Darlan Montenegro*

A referência fundamental de Game of Thrones, é o universo imaginário criado por J. R. R. Tolkien. Um mundo de características medievais, em que os homens convivem com seres fantásticos inspirados em mitologias tradicionais, e lutam pelo poder entre si e contra vários desses seres fantásticos. George R. R. Martin declarou diversas vezes que vem daí a inspiração para suas “Crônicas de Gelo e Fogo”. Ainda que não o fizesse, as homenagens a Tolkien permeiam a obra de maneira a não deixar dúvidas. Parece pouquíssimo provável, por exemplo, que seja apenas uma coincidência que o mote “Valar Morghulis” (todos os homens devem morrer), repetido exaustivamente ao longo da série (e imagino que também dos livros), seja composto por duas palavras que integram o universo ficcional de Tolkien (com pequenos acréscimos de Martin ao “morgul” tolkeniano). Para completar a referência, os marcos tanto da obra de Martin quanto de “O Senhor dos Anéis” são os dos grandes damas épicos, os conflitos travados ao longo de anos, décadas, séculos, e decididos através de batalhas de larga escala.

Mas as diferenças entre as duas obras são profundas, sob diversos aspectos. E uma delas  é o abismo que separa os seus fundamentos morais e intelectuais. O universo de Tolkien é construído sobre uma firme base moral e simbólica cristã. Há um Deus (Ilúvatar, o Branco), os seus “anjos” (os Ainur) e o anjo que, por vaidade e ambição, trai seu criador e “cai” (Melkor, ou Morgoth). No mundo (Arda), os Ainur se tornam Valar e ganham o status de “semideuses”. O pano de fundo mitológico, portanto, está centrado numa reconstrução da mitologia cristã (ainda que esteja permeado por lendas nórdicas, que dão “cor” à história mas não lhe dão o seu sentido fundamental). O sentido é a luta do bem contra o mal, concebida a partir da forma como a mitologia cristã organiza essa polarização. Em “O Senhor dos Anéis”, Sauron, servo e herdeiro de Morgoth, ocupa a função do “Demônio”, que antes era desempenhada por seu mestre. É criação sua o Um Anel, que tenta homens, elfos, hobbits e anões, justamente através da vaidade e da ambição, que levaram Melkor a se afastar de Ilúvatar.

GoT, evidentemente, não segue esse caminho. Para começo de conversa, em que pese a evidente devoção de Martin a Tolkien, ele não partilha da construção moral maniqueísta do mestre. Com muito cuidado, Martin deu um jeito de deixar isso claro, numa entrevista, ao declarar que o “preto e branco” moral de Tolkien funcionava em suas obras mas se tornou um clichê. Martin objetiva, portanto, construir personagens e tramas mais complexos. Mas a coisa não para por aí.

Há fortes indicações de que o referencial moral de GoT, para pensar a política e a guerra, é aquele estabelecido por Maquiavel, que bateu de frente com a moral cristã e disse: “olhem para a política como ela é; de outro modo, fracassarão”. É difícil saber se Martin algum dia leu “O Príncipe”, mas a trajetória do protagonista da primeira temporada, Ned Stark, na função de Mão do Rei, parece ter sido construída para exemplificar o núcleo argumentativo do clássico de Maquiavel. Ned se orienta exclusivamente por uma noção estrita de virtude, não constrói alianças, desdenha da correlação de forças. E, talvez a pior de todas as faltas: fala a verdade em todas as ocasiões. O resultado inevitável é sua derrota para Cersei, justamente aquela de cuja boca sai a formulação maquiaveliana que serve como mote para a primeira temporada (e para o primeiro livro): “no jogo dos tronos, ou você vence, ou você morre”.

O destino de Ned (assim como o de Robb, mais tarde) parece ser um recado claro de Martin em defesa de uma ética da luta política que corresponda às regras do jogo e não a idealizações. Ou seja, Martin corrobora Maquiavel (e não importa se ele sabe disso ou não). Na segunda temporada, é novamente Cersei quem nos diz, de forma definitiva, do que trata o jogo. Em resposta à afirmação de Mindinho de que “conhecimento é poder”, ela manda seus guardas segurá-lo e matá-lo, suspendendo a ordem no último momento. E afirma: “poder é poder”. E poder, no caso são as armas.

Maquiavel, no entanto, não reflete sobre as possibilidades do sucesso na política tendo em vista objetivos nefastos. Não é um amoral. Sua tentativa de compreender as regras de funcionamento da luta pelo poder é pensada como uma condição necessária para fazer o “bem” (no caso, a unidade e sobrevivência da Itália). Essa lógica (de forma consciente ou não) também parece permear a narrativa de Martin. É preciso que os virtuosos aprendam as regras da política (e o caso mais exemplar é o de Sansa) e que aqueles que conhecem essas regras se dediquem a objetivos virtuosos (e aqui o exemplo é Tyrion). No início da história, o único personagem que combina as duas características é Varys. E ele é precisamente o fio condutor permanente da defesa martiniana do “republicanismo realista” à Maquiavel.

Jon Snow e Danaerys Targaryen, por outro lado, jamais reuniram, em si, os dois pré-requisitos para assumir a função do “condottiere” martiniano. Snow é pura virtude, mas quase nada de “virtu”, no sentido que Maquiavel dá ao termo. Não tem o desejo nem o talento necessários à luta pelo poder. Danaerys, por outro lado, tem o desejo, tem o talento, mas a virtude sempre lhe escapa. E, quanto mais ela deseja o trono, mais longe ela está das virtudes emancipatórias das quais por vezes se aproxima. O desejo pelo poder, aliás, é sempre retratado como uma característica negativa, na série: Danaerys, Robert, Cersei, Viserys, Stannis, Tywin, Balon Greyjoy… Todos impiedosos e sanguinários em sua busca. Não são esses, de forma alguma, os modelos de Martin, assim como não são os de Maquiavel.

Nesse sentido, um discurso sobre a brutalidade dos poderosos contra os mais fracos atravessa o conjunto da série e ganha ares dramáticos à medida em que se confirma o caminho de Danaerys em direção à tirania. Há uma clara pretensão de crítica universal nesse discurso. Mas a argumentação utilizada por Tyrion para convencer Jon Snow a matar Danaerys, no último episódio da série, sugere muito fortemente uma analogia do poder da “Mãe de Dragões” com o poder americano. A idéia de que uma potência imperial se impõe através da força, mas sob a cobertura de um discurso de liberdade, não pode, nesse momento da história, ser exemplificado por qualquer outro sujeito do mundo real que não os EUA.

Tanto no que há de potencialmente universal nessa reflexão, quanto na crítica específica ao imperialismo norte-americano, me parece, no fim das contas, que Danaerys foi a personagem mais bem amarrada da série. A correria das últimas temporadas fez com que muitas das resoluções parecessem carecer de fundamento (não acho que carecessem, mas precisavam mesmo de mais tempo para ser elaboradas). A exceção é o arco de Danaerys. Esse está telegrafado há muito tempo. A tensão entre a ambição tirânica pela autoridade e a empatia pelos escravizados estava aí desde sempre. E quem não percebeu, quando ela executou os Tarlly única e exclusivamente por se recusarem a aceitá-la como rainha, que ali o rumo dela já estava definido bobeou. E notem que não há loucura. É uma crítica ao despotismo e ponto final.

O fim, com Danaerys morta, Jon Snow distante do trono e Tyrion e Sansa assumindo as funções de governantes virtuosos (alguém aí achou que o rei é mesmo o Bran?), acrescido da reforma republicana do processo de escolha do governante, é o final maquiaveliano perfeito. Para o desespero do fã-clube da incineradora de além-mar.

* Darlan Montenegro é Professor Adjunto de Teoria Política da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, além de colaborador da Escuta.