Gabriela Mitidieri Theophilo*

Estamos vivos porque estamos en movimiento
Nunca estamos quietos, somos trashumantes
Somos padres, hijos, nietos y bisnietos de inmigrantes

(Movimiento, Jorge Drexler)

Diferentemente do chefe do Executivo e de outros ministros, Ernesto Araújo, representante das relações exteriores do atual governo, consegue articular frases completas, embasar suas ideias em constructos teóricos e prescindir de chocolatinhos, alegorias toscas, confusões gastronômico-literárias. Araújo, até então uma figura de pouco brilho no Itamaraty, chamou a atenção de Eduardo Bolsonaro e de Olavo de Carvalho ao publicar o artigo “Trump e o Ocidente”, na revista Cadernos de política exterior, publicação semestral do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI).[i]

Diferentemente, mais uma vez, do chefe do Executivo, cujas bravatas e sucessivas trapalhadas não se alinham a qualquer modelo teórico, político ou econômico claro (para além de explicitarem uma fantasia autoritária, falocêntrica e focalizada na defesa do próprio lugar – hegemônico – de fala); diferentemente, também, do ministro da economia, Chicago boy Wanna be, representante de um neoliberalismo autoritário e caricato que tem como único objetivo fazer do Brasil uma grande feira livre, acabando com direitos e com a produção de ciência e tecnologia nacional – que deixará, num futuro próximo, um povo pobre, desempregado, pouco escolarizado e desamparado à mercê dos piores tipos de exploração trabalhista, emocional e sexual –, a leitura dos textos e discursos de Araújo nos permite classificá-lo numa matriz teórica nítida: um conservadorismo “clássico”, profundamente anti-iluminista e antimoderno.

Ao contrário de Paulo Guedes, Araújo não é um neoliberal, muito menos um liberal. Segundo o chanceler, o mundo da democracia liberal, especialmente aquele que emergiu no pós-Segunda Guerra, representou o início do fim dos nacionalismos “autênticos” e da grandiosidade do Ocidente. De fato, instituições criadas no pós-Guerra, como ONU e, principalmente, UNESCO, visavam à formulação de acordos para a paz mundial, apoio à diversidade cultural e à soberania dos povos. Como se sabe, a UNESCO promoveu uma série de pesquisas e publicações científicas que tinham como objetivo destacar o que os diversos povos poderiam ter em comum, no lugar da ênfase em suas diferenças. Os estudos promovidos na área de antropologia, por exemplo, abriram espaço para a publicação de um dos mais famosos libelos antirracistas produzidos naquele século: o canônico “Raça e História”, de Lévi-Strauss.  A UNESCO, no imediato pós-Guerra, convocou intelectuais de todo o mundo, inclusive do Terceiro Mundo, para atuarem em pesquisas junto à instituição, para elaborarem análises que promovessem uma “convivência mais harmônica entre raças” ou que pudessem servir como base para a formulação de políticas públicas objetivando a diminuição de desigualdades em países pobres. Essa mesma instituição sugeriu a possibilidade da criação de um “governo mundial”, a partir da construção de instâncias mediadoras de conflitos, instâncias essas que seriam baseadas em valores universais herdados do Iluminismo.[ii] Nesse mesmo período, como se sabe, foi criada a Comunidade Econômica Europeia, que daria origem à atual União Europeia – rechaçada, atualmente, pelas ondas neopopulista, neofascista e conservadora que assolam o referido continente.

De acordo com Araújo, esses valores universais iluministas são abstrações que nada tem a ver com a “essência” e com as culturas próprias das diferentes nações do mundo. O trauma gerado pelas duas Guerras, pelo Holocausto e pela bomba atômica teria deixado o Ocidente com “vergonha de si mesmo”. Ao longo do século, a difusão de valores universalistas (como os direitos humanos), junto à propagação do internacionalismo marxista (“globalismo e marxismo cultural”) teriam feito com que o Ocidente “esquecesse de si mesmo”, de sua história, de seus heróis, do seu cristianismo fundador e do respeito à família como base de suas sociedades.

O artigo escrito para os Cadernos do IPRI é, de fato, esclarecedor dessa visão de mundo do chanceler e do tipo de política que pretende empreender frente ao Ministério.

Segundo Araújo, Donald Trump, ao contrário de ser a figura caricata, instável e inepta exposta pela mídia “liberal e globalista”, seria, hoje, o principal defensor dessa “essência do Ocidente”. Trump teria entendido que o Ocidente precisa redescobrir-se, organizando-se numa comunidade de nações fortes e soberanas. Nações, ainda segundo Araújo (em sua interpretação dos discursos do presidente estadunidense) que respeitariam suas origens, seus grandes homens, sua fé e tradições internas. Assim, ele mobiliza autores como Samuel Huntington, Oswald Spengler e René Guénon para denunciar esse mundo que “matou Deus”, que rejeitou seu passado, que não se guia por valores imanentes, mas, antes, por valores abstratos e que promove um “relativismo cultural” – que não seria mais do que um “absolutismo antiocidente”. Em seus termos:

Trump não fala de “valores universais” ou algo assim, porque em sua visão não existem “valores universais” que se superponham à identidade de cada nação e de cada civilização. Os valores só existem dentro de uma nação, dentro de uma cultura, enraizados em uma nação, e não em uma espécie de éter multilateral abstrato (…) A ideia de nação está assim profundamente ligada à autopercepção de uma comunidade de pessoas que compartilham uma origem comum. A nação não é uma escolha, mas um fato indelével e fundacional na vida do indivíduo como o seu próprio nascimento. Não por acaso o marxismo cultural globalista dos dias atuais promove ao mesmo tempo a diluição do gênero e a diluição do sentimento nacional: querem um mundo de pessoas “de gênero fluido” e cosmopolitas sem pátria, negando o fato biológico do nascimento de cada pessoa em determinado gênero e em determinada comunidade histórica.

A citação poderia ser maior, mas pouparei o leitor. Araújo estacionou no século XIX e na concepção romântica, a-histórica e atemporal de nação. Como se as nações ocidentais tivessem existido desde sempre, formadas por um fluido cultural comum e imanente, como se não tivessem sido construídas e fortalecidas a partir dos colonialismos, dos imperialismos, do racismo, da subjugação da mulher e dos corpos e mentes de povos inteiros nos mais diversos cantos do planeta – projetando, justamente, como consciência universal e desenraizada (abstrata, pra usar palavra cara ao chanceler), a sua própria cosmovisão.

[E como se as nações ocidentais não fossem compostas, desde sempre, de uma enorme diversidade cultural, com intensa circulação de objetos, mercadorias, temperos, ritmos e pessoas das mais diferentes origens – tendo sido essa, inclusive, segundo autores como Claude Lévi-Strauss e Lucien Febvre, a própria razão de sua potência e dinamismo][iii].

Ainda de acordo com o nosso chanceler, desde a Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos teriam sido o único país a tentar defender, com muito custo, essa “essência ocidental”, defesa que adquiriu sua plenitude com a ascensão de Trump. Natural, então (podemos pensar), que o atual governo se posicione de modo tão pateticamente submisso frente ao “irmão do norte”, seu grande modelo moral.

Em seu discurso de posse no Ministério, assim, Araújo conclama os brasileiros a retomarem a posse de si mesmos, projeto que seria o de Bolsonaro, alinhado ao exemplo de Trump:

“O Brasil estava preso fora de si mesmo. E eu arriscaria dizer que a política externa brasileira estava presa fora do Brasil. O presidente Bolsonaro está libertando o Brasil, por meio da verdade. Nós vamos também libertar a política externa brasileira, vamos libertar o Itamaraty, como o presidente Bolsonaro prometeu que faríamos, em seu discurso de vitória”.

Segue o discurso afirmando que o Brasil não foi fundado com base na ganância e exploração do colonizador (“como nos disseram na escola”), mas, sim, como base no amor – e o demonstra com a tradução de Ave Maria em tupi, feita por José de Anchieta.

Declara admiração pela “nova Itália, Hungria e Polônia”, países que “se afirmam, que não se negam”. Ainda segundo Araújo,

“o problema do mundo não é a xenofobia, mas a oikofobia – de oikos, oikía, o lar. Oikofobia é odiar o próprio lar, o próprio povo, repudiar o próprio passado”. Além da oikofobia, o ódio contra o próprio lar, deveria preocupar-nos, também, cada vez mais, a teofobia, o ódio contra Deus. (…) canalizado por todos os códigos de pensamento e de não-pensamento que perfazem a agenda global”.

Restaria, ainda, analisar alguns textos do blog mantido por Araújo, mas isso ficará para um outro momento, pois o estômago de quem vos escreve, a essa altura, encontra-se fragilizado. E, de todo modo, creio já ter esclarecido suficientemente as crenças que animam o novo chanceler do Brasil. Mas meu objetivo nesse texto, no entanto, não é apenas expor a cosmovisão do mencionado ministro, mas, sim, demonstrar o quanto dessa cosmovisão emerge, de modo tosco e sem embasamento teórico, nas piadas e atos falhos racistas, machistas, homofóbicos e xenófobos do presidente, na sua obsessão com o órgão genital masculino, com um Deus único, com um conceito exclusivo e excludente de família, no seu anti-intelectualismo raivoso, no seu amor pelas armas (como símbolo fálico e viril).

“Brasil e Estados Unidos acima de tudo, Deus acima de todos”: esse teria sido o final do último discurso do presidente em território norte-americano, caso ele não tivesse errado o próprio bordão. O processo de recolonização externa do Brasil, portanto, a partir do leilão delirante de Paulo Guedes e do amor de Araújo e do clã Bolsonaro ao “grande defensor da essência do Ocidente”, vem acompanhado, coerentemente, de um processo de colonização interna[iv]. Deve-se colonizar, ou recolonizar, todos aqueles e aquelas cujas vidas e modos de existir não se encaixam nos estreitos conceitos de família, de papeis sociais, de divisão sexual do trabalho, de adesão a uma suposta herança ocidental/europeia dispostos pelos novos membros do governo. Recoloniza-se, assim, o imaginário e os corpos da mulher, do público LGBTI, do negro, do pobre, do imigrante. Não por acaso, o ataque espumante e constante contra professores e contra as instituições federais de ensino, principalmente – que, nos últimos 15 anos, a partir de políticas públicas de expansão e valorização dessas instituições –, promoveram e incentivaram a pluralidade de pensamento e de modos de ser, abrindo as portas para cidadãos das mais diversas cores, culturas e classes sociais.

Não seremos recolonizados. Somos, sim, corpos e mentes fluidos e em movimento. Somos livres – afinal, ideias não se prendem. Termino como comecei, com a linda canção de Jorge Drexler, que resume poeticamente tantos estudos em História Global que temos feito nas últimas décadas: “Apenas nos pusimos en dos pies /
Comenzamos a migrar por la sabana (…) Somos una especie en viaje
No tenemos pertenencias sino equipaje (…) Yo no soy de aquí
Pero tú tampoco (…) Vamos con el polen en el viento
Estamos vivos porque estamos en movimento (…) Lo mismo con las canciones, los pájaros, los alfabetos / Si quieres que algo se muera, déjalo quieto…”

Notas:

[i] Ver: http://funag.gov.br/biblioteca/download/CADERNOS-DO-IPRI-N-6.pdf

[ii] Sobre os projetos da Unesco no pós-Guerra, ver, principalmente, os textos de Chloé Maurel: https://www.cairn.info/revue-les-cahiers-irice-2012-1-page-61.htm ; https://www.cairn.info/revue-histoire-politique-2011-3-page-42.htm ; https://www.cairn.info/revue-histoire-politique-2010-1-page-9.htm ; https://www.cairn.info/revue-gradhiva-2007-1-page-11.htm?contenu=resume . Sobre a atuação da Unesco junto à nascente disciplina ciência social no Brasil, ver os estudos de Marcos Chor Maio: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-69091999000300009&script=sci_abstract&tlng=pt. Nesse ínterim, é importante frisar que os mesmos princípios universais iluministas também atuaram na fundação das nações e nacionalismos europeus e legitimaram a ofensiva colonialista e imperialista do Ocidente sobre o resto do mundo entre os séculos XVIII e XIX. No entanto, o ataque de Ernesto Araújo vai de encontro, mais especificamente, aos valores iluministas ressignificados no pós-Guerra, junto ao fortalecimento das democracias liberais e à mobilização desses fundamentos para a defesa do antirracismo e do anticolonialismo.

[iii] Ver o referido ensaio Raça e História, de Claude Lévi-Strauss (elaborado no interior do projeto antirracistas da UNESCO na década de 1950), e o livro Nous sommes des sang-mêlés: manuel d’histoire de la civilisation française, escrito em 1950 por Lucien Febvre e François Crouzet, também como parte do projeto UNESCO, mas publicado apenas recentemente, quando o manuscrito foi encontrado e editado por Denis e Élisabeth Crouzet, tendo sido publicado pela Albin Michel (2012).

[iv] Para a ideia de “colonização interna” ver, por exemplo, o texto de Sadri Khiari, “The people and the third people”, no livro What is a people? organizado por BADIOU, Alain; BOURDIEU, Pierre; DIDI-HUBERMAN, Georges; KHIARI, Sadri; RANCIÈRE, Jacques. O texto de Khiari também pode ser encontrado em francês no site: http://indigenes-republique.fr/le-peuple-et-le-tiers-peuple/

* Gabriela Mitidieri Theophilo é Doutora em História social pelo PPGHIS-UFRJ, Professora do Departamento de História da UFJF e colabora com a Revista Escuta.

** Crédito da imagem: <https://renovamidia.com.br/chanceler-ernesto-araujo-cria-conta-no-twitter/&gt;. Acesso em: 01 jun. 2019.

 

 

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