Por Fernando Perlatto*

A coluna “Escuta Recomenda” é publicada aos domingos, assinada por um dos editores da revista, Fernando Perlatto, com sugestões de leituras de textos de política e de cultura, publicados na imprensa ao longo da semana, além de indicações de livros.

Política

* A semana que passou foi marcada pela repercussão das manifestações que ocorreram no último domingo, dia 26, favoráveis ao governo Bolsonaro. Vários artigos foram publicados na imprensa buscando compreender suas principais características e seus impactos sobre a dinâmica da conjuntura política brasileira. Um aspecto importante a ser destacado é que, a despeito de as manifestações não terem sido grandiosas, frustrando a expectativa de seus organizadores, elas evidenciaram que o bolsonarismo, este segmento que compõe a extrema-direita mais radical, possui uma base social relevante, com poder de ocupação das ruas.

– Entre os textos publicados na imprensa sobre as manifestações, indico a leitura do artigo na revista Piauí, de José Roberto de Toledo, “2019 não virou 1961”: “Pela primeira vez deu para ver a olho nu o resultado das pesquisas de opinião: há mais brasileiros achando o governo Bolsonaro ruim ou péssimo do que bom ou ótimo”. Celso Rocha de Barros, na segunda, na Folha, em texto intitulado “Ustrapalooza, destacou: “Os protestos não foram grandes o suficiente para pressionar o Congresso, ou para servir de ponto de partida para o golpe com que sonham os bolsonaristas. Mas tampouco foram pequenas o suficiente para que Bolsonaro se conforme com a necessidade de respeitar as instituições e comece a dar expediente como chefe do Poder Executivo”. Fábio Zanini, no blog “Saída pela direita”, também na segunda, chamou a atenção para o foco dos protestos ter se direcionado para o chamado “centrão” e setores da direita que não aderiram aos protestos: “O centrão, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), os ministros do STF e o MBL (Movimento Brasil Livre) tomaram o lugar que durante muito tempo foi ocupado por Lula, Fernando Haddad ou Gleisi Hoffmann”. Bernardo Mello Franco, no jornal O Globo, na terça, em seu texto “O coro dos contentes” explicitou com clareza as contradições do apoio do governo às manifestações: “O estímulo aos protestos a favor foi uma aposta arriscada. Jair Bolsonaro quis demonstrar força e emparedar o Congresso e o Supremo, que ele enxerga como obstáculos ao poder presidencial. A primeira meta foi cumprida. Apesar das dissidências na direita, as marchas provaram que ainda há muita gente disposta a sair de casa para reverenciar o ‘Mito’. A segunda é mais questionável. Ao atacar o presidente da Câmara e os deputados do centrão, o bolsonarismo hostilizou personagens que decidirão o sucesso ou o fracasso das reformas”.  Maria Hermínia Tavares de Almeida, na quinta, na Folha, em seu texto “A rua e o povo”, analisou a generalização que o governo faz da ideia de “povo”, a partir daqueles que ocuparam as ruas no domingo: “O “povo” de Bolsonaro pode ocupar avenidas, mas é minoria da população. Como dois mais dois são quatro, governar voltado para ela e em seu nome é receita perfeita de crise política”. Jorge Chaloub, na Revista Escuta, na segunda, publicou um texto com o título “Alguns momentos na manifestação bolsonarista”, no qual destaca: “Para além do debate sobre a dimensão das manifestações, e da evidência de que elas foram menores dos que as do último dia 15, é assustador para a democracia brasileira a existência de tantos cidadãos dispostos a ir à rua para suprimi-la”

Leia o artigo de José Roberto Toledo em:

https://piaui.folha.uol.com.br/2019-nao-virou-1961/

Leia o artigo de Fábio Zanini em:

https://saidapeladireita.blogfolha.uol.com.br/2019/05/26/na-paulista-manifestantes-esquecem-o-pt-e-escancaram-o-racha-na-direita/

Leia o artigo de Bernardo Mello Franco em:

https://blogs.oglobo.globo.com/bernardo-mello-franco/post/ato-pro-bolsonaro-produziu-um-instantaneo-do-nosso-tempo.html

Leia o artigo de Maria Hermínia Tavares de Almeida em:

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/maria-herminia-tavares-de-almeida/2019/05/a-rua-e-o-povo.shtml

Leia o artigo de Jorge Chaloub:

https://revistaescuta.wordpress.com/2019/05/27/alguns-momentos-na-manifestacao-bolsonarista/

* Na sequência das manifestações de domingo, o presidente Jair Bolsonaro convocou os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, bem como o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, para a construção de um “pacto” em torno das reformas. Vários artigos foram publicados na imprensa criticando a ideia do “pacto”, destacando-se em especial o enorme absurdo do presidente do STF participar de uma composição como esta, tendo-se em vista que várias das reformas propostas, com destaque para a previdência, seguramente serão judicializadas e serão decididas no âmbito do STF.

– Dentre os artigos publicados na imprensa sobre o “pacto”, indico o texto de Vinicius Torres Freire, na Folha, na quarta, “Corra para a luz, Bolsonaro”: “O presidente do Supremo Tribunal Federal não pode subscrever um projeto político, por mais meritório que pareça. (…). Os presidentes da Câmara e do Senado também não podem subscrever um programa em nome das casas legislativas. Podem fazê-lo como o deputado ‘x’ e como o senador ‘y’ como lideranças partidárias que receberam delegação para tanto”. Reinado Azevedo, também na Folha, na sexta, destacou: “Estamos obviamente diante de um entendimento prejudicado do que é o regime democrático e do que significa a independência entre os três Poderes”. Já Demétrio Magnoli, na Folha, no sábado, em texto intitulado “Nossa Moncloa de mentira”, criticou o “pacto” e o comparou com aquele realizado na Espanha no final dos anos 1970, que garantiu o processo de transição da ditadura à democracia: “Partidos têm o direito de firmar pactos, pois representam seus eleitores. Poderes não têm esse direito, pois suas prerrogativas estão limitadas ao que prescreve a legislação. (…). O pacto espanhol de 1977 nasceu da necessidade de enterrar uma ditadura de quatro décadas. O esboço de pacto brasileiro emana de manifestações governistas que clamaram pelo fechamento do Congresso e do STF. A Moncloa deles orientava-se pela bússola da democracia; a nossa reaviva o discurso autoritário da “harmonia entre Poderes” para anular os contrapesos institucionais ao Executivo”.

Leia o artigo de Vinicius Torres Freire em:

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/viniciustorres/2019/05/corra-para-a-luz-bolsonaro.shtml

Leia o artigo de Reinado Azevedo em:

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/reinaldoazevedo/2019/05/os-pactos-do-barulho-e-do-silencio.shtml

Leia o artigo de Demétrio Magnoli em:

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/demetriomagnoli/2019/06/nossa-moncloa-de-mentira.shtml

* Outra temática que recebeu atenção da imprensa ao longo da última semana – embora não com a centralidade que devesse receber pela sua importância – foi o massacre que ocorreu nos presídios de Manaus. Apesar de diversos estudos evidenciarem a falência da política de encarceramento no Brasil – o país tem taxa de aprisionamento superior à maioria dos países do mundo, além de ter um contingente gigantesco de presos provisórios, sobretudo de pobres, jovens e negros –, as políticas do atual governo voltadas para a segurança pública, sobretudo aquelas direcionadas ao enfrentamento da questão das drogas, tenderão a agravar ainda mais os problemas hoje existentes. Há que se lembrar nesse sentido que nesta mesma semana, o Ministro da Cidadania, Osmar Terra, disse não confiar em pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), sobre uso de drogas pela população brasileira, que indica que não viveríamos uma epidemia de uso de drogas, como defende o governo, com o intiuito de legitimar sua agenda repressiva.

–  Em relação ao massacre ocorrido nos presídios de Manaus, indico o texto de Marcos Fuchs, diretor adjunto da Conectas Direitos Humanos, publicado na terça, na Folha: “A taxa de mortalidade intencional dentro do sistema penitenciário brasileiro é altíssima. Segundo o próprio Ministério da Justiça, uma pessoa que está presa tem seis vezes mais chances de morrer do que uma pessoa fora das cadeias. É inadmissível que o poder público seja incapaz de garantir a vida e a integridade física de pessoas sob sua custódia e de oferecer condições dignas para o cumprimento da pena”. Aproveito também para compartilhar a pesquisa realizada pela Fiocruz, que foi divulgada na íntegra pelo site do The Intercept Brasil:

Leia o artigo de Marcos Fuchs em:

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/05/poder-publico-e-incapaz-de-garantir-a-vida-daqueles-sob-sua-custodia.shtml

Leia a pesquisa da Fiocruz em:

https://theintercept.com/2019/05/31/estudo-drogas-integra/

* Outro fato importante acontecido na semana foi a manifestação em defesa da educação e contra os cortes do governo federal que ocorreu na quinta, dia 30. Ainda que os protestos não tenham sido tão grandes quanto aqueles que ocorreram no dia 15/05, eles foram consideráveis em termos quantitativos, e evidenciaram a força do movimento estudantil como ator relevante na disputa política na atual conjuntura política brasileira. A maior prova desta força foi a manifestação do Ministro da Educação, Abraham Weintraub, que, após a divulgação de um dos vídeos mais constrangedores da história da política brasileira – no qual ele aparece com um guarda-chuva ao som de “Singing in the rain” –, proibiu professores de divulgarem protestos.

– Entre os textos publicados sobre o protesto e a reação do ministro, destaco o artigo de Artigo de Bruno Boghossian na Folha, de sexta: “Além de inócuo, o texto mostrou o delírio totalitário de governantes que gostariam de ter controle até sobre as famílias dos estudantes”. Destaco também o artigo de Alexandre Mendes, “Só a educação destrói mitos”, publicado na sexta na Revista Escuta. Ainda sobre a temática da educação e dos enfrentamentos que têm sido feitos contra as universidades públicas, indico a leitura do texto do Reitor da Unicamp, Marcelo Knobel, publicado na Folha, no sábado, contra a cobrança de mensalidades nas instituições públicas de ensino superior: “Que elas [as universidades públicas] precisam aprimorar sua governança e gestão, e enfrentar dificuldades de financiamento decorrentes da crise econômica sem precedentes, é certo. Errado é propor soluções simplistas, demagógicas e sem fundamento nos fatos, que podem pôr a perder também esse patrimônio nacional.

Leia o artigo de Bruno Boghossian em:

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/bruno-boghossian/2019/05/ministro-reage-a-protestos-com-delirio-totalitario-e-perseguicao.shtml

Leia o artigo de Alexandre Mendes em:

https://revistaescuta.wordpress.com/2019/05/31/so-a-educacao-destroi-mitos/

Leia o artigo de Marcelo Knobel em:

https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2019/06/as-universidades-publicas-deveriam-cobrar-mensalidade-dos-alunos-mais-ricos-nao.shtml

* No que concerne à política internacional, um dos acontecimentos mais relevantes da semana foi a eleição para o Parlamento Europeu. Ainda que os partidos de extrema-direita, sobretudo aqueles portadores de uma retórica nacionalista e anti-europeia, tenham tido bons resultados, as legendas pró-União Europeia conseguiram sair vencedoras. Um destaque importante nesse sentido foi o crescimento dos Verdes, que vêm se fortalecendo em tempos recentes, principalmente entre a juventude europeia.

– Sobre as eleições para o Parlamento Europeu, sugiro a leitura do artigo de Mathias Alencastro, para a Folha, na segunda: “Hoje, a simples possibilidade de as instituições liberais se reinventarem é vista como miragem. Mas o resultado de ontem mostra que a utopia europeia, idealizada por seus pais fundadores no pós-guerra, tem tudo para sobreviver à onda populista”. Indico também o artigo “Um triunfo tão perto do desastre”, do escritor José Eduardo Agualusa, publicado no sábado no jornal O Globo, que discute o crescimento dos Verdes: “O triunfo dos Verdes no seio da União Europeia é, ao menos em parte, consequência direta do despertar da juventude para a causa ambiental. Nos últimos meses, a principal novidade política, na Europa e no mundo, foram as grandes manifestações de estudantes, em milhares de cidades, um pouco por todo o planeta, em defesa do clima e da preservação da vida e da sua diversidade, num movimento não partidário criado por uma jovem sueca, Greta Thunberg, de apenas 16 anos”

Leia o artigo de Mathias Alencastro em:

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/mathias-alencastro/2019/05/apesar-de-avanco-dos-iliberais-europa-deve-sobreviver-a-onda-populista.shtml

Leia o artigo de José Eduardo Agualusa em:

https://oglobo.globo.com/cultura/um-triunfo-tao-perto-do-desastre-23711069

Indicação de livro de política na semana:  nesta semana, a indicação não será de um livro, mas do volume 8, do Journal of Democracy, lançado neste mês. Esta revista conta com vários artigos interessantes. Destaco especialmente os textos “O que aconteceu com as democracias da terceira onda?”, de Scott Mainwaring e Fernando Bizzarro, e “A gênese de 2013: formação do campo patriota”, de Angela Alonso.

Leia a revista Journal of Democracy em:

http://www.plataformademocratica.org/Arquivos/JD-v8_n1_05_A_genese_de_2013.pdf?fbclid=IwAR1FFQxdnMH3aNbWVdbjzG5AWJG9u-9ZDqGsdBob5lfLbCFx90s0I9TCy4c

Cultura

* Indico nesta semana a leitura da reportagem publicada na revista Época, de Ruan de Sousa Gabriel, “Como será o futuro da cultura no governo Bolsonaro”, na qual produtores e artistas discutem as mudanças no financiamento e no patrocínio, além dos ataques recentes aos artistas e à cultura.

Leia a reportagem da revista Época em:

https://epoca.globo.com/como-sera-futuro-da-cultura-no-governo-bolsonaro-23704548

* Esta semana foi marcada por ótimos lançamentos de discos, destacando-se entre outros, os álbuns de Alice Caymmi (Electra), Vanessa da Mata (Quando deixamos nossos beijos na esquina), Zélia Duncan (Tudo é um) e o trio As Bahias e a Cozinha Mineira (Tarântula). Gostaria de chamar a atenção entre os lançamentos das últimas semanas, o ótimo disco de Douglas Germano, Escumalha. Abaixo deixo o link de um especial da Rádio Batuta, com uma entrevista com o sambista e compositor de “Maria da Vila Matilde”, música consagrada por Elza Soares, no disco A mulher do fim do mundo.

https://radiobatuta.com.br/especiais/douglas-germano/

* Indico a leitura do artigo de Ana Paula Sousa, publicado neste domingo na Folha, no caderno “Ilustríssima”, da Folha, sobre as premiações de filmes brasileiros em Cannes e o percurso do cinema nacional ao longo dos últimos anos: “Os feitos brasileiros em Cannes são a linha de chegada de um percurso que começou a ser trilhado, de forma sistemática, a partir de meados dos anos 1990”

Leia o artigo de Ana Paula Sousa em:

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/05/premios-em-cannes-coroam-caminhos-do-ameacado-cinema-brasileiro.shtml

Indicação de livro de ficção-memória na semana: Os anos felizes (Ricardo Piglia, Editora Todavia, 2019)