Alexandre Mendes*

Escrevo este texto poucos momentos antes de sair de minha casa em direção ao centro da cidade do Rio de Janeiro, para participar da segunda manifestação em defesa da educação pública depois do anúncio do contingenciamento das verbas educacionais pelo governo federal. Espero-a menor que a primeira, em termos quantitativos: alguns indícios já chegam pelo noticiário. As comparações com as manifestações bolsonaristas são, neste aspecto, inevitáveis, apesar da superioridade quantitativa das primeiras. São incapazes, no entanto, de captar o significado político do movimento da educação no contexto em que vivemos.

As empresas midiáticas tentam adstringir seu sentido à reivindicação de recursos para o setor educacional. Assim, imaginam blindar a reforma da previdência de qualquer resistência popular. O governo aproveita o ensejo para atacar os educadores e desviar a atenção das suas próprias incontinências, inoperâncias e da recessão econômica, mesmo com o subserviente aceno ao mercado financeiro em quase todas as ações de governo. Num e noutro caso, tenta-se domar as ruas, como é típico. É evidente em todo caso que o conflito político não está mais contido às instituições e, dificilmente, a elas retornará sem produzir mudanças.

É um erro considerar que as manifestações bolsonaristas são apenas de apoio ao governo: antes de mais, expressam um desejo de subversão da ordem democrática em nome da ordem pura e simples, ou da ordem racista e militarizada que povoa as imaginações reacionárias da base bolsonarista[1]. É outro erro considerar que seu impacto ficará restrito às mudanças institucionais pela via constitucional. Prepara-se o plano B de Bolsonaro, sem trocadilhos: só um otimismo ingênuo poderia supor que o discurso de respeito à constituição e à democracia era o plano A.

As manifestações em defesa da educação pública encarnam, neste momento, o desejo de liberdade contra a tirania, a vida coletiva em detrimento da mercantilização e da solidão, a construção da autonomia intelectual e cidadã capaz de colocar em xeque os messianismos, a democracia contra a barbárie do neoliberalismo autocrático destes dias. Junto ao movimento feminista (lembrem das enormes e potentes manifestações pré-eleitorais do #elenão e o 8M de 2019), os educadores e educandos protagonizam a resistência popular em defesa das transformações para as quais o bolsonarismo representa uma espécie de contrarrevolução antecipada.

Não é mais reversível no Brasil o desmonte dos privilégios de fato que constituíam a contraface das igualdades formais da República de 1988. Os privilégios racistas, patriarcais, heteronormativos e classistas que restavam intactos com o final da ditadura de 64 tiveram seus fundamentos abalados. Ainda que pequena a melhora nas condições de vida da população, ainda que sufocada a liberdade em cada corpo tombado nas periferias pela violência de Estado, os efeitos da democracia, restrita em alcance, frágil em alicerce, mas comparativamente duradoura na história do Brasil, fizeram-se sentir. A violência política do bolsonarismo raiz é sintoma do abalo.

Lula e o Partido dos Trabalhadores foram apeados não tanto pelas pequenas contribuições que fizeram a este cenário, mas por não o ter impedido à contento das elites. Nem todos os acenos e graças aos poderosos puderam poupar o partido e seu líder do troco pela falta de disciplinamento das massas, ainda que o problema não estivesse no que o PT fez, mas no que não conseguiu – e não conseguiria, este é o ponto – fazer. Afinal, para quê serve um partido de esquerda?

O movimento que está nas ruas hoje reafirma o que precisamos ter em mente nos duros momentos que virão: o poder do atual governo está longe de ser inabalável e por isso a violência – simbólica e física – é seu principal recurso. Neste sentido, Bolsonaro é a mais velha das velharias políticas. Nós, no entanto, não somos como nossos pais. Eis porque eles nos temem.

*Alexandre Mendes é professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), doutor em Direito pela PUC-RIO e colaborador da Escuta.

Fotografia de Wellington Valsechi, da TV Globo

Notas

[1] Veja-se, aqui na Escuta, o último texto de Jorge Chaloub: https://revistaescuta.wordpress.com/2019/05/27/alguns-momentos-na-manifestacao-bolsonarista/#more-4715

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