da República lhe permite possuir uma Mont Blanc, por exemplo, é uma ameaça que passa batido pelo escudo popularesco. Ele não estava ali dizendo que usa a mesma caneta que eu, ou que muitos dos meus alunos. Estava dizendo que com uma caneta que custa menos de R$1,00 ele pode assinar decretos que alterem totalmente a vida das pessoas. Decretos esses que, uma vez assinados, têm que ser derrubados pelas vias legais. Ou seja, ele está colocando numa parábola bem construída, algo raro para o seu histórico, que não adianta espernear nas ruas. O poder é dele, como crê. Inclusive o poder para ignorar milhões de pessoas nas ruas, porque considera que apenas a sua base de apoio, por ter vencido as eleições presidenciais, possui legitimidade para propor, debater, se posicionar.

A democracia não pode funcionar assim. O espírito do Ame-o ou deixe-o, um bordão que antecipou o raciocínio binário das redes virtuais, nos mesmos moldes do adapte-se ou seu caminho é o aeroporto ou a ponta da praia, é um espírito, e aqui é preciso dizer, autoritário. O espírito de medir as manifestações do dia 30 pela régua do dia 26 contaria muito se estivéssemos num permanente plebiscito em que, quando o apoio ao presidente, seja ele quem for, caísse para menos de 50% da população, tchau, querido. As eleições acabaram, mas muitos ainda estão nos palanques ou nos divãs tratando dela. Quando o presidente Bolsonaro venceu, seu discurso e sua postura deveria ter se acalmado, para que pudesse, como ele mesmo diz em lives e áudios de whats app, cuidar dos problemas do Brasil. Não são poucos, e a educação é um deles. Ao optar pelo guarda-chuva, por perseguir professores e por pautar a lógica da supressão de poderes e da aniquilação, impõe ao país um clima de permanente plebiscito. Em cinco meses completados de governo, usa as armas que usava para vencer o pleito de outubro passado. Parece guiado por uma fala de Dilma Rousseff, quando disse que nas eleições valia tudo, mas o vale tudo não acaba com a divulgação dos resultados. Governos precisam de certa serenidade para funcionar. Precisam de tranquilidade institucional. Quando milhões de pessoas saem às ruas, não querem necessariamente o fim dos governos, mas querem marcar uma posição, que deve ser considerada. No último dia 30, a defesa da educação ante as graves ameaças e os profundos cortes que sofreu. Nos próximos dias podem ser outras posições, mais drásticas até, já que o atual mandatário não reconhece a legitimidade dos derrotados. Derrotados, aliás, que crescem diariamente no país.

João Dulci é Doutor em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e e Políticos (IESP-UERJ) e Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Colabora com a Escuta.

** Crédito da imagem: Cuca da UNE. <https://horadopovo.org.br/30-de-maio-estudantes-voltam-as-ruas-contra-os-cortes-de-bolsonaro/&gt;. Acesso em: 03 de jun. 2019.