Jorge Chaloub*

A agradável manhã de domingo no Rio de Janeiro sugeria programas muito mais amenos e divertidos, mas, no esforço de tentar compreender algo dessa barafunda onde o país se meteu, resolvi passar pela manifestação bolsonarista na Praia de Copacabana. Se há algo particularmente nebuloso, num cenário de já difícil leitura, é estimar o tamanho do grupo dos bolsonaristas radicais.  Quantos são, onde vivem, como se reproduzem?

Um bom ponto de partida, antes de se chegar a ideias mais refinadas, se apoia na análise dos adesistas de primeira hora, aqueles que já mencionavam espontaneamente o “mito” nas primeiras pesquisas eleitorais. A atual manifestação expõe, entretanto, os que resistiram à enxurrada de acusações, erros e franca estupidez que marcou os primeiros momentos do governo. Se alguns dos primeiros entusiastas, em meio a tantos absurdos, talvez já tenham debandado, temos que compreender a natureza de outras adesões e os motivos dos que perduram ao lado do Governo.

Copacabana tende a ser um local privilegiado das manifestações bolsonaristas. Epicentro do lacerdismo nos idos da década de 1960, onde o ex-governador da Guanabara alcançava quase 70% dos votos, e local de manifestações de apoio ao Golpe de 1964, o bairro tradicionalmente serve de palco à pior direita tupiniquim. O Rio de Janeiro, por sua vez, não apenas é a base eleitoral do atual presidente, e local onde ele obteve grande número de votos, também próximo dos 70% de válidos, como concentra enorme quantidade de militares, base eleitoral forte do bolsonarismo.

A manifestação não se aproximou das massas de 2015 e 2016, ou mesmo das mobilizações da esquerda do último dia 15 de maio. Apesar da dificuldade de se avaliar a dimensão de aglomerações, é inegável que estamos diante de um evento de menor dimensão, mas nem por isso inexpressivo. A principal questão é: quem seriam essas pessoas?

A pergunta é importante, pois os rumos do governo cindiram a heterogênea base do bolsonarismo, em processo de explícito confronto político. As últimas declarações da família presidencial apontam para uma aposta na radicalização em torno de uma pauta quase que exclusivamente moral, na qual o discurso econômico, de corte ultraliberal, perde espaço para uma retórica que ultrapassa os limites do conservadorismo e do neoconservadorismo no sentido da uma identidade francamente reacionária, onde as transformações mais graduais, próximas das tradições liberal e conservadora, dão lugar um visão de mundo afeita à necessidade da ruptura. Pretende-se  romper não apenas com as “corporações”, os “comunistas” ou os “traidores”, mas com os mais relevantes fundamentos da nossa ordem institucional. A família presidencial e parte da base bolsonarista buscam subverter a atual ordem democrática brasileira, preocupados não com seus limites e entraves à uma concepção contemporânea de democracia, mas com seus instrumentos de proteção das minorias e dos desvalidos. Apoiado em uma minoria fortemente mobilizado, o governo estimula uma tomada reacionária do poder pela força de grupos mobilizados.

O movimento se apoia parcialmente em uma constatação: os grupos reacionários e intervencionistas são a base mais longeva e estável do bolsonarismo, aqueles que já estavam ao seu lado quando ele era um deputado do mais baixo escalão, incapaz de amealhar mais que 4 votos na eleição de 2015 à Presidência da Câmara dos Deputados. Se a adesão à retórica ultraliberal de Paulo Guedes tem muito de cálculo político para a sua eleição, fruto do encontro entre um candidato capaz de mobilizar o vago sentimento de insatisfação e agentes do mercado crescentemente críticos à ordem 1988, a adesão ao discurso da ordem, da violência e da família confundem-se com o próprio surgimento de Bolsonaro como ator político. O consenso anti-republicano – cimento da coalização hegemônica entre neoconservadores, reacionários, neoliberais e ultraliberais – não parece resistir aos desafios do Governo.

O bolsonarismo confirma a ideia, que anunciei em outros textos[1], de que o combate à esquerda surgia como face mais evidente de um ataque à ordem republicana de 1988. Os cartazes, faixas e palavras de ordem que vi reforçam esta interpretação, em narrativa onde Congresso, o Supremo Tribunal Federal e os partidos ocupam o lugar, antes exclusivo da esquerda, de inimigos do “povo”. Segundo uma faixa estendida entre os manifestantes, “os partidos políticos no Brasil são facções criminosas”. Já em outra faixa, presente em um dos carros de som, lia-se a seguinte frase: “Bolsonaro foi sequestrado por uma sucuri de 2 cabeças: suprema casa da Mãe Joana e Covil de Ali Babá e seus 594 ladrões”. A solução para o presidente, vítima, segundo mensagem por ele mesmo compartilhada em redes sociais, das “corporações”, podia ser lida em outro carro de som: “Intervenção Já!’. Não há saída dentro das instituições, mas apenas contra elas.

O tom militaresco se mostrava onipresente em minha breve caminhada, presente em roupas com estampas “camufladas”, símbolos do Exército e camisas exigindo uma intervenção militar. Dos carros de som, músicas com ritmo de marcha militar se sucediam a paródias pop sobre o “mito”, cantadas sobre a melodia de uma música comum em algumas torcidas organizadas de futebol ou sobre o hit “baile de favela”. O tom pop e jovem – marca de antigos apoiadores agora em confronto com o governo, como o MBL – parecia, todavia, abafado por um público composto por um grande número de idosos e famílias, com direito a algumas crianças fantasiadas de militantes bolsonaristas, que conviviam com certo predomínio masculino, sobretudo entre os mais jovens. A linguagem religiosa também estava presente, com claro destaque para o catolicismo mais reacionário, evidenciado por símbolos cruzados e camisas com o lema “Deus vult”, bem ao gosto de membros influentes do governo e próximos à família Bolsonaro, como o assessor presidencial Felipe Martins.

Para além do debate sobre a dimensão das manifestações, e da evidência de que elas foram menores dos que as do último dia 15, é assustador para a democracia brasileira a existência de tantos cidadãos dispostos a ir à rua para suprimi-la. Não faltavam, para os que foram à manifestação, evidências sobre o objetivo do evento. Mesmo que a família Bolsonaro continue em seus movimentos absurdos e acabe por não perdurar à frente de um cargo que certamente ultrapassa suas capacidades, é um desafio para os setores democráticos a descoberta das melhores formas de lidar com essa massa refratária à República de 1988 e repleta de referências francamente antidemocráticas.

*Jorge Chaloub é um dos editores da Escuta.

Imagem de Ricardo Moraes, da Reuters, disponível em https://exame.abril.com.br/brasil/multidao-de-ato-pro-governo-segue-a-praca-dos-tres-poderes-em-brasilia/

Notas

[1] Como neste artigo: https://diplomatique.org.br/um-olhar-sobre-a-instavel-hegemonia-da-direita-radical/