Fernando Perlatto*

Em 2018, um número recorde de mulheres, pessoas não brancas e outsiders políticos chegaram ao Congresso. Muitos democratas estabelecidos foram desafiados nas primárias por pessoas que concorriam pela primeira vez”.

Estas são as palavras que abrem o documentário Knock Down the House (Virando a mesa do poder), lançado recentemente pela Netflix. A protagonista é Alexandria Ocasio-Cortez, a ex-garçonete de 29 anos que se tornou um fenômeno da política norte-americana elegendo-se deputada nas eleições congressuais de 2018. O pano de fundo principal é a disputa de Ocasio-Cortez nas primárias do 4º distrito de Nova York do Partido Democrata contra o deputado Joseph Croweley, líder da bancada democrata na Câmara e que há 14 anos não havia sido desafiado nas prévias do partido.

Ainda que Ocasio-Cortez seja a personagem principal, o documentário acompanha a trajetória de três outras mulheres – Paula Jean Swearingen, Cori Bush e Amy Vilela –, que buscam desafiar tradicionais lideranças nas primárias do Partido Democrata na Virgínia Ocidental, no Missouri e em Nevada. Todas elas têm em comum, além de um histórico de dificuldades e de dramas particulares, o fato de serem novatas na política, se contraporem ao mainstream partidário e defenderem uma agenda progressista, a exemplo do combate ao lobby dos planos de saúde. O objetivo de todas elas – assim como de tantas outras mulheres, jovens e imigrantes que participaram das prévias – era o de conquistar o direito de disputar as eleições congressuais de 2018 pelo Partido Democrata. Almejavam adentrar em um Congresso no qual 80% dos políticos eram, naquele momento, pertencentes ao sexo masculino, brancos e milionários.

O documentário, conduzido pela diretora Rachel Lears, é um alento. Traz um sopro de esperança em um momento atravessado por pessimismos de diferentes ordens e faz pensar sobre democracia e política nos dias atuais.

Por um lado, o documentário demonstra as dificuldades enfrentadas por estas quatro mulheres na disputa das primárias do Partido Democrata, tendo que superar obstáculos ligados especialmente à escassez de recursos contra campanhas financiadas por corporações e grandes empresas e à precariedade da organização quando comparada com estruturas já consolidadas, além, é claro, das relações de machismo. Por outro, as cenas selecionadas por Lears mostram, sem sensacionalismos ou clichês exagerados, a disposição e a energia dessas mulheres e de seus apoiadores buscando romper com as estruturas tradicionais e reinventar a política “por baixo”.

É possível criticar o documentário pela ausência de qualquer distanciamento e perspectiva crítica em relação às protagonistas escolhidas. As quatro mulheres são retratadas como se fossem portadoras de todas as virtudes políticas em contraposição aos representantes do mainstream do Partido Democrata, encarados, todos eles, como vilões-brancos-machistas-ricos, insensíveis aos 99%.

Também é possível objetar o maniqueísmo muitas vezes simplista presente nos discursos das candidatas, como se todo o sistema político norte-americano fosse formado por uma corja corrupta, que devesse ser destruída pelos outsiders, representantes do novo, que necessariamente seriam superiores aos membros da “velha política”. Narrativa esta também disseminada por terras brasileiras.

Essas limitações, contudo, não tiram o brilho do filme de Lears e a sua capacidade de provocar uma reflexão profunda sobre os limites, dilemas e possibilidades da democracia no tempo presente.

É impossível assistir ao documentário de Lears e não se se sentir provocado a pensar comparativamente sobre o Brasil. Em primeiro lugar, chama a atenção a importância das primárias como espaços de oxigenação dos partidos políticos. Pode-se criticar o poder decisivo do dinheiro e das estruturas tradicionais nestas disputas – como o próprio documentário acaba por comprovar –, mas não restam dúvidas de que as primárias, com todas as suas limitações, abriram frestas para que lideranças como Ocasio-Cortez e mesmo Obama, em 2008, pudessem se projetar e tensionar as disputas contra as lideranças tradicionais ligadas às máquinas partidárias. No Brasil, os partidos – sobretudo os de esquerda, que deveriam ser mais sensíveis ao tema – ainda têm muito a avançar na realização de primárias, para que estas se convertam, de fato, em espaços verdadeiramente democráticos e abertos não apenas para a disputa entre os candidatos, mas para a ampliação do debate político e para a renovação das agendas.

Vale também a menção nesse sentido às ações realizadas pelo comitê de ação política chamado “Justice Democrats”, um grupo nacional fundado em 2016, que atuou como espaço de mapeamento e de seleção de candidatos outsiders para disputar as prévias do Partido Democrata e as eleições legislativas de 2018. As quatro mulheres retratadas no filme e tantos outros candidatos foram “descobertos” por este comitê, que se converteu em um espaço importante de socialização, treinamento e apoio para os candidatos novatos. No Brasil, iniciativas como estas, sobretudo no campo da esquerda, são residuais, quando não inexistentes. As ações nessa direção nas últimas eleições legislativas não partiram das esquerdas, mas foram mais heterogêneas em termos partidários e acabaram sendo bem-sucedidas, a exemplo daquelas realizadas pelo grupo “RenovaBR”, apoiado, entre outros, pelo apresentador Luciano Huck, que contribuiu para a eleição de dezesseis candidatos, com destaque para nomes como os de Tabata Amaral (PDT) e Marcelo Calero (PPS).

Uma outra questão a se refletir comparativamente é sobre o perfil dos outsiders de lá e dos outsiders daqui. A afirmação é prematura e demandaria uma pesquisa mais aprofundada para saber se ela tem ou não sentido, mas fica a impressão de que nos Estados Unidos a crise política recente – que resultou na eleição de Donald Trump, para o Executivo – favoreceu mais a projeção para o Legislativo de lideranças pertencentes às chamadas “minorias”, defensoras de agendas progressistas, como se comprovou no resultado das eleições congressuais realizadas em 2018, que levou ao Congresso figuras como Ocasio-Cortez, talvez até mesmo como oposição à era Trump. Já no Brasil, o processo foi diferente. Ainda que com exceções importantes, a crise política no país abriu espaço não apenas para a eleição de Bolsonaro para o Executivo, mas para a projeção de deputados e senadores outsiders mais conservadores, do que é prova evidente o ótimo desempenho de um partido como o PSL nas últimas eleições legislativas.

Por fim, vale destacar que um dos aspectos que mais chama a atenção em Knock Down the House se relaciona ao “trabalho de base” realizado pelas candidatas durante as prévias do Partido Democrata. Ainda que esta dimensão da militância política pareça ter se enfraquecido, quando não se esvaído por completo, nas variadas experiências dos partidos de esquerda – diferentemente, por exemplo, do que ocorre com grupos evangélicos, que ampliam cada vez mais a militância nas ruas, nos bairros, nas periferias mediante o contato “face a face” –, dá gosto ver essas quatro mulheres indo de casa em casa, panfletando nas ruas, conversando e tentando convencer na base do diálogo direto homens e mulheres comuns. Se não restam dúvidas de que a militância virtual foi fator fundamental para a projeção de uma liderança como Ocasio-Cortez, o documentário evidencia que, paralelamente às redes sociais, ela e a militância de sua campanha gastaram muita sola de sapato nas ruas, buscando despertar esperanças e convencer as pessoas sobre seus sonhos, projetos e ideias.

Uma lição atual e urgente para as esquerdas em crise.

* Fernando Perlatto é um dos editores da Revista Escuta.

 

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